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Pastora

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ESCLARECIMENTO INICIAL

Após alguns anos vivendo no meio neopentecostal, naturalmente convivi com pastores que defendiam a possibilidade de ordenamento de Pastoras ao ministério eclesiástico. E o que antes para mim não necessitava de discussão, ante a clara omissão e intenção bíblica a esse respeito, passou a ser uma questão de desafios. Constantemente me deparava com defesas acaloradas do ministério pastoral feminino. Nem assim me preocupei em fundamentar e registrar a minha posição, pois não pesava sobre mim a responsabilidade de definir essa questão. 

Entretanto, hoje, na condição de Presidente da Igreja Cristã Celeiros (ICC), no propósito de não comungar com heresias, cumpre-me apresentar aos membros as razões bíblicas para nossas convicções e escolhas espirituais. Evidentemente que compreendemos as opiniões contrárias, mas, para não criarmos expectativas nas mulheres que almejam o episcopado, é necessário esclarecermos que não encontramos na bíblia qualquer fundamento que nos levasse a ordenar mulheres ao ministério pastoral.

Para fornecer aos leitores um contraponto ao nosso entendimento, utilizei o trabalho acadêmico de Walkiria Ozório Corrêa, cuja tese apresentada em 2012, na Faculdade Evangélica de Brasília, defende a ordenação pastoral feminina no congregacionalismo brasileiro. 

Qualquer outro trabalho literário poderia ter sido escolhido, mas utilizamos este porque ele nos chegou por e-mail e observamos tratar-se de um texto elaborado com preocupação científica para defender sua tese. 

É bom esclarecer que não pretendemos desmerecer a qualidade do trabalho da autora. Também, não é nosso propósito criticá-la por seu posicionamento diferente do nosso. Ao contrário, admiramos sua coragem em expor tese sobre questão tão sensível em nosso tempo, embora tenhamos que rejeitá-lo pelas razões que passaremos a expor.

Introdução 

Com o propósito de apresentar as razões para o fato de rejeitarmos a ordenação de mulheres ao ministério pastoral, escolhemos um trabalho acadêmico que nos chegou por e-mail e que defende essa possibilidade. Assim, partiremos dos argumentos contrários para demostrar biblicamente que todo esforço para defender a ordenação pastoral feminina só ganha força com base em argumentos humanistas, e não bíblicos.  

A partir dos diligentes estudos realizados por Walkiria Ozório Corrêa, em tese acadêmica apresentada em 2012, na Faculdade Evangélica de Brasília, demonstraremos que a tese por ele defendida não se sustenta diante da Palavra de Deus, uma vez que as escrituras sagradas não admitem o ministério pastoral feminino como doutrina ou prática para a Igreja de Cristo. 

Desse modo, pretendemos apresentar o caminho mais seguro para não nos rendermos ao humanismo secular em detrimento da doutrina cristã. Nossa opção, portanto, é aceitar o que está posto nas escrituras sagradas, sem receio da crítica feminista e sem tentar abrandar a palavra de Deus para torná-la mais aceitável aos padrões modernos. 

Acreditamos que é melhor estarmos alinhados com a vontade soberana do Senhor, obedecendo à sua permanente e estável palavra do que promovermos contínuos ajustes para adequarmos a bíblia às exigências culturais do momento. 

Todo caminho do homem é reto aos seus olhos; mas o Senhor pesa os corações. (Pv 21:2) 

Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras jamais passarão. (Lc 21:33)

Ordenação Pastoral Feminina 

A primeira questão apresentada por Walkiria diz respeito ao fato de Jesus ter separado apenas homens como discípulos. Afirma, então, que: 

Admita-se, hipoteticamente, utilizando princípio da literalidade que Jesus tenha conclamado apenas homens para serem seus discípulos, valendo-se do argumento de que o texto bíblico não faz qualquer referência à convocação de mulheres para o ministério de Jesus. Utilizando o mesmo método de análise será que a conclusão “somente homens podem ser pastores” não deveria exigir que esses, na atualidade, fossem pescadores, judeus de língua aramaica, homens barbudos e grosseiros, ao passo que homens de elevada cultura e bem situados deveriam estar de fora? 

Falta razoabilidade no trecho citado pela autora e esse não é um método aceitável quando desejamos interpretar a Palavra de Deus. Por esse raciocínio, desconsiderando-se a subsequente doutrina posta nas epístolas, poderíamos, então, defender que Jesus não se importaria se ordenássemos um homossexual ao ministério pastoral. Afinal, quando o mestre escolheu seus discípulos nada indicou sobre as amplas possibilidades de nossas escolhas futuras. Ora, mesmo que Jesus não tenha falado diretamente sobre as práticas homossexuais, Paulo, mais adiante, deixa claro que essa não é uma opção aceitável por Deus (Rm 1:26-27; 1Co 6:9-11). De semelhante modo, o apóstolo escreve a Timóteo sobre as características dos homens que deveriam ser separados para o ministério pastoral, de maneira que a opção de Jesus se confirma pelo mesmo Espírito nas epístolas paulinas. 

É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, temperante, sóbrio, ordeiro, hospitaleiro, apto para ensinar. (1Tm 3:2) 

Na sequência, Walkiria trata das “raízes do androcentrismo”. Sua argumentação prende-se aos elementos do que considera “machismo” dos tempos antigos, a partir da influência negativa de Eva sobre Adão. Traz considerações sobre o que pensavam alguns dos pais da igreja sobre essa questão, mas não apresentou fundamentos bíblicos para que pudéssemos analisa-los

De outro modo, Walkiria, seguindo a linha humanista, ao tratar da questão da suposta revolta contra Eva, supõe que alguns homens modernos (religiosos contrários à sua tese) camuflam sentimentos machistas, senão vejamos: 

Cabe transcrever o que diz o autor sobre o pensamento cristão a respeito desse assunto. Não causaria estranheza se fosse o pensamento dos homens na atualidade, ainda que de forma camuflada

A mulher induz o homem ao pecado, logo a mulher é perigosa para a salvação do homem, ela é o meio que o demônio utiliza para se introduzir no coração do homem e levar a alma dele à perdição. Por isso que até a forma de a mulher se vestir, de se pentear e de se comportar em público devem estar subordinadas a critérios que decorrem do medo dos homens de perder a sua alma em presença de uma mulher. Essa seria uma razão teológica para restringir a liberdade do comportamento feminino. Pobres homens cristãos, sempre expostos ao pecado, por pensamentos, palavras ou atos, à vista de uma mulher! (grifo nosso) (GAMBIRASIO, 2005, p. 169-170). (Grifamos) 

Como podemos notar, o estudo de Walkiria sobre este tópico nada fala sobre a vontade de Deus, mas sobre as considerações humanas no decorrer dos séculos.

O Congregacionalismo brasileiro 

Neste tópico, Walkiria faz um breve histórico sobre a origem do congregacionalismo brasileiro e registra que seu fundador, Robert Kalley, mostrava-se aberto à participação das mulheres na igreja e mesmo não tendo admitido nenhuma mulher como pastora, permitia que praticassem alguns atos pastorais. Acrescenta que Charles Finney lecionou a Antoinette Brown, que foi a primeira mulher ordenada na América. 

Enfim, neste tópico também não há qualquer exame bíblico a ser realizado. Do relato de Walkiria nada se pode afirmar sobre a vontade de Deus, mas apenas sobre acontecimentos que, por si sós, não nos permitem afirmar que a doutrina bíblica apoie o ministério pastoral feminino. O fato do fundador do congregacionalismo brasileiro ser aberto à participação feminina em alguns atos pastorais não muda o que as escrituras sagradas dizem sobre o assunto. Afinal, não é o que os homens fazem que infirma a vontade de Deus, mas o que está registrado na bíblia.

Análise bíblica e teológica para a admissão da mulher ao ministério pastoral 

Antes de iniciar sua análise, Walkiria, mais uma vez, demonstra seu sentimento e insatisfação contra quem não compartilha de seu pensamento, senão vejamos: 

O que se tem visto são interpretações equivocadas baseadas em textos isolados, as quais têm gerado uma teologia depreciativa que relega a mulher a condição de segundo plano, mantendo-a numa situação de exclusão do ministério pastoral

Saindo em defesa de sua tese, e sabendo da clareza de Paulo ao escrever sua primeira carta aos coríntios (14:34), Walkiria faz o que todos fazem quando lhes convém eliminar uma passagem da bíblia, por contrariar suas teses humanistas: apelam para a questão cultural, dando a entender que algumas coisas escritas na Bíblia (não inspiradas?) não se aplicam em nossos tempos modernos. Veja-se o que afirmou: 

Na prática, o que se pode vislumbrar é que tem sido perpetuada em púlpito por “homens de Deus” uma teologia que preleciona que o lugar das mulheres pode ser qualquer lugar, menos o púlpito. Dizem eles fundamentados em Paulo: "Conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar” (I Coríntios 14:34). 

Zuck apregoa que é imprescindível conhecer o significado da Bíblia para que se descubra e se aplique sua mensagem para os dias atuais. Contudo, essa tarefa é um grande desafio pelo fato de a Bíblia ser um livro muito antigo. Assim sendo, faz-se necessário transpor vários abismos que se apresentam como, por exemplo, o abismo do tempo, dos costumes e do idioma, dentre outros (1994, p. 10, 19). Por tudo isso, a missão do intérprete é demasiadamente importante, pois ele é o elo entre esses dois mundos que se apresentam aos leitores das Escrituras. Se a interpretação dos textos antigos for incorreta haverá consequências no mundo atual, como se tem visto na questão da ordenação feminina. (Grifamos) 

Como se vê, as bases do humanismo foram lançadas. A partir daí, pode-se perfeitamente mudar o que está escrito para adaptar a palavra de Deus aos tempos modernos. 

É bom lembrar que os homossexuais têm feito a mesma coisa com alguns versos bíblicos para adapta-los à modernidade. Curiosamente, até mesmo as pastoras do nosso tempo repudiam as modificações bíblicas feitas pelos homossexuais. Neste caso, em sua maioria, elas não concordam com a adequação às exigências culturais modernas. 

Portanto, se fizermos interpretações bíblicas que admitam alteração do que está claramente definido para amoldar a palavra de Deus àquilo que consideramos aceitável diante da cultura moderna, nos tornaremos hipócritas ao rejeitar outras alterações de textos igualmente claros propostas por aqueles que pretendem amoldar a bíblia ao pensamento secular inclusivo.

Antigo testamento 

Buscando fundamentar sua tese, embora Walkiria afirme que “bem cedo na história de Israel, várias mulheres assumiram papeis de liderança”, traz a exame apenas duas personagens do Velho Testamento, Débora (Jz 4:5) e Hulda (2Rs 22:14-20). 

Sobre Débora, assevera que: 

Cabe salientar que, sendo Israel considerado o povo de Deus, não havia distinção entre liderança política e religiosa. Nesse sentido, Débora evocava para si esse duplo encargo, assim como os demais líderes (GRENZ, 1998, p. 73-74): 

 A posição de Débora combinou o trabalho de profeta e juiz (Jz 4.4). Membro da comunidade profética, ela atuava como porta voz para a palavra de Deus (4.6-7). Débora anunciou a ordem de Deus a Baraque, mandando que reunisse o exército israelita contra os cananeus...Os filhos de Israel subiam a ela a juízo (Jz 4.5) (GRENZ, 1998, p. 75). 

 Esse exemplo de Débora demonstra que seu agir não se passava apenas na esfera privada, como defendem aqueles que dizem que a atuação da mulher deveria se restringir ao ambiente familiar. Pelo contrário, “Débora desempenhava um cargo público num ambiente público” (GRENZ, 1998, p. 76). E mais, articula o autor: 

O exemplo de Débora confirma que nem Deus nem os hebreus da antiguidade consideravam a liderança feminina intrinsecamente odiosa. Pelo contrário, uma mulher podia exercer autoridade sobre a comunidade, inclusive sobre os homens (GRENZ, 1998, p. 76). 

Vale salientar que “não se deve supor que as poucas mulheres especificamente nomeadas constituem o total de mulheres atuando em posições de autoridade, pois se encontra indicações claras de que homens e mulheres não nomeados serviram como autoridades” (GRENZ, 1998, p. 73). Da mesma forma, não se pode afirmar que a grande quantidade de juízes do sexo masculino reduz a importância da escolha de Débora por Deus e de seu serviço louvável e obediência a esse chamado. Igualmente, não se pode afirmar, como alguns o fazem, que Débora apenas atuou como juíza e profeta por não haver naquele momento homens disponíveis (GRENZ, 1998, p. 76).

Inegável o fato de Deus ter usado Débora em um determinado momento da história de Israel. Entretanto, é bom lembrar que, além deste ser um fato isolado, uma exceção registrada ao longo dos aproximados 450 anos da história dos Juízes, a condição da liderança de Débora é apenas parcial e diferenciada da exercida pelos líderes homens. Veja-se que Débora não tinha a missão de liderança militar como os demais juízes e reis. Ela recebeu uma palavra do Senhor ordenando que Baraque liderasse o povo na batalha contra Sísera. 

 Ao contrário do que faz crer Walkiria, não há indícios no texto de que Débora exercesse uma profissão de governo público e geral. Segundo se vê em Juízes 4:5, a sua função profética parece restrita ao atendimento individualizado, uma vez que “Ela atendia debaixo da palmeira de Débora, entre Ramá e Betel, na região montanhosa de Efraim; e os filhos de Israel subiam a ela a Juízo”. Não é difícil notar que os “filhos de Israel” buscavam Débora para tratar de seus conflitos particulares e não para questões políticas do governo de Israel. 

Seja como for, a liderança de Débora, ao que nos indicam os textos bíblicos, não era plena, mas diferenciada, uma exceção à regra. Ela atuava em questões privadas e atendeu ao comando de Deus para transmitir uma ordem política a um homem. 

Sobre Hulda, Walkiria registrou o seguinte: 

Na mesma linha de pensamento, apresenta-se Hulda (2 Rs 22.14-20), que provavelmente é a profetiza mais conhecida da história israelita. Narram as Escrituras que a referida profetiza foi procurada por cinco oficiais importantes do rei Josias, que desejou ouvir a palavra profética assim que encontrou o livro da Lei no templo. Em resposta ao oráculo de Hulda, “o rei guiou o povo num ato de renovação da aliança” (GRENZ, 1998, p. 77). 

Da mesma forma como se asseverou no tocante a Débora, muitos estudiosos afirmam que o ministério desempenhado por Hulda se dava apenas na esfera privada, não servindo de embasamento para afirmar que as mulheres não exerciam papéis públicos e de destaque naquela sociedade. Pode-se perceber pelo contexto que o rei não foi em busca da orientação de nenhum dos principais profetas da época como, por exemplo, Sofonias (Sf 1.1) e Jeremias (Jr 1.2). Pelo contrário, vislumbra-se que o rei assentou sua fé numa mulher que cumpria sua missão em meio a tantos outros profetas do sexo masculino, não tendo agido diversamente de nenhum deles. 

Com respeito ao ministério da profetiza Hulda, Grenz afirma: 

A intenção do narrador dificilmente pode ser interpretada da maneira como os complementaristas algumas vezes leem a passagem, a saber, que Hulda exercia o seu ministério profético de modo que não obstruísse a liderança masculina. Em vez disso, Hulda se destacava entre homens e mulheres que proclamavam a verdadeira palavra de Deus ao povo daqueles dias (GRENZ, 1998, p. 77). (Os grifos não constam do original). 

Realmente, Hulda é uma das profetizas mais conhecidas da história de Israel, até porque se trata de mais uma exceção à regra. No caso de Hulda, especificamente, há um breve registro sobre uma única profecia dirigida ao Rei Josias. Nada mais se anotou em toda a bíblia a seu respeito e sua atuação não foi de liderança, mas de porta voz de Deus, pois o governo e a liderança eram do Rei Josias. 

O fato do Rei ter-se dirigido a Hulda e não a Sofonias ou a Jeremias em nada a coloca em condição superior ou privilegiada em relação a esses profetas. Note-se que estes dois foram escolhidos para uma missão que lhes renderam livros próprios nas escrituras sagradas, cujo conteúdo foi determinado para orientação geral do destino da nação e não apenas para um evento específico e pontual. 

Importante destacar que, a despeito da parcial e pontual liderança de Débora e do evento em que Hulda foi consultada na condição de profetiza, nenhum desses dois exemplos servem como comparação de um ministério pastoral. A liderança exercida no Velho Testamento não serve de parâmetro para o que Deus estabeleceu ao instituir a Igreja, que é um organismo novo, com doutrina própria e orientação moral diferenciada. É bom lembrar que os líderes patriarcas tinham mais de uma mulher, Salomão teve 700 mulheres e 300 concubinas e o grande líder e Rei Davi teve 6 mulheres (Mical, Abigail, Ainoã, Eglá, Maacá e Bate-Seba). Se isso era aceitável na liderança sobre Israel, deixou de ser admitido a partir de Jesus (Mt 19:4-5). A confirmação de que os requisitos de liderança mudaram após Jesus está claramente definido na carta em que Paulo estabelece as condições para que um homem seja bispo da igreja – deve ser marido de uma só mulher (1Tm 3:2). 

Logo, o exercício do ministério pastoral tem suas condições próprias e requisitos específicos, não podendo se satisfazer com o modo de liderança dos tempos do Velho Testamento. Deus usa quem quer para seus propósitos particulares, mas quando se trata de ministério pastoral, o soberano deixou registrado quem deve exercê-lo e quais requisitos deve possuir.

Novo testamento 

Para conseguir justificar sua tese no Novo Testamento, Walkiria lança mão do caso de Júnias e do texto de Gl 3:28 que expressa a unidade cristã e a igualdade entre homens e mulheres. 

Sobre Júnias, registrou: 

Há uma discordância quanto ao texto de Romanos 16.7 no que diz respeito a Júnias ser ou não uma mulher e apóstola. Lopes afirma que há divergências quanto à questão textual por existirem muitas variantes do referido nome nos manuscritos gregos alegando que “os resultados são inconclusivos por parecer evidente que Júnias era nome tanto de homem quanto de mulher no período neotestamentário” (1997, p. 12-13).

Há também a questão de ser ou não uma apóstola. O autor, com razão, define o termo em seu sentido primário significando mensageiros ou enviados. Todavia, afirma que “esses apóstolos não tinham autoridade de governo em igrejas locais; antes, eram enviados por elas para desempenhar diferentes funções como representantes e emissários” (1997, p. 15). Ou seja, em sua concepção, ainda que se admita que Júnias seja uma mulher, era uma apóstola itinerante, e por isso, não possuía qualquer liderança sobre a igreja

Data vênia, mas essa percepção de Lopes não procede, pois não há como ser um representante sem ter recebido sobre si a autoridade para o desempenho da função para a qual foi designada, isto é, toda apóstola que é enviada pela igreja a pregar o Evangelho está sendo enviada com toda a autoridade não apenas para representar a igreja que a envia, mas também com autoridade do próprio Deus para desempenhar a sua missão. 

Nesse aspecto, se há dúvida quanto a esse versículo, ele não pode ser utilizado nem para afirmar, nem para negar a ordenação feminina. (Os grifos não constam do original). 

Como se vê, a própria Walkiria admite que não se pode afirmar que Júnias fosse uma apóstola. Nem mesmo é possível afirmar que era uma mulher. A mesma dúvida não permanece em quem lê o texto com atenção e depois o contextualiza com as demais palavras de Jesus e do próprio Paulo. Vejamos primeiramente o texto que cita Júnias: 

Saudai a Andrônico e a Júnias, meus parentes e meus companheiros de prisão, os quais são bem conceituados entre os apóstolos, e que estavam em Cristo antes de mim. (Rm 16:7) 

Não é difícil notar que Paulo parece se referir a dois homens. Ademais, o texto não está dizendo que esses dois eram apóstolos. Diz apenas que eles eram conceituados entre os apóstolos, que eram os doze. Não é difícil compreender que um soldado pode ser bem conceituado entre os generais. Isso não significa que o soldado seja general, mas apenas que os generais o têm em bom conceito. Distinguir-se entre os apóstolos não significa, necessariamente, exercer o apostolado. Marcos e Lucas, por exemplo, não eram apóstolos e se destacaram entre eles. 

Afirmar que Júnias fosse mulher contraria inclusive o costume prisional da época, pois não era comum uma mulher ficar presa com homens: “Saudai a Andrônico e a Júnia, meus parentes e meus companheiros na prisão, os quais se distinguiram entre os apóstolos e que foram antes de mim em Cristo” (Rm 16.7). 

Esse esclarecimento já seria suficiente para acabar com a dúvida, mas é bom que consideremos que qualquer entendimento diverso entraria em franca contradição com o contexto do Novo Testamento e com orientações específicas de Paulo, tanto em relação às mulheres como em relação às características que um bispo deveria possuir. 

Do ponto de vista do evangelho de Jesus, não há espaço para incluirmos uma apóstola, pois o mestre não escolheu mulher alguma para essa função, embora as tenha valorizado e recebido assistência delas. 

“13 Depois, subiu ao monte e chamou os que ele mesmo quis, e vieram para junto dele. 14 Então, designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar 15 e a exercer a autoridade de expelir demônios.” (Mc 3:13-15) 

12 Naqueles dias retirou-se para o monte a fim de orar; e passou a noite toda em oração a Deus. 13 Depois do amanhecer, chamou seus discípulos, e escolheu doze dentre eles, aos quais deu também o nome de apóstolos: (Lc 6:12-13) 

Após Jesus, nem mesmo a história da igreja primitiva, contada no livro de Atos dos Apóstolos dá margem a insinuações sobre algum apostolado feminino. Veja-se que após a morte de Judas, os apóstolos buscaram sua substituição, mas nem mesmo cogitaram a possibilidade de escolha de uma das muitas mulheres valorosas que acompanharam todo o ministério do Mestre, senão vejamos: 

21 É necessário, pois, que dos varões que conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus andou entre nós, 22 começando desde o batismo de João até o dia em que dentre nós foi levado para cima, um deles se torne testemunha conosco da sua ressurreição. 23 E apresentaram dois: José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome o Justo, e Matias. 24 E orando, disseram: Tu, Senhor, que conheces os corações de todos, mostra qual destes dois tens escolhido. 25 para tomar o lugar neste ministério e apostolado, do qual Judas se desviou para ir ao seu próprio lugar. (At 1:21-25) 

Ainda no Novo Testamento, observamos que, quando da escolha dos primeiros diáconos, potenciais pastores no futuro (1 Tm 3:13), os apóstolos foram determinantes: “Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete varões” (At 6.3). Mais adiante, no primeiro concílio, em 52 d.C., os rumos da igreja foram traçados por homens (At 15). 

Logo, nem o texto específico nem o contexto neotestamentário permitem considerar que Júnias fosse uma mulher apóstola. É bom lembrar que a própria Walkiria repudia a interpretação de um texto desconsiderando-se seu contexto, senão vejamos: 

“No tocante à interpretação dos textos sagrados, sabe-se que a forma como se interpreta a Bíblia - considerada o manual de fé e prática de todo o cristão - será a forma como se crê, e a forma como se crê será a forma como se vive, como se adora ou não e, também, a forma como se ensina. O que se tem visto são interpretações equivocadas baseadas em textos isolados...” 

Quanto ao argumento da unidade cristã e igualdade entre gêneros, vejamos o texto utilizado por Walkiria: 

28 Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. (Gl 3:28) 

Ora, não é necessário qualquer exercício interpretativo que vá além da leitura dos versos anteriores do próprio capítulo 3, onde temos uma mensagem de salvação e de justificação pela fé, sem se fazer acepção de pessoas, “Pois todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” (Gl 3:26). No quesito de salvação, a inclusão é geral, sem acepções. Mas, isso nada tem a ver com a escolha de bispos, cujos critérios são específicos e delimitados por Paulo em sua carta a Timóteo. 

Tentar dar sentido diferente ao verso citado, para afirmar uma igualdade de gêneros, é promover incoerência e desarmonia no contexto do Novo Testamento. Acolher a tese de Walkiria nesse sentido significaria afastar a soberania de Deus em suas escolhas, o que é temeroso. Embora a salvação seja universal, sem distinção de gênero, isso não significa que o Criador, no pleno uso de sua soberana vontade, esteja impedido de estabelecer, em vários outros pontos, ordem, preferências, prioridades e hierarquias. A leitura de alguns textos bíblicos podem afastar qualquer dúvida a esse respeito, a exemplo de Gn 1; Nm 2; At 15:6, 22; 1 Co 12:28,29; 15:23; 1 Ts 4:16,17; 5:23 etc. Importante notar o modo como Deus estabelece ordem utilizando os termos “primeiramente”; “em segundo lugar”; “em terceiro lugar”; “depois”; e assim por diante. 

Estranhamente, abandonando o que está literalmente escrito, Walkiria parte novamente para o humanismo e apresenta considerações sobre a suposta injustiça que Deus estaria promovendo ao utilizar sua soberania para escolher homens, e não mulheres, ao ministério pastoral. Vejamos as palavras da acadêmica: 

Outro argumento utilizado no que diz respeito a esse versículo é que o apóstolo Paulo está declarando uma igualdade em termos de posição soteriológica diante de Deus. Nesse sentido, todos os que creem são filhos e, por conseguinte, igualmente herdeiros da promessa da salvação. Alegam que o apóstolo não esteja defendendo uma igualdade social entre homens e mulheres diante de Deus. Mas surge a questão: se Deus se importa com o ser humano de forma holística (e se importa), há alguma esfera da vida do homem e da mulher que não esteja diante de Deus? (GRENZ, 1998, p. 109 -110). 

Para que se possa fazer uma interpretação correta dos textos bíblicos, torna-se mandatório refletir de antemão acerca de algumas questões. É correta a assertiva que enfatiza que a Palavra de Deus em determinados aspectos é aplicável somente àquela cultura, para àquela época e não mais ao contexto moderno, ou seja, é possível que alguns textos bíblicos sejam aplicáveis apenas aos primeiros cristãos? Como a práxis daquela época tão remota se torna atual para os cristãos do século XXI? A resposta é simples. O que deve motivar e orientar o estudioso das Escrituras é a busca dos princípios, haja vista que os princípios de Deus são totalmente imutáveis. É o que se buscará a seguir. (Os grifos não constam do original). 

Como podemos notar no trecho transcrito, Walkiria prepara-se para abandonar a literalidade da palavra de Deus para iniciar um exercício interpretativo para se esquivar do que está escrito e apresentar “princípios” que possam se adequar à nossa cultura moderna. Vejamos o texto bíblico a ser examinado: 

Pois não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio. (1Tm 2:12) 

Vejamos, agora o modo como a acadêmica procura justificar a alteração das palavras de Paulo para que se libere o caminho para a aceitação do ministério pastoral feminino: 

Paulo, na primeira Epístola a Timóteo (2.12), é enfático ao expressar que a mulher não ensine. Mas o que Paulo, de fato, desejava com essa instrução? O princípio intencionado por Paulo não era que a mulher não desenvolvesse o ministério de ensino à congregação, mas que, ao fazê-lo, tudo fosse feito “com decência e ordem”, ou seja, a mulher deveria tomar todo o cuidado para não trazer as práticas de outras religiões pagãs para o culto cristão. A preocupação do apóstolo era, tão somente, a de instruir Timóteo no combate às heresias que estavam se infiltrando na igreja de Éfeso. (Os grifos não constam do original) 

A intenção da acadêmica pode até ser boa, mas suas conclusões são presunçosas. Afirmar que Paulo quis dizer algo diferente do que disse é, no mínimo, estranho. O que Paulo queria dizer foi exatamente o que disse: não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio. Por mais que eu não goste ou não concorde, não tenho como mudar as palavras do apóstolo. 

É bom lembrar que logo no capítulo seguinte Paulo orienta Timóteo sobre quais características deveria ter um bispo. Se o Espírito Santo de Deus desejasse incluir a mulher no bispado, poderia ter feito isso sem a menor dificuldade, pois Paulo estava tratando exatamente do que Deus espera do homem e da mulher no contexto da organização da igreja. E no caso das mulheres, Paulo é bastante específico: 

9 Quero, do mesmo modo, que as mulheres se ataviem com traje decoroso, com modéstia e sobriedade, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos custosos, 10 mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras. 11 A mulher aprenda em silêncio com toda a submissão. 12 Pois não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio. (1 Tm 2:9-12) 

Paulo foi muito direto e objetivo, sem medo, rodeios ou tentativas de minimizar o propósito de Deus. Na profissão em que foram chamadas, as mulheres devem aceitar o governo dos líderes homens. Enquanto aprendem, não devem buscar impor suas posições. É necessário aprender a ouvir primeiro. E esta orientação de Paulo a Timóteo está perfeitamente alinhada ao que ele orientou aos Coríntios, senão vejamos: 

26 Que fazer, pois, irmãos? Quando vos congregais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação. 27 Se alguém falar em língua, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e cada um por sua vez, e haja um que interprete. 28 Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus. 29 E falem os profetas, dois ou três, e os outros julguem. 30 Mas se a outro, que estiver sentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro. 31 Porque todos podereis profetizar, cada um por sua vez; para que todos aprendam e todos sejam consolados; 32 pois os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas; 33 porque Deus não é Deus de confusão, mas sim de paz. Como em todas as igrejas dos santos, 34 as mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei. 35 E, se querem aprender alguma coisa, perguntem em casa a seus próprios maridos; porque é indecoroso para a mulher o falar na igreja. 36 Porventura foi de vós que partiu a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós? 37 Se alguém se considera profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor. 38 Mas, se alguém ignora isto, ele é ignorado. (1 Co 14:26-38) 

É inegável que Paulo está se referindo à ordem nas reuniões da igreja. Nessa exata passagem o apóstolo está tratando dos profetas que ensinam por meio da transmissão da Palavra de Deus. O contexto assegura que não foi dada à mulher autorização para se sobrepor àqueles que receberam a profecia. Se elas não concordassem com alguma coisa, deveriam tratar do caso com seus maridos, reservadamente, e não levantando suas questões em público. Gostemos ou não, é exatamente isso que foi ordenado pelo Espírito Santo de Deus por meio do apóstolo Paulo.

Como ser mais claro? Como ser mais enfático? Para que suas palavras sobre esse assunto fossem consideradas acima de qualquer outra interpretação, conselho, preferências pessoais ou achismos, o apóstolo faz uma afirmação de autoridade superior, inquestionável, para afastar qualquer dúvida: “se alguém se considera espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor”. Se desprezar isso, será desprezado. Como afastar uma palavra como esta? Como desprezá-la? Como colocá-la em hierarquia inferior diante de outros textos nada específicos? Ora, se reduzirmos ou alterarmos esse mandamento, para fazê-lo perder o seu sentido, como pretender ser espiritual?

Logo, se uma mulher quer apresentar sua compreensão sobre questões espirituais da igreja devem primeiramente as submeterem a seus maridos ou líderes, no caso de não possuírem maridos. Evidentemente, isso não significa que as mulheres não possam ter opinião ou que não tenham condições cognitivas suficientes para compreender qualquer assunto. Também, não significa que elas não possam questionar algo que lhes pareça errado, mas o texto recomenda que isso seja feito com sabedoria, usando-se meios que não causem ofensa e sem a pretensão de se colocarem em posição de superioridade. Gostemos ou não, foi assim que Paulo ordenou à igreja e isso não se submete ao que a sociedade feminista pensa ser razoável para os padrões modernos quando uma mulher participa ativamente de reuniões, de encontros sociais, de trabalhos profissionais, de magistério nas escolas ou mesmo da política. 

Pessoalmente, acreditamos que a mulher pode até mesmo trazer ensinos na igreja, pela via da retransmissão daquilo que estão aprendendo de suas lideranças. Desse modo, não há interpelações públicas nem desrespeito à autoridade ministerial constituída por Deus. De outro modo, se é para desconstituir a autoridade que Deus elegeu, se é para criar questões sobre o que Deus pode ou não fazer, se é para desconstruir a ordem estabelecida nos relacionamentos entre marido e mulher, melhor ficar em silêncio como ordenou Paulo.

Fazendo apenas a leitura do que está expresso, sem aumentar nem diminuir, fica evidente que a mulher não poderia ter posição de liderança pastoral, o que está em perfeita sintonia com a orientação dada a Timóteo. 

Importante fazer uma ressalva. De fato, algumas questões que envolvem as mulheres já deram muita discussão ao longo da história da igreja contemporânea. E sempre quando parece difícil aceitar um determinado texto, por parecer exageradamente ridículo aos padrões modernos, a solução é validar a passagem bíblica apenas para determinada cultura ou época. Defendemos, entretanto, um esforço maior para receber o que está escrito, pois o próprio Espírito de Deus nos ajuda quando nosso empenho é por colocar em prática a sua vontade.

Por exemplo, quem defende a proibição do corte de cabelo para as mulheres ou o uso do véu, o faz por considerar que há uma ordem expressa de Deus nesse sentido e que não obedecer essa ordem é pecado. Em vez de recorrermos aos costumes relacionados ao tempo de Paulo e das questões das prostitutas que se convertiam, preferimos observar melhor o que o próprio texto e seu contexto nos revelam. Vejamos o texto:

2 Ora, eu vos louvo, porque em tudo vos lembrais de mim, e guardais os preceitos [as tradições NVI] assim como vo-los entreguei. 3 Quero porém, que saibais que Cristo é a cabeça de todo homem, o homem a cabeça da mulher, e Deus a cabeça de Cristo. 4 Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça. 5 Mas toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça, porque é a mesma coisa como se estivesse rapada. 6 Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também; se, porém, para a mulher é vergonhoso ser tosquiada ou rapada, cubra-se com véu. (...) 10 Portanto, a mulher deve trazer sobre a cabeça um sinal de submissão, por causa dos anjos. 11 Todavia, no Senhor, nem a mulher é independente do homem, nem o homem é independente da mulher. 12 pois, assim como a mulher veio do homem, assim também o homem nasce da mulher, mas tudo vem de Deus. 13 julgai entre vós mesmos: é conveniente que uma mulher com a cabeça descoberta ore a Deus? 14 Não vos ensina a própria natureza que se o homem tiver cabelo comprido, é para ele uma desonra; 15 mas se a mulher tiver o cabelo comprido, é para ela uma glória? Pois a cabeleira lhe foi dada em lugar de véu. 16 Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem tampouco as igrejas de Deus. (1Co 11:2-6; 10-16)

Primeiramente, podemos observar que o texto citado não nos indica que o corte de cabelo é pecado para mulheres cristãs, tampouco exige o uso de véu. É importante notar que desonra própria não é pecado. Por essa razão, o texto apresenta sempre a condicional “SE”, deixando para a mulher decidir o quanto se sentirá desonrada com o cabelo tosquiado – “julgai entre vós mesmos”. Neste caso, SE isso for desonra para ela, o véu é uma alternativa. Mas, para que o próprio texto nos liberte de contendas, Paulo encerra dizendo que isso não merecia maiores discussões, “mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem tampouco as igrejas de Deus”. Portanto, por não se tratar de pecado e nem afetar terceiras pessoas, mas dizer respeito apenas à desonra própria, Paulo encerra o assunto afirmando que essa tradição não deveria ser motivo de contendas nas igrejas de Deus.

No caso do “ensino feminino” além de termos orientações similares em duas epístolas, é bom lembrar que essa questão não se refere ao âmbito pessoal (individual), pois implica autoridade sobre terceiras pessoas, de modo que podemos, sem medo, defender que não convém que a mulher assuma posição conferida ao homem pela doutrina neotestamentária

Avançando um pouco mais na tese de Walkiria, percebemos que ao se esgotarem seus argumentos bíblicos, a última parte de seu estudo fixa-se apenas em considerações humanistas, senão vejamos: 

No que diz respeito a essa ordem, ou seja, ter sido o homem criado primeiro que a mulher e quanto à questão do pecado e da queda, indaga Liefeld em sua obra Mulheres no Ministério Feminino (1996, p.157): 

Existe algo inerentemente diferente nos homens em relação às mulheres que faz com que aqueles sejam capazes para o ministério e estas não? De que forma a queda teria afetado a capacidade da mulher para o ministério? De que forma a redenção de Cristo afetou as consequências da queda? 

Resta saber qual é o principio que se abstrai dessa sequência da ordem de criação narrada no versículo 13 de 1 Timóteo. Certamente não é o grau de importância do homem sobre a mulher; mas, sim, que o primeiro a ser criado, o homem, serve de modelo a ser seguido pela segunda, ou seja, pela mulher. 

Apenas com o escopo de confirmar esse princípio e, negar o grau de importância de criação que coloca o homem como superior à mulher, se a ordem da narrativa da criação de Deus fosse para evidenciar escala de importância de um sobre o outro, certamente a natureza e os animais teriam supremacia sobre a humanidade, visto que aqueles vieram primeiro à existência, o que na prática não se vislumbra.

Considerando o que foi visto até aqui e no sentido de se aprofundar no cerne da questão pastoral feminina, Liefeld (1996, p. 155) indaga: “Deveria o ministério cristão, que segundo todos os testemunhos das Escrituras é um ministério de natureza espiritual, ser limitado pelo gênero do ministro, que pela sua natureza constitui uma distinção humana?” 

Castro afirma que “homem e mulher formam a humanidade e fazem parte da mesma humanidade”. Nesse sentido, em não havendo diferença antropológica entre homem e mulher, muitas atitudes são totalmente descabidas como, por exemplo, a existência de critérios diferenciados de seleção ou até mesmo sua inexistência, até porque os “dons são distribuídos livremente pelo Espírito em sua graça” (ano I, 2010, p.43).

Indo mais adiante, o referido autor afirma com muita propriedade: “se a distribuição fosse condicionada conforme a categoria da pessoa a Teologia da Graça de Paulo entraria em contradição, pois o Espírito ficaria limitado ao gênero da pessoa” (ano I, 2010, p. 43)

Ora, nós bem sabemos que as mulheres são tão capacitadas intelectualmente quanto os homens para qualquer tarefa. Também sabemos que Deus ama a todos igualmente e que Deus pode distribuir dons livremente, mas isso não muda o texto bíblico e não nos dá o direito de dizermos ao soberano quem ele deve separar para uma missão. Se Deus escolheu o homem, só temos de aceitar, por mais que eu pense que seria melhor ter uma mulher no comando da igreja. É exatamente pela submissão à vontade de Deus que o homem não pode abrir mão de seu chamado.

Enfim, quanto mais argumentos humanistas, menos bíblia. Se a palavra de Deus concordasse com os que querem abrir espaço para o ministério pastoral feminino, poucos parágrafos bastariam para fundamentar com segurança esse propósito.

Análise histórica como fundamento para admissão da mulher ao ministério pastoral 

Neste tópico, não há textos bíblicos a serem analisados. Entretanto, é preciso reconhecer a propriedade das palavras de Walkiria quando nos lembra do quanto as mulheres sempre foram importantes tanto no ministério de Jesus (Lc 8:1-3) como em todo o desenrolar da história da igreja. 

Mulheres podem anunciar Jesus, o salvador (Jo 4:28-30), orar pelas causas da igreja (At 1:14) e desempenhar todas as tarefas de um seguidor de Jesus (Mt 27:55) com grande eficiência e sem nenhuma distinção. Isso é inegável, mas não muda o fato de Deus em sua soberania ter separado homens para o ministério pastoral, de modo simples e objetivo, dando-lhes a incumbência de liderar a família e o ministério.

Relevante notar que Walkiria reconhece que os impeditivos para a ordenação de mulheres ao ministério pastoral são firmados nas escrituras sagradas, senão vejamos:

De fato, o Congregacionalismo brasileiro tem delegado a ocupação do ministério pastoral somente aos homens e, para justificar tal ato, os líderes têm se valido da Bíblia como fundamento.

Sim, a acadêmica está corretíssima ao afirmar que a bíblia é o firme fundamento de quem defende a vontade de Deus sobre todas as questões, vontades e preferências humanas. Essa, entretanto, não foi sua opção. Ao final de seu estudo, Walkiria deixa claro que, em sua avaliação a Palavra de Deus precisava de uma releitura (ajustes?) porque as mulheres têm sido alvo de discriminação, ao passo que são colocadas em segundo plano na igreja:

Para buscar a razão desse posicionamento, tentou-se demonstrar nesse artigo que as mulheres têm sido alvo de muita discriminação não só no seio da sociedade, como também na igreja. Elas vêm sendo relegadas à posição de importância inferior.

(...)

O cerne desse artigo se fixou em apontar princípios no sentido de tornar possível à mulher congregacional a sua presença e atuação nos púlpitos das igrejas da referida denominação. Para isso, esse trabalho se valeu de uma releitura bíblica tanto do Antigo quanto do Novo testamento, em descompasso com a ideologia dominante. (Grifamos).

Infelizmente, não podemos concordar com a acadêmica. É impróprio propor mudanças sobre a escolha de Deus simplesmente porque achamos que ela não cabe dentro dos nossos conceitos de justiça e razoabilidade. Por mais difícil que seja, precisamos ler o que está escrito e não propor releitura para chegar a conclusões adaptadas ao nosso querer. O criador nos deixou claro que sua escolha pode até parecer loucura para o homem natural, mas é a expressão de sua sabedoria e soberania:

“25 Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. 26 Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; 27 pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; 28 e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; 29 a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus.” (1 Coríntios 1:25-29 RA)

Portanto, o humanista pode ter razão em suas considerações sobre a justiça e a igualdade segundo os conceitos dos homens, mas certamente não compreende a loucura de Deus, pois sua Palavra se discerne espiritualmente:

“Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.” (1 Coríntios 2:14 RA) 

Conclusão 

Após analisar todos os argumentos apresentados na tese de Walkiria, concluímos que defender a ordenação de mulheres ao ministério pastoral é admitir alteração da Palavra de Deus em favor da demanda social contemporânea.

Parece-nos que essa é apenas mais uma heresia entre tantas outras que se firmam no meio evangélico. Mas, quem está se importando com isso? Em um ambiente com tantas distorções bíblicas, uma a mais ou uma a menos não faz muita diferença. Depois que aceitamos uma heresia, as seguintes são mais fáceis de admitir, pois naturalmente “um abismo chama outro abismo...” (Salmos 42:7).

Na prática, assiste razão à Walkiria quando afirma que “não há como escapar do inevitável: a ordenação pastoral feminina tanto no âmbito congregacional quanto no de outras denominações é apenas uma questão de tempo”.

Isso é um fato. Tememos, entretanto, que outros abismos se aproximem e do mesmo modo que a igreja hoje admite alterações bíblicas para acomodar o clamor da modernidade em sua doutrina, avance cada vez mais na fragilização da relação conjugal, na desestabilização da família e na desconstrução dos princípios de Deus para a Igreja. Também, receamos que, ao fim, os teólogos humanistas façam com que a Igreja, para não cair em contradições, admita outras adaptações sob o argumento de afastar o radicalismo para com as pessoas que fizeram opção sexual diferente das previstas por Deus para os seus filhos.

Portanto, se isso é inevitável, só nos resta pedir a Deus que proteja as mulheres de si mesmas, que tenha misericórdia dos homens diante de suas omissões, que preserve a igreja de seus líderes e que livre as famílias de sua desconstrução.

“8 Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. 9 Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema.” (Gálatas 1:8-9)

Observação final

O presente estudo foi elaborado para firmar, no âmbito da Igreja Cristã Celeiros (ICC), nosso posicionamento acerca da consagração de mulheres ao ministério pastoral. Evidentemente, compreendemos as opiniões contrárias e respeitamos quem pense de modo diverso, mas é importante que os membros da igreja conheçam os fundamentos da doutrina que defendemos ao admitir somente homens para essa missão.Por fim, é importante esclarecer que, embora não tenhamos pastoras em nossa igreja, respeitamos quem assim se designe.

Em 24 de novembro de 2009

Pastor Sólon Pereira 

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