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Legado do Gnosticismo

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Derivado do grego, gnosticismo é um termo usado para expressar “conhecimento” (gnostikos). 

De modo amplo, é um conjunto de correntes filosófico-religiosas sincréticas que presumem conter o mais elevado conhecimento acerca do mundo espiritual e do homem. No primeiro século os gnósticos se aproximaram da igreja cristã e procuraram influenciá-la, mas os pais da igreja perceberam que, na verdade, aquela infiltração cristianizada nada mais era que uma forma de paganismo, uma vez que esse grupo defendia a existência de um deus superior ao descrito nas escrituras sagradas. Ou seja, eles pretendiam dar nova interpretação às escrituras, especialmente quanto aos os registros pareciam inadequados ao tempo em que viviam e ao conhecimento que detinham.

 

Quem pensa que o gnosticismo foi abolido do cristianismo está desatento aos fatos. As sutilezas gnósticas, combatidas com vigor nos primeiros séculos, hoje florescem em campo evangélico sem serem notadas pela maioria. Em rápidas considerações, vamos destacar neste artigo algumas evidências que nos mostram como isso vem ocorrendo. Para tanto, recorreremos a algumas passagens do livro de Peter Jones, “Ameaça Pagã”, publicado pela Editora Cultura Cristã. 

Segundo Peter Jones, o inimigo real não é o ateísmo humanista antirreligioso, mas uma religião pagã renovada que adota muitos deuses e deusas. O problema, também, não é a falta de espiritualidade, mas o sincretismo ecumênico espiritual. De fato, as manifestações neopentecostais nos mostram que o misticismo, o humanismo, o feminismo e o antropocentrismo invadiram a igreja evangélica de modo sutil, mas efetivo. 

Embora deixando de comentar as diversas manifestações espirituais místicas neopentecostais, é importante observar que há uma influência do gnosticismo na aceitação do experimentalismo extra bíblico. Do mesmo modo que os gnósticos admitiam um conhecimento de Deus que não está descrito nas escrituras sagradas, as igrejas evangélicas influenciadas pelo movimento neopentecostal colocam o conhecimento bíblico de Deus à parte para afirmar que as experiências sobrenaturais provam que não podemos limitar o Senhor ao que dele conhecemos por meio das escrituras sagradas. Segundo essa vertente, Deus é muito mais do que está registrado na bíblia e que as diversas experiências advindas do íntimo relacionamento com o Espírito Santo (neopentecostalismo) são provas incontestáveis disso. 

 Assim, os evangélicos influenciados pelo neopentecostalismo admitem que o Senhor não pode ser apenas o que dele lemos na bíblia. Por isso, aceitam novas revelações, novas práticas, novas experiências e um novo padrão ético, desde que isso venha de modo incontestável, por meio sobrenatural. Afinal, “contra fatos não há argumentos”. 

Com base nesse pensamento a fé transmudou-se. Deixou de ser a aceitação do que a palavra de Deus nos diz para ser uma crença em tudo que se fale em nome de Deus, mesmo que decorrente de interpretações forçadas e desalinhadas com os princípios divinos e com as palavras do próprio fundador do cristianismo, Jesus. Homens, ditos “cheios do Espírito Santo” e de “notável intimidade com Deus”, apresentando algumas evidências de “poder” passam, então, a ter autoridade para dizer o que Jesus não disse e para ensinar práticas que o Mestre não ensinou. 

Curiosamente, essas sementes lançadas no passado pelos gnósticos foram regadas pelos atuais interpretes pós modernos da bíblia que argumentam que Jaweh não é mais do que uma construção intelectual da opressão masculina e que o verdadeiro deus está além das palavras. 

Nessa linha de pensamento pagão, o Deus das Escrituras é trocado pelo espírito divino presente em todas as coisas, pois Deus não está em um livro santo, não está na igreja, na sinagoga, no mosteiro... deus é o universo e nós vivemos dentro dele e não temos ciência disto. À semelhança desse pensamento pagão, hoje presenciamos rituais que valorizam mais o Espírito Santo do que o próprio Jesus. O deus que vive dentro do homem ganha mais força do que aquele que habita no céu e que revela sua vontade por meio das escrituras sagradas. Desse modo, o homem redimensiona o Espírito de Deus e, sob o argumento de que ele habita em nós, sente-se autorizado a falar como se fosse um deus, escrevendo a história e apresentando ensinamentos que nem Deus nem Jesus deixaram à humanidade ou à igreja. 

Do mesmo modo que o gnosticismo promovia um deus independente e superior ao revelado na bíblia, hoje temos o homem evangélico se apropriando das características divinas, sobrepondo-se ao que está escrito na bíblia, distorcendo textos sagrados e afastando alguns outros para que tenhamos uma bíblia adequada à evolução cultural. 

Exemplo disso é o feminismo no meio cristão. É claro que não é fácil falar sobre isso em nosso tempo, pois afirmar que os homens estão cedendo ao legado do movimento gnóstico para dar lugar à liderança feminina nas igrejas é pedir para ser detestado pelo público feminino. Mas, é necessário trazer alguns pontos para a nossa reflexão. As feministas gnósticas da Nova Era acusam o Deus das Escrituras judaico-cristã de ser o arquiteto da sociedade patriarcal e, portanto, o responsável pela opressão feminina. Por essa razão, defendem a substituição desse Deus por um outro mais moderno e coerente com a igualdade entre os sexos. 

Nesse passo, o movimento feminista chegou à igreja reivindicando direitos iguais e encontrou amparo de muitas lideranças evangélicas. Seus argumentos são em defesa de uma reforma interna para adequar os costumes da igreja ao princípio da igualdade entre os sexos. Este movimento, portanto, rejeita parcialmente os preceitos do Deus patriarcal do Velho Testamento em que a mulher era oprimida pela sociedade patriarcal e se apoia em parâmetros culturais contemporâneos para assegurar que esses textos machistas, bem como as palavras do apóstolo Paulo, não sejam aplicáveis ao nosso tempo. 

Logo, para os defensores das reivindicações feministas, o ensino de Paulo a Timóteo (1 Tm 2:11-14), orientando especificamente a participação das mulheres na igreja deve ser entendido apenas como ensino para as mulheres daquele tempo e não para as da nossa geração. Segundo entendem as defensoras da autoridade feminina na igreja, tanto Paulo como o próprio Jesus não teriam condições de propor outra coisa em relação às mulheres naquela cultura machista. Por isso, Jesus não poderia nomear uma apóstola e Paulo não poderia nomear expressamente uma pastora, pois a sociedade daquele tempo não admitia qualquer participação ativa das mulheres nas questões políticas ou religiosas. 

Entretanto, por essa visão, se Jesus ou Paulo tivessem exercido seus ministérios hoje, certamente, apresentariam uma mensagem condizente com o que as mulheres representam em nosso contexto sociocultural moderno. 

Apenas para relembrar, vejamos o que o apóstolo Paulo escreveu a Timóteo: 

“11 A mulher aprenda em silêncio, com toda a submissão. 12 E não permito que a mulher ensine, nem exerça autoridade de homem; esteja, porém, em silêncio. 13 Porque, primeiro, foi formado Adão, depois, Eva. 14 E Adão não foi iludido, mas a mulher, sendo enganada, caiu em transgressão.” (1 Timóteo 2:11-14 RA) 

Não restam dúvidas de que essa passagem é vista pelas feministas cristãs como algo superado, uma vez que hoje temos pastoras, bispas e muitas mulheres liderando homens nas igrejas evangélicas modernas. Para essas mulheres, certamente, a bíblia deve ser admitida parcialmente, eliminando-se textos que pareçam incompatíveis com a evolução sociocultural. 

A dificuldade surge quando percebemos que, ao ajustarmos um texto, teríamos que ceder a todos os outros que nos pareçam incompatíveis com a modernidade. Exemplo disso seria o casamento. Pelo mesmo raciocínio, deveríamos entender que a sociedade mudou. Pretender que o matrimônio seja hoje uma instituição indissolúvel seria desconsiderar que os tempos modernos são outros. Ora, mesmo que Jesus tenha dito com todas as letras que a dissolução do casamento nunca foi a vontade de Deus (Mt 19:8) e que ele mesmo desaprovava absolutamente tal pretensão humana (Mt 5:32; 19:9), teríamos, então, que repensar essa questão agora. 

Não ficamos por aí! A educação de filhos também precisaria se modernizar, pois a disciplina recomendada pela bíblia não está mais adequada ao nosso tempo (Pv 13:24). De igual modo, o que Paulo disse aos romanos quanto às relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo (Rm 1:24-27) estaria ultrapassado. 

Ora, se queremos reconhecer que os gnósticos tinham razão, basta que façamos alguns ajustes ou que desconsideremos umas poucas passagens bíblicas e, então, teremos um manual religioso modernizado e um deus mais amoroso, tolerante, sem fanatismos e capaz de atender com mais precisão aos anseios humanos. Esse, entretanto, é o caminho do humanismo e do antropocentrismo. Neste caso, a bíblia serve somente para escolhermos alguns bons princípios morais e para promovermos encontros religiosos, relações fraternais e associações filantrópicas. 

Sabemos que isso pode parecer uma intransigência, mas, embora sutil, o feminismo pode ser perfeitamente uma das bases do paganismo para a igreja apóstata do terceiro milênio. Isso porque, ao admitirmos os ajustes pretendidos pelo feminismo cristão, teremos que nos calar em relação a todas as outras adequações bíblicas, uma após a outra, para não cairmos na incoerência absoluta. Tais coisas, é claro, somente enfraquecem a autoridade da palavra de Deus e abrem as portas ao pecado que, em seus visíveis resultados, têm aumentando o descrédito na palavra de Deus e nas lideranças evangélicas atuais. 

Ainda, segundo Peter Jones, conquanto nem todas as feministas sejam lésbicas, o feminismo radical conduz ao lesbianismo da mesma maneira que o monismo em geral conduz à androginia e à homossexualidade. O lesbianismo é quase requerido pelo feminismo radical. O modelo heterossexual monogâmico de Deus é totalmente rejeitado. Afinal, a “Nova Era” defende que a Bíblia mascarada como verdade é um exercício de controle social masculino. Por isso, a bíblia precisa ser desconstruída junto com seu mundo binário (bem e mal, certo e errado, macho e fêmea etc). 

Na sequência, referido autor afirma que interpretar a bíblia tornou-se um outro teatro das guerras espirituais. Se não se pode eliminar totalmente a bíblia, pode-se desfigurá-la com interpretações questionáveis e com a eliminação de personagens que incomodam, de modo que ela seja transformada em algo que sirva à falsidade e não à verdade. 

Enfim, parece que aquilo que o gnosticismo não conseguiu levar a efeito no primeiro século, agora encontra caminho livre. Barreiras estão sendo derrubadas para que o paganismo infiltre-se na igreja evangélica. É certo que o gnosticismo tornou-se forte influência na Igreja primitiva levando muitos cristãos da época como Marcião (160 d. C.) e Valentim de Alexandria a ensinar sobre a cosmovisão dualista, onde o deus arcaico pode ser substituído por um moderno que habita em todos os homens. Mas, se o cristianismo dos primeiros séculos resistiu a essa influência, hoje não vemos os evangélicos oferecendo resistência ao que o gnosticismo nos deixou como legado. 

Apenas para recordar, a igreja primitiva, desde seus primeiros anos teve que enfrentar oposição ao ensino genuíno de Cristo. No livro de Atos, presenciamos o legalismo dos judeus procurando impor aos gentios o cumprimento da lei (At 15:1-6). Mais tarde, nos três primeiros séculos os pais da igreja enfrentaram o gnosticismo e suas influências baseadas no saber filosófico de Platão. A tarefa não foi fácil, mas a igreja, enquanto pode, preservou o evangelho diante dos gnósticos que se viam como uma classe privilegiada e mais elevada sobre todas as outras e que acreditavam possuir uma “verdade superior” e um conhecimento mais profundo de Deus. Sim, apesar de tudo isso, o evangelho foi preservado, inclusive durante o longo período das trevas que em seguida sobreveio à igreja. 

Entre essas e outras investidas, a igreja só tem subsistido porque a própria bíblia profeticamente nos assegura que as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja de Cristo (Mt. 16:18). 

Mas, nem por isso devemos estar despreocupados e omissos, achando que estamos no caminho certo e que não precisamos examinar a nossa própria situação. Devemos olhar ao nosso redor e veremos que estamos impregnados pelos frutos de uma semente lançada no passado. 

E o que podemos fazer? Podemos lutar contra o gnosticismo infiltrado na igreja. Podemos defender a preservação do evangelho de Jesus. Podemos renovar as nossas mentes para que não sejam tomadas pela vaidade religiosa. Podemos rejeitar a forma deste século, de modo que pratiquemos os ensinamentos de Jesus e vivamos a boa, agradável e perfeita vontade de Deus. (Rm 12:2). 

Que Deus nos dê forças para resistirmos às forças contrárias ao evangelho. 

Em, 14 de julho de 2014.

Pastor Sólon Pereira

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