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A Igreja e o "Óleo da Unção"

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"O QUE" OU "QUEM" DEVEMOS UNGIR NA IGREJA?

Após entrar em contato com a moderna literatura evangélica sobre “batalha espiritual” e passar alguns anos praticando a unção de pessoas, de coisas e de lugares, creio que posso expressar minha opinião a esse respeito.

Para o neopentecostalismo, o óleo é um elemento poderoso. Em alguns casos, a oração é considerada ineficaz se não for acompanhada da “unção com óleo”. Os textos que dão suportes a estes pensamentos são fundamentalmente tirados do Velho Testamento, em especial, da Lei de Moisés. Modernamente, ainda que sem amparo bíblico direto, os adeptos do movimento de libertação (exorcismo), utilizam o óleo como elemento imprescindível ao seu trabalho.

Especificamente no que diz respeito a ungir coisas e pessoas, em processos de libertação e proteção contra o acesso de espíritos malignos, ficam as perguntas: Jesus ou os apóstolos fizeram ou ensinaram algo parecido? Eles deixaram algum exemplo desses para seguirmos? O que nos diz a bíblia e, em especial, o Novo Testamento sobre ungir coisas e pessoas?


Antes que eu me detivesse na tarefa de pesquisar, fui convencido pelas experiências particulares de meus amigos neopentecostais de que esse era o procedimento correto a ser seguido. Embora eu não tivesse encontrado fundamentos neotestamentários para ungir coisas e lugares, lembrava-me das palavras de Rebecca Brown que em seus livros e palestras sempre enfatizava a importância do uso do óleo na “batalha espiritual”. Assim, prossegui com essa prática porque eu pensava: se não faz bem, mal também não faz. 

De fato, eu nunca tinha percebido nenhum prejuízo direto decorrente dessa prática moderna. Por isso, quando alguém me pedia para ungir carro, portas e janelas de suas residências, instrumentos musicais etc. eu atendia, sem maiores problemas. E nos seminários que eu participava, as orações de encerramento de algumas palestras levavam-me a untar as mãos antes das ministrações. Assim, procedi por muitos anos. 

Mas, agora, diante da verdade bíblica, a questão que pretendo enfrentar: o óleo faz parte do ritual do Novo Testamento? Qual a utilidade dessa prática? Realmente não faz mal? Esta análise se limitará à unção para fins de consagração, proteção, cura ou outros fins espirituais. Não será objeto deste artigo a unção (azeite ou unguento) para fins medicinais, para hidratação da pele, para o exercício da hospitalidade, para preparação fúnebre ou para outras aplicações cotidianas constantes dos usos e costumes dos tempos bíblicos. 

A unção no Velho Testamento 

Na Lei de Moisés, não temos dúvida de que a prática de ungir os elementos que integravam o culto levítico, era proveniente de orientação do Senhor. Moisés recebeu uma receita específica (elementos e quantidades) para preparar o “óleo sagrado” (azeite de oliveira, mirra, cinamomo, cálamo e cássia). Este era preparado especificamente para se ungir a tenda, a arca da aliança, a mesa dos pães com seus utensílios, o candelabro com seus utensílios, o altar do sacrifício e seus utensílios, o altar do incenso, a bacia e seu suporte, senão vejamos: 

"22 Disse mais o Senhor a Moisés: 23 Tu, pois, toma das mais excelentes especiarias: de mirra fluida quinhentos siclos, de cinamomo odoroso a metade, a saber, duzentos e cinqüenta siclos, e de cálamo aromático duzentos e cinqüenta siclos, 24 e de cássia quinhentos siclos, segundo o siclo do santuário, e de azeite de oliveira um him. 25 Disto farás o óleo sagrado para a unção, o perfume composto segundo a arte do perfumista; este será o óleo sagrado da unção. 26 Com ele ungirás a tenda da congregação, e a arca do Testemunho, 27 e a mesa com todos os seus utensílios, e o candelabro com os seus utensílios, e o altar do incenso, 28 e o altar do holocausto com todos os utensílios, e a bacia com o seu suporte. 29 Assim consagrarás estas coisas, para que sejam santíssimas; tudo o que tocar nelas será santo. 30 Também ungirás Arão e seus filhos e os consagrarás para que me oficiem como sacerdotes. 31 Dirás aos filhos de Israel: Este me será o óleo sagrado da unção nas vossas gerações. 32 Não se ungirá com ele o corpo do homem que não seja sacerdote, nem fareis outro semelhante, da mesma composição; é santo e será santo para vós outros. 33 Qualquer que compuser óleo igual a este ou dele puser sobre um estranho será eliminado do seu povo. " (Êxodo 30:22-33) 

Essas mesmas normas podem ser constatadas em Ex 29:36-37 e Ex 40:1-6, mas o importante a ser observado é que esta unção era aplicável exclusivamente aos objetos do culto levítico e aos sacerdotes que ministravam no tabernáculo. O óleo sagrado, por sua vez, não era “um óleo qualquer”, mas uma composição de elementos específicos e não poderia ser fabricado (imitado) por alguém que não fosse sacerdote e nem aplicado em quem não fosse sacerdote. Aquele que ousasse fabricar óleo igual ao sagrado ou aplica-lo sobre um estranho (não sacerdote) deveria ser eliminado do povo de Deus. 

Vale destacar, também, que a consagração dos sacerdotes não se limitava à unção. O ritual incluía um novilho, dois cordeiros, pães e bolos sem fermento, local específico (à porta da tenda da congregação) e um ritual de purificação (lavagem de pés, vestimentas e adereços específicos), turbante, cinturões, sacrifício dos animais separados e queima da carne, do couro e do excremento do novilho fora do acampamento. Esses e outros detalhes do ritual de consagração dos sacerdotes estão em Êxodo 29. A unção com o óleo sagrado era apenas um elemento do ritual em que Deus ordenou “assim você os consagrará, para que me sirvam como sacerdotes” (Ex. 29:1). Por isso, devemos entender que a consagração de um sacerdote não se satisfazia apenas com a unção, mas exigia um ritual com diversos outros elementos. 

Com a instituição dos reis, observamos que a consagração do governante era distinta. A unção passou a ser utilizada, mas com azeite de oliva puro. Assim foi com Saul e com Davi. Samuel (sacerdote) os ungiu por orientação de Deus, senão vejamos: 

"16 Amanhã a estas horas, te enviarei um homem da terra de Benjamim, o qual ungirás por príncipe sobre o meu povo de Israel, e ele livrará o meu povo das mãos dos filisteus; porque atentei para o meu povo, pois o seu clamor chegou a mim. 17 Quando Samuel viu a Saul, o Senhor lhe disse: Eis o homem de quem eu já te falara. Este dominará sobre o meu povo." (1 Samuel 9:16-17)

 "1 Tomou Samuel um vaso de azeite, e lho derramou sobre a cabeça, e o beijou, e disse: Não te ungiu, porventura, o Senhor por príncipe sobre a sua herança, o povo de Israel?" (1 Samuel 10:1) 

"1 Disse o Senhor a Samuel: Até quando terás pena de Saul, havendo-o eu rejeitado, para que não reine sobre Israel? Enche um chifre de azeite e vem; enviar-te-ei a Jessé, o belemita; porque, dentre os seus filhos, me provi de um rei." [...] 13 Tomou Samuel o chifre do azeite e o ungiu no meio de seus irmãos; e, daquele dia em diante, o Espírito do Senhor se apossou de Davi. Então, Samuel se levantou e foi para Ramá." (1 Samuel 16:1 e 13) 

Como se pode notar, desde o primeiro momento em que se iniciou a prática de unção de reis, não havia ritual específico e o elemento utilizado não era o óleo sagrado de Êxodo 30:22-33. Os reis eram ungidos com o puro azeite. Logo, há uma importante diferença inicial a ser observada. O óleo para unção de utensílios do tabernáculo e dos sacerdotes tinha uma exigência específica, uma composição especial que nem mesmo poderia ser imitada ou utilizada em quem não fosse sacerdote, enquanto a unção de reis podia ser procedida com qualquer azeite puro. 

 Outra curiosidade é que a unção de reis que a bíblia descreve inclui o derramamento do azeite em grande proporção (vaso e chifre de azeite). Não se tratava de um simples toque de mãos untadas em azeite, mas de um despejar de azeite sobre a cabeça. Assim, também, era a prática para a unção dos sacerdotes, senão vejamos: 

"10 O sumo sacerdote entre seus irmãos, sobre cuja cabeça foi derramado o óleo da unção, e que for consagrado para vestir as vestes sagradas, não desgrenhará os cabelos, nem rasgará as suas vestes." (Levítico 21:10) 

O próprio rei Davi, relata como a unção de um sacerdote escorre por sua barba e vestes: 

"1 Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos! 2 É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes." (Salmos 133:1-2) 

Mas, a unção de pessoas, no sentido de separação para um mister especial, não se limita a sacerdotes e reis. Inclui os profetas, senão vejamos: 

"13 Ouvindo-o Elias, envolveu o rosto no seu manto e, saindo, pôs-se à entrada da caverna. Eis que lhe veio uma voz e lhe disse: Que fazes aqui, Elias? [...] 15 Disse-lhe o Senhor: Vai, volta ao teu caminho para o deserto de Damasco e, em chegando lá, unge a Hazael rei sobre a Síria. 16 A Jeú, filho de Ninsi, ungirás rei sobre Israel e também Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, ungirás profeta em teu lugar." (1 Reis 19:13-16) 

A unção no Novo Testamento 

Jesus e a autoridade sobre doenças e espíritos malignos 

No Evangelho de Marcos está a informação que serve de fundamento para as unções que presenciamos hoje na igreja moderna. Vejamos o texto:

"7 Chamou Jesus os doze e passou a enviá-los de dois a dois, dando-lhes autoridade sobre os espíritos imundos. 8 Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, exceto um bordão; nem pão, nem alforje, nem dinheiro; 9 que fossem calçados de sandálias e não usassem duas túnicas. 10 E recomendou-lhes: Quando entrardes nalguma casa, permanecei aí até vos retirardes do lugar. 11 Se nalgum lugar não vos receberem nem vos ouvirem, ao sairdes dali, sacudi o pó dos pés, em testemunho contra eles. 12 Então, saindo eles, pregavam ao povo que se arrependesse; 13 expeliam muitos demônios e curavam numerosos enfermos, ungindo-os com óleo [os enfermos]. " (Marcos 6:7-13 RA)

A primeira coisa que devemos notar é que, na parte instrutiva da passagem, Jesus lhes deu-lhes autoridade sobre espíritos malignos e ordenou que nada levassem, exceto o bordão. O Mestre não faz nenhuma referência ao óleo e nem mesmo associa a autoridade sobre demônios a esse elemento de unção. 

Apenas na parte descritiva da passagem surge a informação de que os discípulos ungiam pessoas enfermas e estas eram curadas. A versão NVI facilita a compreensão do verso 13, deixando claro que a unção com óleo somente se refere aos enfermos e não aos endemoninhados, senão vejamos: 

“Expulsavam muitos demônios e ungiam muitos doentes com óleo, e os curavam” (NVI) 

Neste caso, desde logo, podemos assegurar que a unção com óleo não está relacionada à expulsão de demônios, mas apenas à aplicação no caso dos enfermos. Entretanto, mesmo quanto à questão dos enfermos é bom lembrar que Jesus não ordenou tal coisa. 

Seja como for, o importante a ser ressaltado é que Jesus não lhes deu nenhuma instrução que ligasse a libertação ou a cura à unção com óleo. Eles nem mesmo tinham este exemplo em Jesus, uma vez que o Mestre nunca utilizou o óleo em nenhuma de suas libertações ou curas – nem antes, nem durante, nem depois. 

O evangelho de Lucas vem reforçar este entendimento. Quando Lucas relata o envio dos setenta discípulos para uma missão, as instruções de Jesus são repetidas e o propósito da missão inclui a cura de enfermos e a pregação do evangelho, mas nada fala sobre unção com óleo: 

"1 Depois disto, o Senhor designou outros setenta; e os enviou de dois em dois, para que o precedessem em cada cidade e lugar aonde ele estava para ir. 2 E lhes fez a seguinte advertência: A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara. 3 Ide! Eis que eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4 Não leveis bolsa, nem alforje, nem sandálias; e a ninguém saudeis pelo caminho. [...] 9 Curai os enfermos que nela houver e anunciai-lhes: A vós outros está próximo o reino de Deus." (Lucas 10:1-4; 9) 

Em seguida, Lucas apresenta a parte descritiva da missão, ou seja, o relato do que aconteceu na viagem. Eles estavam felizes porque puderam exercer autoridade sobre espíritos malignos, mas nenhuma informação há que relacione a libertação dos oprimidos ao óleo. Em vez disso, eles atestam que a submissão dos demônios ocorria pela autoridade do nome de Jesus. 

"17 Então, regressaram os setenta, possuídos de alegria, dizendo: Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome! 18 Mas ele lhes disse: Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago. 19 Eis aí vos dei autoridade para pisardes serpentes e escorpiões e sobre todo o poder do inimigo, e nada, absolutamente, vos causará dano. 20 Não obstante, alegrai-vos, não porque os espíritos se vos submetem, e sim porque o vosso nome está arrolado nos céus. " (Lucas 10:17-20) 

Sim, além de não haver nenhum exemplo ou instrução de Jesus acerca de unção com óleo para a cura ou libertação de pessoas, há o reconhecimento de que a autoridade está no nome de Jesus isso sempre foi suficiente, dispensando instrução especial de Jesus para reforçar a autoridade e poder dos discípulos. 

Quem afirma que precisa do auxílio do óleo para promover a libertação de pessoas endemoninhadas deve admitir que não confia plenamente na autoridade do nome de Jesus ou que não está suficientemente preparado com oração e jejum para exercê-la. 

Em todos os evangelhos, o único reforço para se exercer autoridade sobre qualquer tipo de entidades malignas é o jejum e a oração, conforme o próprio Jesus nos indicou na seguinte passagem: 

"17 E um, dentre a multidão, respondeu: Mestre, trouxe-te o meu filho, possesso de um espírito mudo; 18 e este, onde quer que o apanha, lança-o por terra, e ele espuma, rilha os dentes e vai definhando. Roguei a teus discípulos que o expelissem, e eles não puderam. [...] 25 Vendo Jesus que a multidão concorria, repreendeu o espírito imundo, dizendo-lhe: Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: Sai deste jovem e nunca mais tornes a ele. 26 E ele, clamando e agitando-o muito, saiu, deixando-o como se estivesse morto, a ponto de muitos dizerem: Morreu. 27 Mas Jesus, tomando-o pela mão, o ergueu, e ele se levantou. 28 Quando entrou em casa, os seus discípulos lhe perguntaram em particular: Por que não pudemos nós expulsá-lo? 29 Respondeu-lhes: Esta casta não pode sair senão por meio de oração [e jejum]. " (Marcos 9:17-29) 

A mesma passagem citada por Mateus inclui a fé, mas nada fala sobre óleo como auxílio ao processo de libertação: 

"19 Então, os discípulos, aproximando-se de Jesus, perguntaram em particular: Por que motivo não pudemos nós expulsá-lo? 20 E ele lhes respondeu: Por causa da pequenez da vossa fé. Pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível. 21 [Mas esta casta não se expele senão por meio de oração e jejum.] " (Mateus 17:19-21) 

Enfim, pela simples leitura dos evangelhos de Marcos e Lucas podemos eliminar a relação entre unção com óleo e processos de libertação de pessoas. A única possibilidade que nos resta, mesmo que não ordenada ou confirmada por Jesus, é a unção de enfermos, conforme veremos a seguir. 

A orientação de Tiago para uso de óleo em enfermos 

Se em primeira análise neotestamentária afastamos a ligação entre óleo e expulsão de demônios, restou-nos a relação entre óleo e unção de enfermos. 

Sobre essa questão específica, a Carta de Tiago nos traz a única passagem do Novo Testamento em que há uma instrução sobre a aplicação de óleo em enfermos. 

"14 Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. 15 E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados. 16 Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo." (Tiago 5:14-16)

 Primeiramente, é importante notar que o contexto desse versículo nos traz um ensino sobre o poder e a importância da oração, enquanto o óleo é apenas um “detalhe” acrescentado ao texto. Observem que é a oração que salvará o doente. Ou seja, o resultado virá da oração e não da unção. 

Exatamente por ser o óleo um elemento adicional é que surgem dúvidas quanto à sua exigência na prática neotestamentária. Há quem defenda que sua aplicação era simplesmente medicinal, segundo os costumes da época. Neste caso, seria como tomar um remédio e orar para que seus efeitos sejam alcançados. 

Prefiro crer que haja um sentido espiritual na indicação de Tiago, uma vez que ele sugere que isso seja feito pelos presbíteros da igreja, que não eram médicos. Também, não há no texto indicação de modos de aplicação a determinadas enfermidades. O fato é que o óleo era utilizado em alguns casos como remédio, mas não para qualquer tipo de enfermidade. Como Tiago não define o tipo de doenças, significa dizer que se tratava de um elemento de fé a ser adicionado ao ato da oração. 

Por isso mesmo, é possível assegurar que essa unção era para o doente e não para a doença. Logo, se é um elemento espiritual e não um remédio, não faz sentido ungir a barriga da pessoa que se queixa de problema no estômago. Também, não é necessário colocar a mão em nenhuma outra parte do corpo do enfermo, sob pretexto de realizar a unção no local da enfermidade. Não é necessário nem mesmo pedir para uma mulher colocar a mão com óleo em partes íntimas de outra mulher enquanto se faz a oração. Permitir tais práticas é consentir com abusos e inconveniências. É lamentável observar tais coisas no meio da igreja. 

Além disso, dar ao óleo um poder sobrenatural por si mesmo conduz à idolatria, à superstição e ao misticismo que deve ser combatido por qualquer discípulo de Jesus. A cura se dá pelo poder da oração e pela obediência aos preceitos bíblicos e não pelo azeite

Para não sermos levados por invencionices do evangelicalismo moderno, devemos refutar práticas não amparadas pela bíblia. Se pensamos que tais inserções não fazem mal é porque não percebemos que heresias são infiltradas sorrateiramente para abrir portas para o misticismo, para o comércio de óleos trazidos de Israel, para inconveniências e para nos fazer aceitar passivamente todas as práticas antibíblicas atualmente introduzidas nas igrejas. Logo, fazem mal, sim! 

O óleo não carrega nenhuma magia e nenhum poder em si mesmo, de modo que se queremos utilizá-lo especificamente nos limites seguros da bíblia, podemos dispensá-lo, sem medo, de todo o processo de libertação ou de unções a grupos de pessoas reunidas em cultos ou seminários e restringi-lo a aplicações particulares e reservadas, ocasião em que chamamos os Presbíteros da igreja para orarem por nós, quando estivermos enfermos. 

Portanto, ungir enfermos em suas casas e em hospitais, este sim é um ato de obediência a Deus. Se cremos no poder e na eficácia da palavra de Deus, podemos abandonar os excessos e as crendices. 

Unção para consagração de pessoas ao ministério 

Até aqui já podemos notar algo interessante. Nenhum dos usos do óleo no Velho Testamento (ordenação sacerdotal, consagração de objetos e locais) são recomendados no Novo Testamento e o único uso consentido no Novo Testamento não foi recomendado pelo Velho Testamento. 

Enquanto no Velho Testamento pessoas eram “separadas” por unção, no Novo Testamento são pela imposição das mãos das autoridades eclesiásticas constituídas por Deus, senão vejamos: 

"4 e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra. 5 O parecer agradou a toda a comunidade; e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. 6 Apresentaram-nos perante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos. 7 Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé. 8 Estêvão, cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo." (Atos 6:4-8)

"12 Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza. 13 Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino. 14 Não te faças negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a imposição das mãos do presbitério. 15 Medita estas coisas e nelas sê diligente, para que o teu progresso a todos seja manifesto." (1 Timóteo 4:12-15) 

Uma vez que não há qualquer suporte no Novo Testamento para ungir literalmente pessoas para o exercício de um ministério, seguir com essa prática revela o quanto se deseja trazer o Velho Testamento para os rituais da igreja. Para quem deseja livrar-se desse tipo de inclinação, sem medo ou culpa, recomendo a leitura do livro “Dízimos e Ofertas: pretextos dos impiedosos”. 

Apenas para relembrar, a consagração sacerdotal exigia um ritual específico, que incluía a unção dos sacerdotes, a qual só podia ser feita com o unguento preparado especificamente para isso, cuja fórmula está em Êxodo 30:22-33. Ademais, o óleo sagrado só podia ser aplicado em objetos do culto levítico e sobre sacerdotes que ministravam no tabernáculo. 

Por isso, se alguém quer usar a consagração de sacerdotes e dos utensílios do tabernáculo como fundamento para a moderna consagração de coisas e de ministros do evangelho, deve se lembra que isso é impossível. Não só porque inclui ritual específico, com sacrifício de animais, estola sacerdotal etc., mas porque a reprodução do óleo sagrado é proibida pela própria Lei que instituiu a unção como elemento integrante desse ritual.

De outro modo, ainda que se tratasse de uma possibilidade aplicável à igreja (não é), os adeptos das práticas do Velho Testamento, que se firmam nos exemplos da unção dos reis e dos profetas, deveriam ser fiéis ao procedimento verotestamentário e derramar azeite na cabeça dos seus pastores, bispos, apóstolos etc. e não apenas passar um dedo de óleo em suas testas. 

Entretanto, infelizmente, qualquer que seja o tipo de unção escolhida, nenhuma delas estará amparada por Jesus e nem pelos apóstolos. 

Para quem prefere afirmar que a unção praticada hoje nas igrejas tem apenas um sentido simbólico, é bom lembrar que o próprio Jesus, citado profeticamente como ungido do Senhor para apregoar boas novas não foi literalmente ungido em nenhuma passagem do Novo Testamento. Entretanto, Jesus assumiu pessoalmente a profecia sem que alguém tivesse derramado uma gota de óleo sobre a sua cabeça com esse propósito. 

Jesus, Rei Ungido de Deus, Sumo Sacerdote e Profeta, assume que o revestimento do Espírito Santo que estava sobre ele era a marca profética de sua unção, dispensando, portanto, o ritual físico de unção tanto do sacerdote como do Rei ou do profeta. 

"17 Então, lhe deram o livro do profeta Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito [Is 61:1-3]: 18 O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, 19 e apregoar o ano aceitável do Senhor. 20 Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos na sinagoga tinham os olhos fitos nele. 21 Então, passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir." (Lucas 4:17-21)

Portanto, se queremos a unção, no sentido espiritual para o exercício de um chamado, somente precisamos do enchimento do Espírito Santo e da imposição de mãos de homens realmente separados por Deus para o Ministério. 

Mas, devemos lembrar que não há consagração humana que mude a situação de uma vida não consagrada. 

Unção de coisas, objetos, casas templos etc. 

Mais uma vez devo reafirmar. Somente os objetos do tabernáculo e do templo precisavam ser ungidos com um óleo especificamente fabricado para esse fim. O ritual não podia ser realizado com o puro azeite e nem com um outro óleo qualquer. Também, esse óleo preparado não podia ser utilizado em nenhum outro objeto que não pertencesse ao culto levítico de Jerusalém. 

Logo, temos três bons motivos para não ungir objetos pessoais, nossas casas, templos ou coisa parecida: 

1) não estamos mais sob a lei cerimonial do Velho Testamento, que foi consumada em Jesus Cristo. Seguir rituais da Lei implica desconsideração da obra de Jesus na cruz; 

2) nossas igrejas não são templos levíticos e não dispõem dos mesmos utensílios. Nossos cultos em nada se parecem com o ritual da lei; 

3) se queremos consagrar um objeto inanimado, podemos fazer isso pela nossa disposição em separá-lo para um uso especial, sem necessidade de passar óleo nele, pois isso nunca foi recomendado por qualquer passagem bíblica dirigida à igreja de Jesus. 

Também, não é razoável ungir fechaduras, portas, janelas e ambientes para evitar que os demônios entrem na sua casa. Embora tais ensinamentos venham de pessoas sinceras e dedicadas a Deus, não procedem da bíblia, mas de revelações particulares. 

Exemplo disso é a indicação de Rebecca Brown em seu livro “Prepare-se para a Guerra (Editora Danprewan, 1998, p. 68-70): 

1. Unja sua casa. O Senhor ensinou-me este princípio logo no início do nosso ministério. Elaine e eu suportamos, por meses, opressão interminável tanto de demônios como de espíritos humanos em projeção astral. De noite, tão logo adormecíamos, éramos arrancadas da cama e atiradas ao chão por espíritos invisíveis. Objetos apareciam e desapareciam de minha casa. Móveis e outros objetos eram arremessados no ar por forças invisíveis, e assim por diante. Exausta, uma noite eu clamei ao Senhor em desespero. ‘Pai por favor, o que podemos fazer? Parece que a minha casa está escancarada para qualquer espírito maligno que queira entrar. Tu sabes como estes espíritos estão nos incomodando. Eu não posso suportar mais isto!’ 

 Neste ponto o Espírito Santo encheu a minha mente com a narrativa do cordeiro pascal em Êxodo, capítulo 12. Então ele disse: ‘Desde a morte de Jesus, não há mais sacrifícios de sangue. Então, o que você diria que é o equivalente do sangue hoje?’ ‘O óleo?’ Eu perguntei. ‘Está correto’. Então o Senhor também recordou-me do trecho em Êxodo capítulo 40, onde ele havia instruído Moisés a usar o óleo da unção: [...] Enquanto eu meditava nestas palavras, o Senhor mostrou-me que eu deveria pegar óleo ungir a minha casa, e santifica-la a Ele. Assim, eu peguei o óleo que tinha à mão (óleo de cozinha) e coloquei um pouco sobre as molduras de todas as portas, sobre as próprias portas, e m cada janela, na lareira, e em todas as outras aberturas que davam acesso à casa. Tendo feito isso, pedi ao Senhor para fazer meu lar santo a Ele, e para selá-lo com um escudo do seu precioso sangue. Então, deixando as portas abertas, voltei para dentro de casa, fiquei parada de pé no meio, e pedi ao Senhor para limpá-la e pôr para fora todos os espíritos humanos. Então ordenei a todos os espíritos demoníacos, no nome de Jesus Cristo, que deixassem a minha casa para sempre. A mudança foi imediata e dramática. Minha casa foi selada e nenhum espírito humano ou demoníaco podia entrar deste momento em diante. [...] 

 Algumas vezes as pessoas me perguntam que tipo de óleo nós usamos. Lembre-se, o óleo é somente um símbolo. Não nada mágico no óleo em si. Óleo é óleo. Eu já usei óleo de motor em uma ocasião em que não havia nada mais disponível. O uso do óleo é um sinal de obediência e o óleo mesmo é apenas um símbolo. A limpeza e o selo são feitos pelo poder de Jesus Cristo através de sua obra terminada na cruz do Calvário. (os grifos não constam do original) 

Não há que se questionar as experiências pessoais de Rebecca Brown, mas o fato é que o seu próprio relato nos mostra que sua doutrina de proteção procede de uma revelação particular e não da bíblia. Ela apenas buscou um texto que pudesse dar suporte à revelação particular que teve. E quando ela fala que o uso do óleo é um sinal de obediência, está se referindo, na verdade, à obediência à sua própria experiência e não à Palavra do Senhor propriamente dita. É importante afirmar que obedecer a Deus significa obedecer à sua santa Palavra e não obedecer a revelações particulares, que são fontes de heresias que distorcem as escrituras sagradas e criam doutrinas sem fim, as quais afastam os homens da vontade de Deus. 

Hoje, lamentavelmente, temos inúmeras igrejas que apresentam tal procedimento como uma doutrina bíblica, sendo que não há nenhuma indicação bíblica para que alguém faça isso. Nem o Velho Testamento nem o Novo apoiam a revelação particular de Rebecca. Primeiramente, porque em nenhum lugar das escrituras sagradas há indicação de que o símbolo do sangue tenha sido substituído pelo óleo. Ademais, o sangue do cordeiro passado nas portas das casas dos hebreus, na passagem pascal (Êxodo 12), era para guarda-los da mortandade providenciada pelo próprio Deus (por meio de seu anjo) nas casas dos egípcios. Ou seja, não se tratava de investida de demônios sobre o povo de Deus, ao contrário, era um juízo de Deus sobre os Egípcios: 

“7 Tomarão do sangue e o porão em ambas as ombreiras e na verga da porta, nas casas em que o comerem; [...] 12 Porque, naquela noite, passarei [Deus] pela terra do Egito e ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, desde os homens até aos animais; executarei juízo sobre todos os deuses do Egito. Eu sou o SENHOR. 13 O sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; quando eu vir o sangue, passarei por vós, e não haverá entre vós praga destruidora, quando eu ferir a terra do Egito.” (Êxodo 12:7-13 RA) 

Em segundo lugar, como já vimos, a unção para consagração de objetos do templo não podia ser feita com qualquer óleo. Revelações particulares desse tipo, infelizmente, têm levado inúmeras pessoas ao misticismo e ao paganismo.Portanto, se há alguma coisa a ser ungida (pelo Espírito Santo) ou consagrada, esta é você, discípulo de Jesus. Quem quer estar protegidos contra ataques malignos, deve manter a santidade, a devoção a Deus e tapar as brechas do pecado em sua vida. Dentro de casa, a santificação é o que impede a ação do Diabo. Por isso, basta eliminar a idolatria e os pontos de contato com o reino de Satanás - onde há luz, não há trevas. Também, não é possível associar a unção dos objetos sagrados à proteção dos mesmos contra ataques malignos - não há respaldo bíblico para isso. Por último, é importante lembrar que a unção de objetos do Tabernáculo, utilizados exclusivamente para o culto levítico em Jerusalém, nada tem a ver com a consagração de objetos pessoais. 

Conclusão 

Vimos que o Novo Testamento não dá suporte para unção de objetos e a unção de pessoas é exclusivamente relacionada à oração pelos enfermos, de modo pessoal e reservado, por presbíteros da igreja. Não há qualquer ensinamento bíblico que fundamente o uso de óleo em cultos, seminários ou procedimentos de libertação. Tampouco, há necessidade de despejar óleo sobre os chamados por Deus para um ministério qualquer. 

Especificamente no que diz respeito à libertação de pessoas endemoninhadas e à proteção contra o acesso de espíritos malignos, restou demonstrado que nem Jesus e nem os apóstolos fizeram ou ensinaram coisa parecida. Também, não há qualquer exemplo bíblico dessa prática para que possamos adotá-la. 

Precisamos ter cuidado para não embarcarmos “na onda” dos falsos mestres, que criam doutrinas com revelações particulares, deturpam o evangelho, tentam fazer do cristão um judeu e querem implementar práticas verotestamentárias ao culto e às doutrinas cristãs, do mesmo modo que faziam os judaizantes na igreja do primeiro século. 

Também, devemos estar atentos aos propagadores do anti-Evangelho. Para esses, o óleo é uma substância mágica, cheia de poderes, que pode mudar a vida da pessoa que for ungida. Assim, o homem sincero, mas que ignora o conteúdo bíblico pode ser conduzido ao paganismo, passando a praticar um tipo de “macumba gospel”. 

A maior prova que temos do mal que fazem as heresias criadas a partir de experiências particulares, algumas até sobrenaturais, é o fato de que as pessoas se tornam arredias à Palavra de Deus, ou seja, desprezam e debocham dos estudos sérios da palavra de Deus e preferem confiar nas experiências místicas que começam a produzir. Essas pessoas são capazes de chamar de perturbadores aqueles que querem mostrar-lhes o que diz a palavra de Deus. Se as escrituras sagradas não apoiam suas práticas e experiências, acham que isso é normal e aceitável diante de Deus, pois pensam que os resultados que produzem é que revelam a verdade e não o contrário

Se perdemos o parâmetro bíblico e se nos esquecemos que somos discípulos de Cristo, corremos o risco de sermos conduzidos a um sincretismo religioso altamente destrutivo, porque este elimina a essência do evangelho de Jesus Cristo, nosso Senhor. Voltemos, pois, à obediência à Palavra de Deus, servindo-o com sinceridade e praticando o evangelho puro e simples. 

Portanto, Deus é Deus, com ou sem azeite. E heresia faz mal, sim! É como o fermento colocado nas três porções de farinha – leveda toda a massa (Mt 13:33) 

Por: Pastor Sólon Lopes Pereira 

Em, 9 de novembro de 2014.

 

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