Legenda da imagem

A Tradição do Casamento

­­

­

Imagem Ilustrativa

Vamos pensar? 

Nossa memória está impregnada pela cerimônia religiosa que envolve o casamento de tal modo que temos dificuldade para separar a instituição de Deus da tradição criada pelos homens.

Leia este estudo apenas se você tem a bíblia como única regra de fé, pois será necessário afastar, por alguns momentos, seus conceitos e preconceitos para fazer uma avaliação adequada das considerações expostas neste texto.

Afinal, se nós cremos no Deus Jeová porque a bíblia nos diz que ele é o único Deus, ao qual devemos seguir, por que não aceitar que a própria bíblia nos dê as informações sobre as demais coisas que sustentam a nossa fé? Esse raciocínio inicial é importantíssimo, pois quando aceitamos crer em algo ou em algum ensinamento que não está escrito na bíblia, abrimos o caminho para a aceitação de qualquer outra coisa ou doutrina que também não esteja nela escrita. Neste caso, ao passo que admitimos o que não está escrito, reduzimos o valor do que está escrito e tudo passa a ser aceitável e questionável ao mesmo tempo.

Instituição original do casamento

Sem qualquer ministro, ritual ou procedimento, Deus instituiu o casamento de modo bem simples e objetivo, conforme se vê a seguir: 

24 Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne. (Gn 2:24 RA) 

Desse primeiro texto, depreendemos que, a partir do momento em que um homem e uma mulher, de comum acordo, saem da casa de seus pais com o desejo de constituírem uma unidade familiar, o ato sexual consuma o casamento. 

Para evitar precipitações daqueles que adotaram o mundanismo como padrão de relacionamento, é bom esclarecer que a simples relação sexual entre um homem e uma mulher não estabelece o casamento. Antes da prática sexual, é preciso que haja uma saída pacífica e consentida da casa dos pais com o propósito específico de constituir e assumir a responsabilidade de uma família em lar próprio e para toda a vida. Se a relação sexual entre um homem e uma mulher solteira e virgem for antecipada, cria-se, neste caso, segundo os padrões bíblicos, a obrigação do casamento e do dote, sem qualquer outro ritual, senão vejamos: 

“28 Se um homem achar moça virgem, que não está desposada, e a pegar, e se deitar com ela, e forem apanhados, 29 então, o homem que se deitou com ela dará ao pai da moça cinqüenta siclos de prata; e, uma vez que a humilhou, lhe será por mulher; não poderá mandá-la embora durante a sua vida.” (Dt 22:28-29 RA) 

Desde os primeiros registros, portanto, Deus não abre possibilidades para que a relação sexual seja uma prática descomprometida, casual, ainda que frequente e visando ao atendimento de necessidades fisiológicas, financeiras ou religiosas, no caso da prostituição por dinheiro ou para atender rituais pagãos (prostitutas cultuais). 

A primeira prova de que, mesmo após o gênesis, Deus não exigia outros rituais para a formação de uma família pelo casamento está no exemplo de Isaque e Rebeca. Os detalhes constam do texto de Gênesis, capítulo 24 e 49; e Rm 9:10, onde notamos todos os elementos essenciais ao casamento instituídos por Deus, quais sejam: 

1 – Vontade do noivo - Gn 24:63-67; 

2 – Consentimento (bênção) do pai do noivo (a mãe havia falecido) - Gn 24:1-4;3 – Propósito e confirmação de Deus - Gn 24:12-26 

4 – jugos iguais (mesmo povo, mesma fé, mesmo Deus) – Gn 24:4, 24, 47-48 

5- Vontade da noiva - Gn 24:57-59; 

6 – Consentimento (benção) dos pais da noiva - Gn 24:50-51, 55, 59-61; 

7 – união sexual com animus de formação de uma unidade familiar permanente - Gn 24:66-67;

8 – fidelidade e compromisso e lealdade por toda a vida (Rm 9:10 - Gn 49:31).

Por esse primeiro exemplo, no mínimo, devemos entender que os princípios de Deus para o casamento estão todos muito bem definidos sem a exigência de um ritual religioso nos moldes que conhecemos. 

Aliás, a palavra casamento ocorre poucas vezes em todo o Velho Testamento (Gn 34:12; Ct 8:8; Dn 2:43; 11:17) e o termo “bodas” somente duas vezes, em referência ao casamento de Sansão. No Novo testamento, as poucas referências a casamento ocorrem nas bodas de Caná da Galileia (Jo 2:1-2); na menção profética de Jesus sobre a alegria de se estar com o noivo antes de sua partida (Mt 9:15; Mc 2:19; Lc 5:34); na indicação de que os anjos do céu não se casam (Mt 22:30; Mc 12:25; Lc 20:34-35); na referência profética de Noé quanto à vida cotidiana no tempo do fim (Mt 24:38; Lc 17:27); na advertência quanto à vigilância (Lc 12:36); no ensino sobre o lugar que devemos procurar ocupar durante uma festa de casamento (Lc 14:8-11); nos conselhos de Paulo sobre o casamento (1Co 7:1-40); e na advertência de Paulo sobre ensinos de demônios procedentes de pessoas que proíbem o casamento e a abstinência de alimentos (1Tm 4:3). Entretanto, em nenhuma dessas passagens do Novo Testamento há qualquer sugestão ou imposição de regras, rituais ou cerimônias para a formalização do ato do casamento. 

Logo, cultos, missas, ministrações, celebrações, vestes especiais, festas, testemunhas, padrinhos, damas de honra e registro documental não podem ser considerados exigências das escrituras sagradas ou de Deus para as núpcias. Por conclusão óbvia, de modo contrário, a ausência de cerimônia religiosa no ato do casamento, por si só, não deve ser considerada pecado. 

O casamento dos tempos bíblicos: preceitos e tradição

Em Israel, o casamento era possível a partir da idade núbil, qual seja: treze anos e um dia para os rapazes e doze anos e um dia para as moças. Porém, era comum que os jovens se casassem por volta dos dezoito anos de idade. 

É comum ouvirmos dizer que o casamento dos tempos bíblicos era um negócio de família. Entretanto, antes disso, havia uma preocupação de Deus com a preservação das tribos e suas respectivas terras. Como o direito de herança pertencia ao varão, se um israelita tivesse apenas filhas, elas deveriam casar-se dentro da própria tribo, de modo que a herança não viesse a ser transferida para outra tribo: 

“6 Esta é a palavra que o SENHOR mandou acerca das filhas de Zelofeade, dizendo: Sejam por mulheres a quem bem parecer aos seus olhos, contanto que se casem na família da tribo de seu pai. 7 Assim, a herança dos filhos de Israel não passará de tribo em tribo; pois os filhos de Israel se hão de vincular cada um à herança da tribo de seus pais. 8 Qualquer filha que possuir alguma herança das tribos dos filhos de Israel se casará com alguém da família da tribo de seu pai, para que os filhos de Israel possuam cada um a herança de seus pais. 9 Assim, a herança não passará de uma tribo a outra; pois as tribos dos filhos de Israel se hão de vincular cada uma à sua herança. 10 Como o SENHOR ordenara a Moisés, assim fizeram as filhas de Zelofeade, 11 pois Macla, Tirza, Hogla, Milca e Noa, filhas de Zelofeade, se casaram com os filhos de seus tios paternos. 12 Casaram-se nas famílias dos filhos de Manassés, filho de José, e a herança delas permaneceu na tribo da família de seu pai. 13 São estes os mandamentos e os juízos que ordenou o SENHOR, por intermédio de Moisés, aos filhos de Israel nas campinas de Moabe, junto ao Jordão, na altura de Jericó.” (Números 36:6-13 RA) 

Exatamente por questões que envolviam a herança, era muito importante que o israelita tivesse pelo menos um filho homem, pois a preservação da propriedade decorria da transmissão da herança aos descendentes (Êx 15:17-18; Sl 127; 128). Por isso, a mulher estéril era tão desprezada (Gn 30:1-2, 23; 1 Sm 1:6-10; Lc 1:25). 

Situação igualmente grave ocorria quando o marido morria sem deixar herdeiro à mulher. Para resolver esse problema, deu-se início à prática do levirato (Gn 38:8), que veio a integrar a Lei de Moisés (Dt. 25:5-10). Assim, quando uma mulher enviuvava, o irmão do marido morto tinha de se casar com ela. Os filhos deste casamento tornavam-se herdeiros do irmão falecido, a fim de que "o nome deste não se apague em Israel" (Dt. 25:6). Se um homem recusava casar-se com a cunhada viúva, ele sofria a ignomínia pública (Dt. 25:7-10; Rt 4:1-7).

Quanto à liturgia do casamento, ante a completa ausência de textos bíblicos que estabeleçam uma cerimonia para casamento, devemos reconhecer que tudo o que temos hoje a esse respeito faz parte de uma tradição. Embora não haja dúvida de que o casamento em si seja uma instituição divina, confirmada por Jesus (Mt 19:5; Mc 10:7) e por Paulo (Ef 5:31), o fato é que a cerimônia foi criada por homens em razão de conceitos religiosos, culturais, sociais e econômicos.

Não podemos ignorar que há séculos o ato do casamento envolve liturgia e festa, de modo que nem mesmo sabemos quando exatamente essa tradição iniciou. Entretanto, conhecemos razões que motivaram algumas tradições. Registros históricos dão conta de que o desenvolvimento socioeconômico passou a exigir formalidades para a realização de um casamento. O ato deixou de ser uma simples decisão individual do homem e da mulher, que se uniam com a bênção de seus pais, e tornou-se um negócio da família. 

A passagem bíblica do casamento de Jacó com Raquel é suficiente para que notemos uma evolução em relação à união de Isaque com Rebeca. Parece-nos que no tempo de Jacó o casamento já exigia obediência a uma certa tradição de família, que incluía um banquete, uma ordem de entrega das filhas e motivações financeiras. Para que Jacó tomasse Raquel por mulher, seu sogro Labão lhe informou que na sua terra a filha mais nova não seria dada em casamento antes da mais velha. Assim, Jacó teve que aceitar primeiramente a união com Lia (filha mais velha de Labão) para que recebesse posteriormente Raquel como esposa. Além disso, Jacó teve que pagar um dote, em forma de trabalho, em relação a cada uma de suas esposas. Por fim, notamos que o casamento (união sexual dos noivos) se formalizava durante uma festa, sem qualquer cerimônia religiosa. Vejamos o texto: 

21 Disse Jacó a Labão: Dá-me minha mulher, pois já venceu o prazo, para que me case com ela. 22 Reuniu, pois, Labão todos os homens do lugar e deu um banquete. 23 À noite, conduziu a Lia, sua filha, e a entregou a Jacó. E coabitaram. 24 (Para serva de Lia, sua filha, deu Labão Zilpa, sua serva.) 25 Ao amanhecer, viu que era Lia. Por isso, disse Jacó a Labão: Que é isso que me fizeste? Não te servi eu por amor a Raquel? Por que, pois, me enganaste? 26 Respondeu Labão: Não se faz assim em nossa terra, dar-se a mais nova antes da primogênita. 27 Decorrida a semana desta, dar-te-emos também a outra, pelo trabalho de mais sete anos que ainda me servirás. 28 Concordou Jacó, e se passou a semana desta; então, Labão lhe deu por mulher Raquel, sua filha. (Gn 29:21-28 RA) 

Importante que fique claro que a tradição da terra de Labão não era nem mesmo conhecida por Jacó. Daí podemos deduzir que na terra de Jacó não existia essa tradição. Ou seja, a tradição não procedia de Deus, mas fazia parte da cultura local. 

Sobre essa questão, a passagem bíblica das bodas de Sansão nos dá outras informações, deixando igualmente claro que o ritual do casamento era uma questão de costume e não uma ordenança de Deus: 

2 subiu, e declarou-o a seu pai e a sua mãe, e disse: Vi uma mulher em Timna, das filhas dos filisteus; tomai-ma, pois, por esposa. (...) 5 Desceu, pois, com seu pai e sua mãe a Timna; e, chegando às vinhas de Timna, eis que um leão novo, bramando, lhe saiu ao encontro. (...) 7 Desceu, e falou àquela mulher, e dela se agradou. 8 Depois de alguns dias, voltou ele para a tomar; e, apartando-se do caminho para ver o corpo do leão morto, eis que, neste, havia um enxame de abelhas com mel. (...) 10 Descendo, pois, seu pai à casa daquela mulher, fez Sansão ali um banquete; porque assim o costumavam fazer os moços. (...) 12 Disse-lhes, pois, Sansão: Dar-vos-ei um enigma a decifrar; se, nos sete dias das bodas, mo declarardes e descobrirdes, dar-vos-ei trinta camisas e trinta vestes festivais; (...) 17 Ela chorava diante dele os sete dias em que celebravam as bodas; ao sétimo dia, lhe declarou, porquanto o importunava; então, ela declarou o enigma aos seus patrícios. (Jz 14:2-17 RA) 

Embora não haja outros textos bíblicos verotestamentários sobre a tradição do casamento, a história do povo hebreu nos informa sobre os costumes que passaram a integrar o casamento. 

Normalmente, em Israel, o pai tinha interesse em casar suas filhas com homens bem sucedidos que garantissem o sustento e a proteção delas – eles eram os primeiros a ser consultados e, assim, iniciava-se uma transação. 

Da parte do homem, era comum que o jovem consultasse seu pai sobre seu desejo de tomar uma determinada mulher por esposa, pedindo-lhe aprovação. Ele precisava do consentimento de seus pais, pois incluiria uma mulher em sua parentela. Quando o homem se casava, sua mulher passava a fazer parte da sua parentela e a sogra tornava-se sua segunda mãe, razão pela qual era importante que a família do noivo aprovasse a moça. 

Seu pai, então, estando de acordo, iniciava os entendimentos com o pai da moça. Era comum, também, que um amigo muito chegado do noivo participasse das negociações. Os acertos tinham o objetivo de compensar a família da moça pelo trabalho que ela prestava em casa e que cessaria dali em diante. As mulheres eram mão de obra importante no cotidiano bíblico e seu trabalho fazia falta no lar. Era costume que essa compensação fosse feita em dinheiro. 

A moça, por sua vez, ao ser consultada, podia manifestar sua discordância e isso era respeitado. 

Naquele tempo eram comuns casamentos arranjados por pura conveniência, fugindo, assim, ao padrão original estabelecido por Deus desde o gênesis. Questões financeiras acabavam provocando distorções no instituto do casamento, uma vez que a família do noivo deveria providenciar um dote a ser pago ao pai da noiva. Este, por sua vez, não poderia gastá-lo, pois era uma reserva no caso de a mulher tornar-se viúva ou ser vítima de um repúdio (Gn 31:14-15) – mas ele podia aplicar o dinheiro e usufruir dos juros. Enquanto a proposta teórica da tradição era manter uma reserva para tempos difíceis, a ganância acabou por transformar o casamento em um negócio lucrativo para alguns pais que, na verdade, vendiam suas filhas. 

Se o pretendente fosse pobre e não tivesse como arcar com o dote, podia pagá-lo com trabalho, mas também havia casos em que o pai da noiva dispensava o dote do futuro genro dele. Contudo, ao pai da noiva também cabia gastar. Ele também dava um dote à filha, em dinheiro, bens ou qualquer outra coisa que favorecesse o novo lar que se formava (1 Jz 1:12-15). 

Feitos todos os arranjos para o casamento, acontecia o noivado. Os noivos, embora ainda não vivessem juntos, já eram considerados desposados, oficialmente. Após o noivado, os jovens já eram chamados de esposa e de marido (Mt 1:19). Além disso, o noivo ficava isento do serviço militar, obrigatório para todos os homens (Dt 20:7). 

Como visto, as negociações eram importantes. Tudo ficava bem ajustado, inclusive quanto o pai da noiva receberia caso o casamento não se consumasse. Se o marido morresse ou desistisse do casamento, parte dos bens seriam devolvidos aos pais. Mas, devido ao número de pessoas envolvidas e das quantias de dinheiro empenhadas, era muito raro haver uma dissolução do noivado. 

O noivado durava cerca de um ano, período em que a casa era providenciada pelo noivo e o enxoval pela noiva. A família da jovem ficava encarregada dos preparativos para a festa do casamento, mas, normalmente, as despesas da festa corriam por conta do pai do noivo. 

Segundo a tradição, os casamentos não dispensavam uma grande festa, característica dos judeus, que gostavam de muita animação e de festejos bem alegres. Parentes viajavam grandes distâncias e era uma desonra não comparecer à festa. 

Antes do casamento, havia o cortejo nupcial. A noiva saía de sua casa acompanhada das pessoas que formavam o seu grupo e o noivo vinha de outro lugar por ele escolhido. O destino, era a casa do pai do noivo, que financiava a festa. Os dois grupos vinham cantando e tocando instrumentos musicais. 

Durante a festa, não havia cerimônia religiosa, nenhuma liturgia. O casamento não era formalizado por rabinos, sacerdotes, juízes ou outra autoridade religiosa. O ritual se cumpria apenas no encontro dos dois, onde poderiam dizer algumas palavras ou algum salmo em meio a muita animação. Em certo momento, os dois se retiravam para um quarto preparado para ser a câmara nupcial. A consumação do ato se dava com a união sexual dos noivos, que fazia dos dois uma só carne. Enquanto o casal consumava o casamento, os convidados continuavam a festejar, ao som de muita música, danças, comidas e bebidas. Após algum tempo, o casal voltava ao centro da festa trazendo a prova de que a noiva era virgem: o lençol manchado com sangue. 

Entretanto, nos desajustes da tradição, tudo era possível. Era possível, inclusive, que a moça negociada não fosse virgem. Talvez, essa tenha sido a razão da criação do costume de se consumar o casamento em uma festa diante de muitas testemunhas. 

A virgindade da noiva era essencial para a concretização do negócio entre as famílias. O vestido branco era um símbolo importante da pureza da noiva, ou seja, da sua virgindade. Todos deveriam saber que uma virgem estava sendo entregue ao noivo naquela comemoração. O lençol branco da cama, manchado com o sangue da virgem, era entregue, em seguida, ao seu pai e ele o guardava como mais uma prova em favor de sua filha (Dt 22:13-15). Assim, seu marido não poderia levantar acusação de ter achado nela coisa imoral e repudiá-la (Dt. 24:1). 

A festa, portanto, não era apenas um momento de alegria pelas núpcias, mas um ato importante para a garantia do negócio que estava sendo consumado naqueles dias. 

Esse mesmo ritual tradicional foi preservado, com mínimas alterações, ainda no período do Novo Testamento. Indício de que a tradição, em geral, estava mantida e foi recepcionada por Jesus está na parábola das bodas do filho do Rei: 

“2 O reino dos céus é semelhante a um rei que celebrou as bodas de seu filho. 3 Então, enviou os seus servos a chamar os convidados para as bodas; mas estes não quiseram vir. 4 Enviou ainda outros servos, com esta ordem: Dizei aos convidados: Eis que já preparei o meu banquete; os meus bois e cevados já foram abatidos, e tudo está pronto; vinde para as bodas.” (Mt 22:2-4 RA) 

Nessa parábola notamos que era o pai do noivo que preparava a festa, diferentemente da nossa tradição ocidental. Ao que tudo indica, o costume conhecido por Jesus era exatamente o que citamos, como podemos ver na parábola das dez virgens: 

“1 Então, o reino dos céus será semelhante a dez virgens [acompanhantes da noiva] que, tomando as suas lâmpadas, saíram a encontrar-se com o noivo. [...] 6 Mas, à meia-noite, ouviu-se um grito: Eis o noivo! Saí ao seu encontro! [...] 10 E, saindo elas para comprar, chegou o noivo, e as que estavam apercebidas entraram com ele para as bodas [casa do pai do noivo]; e fechou-se a porta.” (Mt 25:1-10 RA)É possível afirmar que a tradição do banquete estava sendo observada no tempo de Jesus, uma vez que seu primeiro milagre ocorreu exatamente em uma festa de casamento (Jo 2:1-11). 

Importante observar que o casamento instituído por Deus era consumado pela união sexual dos cônjuges, em casa própria e com propósito de formação de uma família. Com o advento da tradição israelita, o casamento passou a ser reconhecido antes mesmo que os compromissados fossem morar em sua nova casa e se entregassem ao ato sexual. No momento em que o contrato estivesse firmado entre as famílias, os jovens já se consideravam desposados, a exemplo de José e Maria que, mesmo antes de se unirem pelo ato sexual já eram considerados casados. 

“Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: estando Maria, sua mãe, desposada com José, sem que tivessem antes coabitado, achou-se grávida pelo Espírito Santo.” (Mateus 1:18 RA) 

Entretanto, é de se notar que a tradição, aparentemente recepcionada por Deus, não invalida, substitui ou afasta ou a instituição original. Quem garante isso é o próprio filho de Deus que, em seu ministério, reafirmou os termos originais para a consumação do casamento, senão vejamos:

“4 Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher 5 e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? 6 De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.” (Mateus 19:4-6 RA) 

Vale destacar que, na tradição israelita, o fato do casal já se considerar comprometido, desposado, quando as famílias firmaram o contrato, não é suficiente para afirmarmos que o casamento tenha sido consumado segundo o padrão original do criador, que se dá pela coabitação social e sexual. 

Portanto, é possível dizer, com segurança, que Deus aceita a consumação do casamento sob seus preceitos originais, sem os acréscimos da tradição. O que a tradição adiciona, desde que não desvirtue ou altere o fundamento inicialmente estabelecido pelo criador, pode ser aceito, sem problemas. Só não é razoável afirmar que o simples contrato seja suficiente para consumar o casamento, segundo o padrão original de Deus, explicitamente definido nas escrituras sagradas. 

A origem católica da tradição cristã para casamentos 

Os registros históricos Católicos Apostólicos Romanos atestam a origem da cerimônia de casamento que observamos hoje. 

 Até meados do Século XVI, ou seja, durante os primeiros 1.500 anos de cristianismo, quando duas pessoas batizadas resolviam se casar, simplesmente realizavam uma festa para dar satisfação social daquela decisão dos nubentes. Até então, a própria Igreja Católica reconhecia como sacramento válido qualquer celebração que se fizesse publicamente, não se exigindo cerimônia religiosas e nem mesmo a presença de um sacerdote. Os fieis simplesmente decidiam se casar e anunciavam publicamente que estavam casados. Isso era feito em uma festa, conforme a possibilidade das famílias envolvidas. 

Essa era a prática reconhecida como válida pela Igreja Cristã durante 16 séculos. 

 Aos poucos, instalou-se outra prática. Por costume, os nubentes, após o casamento, procuravam a igreja para o pedir uma bênção sacerdotal especial, que era dirigida especialmente à mulher, à esposa. Faziam isso para prepara-la para assumir o risco de ser mãe. É bom lembrar que naquele tempo não existiam os recursos modernos como temos hoje. Qualquer complicação na gestação ou durante o parto poderia levar a mulher ao óbito. A bênção, então, era para a mulher que realizaria a missão de ser mãe e assumiria, com sua própria vida, os riscos decorrentes da gravidez. 

 Entretanto, a Igreja Católica começou a perceber alguns abusos por parte dos homens, que, secretamente, casavam-se com mais de uma mulher, normalmente em cidades diferentes. Em cada região que estava, levava sua esposa para a igreja com o fim de realizar a cerimônia matrimonial, pós-casamento. E como a Igreja Católica percebeu que estava abençoando aquilo que contrariava a ordem da monogamia, decidiu disciplinar a prática da cerimônia nupcial no Concílio de Trento. 

Apenas para relembrar, o Concílio de Trento foi convocado para discutir uma série de questões que precisavam ser definidas pela Igreja e abriu seus trabalhos no dia 13 de dezembro de 1545, no terceiro domingo do mês. As discussões se arrastaram por duas décadas, resultando, ao final, em seus cânones definitivos. 

Um dos documentos ali produzidos foi o Decreto Tametsi, por meio do qual a Igreja Católica Apostólica Romana definiu que o casamento entre dois católicos só seria válido se os noivos se apresentassem diante de um legítimo sacerdote (devidamente ordenado), competente para realizar a cerimônia em sua região (sob sua jurisdição) e na presença de, no mínimo, duas testemunhas. 

De fato, o Concílio passou a qualificar o casamento como um contrato formal, fazendo depender a validade do acordo de vontade dos nubentes, da manifestação expressa diante do sacerdote e das testemunhas

Nos países em que o Concílio de Trento foi publicado, sua vigência passou a ser imediata para todos os católicos. Nos demais países, sob o papado de Pio IV, em 1564 foi criada a "Sagrada Congregação dos Cardeais Mediadores do Concílio Tridentino", para que o mesmo fosse divulgado e interpretado à luz da igreja católica. 

Enfim, foi dessa maneira que surgiu a cerimônia matrimonial católica, copiada pouco tempo depois pela igreja protestante. Por isso, desde o século XVI, católicos só consideram válido o casamento que respeite sua regra (Decreto Tametsi), criada em razão de distorção identificada naquele tempo. É bom lembrar que a regra católica não decorreu de um ordenamento bíblico, mas de uma necessidade de controle eclesiástico sobre seus fiéis. 

Curiosamente, a igreja protestante não só acolheu a regra católica como também a divinizou

A tradição cultural do casamento ocidental 

A despeito da bíblia ser nosso referencial de práticas religiosas, no que diz respeito ao casamento não adotamos o ritual apresentado pela bíblia como tradição em Israel. De modo diverso, a cultura ocidental acolheu a tradição católica e, além das exigências mínimas do Decreto Tametsi, passou a adotar liturgia e símbolos próprios. No Brasil, por exemplo, os jovens, em boa medida, namoram com ou sem o consentimento dos pais, o que é algo absolutamente inimaginável na cultura bíblica, onde nem mesmo existe a figura do namoro. 

Depois do namoro, a tradição brasileira é o noivado que, em tese, é uma promessa de casamento entre os próprios noivos e independe de aprovação dos pais dos noivos. Com o noivado, os compromissados passam a usar alianças, o que é uma tradição desconhecida pela bíblia. 

Em relação ao casamento, propriamente dito, normalmente é realizado em uma igreja, capela ou templo, onde um pastor, padre ou líder religioso conduz a cerimônia recolhendo os votos de fidelidade dos nubentes e, após isso, concedendo a sua bênção diante de testemunhas (convidados), de padrinhos e dos pais dos noivos. A noiva veste-se de branco, que representaria sua pureza (não se trata de pureza da alma, mas da pureza sexual: virgindade) e é levada ao “altar” por seu pai, que a entrega ao seu futuro marido, como símbolo do seu consentimento. Há, também, crianças (damas de honra) que conduzem as alianças e espalham pétalas pelo caminho entre a porta do salão até o “altar”, como parte da liturgia, mas nem mesmo sabemos se isso tem algum significado ou se é apenas para deixar a celebração mais bonita e alegre. 

O banquete vem logo após a liturgia do casamento. Segundo a nossa tradição, a festa, que dura apenas algumas horas, é financiada pelo pai da noiva e o ato sexual é, em tese, reservado para depois da festa, de modo distinto da tradição israelita. 

Enfim, por mais espiritual que seja, a tradição do casamento ocidental não foi retirada da bíblia e, praticamente, em nada se parece com o casamento realizado pela tradição israelita. O que fazemos hoje deve-se à nossa tradição cultural, que tem seus próprios símbolos. 

Equívocos religiosos 

Uma vez que constatamos que a liturgia do casamento, especialmente a ocidental, não foi retirada da bíblia, as perguntas seguintes servirão para testar se nossa religiosidade está associada à vontade de Deus ou se, em algum ponto, estamos equivocados. 

•um pastor, padre ou líder religioso pode casar ou recasar alguém? Se sim, qual o texto bíblico que, objetivamente, ampara tal pretensão? 

•o que é indispensável? O vestido branco ou a pureza? 

•pais precisam consentir com o casamento dos filhos? 

•os votos de amor eterno e de fidelidade conjugal são apenas formalidades de uma liturgia e não produzem quaisquer vinculações espirituais subsequentes? 

•qual o significado de uma aliança diante da aceitação resignada do divórcio até mesmo pelas igrejas cristãs? 

•quem criou a certidão de casamento? Deus ou os homens? Se foi o Senhor, qual o texto bíblico que fundamenta tal formalidade? Se não foi Jeová, por que a igreja insiste em afirmar que um casal que não tem uma certidão de casamento está em pecado, mesmo nos casos em que ambos deixaram seus pais, uniram-se pelo ato sexual com o desejo de formarem uma família e são fieis um ao outro? 

•quem instituiu a liturgia do casamento? Deus ou os homens? Se foi Deus, qual o ritual certo? O dos israelitas ou o dos povos do ocidente? Se o correto é o dos israelitas, por que os pastores, em geral, pensam que somente a cerimônia realizada por suas igrejas consumam o casamento? 

•o que consuma um casamento? A cerimônia religiosa ou a relação sexual consentida e precedida de ajuste familiar e estabelecimento de lar próprio com animus definitivo? 

•as testemunhas e padrinhos de uma cerimônia religiosa de casamento são apenas pessoas que ocupam um lugar distinto na celebração ou isso implica responsabilidades?

•o que vale mais? O ritual ou a vontade e a aprovação Deus? 

•por que algumas igrejas valorizam tanto a cerimônia e não cuidam de instruir seus jovens quanto à pureza sexual, quanto ao jugo desigual (2Co 6:14-15), quanto ao consentimento dos pais, quanto ao ódio que Deus tem do divórcio, quanto aos casos de impossibilidade de recasamento e quanto às consequências dos votos inconsequentes? 

Obs: em relação ao divórcio, vale a pena ler o alerta apresentado no capítulo 5 do livro “Dízimos e Ofertas: pretextos dos impiedosos” 

Enfim, aparentemente, o casamento que tem sido valorizado pelas igrejas é o ritual e não a sua essência como instituição divina. 

“Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio.” (Mateus 19:8 RA)

O fato que podemos não querer ver é que casamento não é uma cerimônia. Aliás, esta é até dispensável aos olhos de Deus. Entretanto, o que Deus não dispensa é exatamente aquilo que não queremos pregar, anunciar e observar – a justiça, a misericórdia e a fé diante do soberano Senhor. 

“16 Ai de vós, guias cegos, que dizeis: Quem jurar pelo santuário, isso é nada; mas, se alguém jurar pelo ouro do santuário, fica obrigado pelo que jurou! 17 Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro ou o santuário que santifica o ouro? 18 E dizeis: Quem jurar pelo altar, isso é nada; quem, porém, jurar pela oferta que está sobre o altar fica obrigado pelo que jurou. 19 Cegos! Pois qual é maior: a oferta ou o altar que santifica a oferta?” (Mt 23:16-19 RA) 

“23 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas! 24 Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!” (Mt 23:23-24 RA) 

Sim, Deus não é injusto ao exigir que sejamos santos, respeitosos e fieis em nossos relacionamentos. A misericórdia de Deus se revela em perdoar os pecados daqueles que reconhecem o seu erro e se arrependem. A fé se resume em crermos que a Palavra normativa de Deus é o fundamento pelo qual devemos viver, pois o justo viverá por fé. 

O valor da tradição 

Talvez agora tenhamos percebido que não somos tão espirituais como queremos parecer, uma vez que não valorizamos o que realmente tem valor. 

Entretanto, isso não significa que a liturgia seja desprezível. Ela só não é essencial ao casamento, mas sua realização é até saudável. O valor da tradição e de seus símbolos pode perfeitamente ser reconhecida. O próprio Deus não a rechaçou enquanto ela foi observada por centenas de anos pelos israelitas. Apesar da tradição não ter sido criada por Deus, ela parece ter sido admitida, sem problemas. O próprio Jesus, além de realizar seu primeiro milagre em uma festa de casamento, chega a utilizar a figura das bodas em uma parábola. Também valeu-se da simbologia da noiva e do noivo em mensagens proféticas. 

Então, por que Deus não condenou a tradição? 

Simples, porque ela é útil ao propósito de preservação de valores divinos. Deus chega a nos recomendar que não abandonemos alguns marcos antigos e que nos voltemos a veredas antigas para não sermos destruídos, senão vejamos: 

14 Não mudes os marcos do teu próximo, que os antigos fixaram na tua herança, na terra que o Senhor, teu Deus, te dá para a possuíres. (Dt 19:14 RA) 

16 Assim diz o Senhor: Ponde-vos à margem no caminho e vede, perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho; andai por ele e achareis descanso para a vossa alma; mas eles dizem: Não andaremos. (Jr 6:16 RA) 

Ora, se uma tradição, mesmo a ocidental, foi estabelecida de modo alinhado à vontade do Senhor, não há razão para removê-la. 

Importante seria que o vestido branco não fosse apenas uma roupa de ocasião ou um símbolo, mas uma realidade na vida da noiva. 

Importante seria que a entrega da noiva ao seu futuro marido pelo pai não fosse apenas um ritual, mas a expressão de um consentimento pacífico. 

Importante seria que os votos de amor e de fidelidade não fossem apenas declarações inconsequentes, mas a expressão da verdade e do compromisso inarredável, independentemente de circunstâncias futuras. 

Importante seria se as alianças não fossem apenas uma decoração que distingue um solteiro de um casado, mas a lembrança permanente de que o casamento é uma relação indissolúvel e não um mero contrato. 

Importante seria que os nubentes não procurassem o pastor apenas como figura essencial à realização de uma cerimônia, mas como um partícipe espiritual capaz de interferir positivamente na preparação dos noivos durante o processo da efetivação da união. 

Importante seria se padrinhos e as testemunhas não fossem apenas convidados distintos, mas pessoas capazes de lembrar os noivos de seus compromissos assumidos diante de Deus e dos homens. 

Importante seria se a festa fosse a comemoração de uma união segundo o padrão de Deus e não uma festividade para atender a padrões sociais. 

Sobre a tradição, podemos, ainda, entender que alguns costumes apresentam símbolos que, se respeitados em sua essência, preservam as nossas vidas, encaminhando-nos pelos caminhos de Deus. Uma tradição que insere na sociedade um valor divino pode ser repetida por séculos, de geração a geração, conforme vimos na questão do casamento tradicional judeu. Veja-se que a tradição judaica preservou fortemente naquela cultura o valor da virgindade e da reserva de uma mulher a apenas um marido. Mesmo que alguém tenha respeitado essa tradição sem compreender exatamente o que estava fazendo, certamente foi preservado de ações absolutamente abomináveis ao senhor, como é o caso da união sexual descomprometida, cujos resultados são desastrosos para as famílias. 

A tradição sem valor 

O que temos visto nos nossos dias? Cerimônias de casamento que não passam de rituais sociais que precisam de um revestimento religioso para a suas realizações. Na verdade, em muitos casos, o casamento é apenas uma farsa para atender anseios individuais e padrões sociais. Deus e a igreja são apenas “panos de fundo” de um momento particular para algumas famílias. 

CONCLUSÃO 

Assim, uma vez que os símbolos dessa tradição nada mais informam à sociedade, a tradição, por si só, fica esvaziada, sem qualquer valor para Deus. Mas, o Senhor nos chama para voltarmos às veredas antigas. Para tanto, deveríamos primeiramente valorizar a instituição em si. Em segundo lugar, poderemos recuperar o valor da tradição, fazendo a ligação de seus símbolos com a vontade de Deus. 

Portanto, casamento não é apenas uma liturgia religiosa e dela não depende. 

Entretanto, embora as tradições que envolvem o casamento em si não tenham sido criadas por Deus, não há nenhum problema em sua perpetuação. Bom seria que seus símbolos estivessem alinhados aos preceitos divinos e não fossem apenas formalidades desconectadas de sua essência. 

Brasília/DF, em 28 de outubro de 2014. 

Pastor Sólon Lopes Pereira

F­­AÇA PARTE DESTE PROJETO!

Se você se identifica conosco e gostaria de fazer parte deste projeto, contate-nos: 

 celeiros.df@gmail.com

ou pelo facebook nos seguintes endereços: 

 https://www.facebook.com/groups/celeiros/     -    https://www.facebook.com/groups/celeiros/.