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Exploração de gás e petróleo provoca terremotos nos EUA 

Um terremoto de magnitude 5.0 –o primeiro de três ao longo de vários dias em novembro de 2011– arrancou a fachada da casa que Jennifer Lin Cooper, 36, tinha comprado um ano antes.

Os reparos até agora custaram US$ 12 mil e a obrigaram a arranjar um segundo emprego, à noite, para pagar a conta.

Em uma reunião na prefeitura, segundo Cooper, as autoridades estaduais disseram que os abalos, incluindo um de 5.7 que foi o maior já registrado em Oklahoma, foram "um ato da natureza".

Muitos cientistas discordam. Eles dizem que esses terremotos, e milhares de outros antes e depois, foram causados por poços, localizados perto de zonas de falha geológica, usados para enterrar vastas quantidades de água descartada da exploração de petróleo e gás em terras profundas.

"Enquanto for injetada água ao longo da zona de falha, continuará havendo terremotos", disse Arthur F. McGarr, chefe do Projeto de Sismicidade Induzida no Centro de Ciência de Terremotos em Menlo Park, Califórnia.


Mas em um Estado que tem o petróleo e o gás como pilares econômicos, os políticos eleitos demoram para abordar o problema. O Departamento de Sismologia do Estado, com poucos funcionários, deixou de analisar os dados de tremores de magnitude abaixo de 2.5 –apesar de um estudo recente dizer que esses abalos denunciam problemas sísmicos ocultos "que poderiam ser valiosos para se evitar um terremoto mais prejudicial".

Se os cientistas veem os perigos, muitos moradores de Oklahoma temem perturbar uma indústria tão presente na vida cotidiana. Os poços de óleo e gás do Estado produzem lucros para os donos de empresas, mas também royalties para agricultores e donos de casas, além de receitas fiscais para o Estado e as cidades. A indústria provê até 20% dos empregos em Oklahoma.

De 2010 a 2013, a produção de petróleo no Estado cresceu cerca de 66%, e a de gás subiu mais de 15%. A quantidade de água de descarte (também chamada de "produzida"), que se enterra anualmente aumentou 20%, para quase 1,1 bilhão de barris.

No mesmo período, Oklahoma passou de três terremotos de magnitude 3.0 ou mais para 109 –e para 585 em 2014 e 750 ou mais neste ano, se o ritmo atual continuar.

A mecânica dos terremotos provocados pela água descartada é simples: embebida de água, uma camada de rocha se expande e fica mais pesada. Os terremotos podem ocorrer quando a pressão do fluido atinge uma falha, seja por contato direto com a rocha embebida ou indiretamente, da rocha que se expande. Sismólogos documentaram esses abalos em Colorado, Novo México, Arkansas, Kansas e outros lugares desde os anos 1960.

Mas em nenhum lugar eles se aproximaram do número e do âmbito dos terremotos de Oklahoma, que atingiram 20% do Estado. Um motivo, suspeitam os cientistas, é que o principal local de descarte de Oklahoma, um leito de rocha calcária porosa, fica perto de rocha dura, sob alta pressão, que contém as falhas que causam os abalos.

A água produzida, salgada e às vezes tóxica, é um subproduto da extração de petróleo e gás, seja pelo fraturamento hidráulico de depósitos de xisto antes inatingíveis, processo chamado de fracking, ou por poços convencionais. A maior parte é bombeada do solo com o petróleo ou gás, depois devolvida à terra em um chamado poço de descarte, muitas vezes em um local diferente.

Outros Estados, como Arkansas e Kansas, impuseram o fechamento ou a redução de poços próximos a zonas sísmicas ativas.

Os sismólogos federais advertem há um ano sobre o aumento dos riscos de terremotos.

No mês passado, um geofísico sul-africano apresentou a advertência mais específica feita até agora: outro abalo de magnitude 5 ou superior poderá ocorrer até 2016, e uma falha que passa por Stillwater e duas outras cidades poderá gerar um choque de até 5.6.

Uma das maiores companhias estaduais de petróleo e gás, a Continental Resources, vem afirmando nos jornais, na televisão e para os reguladores que a epidemia de terremotos não é causada pelo homem, mas faz parte de um período incomumente ativo de abalos sísmicos em todo o mundo.

Porém, em reuniões públicas e em processos legais, alguns moradores começaram a exigir responsabilização.

Robert G. Gum, advogado de outra empresa, a New Dominion, afirmou em uma audiência que, se os júris considerarem as companhias responsáveis pelos terremotos de Prague, "esses poços se tornarão párias de responsabilidade legal e econômica. Serão fechados".

Cooper, que participa de um processo coletivo, disse: "Se a verdade destrói alguma coisa, é porque ela deveria ser destruída".

Em 18 de abril de 2015

Fonte: Folha de São Paulo