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Testemunhos

Minha experiência como ex-pastor da ICM

Este é meu testemunho referente ao período em que fui membro e pastor da Igreja Cristã Maranata (ICM). 

Com todos os problemas enfrentados e os questionamentos que me sobrevieram ao longo dos quase 20 anos como membro da ICM, não posso negar que lá Deus me concedeu muitas bênçãos, principalmente o conhecimento da salvação que há em Cristo Jesus nosso Senhor. Mas, também, não posso negar que devido à formação espiritual que recebi na ICM não tive como compreender a plenitude do amor de Deus, em especial quanto ao mandamento de amar o próximo. Somente hoje, congregando em outra denominação evangélica, posso ver o quanto minhas atitudes em relação ao corpo de Cristo estavam em desarmonia com a palavra de Deus. 

Minhas observações podem parecer contundentes, eu sei, mas não se dirigem a ninguém especificamente. Deus ama a todos e deseja salvar a todos. Desde que deixei a ICM, iniciei uma busca pela recomposição de tudo aquilo que considerei perdas do passado. Nessa busca, acabei descobrindo muitos sentimentos que, seguramente, Deus não queria que eu cultivasse em minha alma. Então, experimentei, pela primeira vez, a cura interior que eu só conhecia de ouvir falar. 

No processo de cura, logo identifiquei um gigante que eu tinha que derrubar – a soberba. Devido à minha formação espiritual, eu olhava para os demais crentes de cima para baixo. Era arrogante a ponto de nem querer ouvir a colocação dos outros. Minha prepotência impedia que eu concordasse com quem pensasse diferente de mim - eu estava sempre certo e ponto final. Essa soberba alimentava o meu egoísmo, impedindo que eu enxergasse a realidade do mundo espiritual, no que diz respeito ao amor ao próximo. O próximo, para mim, era somente aquele que pensava como eu. 

Hoje, louvo a Deus, porque sinto que escapei da queda, que é o prêmio dos soberbos, conforme nos ensina a palavra de Deus em Prov. 16:18. Por isso, faço essa reflexão sem a pretensão de ser o dono da verdade, mas com a disposição de me retratar publicamente se alguma de minhas palavras não conferir com a verdade. 

Compartilhar os fatos por mim vividos não é algo fácil, pois seria menos trabalhoso ignorar estas coisas que ficaram para trás. Entretanto, quando penso nas pessoas que podem estar vivendo o mesmo que eu vivi, e conhecendo o caminho do livramento, entendo que não posso me omitir. 

Assim, encho-me de ânimo e coragem para contar minha história e apresentar os meus questionamentos, que seguiram a minha jornada enquanto membro e pastor da ICM, na certeza de poder ajudar aqueles que já entenderam que precisam de mudança em suas vidas. 

ESCLARECIMENTOS INICIAIS 

Querer conhecer a verdade não é pecado. Questionar não ofende pessoas que têm respostas a dar. É preciso destacar que Paulo admirou o comportamento dos crentes de Beréia, quando os comparou aos crentes de Tessalônica, vez que os primeiros buscavam a constatação das escrituras sagradas acerca do que Paulo lhes ensinava (At 17:11). Paulo, mesmo consciente de que falava pelo Espírito Santo de Deus, não os recriminou pela atitude de desconfiança. Ao contrário, os elogiou. Também, nos ensina a palavra a provar os espíritos, uma vez que estamos advertidos da existência de muitos falsos profetas em nossos dias (1 Jo 4:1). 

Quero ressaltar que tenho plena consciência de que Deus não quer que façamos julgamento de pessoas. Entretanto, não há como apagar os textos bíblicos onde somos orientados a julgar fatos, situações, acontecimentos e doutrinas. Tudo isso com toda honestidade, olhando primeiramente para nós mesmos

O próprio Paulo combateu falsas doutrinas que estavam penetrando na igreja e nós devemos fazer o mesmo. Assim, podemos julgar uma doutrina ou ensinamento a luz da bíblia, mas não nos convém julgar seus mentores ou praticantes, pois isso compete ao Senhor Deus. Por exemplo: podemos dizer que Deus abomina o homicídio. Podemos, ainda, dizer que “A” é um homicida, se isso for um fato. Podemos afirmar que os homicidas não entrarão no reino de Deus, se não se arrependerem. Mas, não nos compete afirmar que “A” não será salvo, porque isso pertence a Deus. O próprio Senhor Jesus disse que veio para salvar o homem e não para julgá-lo (Jo 12:47). 

Jesus recriminou o julgamento hipócrita dos fariseus, que não olhavam para sua condição de cegos (com uma trave impedindo a visão) e desejavam enxergar o cisco no olho dos outros. Jesus disse: “tira primeiro a trave que está no teu olho e assim enxergará claramente para tirar o cisco do olho do teu irmão”. Com base neste ensino de Jesus, posso afirmar que Jesus não proibiu que julgássemos as falhas dos outros, mas que primeiro identificássemos as nossas próprias e, após reconhecê-las e eliminá-las de nossas vidas, pudéssemos ajudar aqueles que têm problemas semelhantes aos que nós um dia vivemos. Por isso, fui encorajado a contar o meu testemunho pessoal, esclarecendo que não foi nada fácil reconhecer a minha soberba. 

Agora, estou certo de que meu testemunho pode ajudar muitas pessoas que estejam passando pelo que eu passei e que desejam enfrentar o medo e a dor de permitir que outra pessoa coloque o dedo em seu olho para tirar o cisco ali existente. Procurarei fazer isso com a cautela de um cirurgião, do mesmo modo que um dia fizeram comigo. No primeiro instante doeu, mas hoje sou grato porque alguém teve paciência e disposição para insistir comigo e me mostrar o que eu realmente era. 

Discorrerei apenas sobre as angústias que vivi na ICM, que podem, ou não, ser as mesmas vividas por outras pessoas. Meu relato não é uma denúncia ou um ataque pessoal a quem quer que seja, mas apenas um testemunho de vida. O que eu digo que vivi, vivi. É o meu testemunho de vida, que posso contá-lo livremente. Isso é inquestionável e nada tem a ver com o que as pessoas acham que é ou não é verdade. Logo, se alguém acha que as coisas não são bem assim, isso não muda nada o que eu e a minha família vivemos e sentimos. 

Por fim, quero ressaltar que respeito a experiência de todos. Se alguém disser que os fatos que passarei a relatar não acontecem com ele, ótimo, glória a Deus! Afinal, os sãos não precisam de médico. E quem tudo sabe, nada tem a aprender. 

MEU TRAJETO NA ICM 

No mês de março de 1988, aos 19 anos de idade, fui convidado por uma jovem a visitar a Igreja Cristã Maranata localizada na QE 30 do Guará-II/DF. Essa era a primeira vez que eu visitava, espontaneamente, um culto evangélico. Recebi especial atenção naquele dia e gostei daquele lugar, ao qual passei a frequentar regularmente. Como eu não tinha qualquer conhecimento bíblico, tudo que me era ensinado eu aceitava como verdade absoluta e as pessoas me pareciam bastante sinceras e comprometidas com Deus. Li a bíblia com grande interesse e tirava minhas dúvidas com os obreiros da ICM e com a jovem que me convidou para o primeiro culto, com a qual me casei oito meses mais tarde.

No mês de julho de 1988, após ter assimilado boa parte das regras de comportamento dos membros da ICM, participei do seminário de principiantes, realizado no Maanaim de Vitória-ES e aprendi o abecedário da Maranata: O,B,D,C. Uma alusão à obediência incondicional que, na verdade, é o princípio da preparação mental para se receber os demais ensinos. 

No ano de 1992, após passar pelos testes de fidelidade e obediência às normas da igreja, fui levantado para exercer o diaconato e no mês de março de 1999 fui ungido ao ministério pastoral.No exercício do ministério, servi às igrejas Maranata no Paranoá (1999/2001), Lago Norte (2001), Sobradinho, Q. 7 (2002), Setor de Mansões de Sobradinho (2003/2004) e, por último, no Grande Colorado-DF (2004/2005). 

No mês de março de 2005, tomei a decisão que há anos eu desejava tomar, mas não tinha coragem. Deixei a igreja e fui a busca de algum lugar onde eu pudesse servir ao Senhor com mais liberdade. Sentia-me como Lázaro. Estava vivo, mas alguém precisava me ajudar a desatar as faixas que me prendiam. 

O processo do desligamento 

Meu desligamento da ICM foi um dos processos mais dolorosos da minha vida. Felizmente, agora é coisa do passado e não mais me incomoda. 

Eu já sabia que aquilo deveria ser feito, mas tinha muito medo. Esse medo, segundo a minha interpretação, é provocado e cultivado pela própria igreja, de modo a imobilizar seus membros e demovê-los da ideia de se desligarem de sua estrutura. 

Talvez isso seja um processo natural de agregar as pessoas e estimulá-las a permanecerem juntas na mesma estrutura, mas eu me sentia aterrorizado constantemente. 

Vou relacionar exemplos de coisas que eu ouvia com frequência, especialmente nos seminários da igreja, e que me atemorizavam: 

Sair da “obra” significa queda e perda de salvação eterna – como “obra” significa ICM, cria-se um conceito de que sair da ICM significa “cair” da fé. Para fixar bem este conceito há uma aula de Maanaim chamada “Síndrome da Queda Espiritual”, onde é ensinado ao fiel que qualquer questionamento, insatisfação (“a obra não é mais a mesma”), desconforto com o que se ensina na ICM (murmuração), bem como o desejo de se afastar da “obra” (ICM) é sinal ou sintoma de que se está prestes a “morrer espiritualmente”, “cair”, ou seja, perder a salvação eterna . Há, também, um estudo de seminário sobre a carta de Judas, em que os questionadores são comparados a homens possuídos por demônios e conspiradores (Caim, Coré, Datã, Abirão, Judas Iscariotes e Balaão) ; 

Não há outra “obra” além desta, pois esta “obra”é filho único – ou seja, somente na ICM há salvação. Para que se possa constatar a realidade deste fato, basta conferir uma mensagem do seminário da ICM onde a liderança faz essa menção. 

Pastor que deixa a “obra” (ICM) perde a unção e não deve ser reconhecido nem chamado de pastor. Por exemplo: em conversa de uma irmã da ICM com seu pastor, esta se referiu a um pastor que havia deixado a ICM chamando-o de pastor fulano. Foi imediatamente corrigida por seu pastor que disse: “pastor não!”. A irmã tentou se corrigir e disse: “o irmão fulano”. Novamente seu pastor a corrigiu, dizendo: “irmão não!” . A forma correta de se referir a um ex-pastor da ICM é pelo nome, sem as referências “pastor” ou “irmão”. Fatos como esses deixam subliminarmente a ideia de que uma pessoa que deixa a ICM perde inclusive a condição de salvo, uma vez que nem é mais considerada um irmão em Cristo. 

Fora a obra, tudo o mais é “religião” e “movimento” , que acabarão em misticismo e morte. Exemplos de nomes de igrejas que se incluem, ou não, nessas expressões (religião e movimento) nunca são dados, levando o membro a entender que todas as outras denominações, mesmo evangélicas, são “religião” ou “movimento”. São dados exemplos de falhas e pecados observados nas demais igrejas para insinuar que nada além da “obra” (ICM) presta ou tem algum valor. Afirma-se que o mundo evangélico é estéril e não produz resultados. Apenas a “obra” (ICM) é o corpo de Cristo. 

Para que o leitor possa ter uma breve ideia do que estou relatando, vou transcrever a seguir alguns trechos de mensagens gravadas nos seminários da ICM, cujos vídeos foram editados e postados no seguinte endereço do youtube (http://www.youtube.com/watch?v=C4bQPmTQLtw): 

“Meus irmãos... filho único, essa obra é filho único. Quem não conhecer essa obra e não amar essa obra como filho único, ele não vai... ele vai cair como o ministério de Eli. Porque esta obra, meus irmãos, esta obra... preste bem atenção no que eu estou dizendo... todos trabalham pra ela... porque os fiéis vão vir para ela, onde eles estiverem eles vão vir para essa obra, eles vão reconhecer... O fiel! ... O infiel não!... Ele vai continuar... é meia sola mesmo e vai embora. Agora, a obra, meus irmãos, é filho único (...) Meus irmãos a nossa preocupação... toda a nossa preocupação, tudo o que nós falamos, tudo o que nós vivemos é a obra... Samuel, meu filho, Samuel meu filho... como você é querido”. Essa obra é assim... essa obra é querida. Almoçamos a obra, jantamos a obra, dormimos a obra, madrugamos a obra, acordamos a obra, trabalhamos! E obra está no nosso coração. Quando não é assim não é a obra... é uma religião... é uma religião e religião ela vai acabar com a sua vida, mas a obra é filho único. É aquilo que nós temos todos os dias da nossa vida, enquanto nós vivermos. Meus irmãos, nós não temos outro lugar para ir. Não há um outro lugar para nós. Esta é a obra do Espírito!.”

“E Jônatas morreu com Saul, amava Davi, mas ficou com Saul, morreu com ele. Quem ama a obra precisa vir pra obra. Eu estou lá, mas amo a obra. Não! Você ama a obra, você vem pra obra. Seja coerente, porque os seus atos é que dizem a seu respeito. Então, Davi ensinou uma obra nova. A obra de Davi, os atos de Davi, obra pra valentes. Ali os irmãos vão ver os atos de Davi... e a obra de Davi é a obra que Deus ama. Os atos de Davi são os atos que os irmãos devem procurar fazer para agradar ao Senhor. O texto que lemos no início: houve uma grande guerra, uma, aliás, uma longa guerra entre a casa de Saul e a casa de Davi, mas Davi ia crescendo e Saul ia diminuindo (...). Mas, na vida do servo Davi vai crescer e a obra de Saul vai desaparecer. 

“Então, o crescimento da obra, o que ela alcançou, realmente é um segredo na obra. É alguma coisa... está acontecendo alguma coisa... é diferente. Então a Igreja Cristã Maranata ela não surgiu... Não, a igreja Cristã Maranata ela surgiu de um racha... não é? Rachou! Quem? Ou, a cabeça de quem? ... Não! Não! Ó, dividiu... nada disso! Então a igreja, se começa com 10, 12 pessoas, não houve racha nenhum. Não é? Ó! A igreja Maranata lá de, de tal, rachou! Como? Três pessoas saíram! Ah! Não é? A três pessoas não! Se saiu 3 pessoas, Ele tirou uma unha encravada. Não mexeu em nada do corpo, pelo contrário, deu um alívio, não é? Porque tirou um negócio ruim... deve ter sido...” 

Devo esclarecer que, embora eu tenha o conteúdo de todos os períodos dos seminários da ICM gravados em vídeo, não faço a menor ideia de quem tenha editado e postado os trechos que citei. Também, não significa que eu concorde com tal exposição, mas apenas os citei para demonstrar que há outras pessoas que perceberam o mesmo que eu percebi. 

Além dessas insinuações acerca da exclusividade da salvação e do conhecimento pleno da vontade de Deus na ICM, eu ouvia, também, algumas histórias que eram contadas para desencorajar qualquer pensamento em deixar a igreja. Seguem alguns exemplos: 

Sair da “obra” (ICM) é loucura – eu sempre ouvia, daqui e dali, que várias pessoas que saíram foram acometidas de doenças graves. Outras que se envolveram em acidentes e outras que sofriam com mortes na família, destruição etc.; 

Esta é a última “obra” antes do arrebatamento da igreja - expressões como essas reforçavam em mim a ideia de exclusividade da salvação na ICM; 

 •A revelação que no princípio estava com a Igreja Assembleia de Deus, quando Daniel Berg trouxe o evangelho para o Brasil, agora foi transmitida para a ICM, uma vez que a Assembleia se envolveu com a política – não sei exatamente de onde tiraram essa afirmação, mas, de qualquer modo, subia um temor ao meu coração, especialmente porque sempre admirei o trabalho dos nossos irmãos assembleianos; 

Não há caminho de volta para pessoas que ofenderam a “obra”. Não há lugar de arrependimento para aqueles que tocam no corpo de Cristo (contestam a ICM), tal qual fez Judas ao trair Jesus com um beijo - ouvi repetidas vezes a história de um pastor que, de algum modo, ofendeu a “obra” e depois de ter saído se arrependeu. Este foi acometido de uma enfermidade grave e estava com seus dias contados. Seu último pedido foi dirigido à liderança da ICM. Ele queria, antes da morte, visitar o Maanaim-ES (local onde se realiza os seminários da igreja). A liderança da igreja não permitiu, afirmando que Deus não havia consentido; 

Os arrependidos que voltam serão renegados à condição de crentes de segunda categoria. Na grande maioria, os arrependidos que voltam não podem mais galgar a mesma posição que ocupavam antes de deixar a ICM, mesmo que se humilhem e voltem a cumprir todas as regras da ICM. É claro que isso nunca é dito abertamente a eles. A dificuldade que esses irmãos enfrentam para serem reintegrados serve para desencorajar aqueles que pensam em sair. 

Com tudo isso, não é difícil entender o medo que eu sentia só de pensar em sair da ICM. 

Não bastasse isso, a liderança da igreja “desaconselha” (proíbe) contato com ex-membros. Éramos orientados a não nos relacionarmos com pessoas que deixassem a igreja. Então eu pensava: se eu sair, nem eu nem minha família teremos mais com quem nos relacionar. Isso era desesperador. Eu sabia que se saíssemos da igreja perderíamos todos os amigos com quem nos relacionávamos quase que exclusivamente! Ou seja, deixar a igreja seria uma exclusão espiritual e social, nos desalojando do nosso centro social, deixando-nos moribundos nesta terra. 

No meu caso, uma vez que eu já havia percebido que essas e outras coisas não estavam alinhadas com a palavra de Deus, fui ficando incomodado e, cada vez mais, sentia que eu tinha que me libertar daquela situação, apesar do medo que eu sentia de destruir minha vida e minha família. 

O medo só foi superado pela coragem. Alguma coisa tinha que ser feita e eu precisava assumir todos os riscos. 

Inicialmente, como eu não dava ouvidos a ninguém que ousasse criticar a “obra” (ICM), não tinha como esclarecer minhas dúvidas. O que me ajudou a pensar sobre a situação em que eu estava foi a leitura de livros evangélicos . Somente depois disso, passei a ouvir atentamente o que outros irmãos de outras denominações tinham a dizer sobre alguns assuntos. A partir daí, comecei a criar a coragem de pedir o meu desligamento do ministério pastoral da ICM, já que fui observando que havia servos de Deus em outros lugares além da Maranata e que esses servos também ouviam a voz do Senhor, apesar de não adotarem as práticas da ICM. 

Em seguida, fui encorajado ao conversar com algumas pessoas que haviam saído da ICM e estavam servindo a Deus em outras denominações e não haviam morrido, nem sofrido acidentes graves, nem pessoas de sua família tinham sido atingidas por enfermidades graves etc. 

Comecei a notar que aconteciam acidentes com os membros da Maranata, do mesmo modo que aconteciam com qualquer outra pessoa ou crente de outras denominações. Por exemplo: segundo fiquei sabendo, em um curto espaço de tempo, em um só acidente morreram vários pastores que estavam em um ônibus que se dirigia para o Maanaim do Rio de Janeiro – uma tragédia que muito nos comoveu. Dois obreiros da igreja morreram em um acidente quando retornavam do Maanaim de Brasília em direção à Goiânia – isso foi muito triste para nós pastores. O meu atual pastor, que também deixou a Maranata, viveu o maior drama da sua vida naquele tempo. Sofreu um grave acidente quando se dirigia para o Maanaim de Brasília, ocasião em que sua esposa faleceu. A filha de um pastor responsável pelo Maanaim de Divinópolis-MG caiu de um prédio onde morava e veio a óbito – todos ficamos chocados com aquele fato. 

Sabendo disso, era difícil aceitar a ênfase que se dava às desgraças alheias, especialmente de ex-membros, insinuando pecado ou desajuste espiritual. Isso era lamentável.

Com um pouco de observação, pude notar que todos nós estávamos sujeitos aos fatos da vida, independentemente da igreja que frequentássemos. Percebi que mortes, acidentes e enfermidades são acontecimentos que fazem parte da vida e que todos os vivos estão sujeitos a eles, sejam membros da ICM ou não. Ficou claro para mim que ser membro da ICM não me dava imunidade a esses fatos. 

Quando comecei a admitir a possibilidade de deixar a ICM, Deus começou a abrir os meus olhos, tanto por meio de sonhos como por meio das minhas observações e leituras diárias. Antes, não adiantaria ninguém tentar falar comigo, pois eu era arrogante e soberbo o suficiente para não ouvir o que as pessoas falavam, uma vez que eu estava certo e isso era inquestionável. Ademais, eu sentia pena das pessoas que não eram da ICM e estavam perdendo tempo com “religiões e movimentos”, caminhando para o misticismo e para a morte

Mas, quando comecei a admitir que eu podia estar errado, cego e enganado, passei a ouvir atentamente as opiniões contrárias sem me insurgir, de pronto, contra elas. Comecei a analisar as possibilidades antes de afirmar minha posição. Foi quando um amigo, ex-colega de trabalho e hoje pastor da igreja de Cristo, começou a me mostrar algumas incoerências do mundo espiritual em que eu vivia. Foi ele quem me mostrou pela primeira vez o texto “A sua mente está sendo controlada?”. Fiquei surpreso com as inúmeras coincidências com a minha realidade (este texto está disponível para download na seção de artigos do site http://bit.ly/zhyn70. 

Também, fui conscientizado que “corpo de Cristo” não era sinônimo de Igreja Cristã Maranata, tal qual havia absorvido na ICM. Quando a Maranata trazia ensinamento sobre o “corpo de Cristo”, todas as referências eram sobre a comunhão entre os membros das igrejas da Maranata, excluindo-se dessa comunhão os demais evangélicos e igrejas evangélicas existentes. É como se toda a comunhão do corpo com o “cabeça” se resumisse à comunhão dos membros, dos ministérios e das igrejas da Maranata com Cristo.

Depois que tomei consciência que “corpo de Cristo” inclui todos os salvos, independentemente da denominação em que frequentam, comecei a ficar triste quando tinha que assistir as aulas de seminários que ridicularizavam as outras denominações evangélicas, as quais recebiam a classificação de “religião” (no sentido pejorativo) ou de “movimento” (também pejorativamente). Para mim, aquela era uma atitude soberba e arrogante, incompatível com o evangelho do Senhor Jesus. Sobre o assunto, escrevi um texto sobre “o corpo de cristo e o sectarismo”, o qual também está disponível no site http://migre.me/7skOM (vale a pena ler e refletir). 

O tempo foi passando e, em determinado momento, houve uma onda de descontroles na Maranata em Brasília. Um pastor, coordenador de um polo de igrejas no DF, ao dar uma aula no Maanaim-DF, em um encontro de jovens da igreja, estimulou o público a dizer “eu te amo Jesus”. Houve um quebrantamento geral dos jovens, que até mesmo proclamavam arrependimento de pecados. O que parecia, inicialmente, ter sido uma visitação do Espírito Santo de Deus, foi considerado pela liderança da igreja como uma atitude incompatível com os ensinamentos da igreja. Segundo eles, aquilo era coisa de “movimentos” carnais e não uma ação do Espírito de Deus. 

O pastor que promoveu aquele “movimento profano” primeiramente foi exposto a uma situação constrangedora diante de todos os pastores do DF, em uma reunião de pastores. Ouviu o que não queria e ficou o tempo todo calado diante de todos. Em seguida, foi chamado a dar explicações ante a liderança da igreja, em Vitória-ES. Ali solicitaram que ele publicamente reconhecesse que errou e que aquilo não vinha de Deus. Como ele se negou, sofreu a pena dos rebeldes e acabou excluído da igreja de modo vexatório. Realizaram-se reuniões no Maanaim de Brasília em que a honra desse pastor foi aniquilada diante de grande parte da igreja de Brasília. 

Foi um alvoroço, o pastor ficou arrasado e teve toda a sua vida abalada. As pessoas que tentaram apoiá-lo também ficaram prejudicadas. Eu fiquei angustiado e assustado ao ver do que a liderança da igreja era capaz. A forma que se atinge a integridade moral de um colaborador de anos de igreja e o descarta como uma peça sem valor, para mim, era aterrorizante. Assisti a um verdadeiro festival de acusações e referências desonrosas a esses irmãos. Tudo isso dito de um púlpito de seminário cristão, infelizmente.

Naquela onda de desvarios, o líder da Maranata ordenou que uma carta fosse lida aos ouvidos do povo, na qual não consegui notar nenhuma misericórdia. Uma orientação, em especial, foi chocante: “se passarem por esse tipo de gente na rua não cumprimentem, pois quem toca em morto fica imundo”, numa alusão à proibição de tocar em cadáver pela lei de Moisés (Num. 19:13). Ou seja, o homem que uns dias antes era considerado uma bênção pelos membros da igreja estava sendo comparado a um cadáver podre, com o qual ninguém deveria ter contato. 

O ocorrido com aquele pastor muito me incomodava. Comecei a me sentir um refém da igreja e ameaçado em minha honra, caso discordasse de alguma dessas orientações. Ora, qual deveria ser a minha motivação? O genuíno amor por Deus, pela Obra do Espírito Santo, pelo meu grupo, etc., ou o medo de não atender aos padrões desejados e ser execrado de público. Passei a temer por mim e por minha família, uma vez que não conseguia perceber o exercício da misericórdia nas atitudes da liderança da igreja. 

Ora, como eu já estava discordando de vários posicionamentos da igreja, temi ver minha honra, a da minha mulher e de minhas filhas maculadas publicamente. Como qualquer homem, eu necessitava de um ambiente seguro para mim e para minha família. Como eu não mais me sentia seguro ali, concluí que eu não tinha saída. Eu tinha que criar coragem e deixar tudo aquilo para trás. 

Estava decidido. Mas como fazer isso? Eu já tinha ouvido histórias de pastores que eram chamados a dar explicações a uma comissão de pastores e eram humilhados diante de todos. Por essa situação eu não queria passar. Assim, preferi escrever uma carta à liderança da igreja pedindo o meu desligamento. Como eu amava (e ainda amo) a igreja e os irmãos da congregação que eu pastoreava e não queria prejudicá-los, já que não tinham a mesma consciência que eu, decidi que não haveria despedidas nem esclarecimentos, de modo que todos poderiam ficar pensando o que quisessem. 

No dia seguinte ao meu desligamento, fiquei sabendo que uma comissão de pastores reuniu o principal grupo da congregação que eu pastoreava (grupo de intercessão) e fizeram a seguinte afirmação: “caiu mais um valente”. Ou seja, a minha saída da igreja foi tratada como uma queda espiritual, de alguém que havia perdido a salvação.

PRIMEIROS MOMENTOS COMO EX-MEMBRO DA ICM 

Hoje é só história, mas passei alguns momentos difíceis. A verdade é que o membro da ICM só a conhece plenamente no dia em que a deixa. Somente hoje sei exatamente o tratamento dispensado aos ex-membros. 

A minha saída foi, para mim, um ato heroico. Poucos conseguem sair ilesos. Naquele tempo eu não sabia em quem confiar. Eu não sabia se tinha alguém em condições de me apoiar. O meu atual pastor ainda estava na fase inicial da constituição da Comunidade Evangélica Entre as Nações e tudo era ainda muito frágil. Mas, eu sabia que sozinho não poderia ficar, já que as pessoas que até então eu considerava como meus amigos seguramente virariam as costas para mim no dia seguinte à minha saída da ICM – nem o usual “a paz do Senhor” dariam mais. 

Com pouco tempo percebi que muitas pessoas já tinham feito o mesmo que eu e que estavam muito mais felizes depois de deixarem a ICM. Procurei, então, saber quais os primeiros passos a dar depois da minha decisão. 

O primeiro passo foi interiorizar a mensagem verdadeira, qual seja: que a ICM não tem o monopólio de Deus e, portanto, eu não estava deixando de ser fiel a Deus e não estava comprometendo minha salvação. Ao contrário, eu estava apenas rompendo um laço que estava prejudicando minha comunhão com o corpo de Cristo e, por consequência, minha própria salvação. 

O segundo passo foi entrar em contato com o corpo de Cristo. Visitei os mais variados cultos e participei de seminários de outras denominações. Nos primeiros contatos, minha soberba ainda atuava com intensidade - eu só via os defeitos dos cultos que eu assistia. Mas, na medida em que eu fui me aproximando das pessoas, rapidamente percebi que elas estavam envolvidas com os propósitos eternos de Deus de salvar o homem e recuperá-lo, em todas as áreas de sua vida, enquanto ele habita aqui nesta terra. Portanto, somente depois que comecei a visitar outras igrejas evangélicas e a frequentar minha atual igreja é que eu pude perceber o quanto a mensagem que eu recebia estava distante da realidade do evangelho. 

O terceiro passo foi voltar a trabalhar para Deus como sempre fiz, com a mesma determinação e vontade de vencer, apesar de ter me envolvido em um projeto novo e com quase nenhuma estrutura disponível. Graças a Deus, o pastor Ademir, que me apoiou desde o início, sempre foi um excelente exemplo de garra, dedicação e paciência. Deus tem honrado este trabalho, derramando seu amor sobre nossas vidas e abrindo muitas portas. 

Hoje, após sete anos da minha decisão, tenho plena convicção de que fiz a coisa certa. Reconheço que valeu a pena e posso assegurar que é maravilhosa a comunhão com o corpo de Cristo e que é muito gratificante servir a Deus sem as muralhas do segregacionismo erguidas sobre as bases da vaidade. Agora, sirvo a Deus com paz em meu coração e sem qualquer problema de consciência. Ao olhar para trás, sinto-me um vitorioso por ter conseguido alterar minha situação definitivamente e sem ficar com sequelas. 

Posso, então, afirmar, no meu caso, que valeu a pena! 

“21 A mulher, quando está para dar à luz, tem tristeza, porque a sua hora é chegada; mas, depois de nascido o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem. 22 Assim também agora vós tendes tristeza; mas outra vez vos verei; o vosso coração se alegrará, e a vossa alegria ninguém poderá tirar.” (João 16:21-22 RA) 

MEUS QUESTIONAMENTOS 

Ao longo dos anos fui acumulando uma série de questionamentos sobre a doutrina da Maranata, as quais antes não poderia comentar com ninguém, uma vez que as orientações da ICM são todas tidas como revelações diretas de Deus e não podemos questionar Deus. 

A “obra”, a ‘igreja fiel” e a Igreja Cristã Maranata 

A igreja Cristã Maranata é conhecida por seus membros como “obra”. Trata-se de uma expressão que estaria a indicar que a ICM é a “Obra do Espírito Santo”. Há uma verdadeira confusão entre esses dois termos. Tanto um como o outro é utilizado para identificar a igreja. Quando seus membros se referem à ICM dizem “a obra”. Ou seja, quando se quer dizer que João pertence à ICM diz-se que João pertence à “obra”. Assim, todas as referências à ICM são substituídas pela expressão “obra”. Por exemplo: “João não entendeu a obra”; “na obra as coisas são assim...”, “os servos da obra são assim...”, “somente para esta obra o Espírito Santo revela seus mistérios...” etc. 

Mas o que é, afinal, a “Obra do Espírito Santo”? Em resumo, este termo é a expressão que indica o modo pelo qual o Espírito Santo de Deus conduz a humanidade ao projeto de salvação elaborado pelo criador com o fim de resgatá-la da morte eterna, reservada aos pecadores incrédulos. Neste projeto, somente por meio do sacrifício substitutivo de Jesus, o pecador pode obter, pela graça de Deus, perdão e reconciliação, livrando-se da condenação (morte eterna) reservada ao pecador que não se arrepende e que não aceita esse projeto para sua salvação. 

Aparentemente, não há nada de mais nisso. Afinal, todo servo de Deus tem o desejo de “realizar” a obra do Espírito Santo de Deus. A sutileza está na confusão que se faz entre os termos “Obra do Espírito Santo” e uma denominação em especial. De tanto ouvir a referência à “obra” no lugar do nome da igreja, o membro da ICM logo assimila que a “Obra do Espírito Santo” é exclusivamente a Igreja Cristã Maranata. 

Em um dos seminários da ICM há uma aula que esclarece o que vem a ser “religião x movimento x obra”. Este estudo se inicia fazendo um comparativo que destaca as qualidades da “Obra do Espírito Santo” (coincidentemente, todas as características e procedimentos da ICM) em comparação com as mazelas vividas pelas demais denominações evangélicas (mundanismo, materialismo etc.). Nesse estudo destaca-se o quanto todas as outras denominações estão longe daquilo que eles consideram ser a “Obra do Espírito Santo”, pondo em relevo aquilo que consideram defeitos nas demais igrejas evangélicas. 

 Após isso, qualquer ouvinte, mesmo com um baixo grau de cognição, passa a entender que a ICM é a “obra do Espírito Santo” e que todas as demais igrejas cristãs, inclusive evangélicas, são mundanas, materialistas, insensíveis à voz do Espírito Santo, inclinadas à carnalidade, induzidas por Satanás e que vivem da razão, não podendo, assim, receber a revelação de Deus. Desse modo, não resta opção: a “obra” é esta (ICM), o resto é religião. 

É preciso destacar que a referida aula ministrada em seminários e encontros da igreja acaba por ridicularizar as demais igrejas que, apesar de não serem chamadas pelos seus nomes, são facilmente identificadas pelos ouvintes. De modo objetivo, fica a mensagem de que qualquer denominação que não seja ICM ou é “religião” ou é “movimento”. 

A passagem que ilustra a referida aula é a da morte de Saul, um homem chamado por Deus para reinar sobre Israel, mas que por sua desobediência seguiu o caminho da maldição e teve um terrível fim. 

Inicialmente, todos os membros aprendem que as características da “obra” (ICM) são as características louváveis de Davi (homem segundo o coração de Deus), e que as características de Saul são as presentes naquilo que eles chamam de “religião” e de “movimentos”, os quais não conseguem vencer Golias (a carne). Assim, a ICM é a “obra de Davi” e as demais denominações são a “obra de Saul”, que não podem agradar a Deus porque são carnais. 

Após esses comparativos, conclui-se que “religião” e “movimento” terão o mesmo destino de Saul, qual seja: já que Deus não falava mais com ele, sua alternativa foi procurar uma feiticeira (misticismo), que anunciou sua morte. Trocando em miúdos, a presunção é a seguinte: Deus não fala nas demais denominações, uma vez que são carnais, desobedientes, materialistas e afastadas da vontade de Deus. Por isso, algumas dormem no tradicionalismo (letra sem vida) e outras se aproximam do misticismo, que acabará em morte eterna. 

Como essa aula é bastante ofensiva às demais igrejas, procura-se amenizar tal agressividade com a seguinte falácia: “não sabemos se outras igrejas estão na “Obra”, mas nós estamos”. Entendo que esta é uma afirmação estratégica, pois permite à liderança da igreja se defender quando é acusada de exclusivista da salvação. Isso até seria possível se não fosse o contexto de toda a aula. Após uma série de afirmações que ridicularizam as demais denominações, apresentando seus supostos defeitos, ninguém se arrisca a dizer que qualquer outra denominação esteja em condições de se enquadrar no conceito de “Obra do Espírito Santo”. Logo, apenas a ICM consegue se encaixar no título de “obra”. É sutil, mas é fato. 

Associada a esta aula, há outras que referenciam a ICM com “a igreja fiel”, aquela que ouve a voz de Deus, anda em santificação e obedece a Deus em todos os detalhes, contrapondo-se às demais denominações (igreja infiel), incapazes de pleitear tal posição, dado o seu nível de comprometimento com o mundo. A igreja fiel (ICM) é prudente, tem o azeite e está aguardando o noivo enquanto as demais denominações (loucas) estão dormindo e não têm azeite de reserva. 

Referida comparação é igualmente descontextualizada: a “obra” é a igreja fiel, que tem o espírito santo (ouve a Deus por meio dos dons espirituais) e está aguardando a vinda do Senhor Jesus, enquanto as demais igrejas evangélicas, embora também estivessem aguardando a vinda de Jesus, hoje permanecem dormindo (não estão vigiando, não andam na revelação de Deus e estão acomodadas ao mundo, ao pecado e à carne) e quando o noivo chegar não entrarão nas bodas (salvação) porque não têm o Espírito Santo (azeite), pois não andam em completa submissão a Deus. 

Após tudo isso, o participante do seminário não tem dúvida: ele, que está na ICM, está na “Obra do Espírito” e as pessoas que estão nas demais igrejas evangélicas, ou no “cristianismo”, estão na “Religião” ou no “Movimento”, caminhando para o misticismo e para a morte eterna. 

Preciso esclarecer que minha avaliação se prende ao que existia na ICM até o mês de março de 2005, quando a deixei. Não sei como é hoje e espero que isso já tenha sido alterado para que os membros da ICM não mais sejam induzidos a desprezar seus irmãos em Cristo de outras denominações. 

A infalibilidade das revelações 

Durante minha passagem pela ICM, até março de 2005, acostumei-me a receber respostas do tipo, "preto ou branco": aquilo que vem do Presbitério é certo (inquestionável), e aquilo que o Presbitério discorda é errado e ponto final. 

Com a morte do Papa João Paulo II, comecei a lembrar que a igreja católica não admite que sejam questionados os seus dogmas (o papa não erra?), pois esses são fruto de reuniões de homens de Deus que receberam a orientação diretamente de Deus (concílios), não competindo, portanto, a ninguém questionar seus atos e ensinamentos, sob pena de estarem se voltando contra Deus. 

Quanto à igreja católica, eu entendia que eles estavam equivocados neste particular, mas inicialmente não conseguia ver que o mesmo estava ocorrendo no meio em que eu estava vivendo. Ao passo que notei essa incoerência, passei a perguntar a mim mesmo: por que eu não podia questionar uma orientação advinda do Presbitério da ICM? Tudo que vem do Presbitério da ICM é inquestionavelmente de Deus? Não há possibilidade de falhas? Na prática, eu observava que muitas orientações da ICM falhavam e que Deus nada tinha a ver com aquilo, mas não quero descer a esse nível de detalhamento aqui. 

Hoje, percebo que a igreja que atribui todas as suas decisões e escolhas a Deus comete um grave equívoco e atenta contra a inteligência de seus membros. Deus fez um ser inteligente, racional e dotado do livre arbítrio para quê? Para que o homem conheça, pense e decida. Deus não é um manipulador. Se fosse, teria criado robôs. Mas, as coisas não são assim. Temos que conhecer a vontade de Deus por sua palavra (a bíblia), pensar a respeito das opções que nos são concedidas e decidir em que caminho queremos andar. Deus não fará isso por nós. 

O raciocínio é muito simples. Se a igreja é um organismo absolutamente manipulado por Deus e todas as decisões da igreja são tomadas com base na divina revelação, nada poderia dar errado, pois Deus não erra, já que é perfeito em todos os seus caminhos (2 Sm 22:31 – Sl 18:30). Então, a que conclusão se pode chegar quando se nota que uma escolha ou decisão da igreja não foi a melhor? Óbvio, não? 

Quem, ou qual organização poderia pleitear o título de infalível? Essa pretensão só revelaria a soberba e a loucura dos homens. Deus é perfeito e infalível, mas nós não somos, tampouco as organizações em que o homem imperfeito está presente. Quem não admite isso e cultiva a presunção de só fazer aquilo que Deus revelou, acaba se encaixando na teoria da irresponsabilidade. Tudo o que não dá bom resultado é porque Deus não quis ou foi por culpa do Diabo. Ou seja, o homem nunca tem culpa de nada. A culpa é de Deus ou do Diabo. 

Seria mais simples admitir, humildemente, a responsabilidade por nossas decisões e eventuais falhas, pois mesmo procurando andar segundo a palavra de Deus podemos errar. Isso é natural. Mas essa hipótese é impensável para aquele que se imagina perfeito – o homem que não faz nada sem antes ter ouvido a voz de Deus. Esse jamais admite sua responsabilidade pelos erros e seus fracassos – “Deus permitiu ou quis assim”. 

Assim, Deus sempre será o responsável pelas consequências das decisões tomadas pela liderança, independentemente de seus resultados. A liderança sempre estará isenta de culpa. Deus é o responsável por tudo. Assim, quando a liderança promove a divisão entre os irmãos de denominações diferentes ou expurga um pastor, ou proíbe um ex-pastor de visitar o Maanaim, basta dizer que foi Deus quem quis assim e que isso foi uma revelação de Deus. 

Adão fez o mesmo no Éden após tomar a atitude errada: quando Deus o questionou, colocou a culpa no próprio Deus dizendo: “...A mulher que (Tu) me deste por esposa, ela me deu da árvore...”. Ou seja, se Deus não tivesse lhe dado uma mulher, nada daquilo teria acontecido. Logo, a culpa era de Deus, que lhe deu uma mulher. Ele era apenas uma vítima da circunstância – um inocente. Mas, Deus não aceitou esse argumento exatamente porque fez o homem livre para tomar suas decisões. 

Em resumo, se imaginarmos que existe uma denominação em que todas as suas decisões são inquestionáveis por serem provenientes do próprio Deus, temos que admitir que essa denominação é perfeita e que não pode haver nela falha alguma. Se não há falhas, é perfeita e divina. Se, há falhas, é imperfeita e sofre com as influências das imperfeições humanas, naturalmente. Se há falhas e, ainda assim, insiste-se em afirmar que tudo é orientado e dirigido pelo próprio Deus, temos aí uma incoerência e soberba. Deus levará a culpa pelas falhas humanas, o que revela uma irresponsabilidade do verdadeiro culpado, que, provavelmente, por sua presunção, não quer admitir suas falhas, preferindo lançá-las sobre Deus, tal qual fez Adão no Éden. 

Mas, será razoável culpar Deus pelas falhas humanas? Será que existe uma denominação cristã perfeita? Quem seria suficientemente presunçoso para pleitear este título da perfeição? 

Quanto a mim, tenho que admitir que, enquanto eu era pastor da ICM, sentia-me a própria perfeição. Afinal, todos os meus movimentos tinham a confirmação de Deus, independentemente de seus resultados. Eu fazia parte de uma casta intocável (“não toqueis nos meus ungidos”), de uma elite espiritual que detinha a exclusividade da verdade e das respostas para as questões da vida. Logo, não admitia questionamentos. 

Conhecendo esse sentimento, é fácil entender a razão pela qual um membro da Igreja Cristã Maranata se sente superior aos membros das demais denominações cristãs. Ora, o ser superior pode criticar o ser inferior, mas o contrário não pode acontecer. Por isso, por muito tempo eu achava natural criticar as demais denominações evangélicas - “religião” e “movimentos”, mas não me conformava se ouvisse alguma crítica à ICM. Como um ser inferior ousa criticar o ser superior? Naturalmente, eu não podia suportar tal afronta

Sei bem do que estou falando. É com pesar que faço essa observação, pois sei que a vontade de Deus é que os irmãos vivam em união e em amor. Mas, para isso, precisamos ter a exata noção do que seja o corpo de Cristo. Por isso, recomendo, mais uma vez, a leitura do texto sobre “O corpo de Cristo e o sectarismo”, o qual está disponível para acesso e download neste site - http://migre.me/7skOM. 

No citado artigo, procuro demonstrar o perigo de discriminarmos nossos irmãos em Cristo, ante a presunção de sermos os exclusivos detentores da revelação divina e os únicos responsáveis por levar a verdade do evangelho do Senhor Jesus. 

O próprio Jesus, ao ser pressionado por João, para que proibisse alguns homens que estavam expulsando demônios em seu nome, os repreendeu dizendo: 

(Lc 9:50) “Não lho proibais; porque ninguém há que faça milagre em meu nome e, logo a seguir, possa falar mal de mim, pois quem não é contra nós é por nós.” 

De igual modo, entendo que devemos lutar contra o sectarismo e contra o exclusivismo no meio cristão. O povo de Deus deve estar unido e em comunhão uns com os outros, independentemente da denominação em que sirva a Deus. 

Para mim, essa é uma contundente prova de que nem todas as revelações da ICM procedem de Deus. Que nem tudo o que vem do Presbitério é orientação de Deus, uma vez que Deus nunca aprovou a divisão entre irmãos. Entendo que qualquer revelação neste sentido é falsa e, seguramente, não procede de Deus, senão vejamos: 

(1 João 4:20 RA) “ Se alguém disser: Amo a Deus, e odiar a seu irmão, é mentiroso; pois aquele que não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê.” 

(Salmos 133:1 RA) “Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos!” 

 Com essa consciência, eu não podia permanecer na ICM, pois, se eu ficasse lá seria um rebelde por não crer naquelas revelações. 

A título de exemplo, posso contar uma experiência particular. Tive a oportunidade de assistir a trajetória do meu atual pastor, a partir do momento em que ele deixou o ministério pastoral da ICM. Ele e seus filhos iniciaram, sozinhos, um trabalho evangélico, cuja história pode ser lida neste site: http://bit.ly/A1QHEG. 

Enquanto aquele pastor trabalhava despretensiosamente, eu, que ainda era pastor na ICM, assistia, do lado da ICM, constantes ataques ao trabalho que ele estava realizando. Cheguei a presenciar algumas profecias contra ele. A primeira dizia que o trabalho daquele pastor não duraria 6 meses. Com o passar do tempo, a profecia foi sendo ajustada até anunciar que o trabalho não passaria de três anos. Hoje, após nove anos e em constante progresso, cessaram aquelas profecias que, naturalmente, não procediam de Deus, mas de homens que não aprenderam com o conselho de Gamaliel: 

(Atos 5:38-39 RA) “38 Agora, vos digo: dai de mão a estes homens, deixai-os; porque, se este conselho ou esta obra vem de homens, perecerá; 39 mas, se é de Deus, não podereis destruí-los, para que não sejais, porventura, achados lutando contra Deus. E concordaram com ele.” 

Assim, assistindo a tudo isso, tive que concluir que aquelas revelações e todas as outras que instigavam o sectarismo não procediam de Deus, o que me levou a outra conclusão: do mesmo modo que a doutrina do “corpo de Cristo”, tal qual ensinada na Igreja Cristã Maranata, estava equivocada, outras doutrinas exclusivas da ICM, igualmente ensinadas como sendo revelação direta de Deus, deveriam ser analisadas à luz da palavra de Deus. 

Talvez, este texto possa parecer aos membros da ICM como um ataque à sua igreja (um revanchismo) ou uma expressão de alguém amargurado, mas não é nem uma coisa nem outra. Eu não teria razões para isso, uma vez que gozava de uma situação privilegiada enquanto pastor da ICM e saí por minhas próprias convicções sem estar magoado com ninguém. Neste tópico, em especial, pretendo que minha crítica apenas sirva de alerta quanto ao perigo de se absorver um ensino sectário como se essa fosse a vontade de Deus – uma revelação. Sinceramente, creio que, se o leitor deixar de lado sua paixão e observar apenas o conteúdo das minhas colocações, ao contrário de uma indisposição, podemos elevar a qualidade de nossa comunhão e cumprir o mandamento de amarmos uns aos outros sem qualquer impedimento. 

A exclusividade da salvação 

Após a percepção de que as revelações transmitidas pela ICM aos seus membros, conduzindo-os ao segregacionismo, careciam de suporte bíblico, foi inevitável começar o exame de sua mensagem e práticas, especialmente aquelas que induziam seus membros ao isolamento dos demais grupos evangélicos. 

Ora, tal atitude preparava o terreno para a disseminação de revelações e mensagens incompatíveis com o evangelho do Senhor Jesus, indo muito além daquilo que os apóstolos ensinaram, uma vez que resultava em menosprezo de irmãos de outras denominações, ainda que membros de uma mesma família. A intolerância, a discriminação, o desprezo e a soberba são comportamentos absolutamente incompatíveis com o evangelho do Senhor Jesus. 

Portanto, qualquer revelação neste sentido deve ser, de pronto, afastada como procedente de Deus. Não é necessário perguntar a Deus se Ele concorda com isso. 

(Gálatas 1:8-9 RA) “8 Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. 9 Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema.” 

Mas, se ainda assim, quisermos saber o que Deus tem a nos dizer quando insistimos em fazer aquilo que já sabemos estar em desacordo com a sua palavra, podemos alcançar resposta no seguinte texto: 

(EZ 14:3-4) "Filho do homem, estes homens levantaram os seus ídolos nos seus corações, e o tropeço da sua maldade puseram diante da sua face; devo eu de alguma maneira ser interrogado por eles? 4 Portanto fala com eles, e dize-lhes: Assim diz o Senhor DEUS: Qualquer homem da casa de Israel, que levantar os seus ídolos no seu coração, e puser o tropeço da sua maldade diante da sua face, e vier ao profeta, eu, o SENHOR, vindo ele, lhe responderei conforme a multidão dos seus ídolos;" 

Passemos, agora, ao exame das mensagens que instigam o segregacionismo. 

 Enquanto eu estive na ICM recebia as orientações do Presbitério Espírito Santense – PES como sendo orientações reveladas por Deus. Ninguém ousa a questionar nenhuma orientação, pois são elevadas ao nível de revelação de Deus, ou seja, aquela mensagem veio de Deus para dar direção aos membros da ICM. 

Assim, até aquelas orientações que instigavam a desunião do corpo de Cristo (segregação e isolamento) eram recebidas como sendo a vontade revelada de Deus, portanto, inquestionáveis. Quem ousasse questionar estaria se voltando contra Deus e seria classificado como rebelde, título conferido aos feiticeiros, condenados à maldição, segundo ensino dos seminários da ICM, baseado no texto de 1 Sam. 15:23: 

(1 Samuel 15:23 RA) “Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar. Visto que rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei.” 

 Mas, por que um evangélico admitiria a segregação? Por que não comungaria com os demais evangélicos? Por que um evangélico se sentiria constrangido ou pecando se assistisse a um culto em de outra igreja evangélica? Por que permitir que as diferentes tradições cristãs ou algumas diferenças práticas (não exatamente teológicas) se tornem obstáculos à nossa comunhão? Por que permitir que as diferenças relacionadas com aspectos exteriores do comportamento ou da prática de grupos cristãos (estilos de louvor, códigos de vestuário e cerimônias eclesiásticas) sejam impedimento para que todos estejam unidos em torno da essência do evangelho do Senhor Jesus? 

Creio que tudo isso é resultado de um equivocado ensino, a partir do princípio de que o contato com irmãos de outras denominações permitiria a contaminação. É claro que para isso eu tenho que imaginar que eu sou saudável e que os outros possuem uma doença qualquer contagiosa que poderá passar para mim. 

Sob o meu ponto de vista, e segundo a experiência que vivi até o mês de março de 2005, a ICM se julga tão perfeita, pura e superior às demais igrejas que qualquer contato com o “resto” é considerado contaminação. Uma vez que ela se considera a única denominação que tem a perfeita compreensão da verdade e a capacidade de conduzir o homem a Deus, sente-se bem à vontade para taxar as demais igrejas evangélicas como “religião” e “movimento”. Para a ICM, as demais denominações estão contaminadas pelo mundanismo e, por isso, deve evitar o contato com elas. 

Para demonstrar que minha percepção está em conformidade com a mensagem transmitida pela ICM aos seus membros, vou comentar alguns itens de um comunicado enviado pelo Presbitério Espírito Santense (PES) da Igreja Cristã Maranata aos seus pastores, no dia 28 de dezembro de 2005. Trata-se de uma circular que continha “Orientações para grandes reuniões e reuniões nos bairros - a grande convocação” e tinha como texto guia a passagem de 2 Reis 19:33 (“...nesta cidade não entrará”) para afirmar o propósito da evangelização da ICM. 

Seguem, portanto, alguns tópicos da referida carta circular, com meus breves comentários: 

•“Temos uma mensagem que o mundo jamais ouviu” – ora, se a mensagem pregada pela ICM nunca foi ouvida pelo mundo, de onde saiu? Da bíblia? Se o mundo sempre foi alvo da pregação da mensagem do evangelho do Senhor Jesus, que mensagem é essa que a ICM prega que o mundo jamais ouviu? Como pode a ICM ser a detentora exclusiva de uma mensagem que o mundo nunca ouviu? O que dizer dos nossos antepassados que viveram há mais de 40 anos, tempo em que a ICM nem existia? Qual era a mensagem de Jesus, dos apóstolos e da igreja desde a sua constituição? Poderíamos, então, chegar à conclusão de que a ICM está pregando uma mensagem antibíblica, já que é uma mensagem diferente de tudo aquilo que já foi pregado desde Jesus? Na verdade, este é apenas um recado do PES para dizer aos seus membros que a ICM sabe o que nenhuma outra igreja sabe, uma vez que ela tem um contato com Deus que nenhuma outra igreja tem. Que ela é a única que detém a mensagem da verdade nos nossos dias e a única denominação que tem a capacidade de conduzir o homem a Deus. 

•“Outros grupos não estão em condições de falar ou testemunhar da experiência que estamos vivendo” - aqui a ICM afirma com bastante clareza que nenhuma outra denominação (outros grupos) conhece os mistérios que ela conhece, pois recebeu algo exclusivo de Deus. 

•“Se nós nos calarmos quem falará por nós? (Mordomo infiel)” – neste tópico o PES conclama o povo a proclamar essa mensagem exclusiva, pois não há nenhuma outra igreja capaz de fazê-lo. 

•“Temos conhecimento de um projeto. Não podemos ficar como parte da multidão que na crucificação do Senhor Jesus ficou só olhando.” – esta é mais uma conclamação para que os membros sejam atuantes, já que só eles conhecem um projeto. Mas, que projeto é este? Será o projeto de Deus para a salvação do homem? Se é isso, por que a ICM acha que só ela conhece o caminho traçado por Deus para que o homem seja salvo? Ora, isso é mais uma mensagem que insinua que somente ela conhece o caminho da salvação, exclusivamente. 

•“A religião fala de Deus e de Jesus mas não é capaz de tirar o homem da sua própria razão. A religião, mesmo falando de Deus, não consegue competir com o mundo” – neste tópico a ICM se refere às demais igrejas, inclusive as evangélicas, como “religião”, ou seja, como instituições que falam de Deus e de Jesus, mas que não são capazes de levar o homem ao conhecimento das coisas espirituais, pois estão absorvidas pelo mundanismo. Na verdade, a mensagem da ICM induz à compreensão de que todas as demais igrejas são materialistas e mundanas (envolvidas com o pecado e com os prazeres da carne), motivo pelos quais Deus não pode operar no meio delas, nem conduzi-las à salvação. 

•“A religião está comprometida com o mundo usando os mesmos argumentos do mundo e seus recursos e está comprometida com os projetos do mundo” – mais uma vez a mensagem que despreza as demais igrejas é repetida. Tratadas como “religião”, em tom pejorativo, todas as demais denominações são enquadradas no mesmo grupo de igrejas envolvidas com o “mundo” (curso da perdição) e, portanto, estão caminhando para a mesma condenação. 

•“Mesmo os chamados cristãos, que falam de salvação, apesar de bem intencionados, não conhecem o projeto de salvação” – este tópico é muito explícito em afirmar que até mesmo as igrejas cristãs (evangélicas ou não), que falam de salvação (bem intencionadas), não conhecem o caminho que leva o homem a Deus. Logo, a mensagem implícita é: fora da ICM não há salvação, pois somente a ICM conhece o projeto de salvação de Deus. 

 •“Nós conhecemos o projeto. A obra é o projeto e este conhecimento vem através da revelação. Não veio pela razão, veio pela revelação” – uma vez que o sinônimo de “obra” é ICM, ainda que isso não fique muito claro (intencionalmente), o resultado desta afirmação é que a ICM conhece exclusivamente o projeto de Deus porque recebeu uma revelação especial que as demais denominações não receberam, porque são racionais. 

•“Estamos apercebidos disto, de que só um pequeno povo tem alcançado esta benção” – quem é este pequeno povo? É claro que a referência traz implícita a ideia de que apenas o pequeno grupo de membros da ICM foi privilegiado pelo conhecimento do projeto de salvação. Se fizermos uma conta simples, podemos entender o tamanho desta presunção. A população mundial hoje é superior a 6 bilhões de pessoas, segundo o último censo mundial. Se considerarmos que somente os membros da ICM são salvos, ou seja, um grupo de 600 mil pessoas (sendo muito otimista), isso significaria dizer que 0,01% da população mundial seria salva se Jesus arrebatasse sua igreja hoje. Será que isso confere com o propósito de Deus para a salvação da humanidade? Se assim fosse, poderíamos dizer que Jesus se sacrificou por um grupo ínfimo de pessoas. 

•“A religião esgotou os seus recursos ao ceder os valores e riquezas espirituais, vulgarizou o evangelho. Depois que se entrega a prata e o ouro tudo que se faz é só palavra de lábios e não tem como reagir porque o adversário sabe que a religião confia naquilo que lhe pertence e que está sob o seu controle, a carne (o bordão de cana quebrada)” – chega a ser triste saber que uma igreja evangélica um dia ensinou isso aos seus membros. Este tópico é uma afirmação aberta de que as demais igrejas (“religião”) não têm mais nenhum valor espiritual para transferir aos seus membros. E mais: afirma que as denominações evangélicas estão sob o controle de Satanás, que as domina, porque elas são carnais, ou seja, vivem para satisfazer os prazeres da carne. 

•“Temos uma mensagem revelada, uma palavra revelada, cremos e pregamos um Deus vivo que nos assiste com os seus anjos. Jamais alguém presenciou o que estamos presenciando neste momento” – mais uma vez se afirma que somente a ICM conhece a verdade de Deus, porque somente ela prega um Deus vivo. Com essa afirmação pode-se facilmente concluir que a nenhuma outra denominação cristã, ainda que evangélica, Deus concedeu o que concedeu à ICM. Trata-se de uma exclusividade da bênção de Deus. A ICM se apresenta como a única merecedora de um contato íntimo com Deus, que ninguém, em tempo algum (nem no tempo da igreja primitiva?), jamais teve. 

•“As linhas precisam ser ajustadas, o povo tem que estar seguro e conhecedor deste grande projeto que foi colocado em nossas mãos à nossa disposição. O corpo tem que ser aperfeiçoado. Não podemos parar, nada poderá nos impedir” – a mensagem exclusivista é reforçada a cada tópico, como se vê. Há uma repetição das mesmas ideias de modos diferentes. E chega ao ponto de se afirmar que Deus confiou o projeto de salvação do homem à ICM de tal modo nunca foi confiado a ninguém, ao longo dos 2000 anos de história da igreja. 

Como visto, referida circular nada mais é que um resumo de parte das mensagens continuamente transmitidas pela ICM a seus membros, seja por meio de pregações na igreja, seja por meio dos ensinos de seminários, seja por meio das inúmeras reuniões que participam semanalmente (obreiros, senhoras, grupos de intercessão, jovens etc.). 

 Assim, os membros da ICM recebem uma grande e contínua carga de estímulos ao segregacionismo e passam a desenvolver atitudes compatíveis com a mensagem que estão, aos poucos, interiorizando. Com o passar do tempo, o membro da ICM repugna todas as demais igrejas evangélicas sem sequer ter conhecido de perto o trabalho desenvolvido por elas. Ele passa a falar daquilo que não conhece, confiado apenas na mensagem que recebe de cima, sem saber que está sendo conduzido ao ódio e ao sectarismo, o que lhe custará muito caro se um dia seu relacionamento com a igreja sofrer algum desgaste e ele precisar de apoio. 

O incrível é que enquanto eu estava na ICM, todo esse sistema segregacionista me parecia razoável, já que eu não conhecia as demais igrejas e acreditava que elas eram, de fato, mundanas, carnais, materialistas etc. Hoje posso ver o quanto eu estava equivocado. 

CONSIDERAÇÕES FINAIS 

Esta publicação faz parte de minhas anotações pessoais. Um velho hábito de registrar fatos da vida. Algumas pessoas gostam de registrar situações pelas quais passaram tirando fotos. Eu gosto de fazer registros de fatos passados tirando fotos e escrevendo. Não comecei a escrever depois que saí da ICM. À exceção dos dias que precederam a minha saída da ICM, tudo o mais já estava escrito em tópicos. Cada situação que eu passava, cada frase que eu ouvia, cada fato que eu presenciava e tudo mais que não compreendia eu registrava sob a forma de indagações. 

Fazendo isso, após sair da ICM percebi que eu já tinha mais de 30 páginas escritas com perguntas sem respostas. Comecei, então, a responder ao meu próprio questionário. Neste questionário havia coisas que eu já tinha parado de pensar sobre elas, como, por exemplo: “Por que é proibido ir ao cinema? Por que a mulher não pode usar calça comprida? Por que a mulher que usa calça comprida não pode ser batizada nas águas? Por que o homem não pode usar barba? (ver o texto que escrevi sobre usos e costumes) Por que é proibido ter uma conta no Orkut? Por que o membro da ICM não pode visitar outra igreja evangélica? Por que um jovem da igreja não pode namorar um membro de outra denominação evangélica? Por que proibir a leitura de literatura evangélica? Por que a flor é símbolo de dom espiritual? Por que o templo físico é mais importante que as pessoas? Por que não se pode cumprimentar um ex-membro com a paz do Senhor? Por que a igreja não pode dar uma cesta básica a um membro que passe por uma necessidade, ainda que momentânea? Por que o pai da noiva não pode entrar com ela na igreja no dia de seu casamento? Por que consultar a Deus para fazer o bem? (Prov. 3:27 – Lc 6:9 – Rm 12:17 – Gl 6:9 – 2 Ts 3:13 – Tg 4:17)... Etc. Etc. Etc... 

Enfim, digo isto para esclarecer que hoje nem penso mais sobre essas questões que ficaram para trás. Essas coisas nem vêm mais a minha mente, pois não fazem parte da nossa pregação do evangelho – são apenas dogmas. Se eu dependesse de minha memória para relatar esses fatos, provavelmente não haveria quase nada escrito. Tudo o que estou relatando já estava escrito desde o meu tempo de membro e pastor da ICM. Apenas estou, aos poucos, adicionando partes do que já estava escrito. Não tenho tempo certo para colocar mais uma parte das minhas anotações. Eventualmente, adiciono mais um pedaço do meu testemunho e das minhas percepções sobre a doutrina que aprendi no passado. 

Na verdade, publiquei a primeira parte em um blog apenas para chamar a atenção daquelas pessoas que haviam deixado a ICM e que talvez quisessem saber que há outras pessoas que fizeram o mesmo e que estão muito felizes servindo ao Senhor em outras denominações. Feito isso, achava que a primeira postagem seria suficiente. Então, esqueci-me do blog e passei meses sem acessá-lo. 

Certo dia, recebi uma mensagem em meu e-mail do trabalho. Era uma pessoa que afirmava que tinha recebido um e-mail com o meu testemunho e que queria conversar comigo a esse respeito. Achei aquilo estranho, pois eu não havia mandado meu testemunho para ninguém, apenas havia postado um pedaço dele no blog. 

Acessei, então, o blog e tive uma surpresa: havia várias mensagens no hotmail do blog (abri a conta no hotmail apenas por ser requisito para a criação do blog, mas não uso hotmail). Também, havia alguns scraps que ocupavam a folha de rosto do blog. Alguns até com xingamentos. Gastei muito tempo lendo todas as mensagens (algumas enormes) e respondi uma a uma (mesmo aquelas mal-educadas dos crentes não convertidos ao evangelho do Senhor Jesus). Na medida em que fui respondendo, percebi que muitas mensagens tinham conteúdo semelhante, a ponto de poderem ser respondidas com um texto padrão que criei. 

Por isso decidi postar um texto com alguns esclarecimentos que intitulei de “resposta a diversas cartas” (http://bit.ly/yuL3gD) direcionada aos crentes indignados, para que compreendessem que o blog não foi feito para eles nem para atacar a ICM. Até porque considero os membros da ICM como irmãos queridos com os quais tive excelente convivência por muitos anos. 

E qual, então, o objetivo do blog? Inicialmente, queria apenas ter um lugar onde eu pudesse colocar textos e fotos que membros da minha igreja pudessem acessar sem que eu ficasse encaminhado e-mail. A inclusão da primeira parte do meu testemunho, como eu já disse, era direcionada aos ex-membros da ICM que estivessem afastados dos caminhos do Senhor e pensando que o único lugar para servir a Deus é na ICM. 

Entretanto, depois de ler tantas mensagens de pessoas angustiadas, feridas e desesperançadas, percebi que eu poderia fazer uma entre duas coisas: oferecer ajuda ou me omitir. Pensei, então, no tempo em que deixei a ICM. Lembrei que fui ajudado e que outras pessoas que haviam passado pelo que eu passei gastaram tempo conversando comigo e me mostrando que havia vida (e muito boa) fora da ICM. Por que eu não faria o mesmo? O que eu não imaginei é que para ajudar alguns eu teria que receber o ódio de outros. 

Sem calcular o que me aguardava, atendendo a alguns pedidos, postei mais uma parte do meu testemunho e notei que a quantidade de acessos era muito grande, a ponto do blog ser captado nas consultas do Google (blogs pouco visitados não são buscados pelo Google). Isso fazia com que membros da ICM, ao fazerem consultas sobre assuntos diversos descobrissem o blog. 

É evidente que um membro da ICM abomina qualquer pessoa que se atreva a falar qualquer coisa da ICM, ainda que seja verdade. Assim, mesmo que eles próprios reconheçam a verdade do que se diz, rejeitam prontamente qualquer crítica, pois aprenderam que não se deve “tocar nos ungidos” (pastores da ICM) e que é abominação “tocar no corpo” (ICM). Tudo isso é fruto do ensinamento que recebem cotidianamente. Eu compreendo perfeitamente a situação dessas pessoas e não as recrimino nem deixo de amá-las como irmãos em Cristo. 

Todavia, para que eu alcançasse os ex-membros da ICM, pessoas muitas vezes angustiadas, tornou-se inevitável o alcance dos membros da ICM. Sinto muito por isso. Eu não tenho como selecionar quem acessa o site. Pior, descobri que meu primeiro texto circulou por e-mail e que eu não tinha como controlar essa situação. Por isso, hoje não coloco o texto completo no blog. Apenas coloco uma chamada para o download no meu site que criei posteriormente. No site posso colocar o arquivo em PDF sem a opção de impressão, o que inviabiliza a distribuição do texto às pessoas mais simples (que não têm acesso a computador) e que em alguns casos não têm condições de compreender nem de receber seu conteúdo. 

Outro fato que observei foi que os xingamentos que recebia eram geralmente de pessoas menos dotadas de raciocínio lógico e com a capacidade crítica muito baixa, demonstrando, acima de tudo, desconhecimento bíblico e pouca capacidade de argumentação. Entendo que tais reações são apenas explosões da emoção de quem não tem argumentos válidos para apresentar. Nestes casos, minha resposta é apenas para dizer que não guardo ressentimentos da ofensa a mim dirigida e me despeço simplesmente.

Devo, portanto, reafirmar que não tenho qualquer interesse em atingir membros que se sentem felizes servindo a Deus na ICM. Lembro-me aqui da alegoria da caverna de Platão – quem conhece sabe a que estou me referindo. O blog não foi feito para criar intrigas com “Maranatas” bem resolvidos e felizes onde estão, até porque, repito, tenho os membros da ICM em grande estima e consideração em Cristo Jesus. Quem está bem não precisa de ajuda. Desejo, sinceramente, que sejam muito felizes. 

Meu alvo são as pessoas que precisam de socorro e que se encontram renegadas e abandonadas. Por exemplo: conheço um casal de jovens, cuja moça ficou grávida antes do casamento. O pastor da ICM orientou que ninguém da igreja a visitasse. Ocorre que durante esse período a mãe da jovem faleceu. Ainda assim, ninguém pôde visitá-la, nem mesmo ir ao enterro de sua mãe. Podem pensar o que quiserem, mas não terei a menor dificuldade em estender a mão para pessoas nesta situação. 

Casualmente, tenho notado, pelas mensagens que tenho recebido, que pessoas de outras denominações sectárias têm se identificado com meu testemunho. Por isso, após viver o que vivi, sinto-me em condições de combater o segregacionismo, desejando e lutando pela derrubada dos muros que separam a igreja do Senhor Jesus, o que não tem nada a ver com ecumenismo, tal qual ensinado pelos sectários. 

Por fim, esclareço que tenho visto o quanto meu relato tem ajudado uma grande quantidade de pessoas que estão hoje remoendo os mesmos questionamentos que eu tinha no passado. E, em consideração a essas pessoas tenho mantido o texto no site. Mas, até quando? Enquanto eu tiver saúde, tempo e condições de responder à grande quantidade de mensagens que recebo diariamente, ou seja, enquanto Deus permitir. 

(Lucas 5:30-32) 30 Os fariseus e seus escribas murmuravam contra os discípulos de Jesus, perguntando: Por que comeis e bebeis com os publicanos e pecadores? 31 Respondeu-lhes Jesus: Os sãos não precisam de médico, e sim os doentes. 32 Não vim chamar justos, e sim pecadores, ao arrependimento. 

Que Deus abençoe a todos. 

Brasília, 10 de novembro de 2008. 

(Ajuste de formatação e às novas regras ortográficas, em 17/4/2016). 

Pr. Sólon Lopes Pereira

 

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