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Dízimos na história da Igreja

28 de jan 2019

Desculpe incomodar novamente mas tenho uma duvida.Assisti todos os seus videos sobre o dizimo e li o livro que me enviou. Gostaria de saber o que os reformadores como Lutero, Calvino, Urico disseram sobre o dizimo, e se durante o tempo da reforma eles recebiam os dízimos do povo. 

 Grato pela atenção  


RESPOSTA, em 28 de jan 2019

Paz irmão! 

Deixei registrado em meu livro o modo que apenas no século IV os dízimos começaram a ser cobrados pela Igreja Católica, mas de forma que mais se assemelhava ao imposto civil, com apoio do governo romano. A partir do Concílio de Mácon (Gália), os padres decidiram pela excomunhão de todos os que se negassem a contribuir com a igreja e foi a partir daí que começaram os grandes abusos que espoliaram a população ao longo da idade média. Está no meu livro que somente "nos dois primeiros concílios de Latrão, em 1123 e 1139, o dízimo foi finalmente incorporado à legislação geral da igreja, de forma definitiva, como a décima parte da renda dos fiéis. Durante o governo do papa Inocêncio III (1198-1216), a influência da igreja na vida pública na Europa cristã atingiu seu ponto máximo. Na Idade Média, ela se tornou “o senhor feudal” de grande parte da Europa. 

Curiosamente, foi Erasmo de Rotterdam quem cooperou com a indignação que se espalhou pela Europa e precedeu a reforma protestante, ao escrever "Elogio da Loucura", onde denunciava o modo espúrio como o clero estava explorando a população enquanto vivia na prática da luxúria. Veja que um dos fatores importantes da Reforma Protestante foi exatamente a revolta da população contra a exploração promovida não só pelo governo, mas também pela Igreja Católica.

Como eu registrei em meu livro, com a Reforma Protestante a igreja que surgiu abandonou a prática do dízimo, embora alguns reformadores ainda estivessem reticentes para evitar maiores revoltas, como foi o caso de Lutero. É bom lembrar que Lutero, embora fosse a figura principal da Reforma ainda trazia diversos conceitos que hoje sabemos serem totalmente errados, como apoiar a perseguição e morte de Judeus, poligamia, entre outras. Ulrico Zuínglio (1484-1531), líder da Reforma Protestante na Suíça, e fundador das igrejas reformadas suíças, assumiu a posição de pastor em Zurique, em 1519, e chamou a atenção ao declarar que pregaria continuamente a partir do Novo Testamento. Isso o levou a se opor a várias práticas católicas tradicionais tais como o jejum, a prece aos santos, a doutrina do purgatório e a obrigação de pagar dizimo. As modificações de Zuínglio tornaram-se padrão para as igrejas reformadas, que eliminaram muito mais da liturgia católica tradicional que os luteranos. 

No fim de 1524 havia uns 30.000 camponeses em armas na Alemanha meridional que se recusavam a pagar impostos ao governo, dízimos à Igreja ou direitos feudais, e que juravam emancipação ou morte. Em Memmingen, seus delegados, sob a direção ou influência dos protestantes zuinglianos de Zurique, redigiram em março de 1525 os “Doze Artigos” que incendiaram metade da Alemanha. 

 Sugiro que você adquira e leia o livro "A Reforma", de Will Durant, pois considero o que há de mais completo e isento sobre os fatos que antecederam e sucederam a Reforma Protestante. Vou transcrever, a seguir, alguns trechos desse livro para que você possa compreender um pouco mais sobre a complexa questão de valores sociais misturados com eventos religiosos que permearam a questão econômica no período da Reforma Protestante. 

 Ao ler um pouco mais sobre a história da revolução que se instalou na Europa, a partir da Reforma Protestante, você vai perceber que a revolta contra a exploração religiosa tem raízes que podem voltar a brotar, porque o próprio protestantismo já está se dobrando ao materialismo, à luxúria e à exploração de uma população empobrecida. Nesse contexto, conhecendo a história, acredito que tudo o que eu posso fazer neste momento é não compactuar com esse tipo de desvirtuação do evangelho, embora eu seja apenas uma pessoa sem qualquer expressão nesse ambiente evangélico moderno. 

Mas, para não dizer que sou conivente, fiz um vídeo novo neste final de semana abordando a dominação de homens sobre homens por meio do sistema religioso: https://www.youtube.com/watch?v=uIiepzBobUU. O conteúdo deste vídeo tem por base o seguinte texto: https://celeiros.com.br/artigos#ul-id-182-3

 Grande abraço! 

 Em 1521 circulou na Alemanha um panfleto com o título de Karsthans – isto é, João do Forcado. Este “Homem da Enxada” e da pena pedia a proteção camponesa para Lutero; e uma continuação publicada no mesmo ano advogava a insurreição rural contra o clero católico. Outro panfleto de 1521, escrito por Johannes Eberlin, pedia o sufrágio universal masculino, a subordinação de cada governante e funcionário a conselhos eleitos pelo povo, a abolição de todas as organizações capitalistas, o retorno à fixação medieval de preços para o pão e o vinho, e a educação de todas as crianças em latim, grego, hebraico, astronomia e medicina. Em 1522, um panfleto intitulado Necessidades da Nação Alemã (Teutschek Nation Notturft), e falsamente atribuído ao falecido imperador Frederico III, pedia a abolição de “todas as peagens, direitos, passaportes e multas”, a abolição do direito romano e canônico, a limitação das organizações comerciais a um capital de 10.000 florins, a exclusão do clero do governo civil, o confisco da riqueza dos mosteiros, bem como a distribuição do produto entre os pobres. Otto Brunfels proclamou em 1524 que o pagamento de dízimos ao clero era contrário ao Novo Testamento. Os pregadores misturavam o evangelismo protestante com as aspirações utópicas. Um declarou que o céu estava aberto aos camponeses porém fechado aos nobres e clérigos; outro aconselhou os camponeses a não darem mais dinheiro a padres ou monges. Münzer, Carlstadt e Hubmaier advertiam seus ouvintes de que “os lavradores, mineiros e moleiros compreendem melhor o Evangelho, e podem ensiná-lo melhor, do que uma aldeia inteira de abades e padres... ou de doutores de teologia”, Carlstadt acrescentou: “e melhor do que Lutero.” Almanaques e astrólogos, como que dando uma indireta para a ação, predisseram um levante para 1524. Um humanista católico, Johannes Cochlaeus, advertiu Lutero (1523) de que “a população nas cidades, e os camponeses nas províncias, se insurgirão inevitavelmente.... Estão envenenados pelos inúmeros e abusivos panfletos e discursos que se imprimem e declamam entre eles contra a autoridade papal e secular”. Lutero, os pregadores e os panfletários não eram a causa da revolta; as causas eram as queixas justas dos camponeses. Mas podia-se argumentar que o evangelho de Lutero e seus adeptos mais radicais “derramaram óleo sobre as chamas”, e transformaram o ressentimento dos oprimidos em ilusões utópicas, violência incalculável e vingança apaixonada. 

 A carreira de Thomas Münzer apreendeu todo o enervamento da época. Nomeado pregador em Allstedt (1522), pediu o extermínio dos “sem Deus” – isto é, ortodoxos ou conservadores – pela espada; “os sem Deus não têm direito de viver a não ser tanto quanto lhes permitir o eleito.” Propôs aos príncipes que guiassem o povo numa revolta comunista contra o clero e os capitalistas. Como os príncipes não aproveitaram a oportunidade, apelou ao povo para que o derrubasse os príncipes também, e “fundasse uma sociedade requintada como a que foi imaginada por Platão... e Apuleio de o Asno de Ouro”. “Todas as coisas são comuns a todos”, escreveu ele, “e deveriam ser distribuídas conforme as exigências do momento, segundo as várias necessidades de todos. Qualquer príncipe, conde ou barão que, depois de lhe lembrarem severamente esta verdade, não quiser aceitá-la, deverá ser decapitado ou enforcado.” O eleitor Frederico tolerou divertido este evangelho, mas seu irmão o duque João e seu primo o duque Jorge uniram-se a Lutero para mandar expulsar Münzer de seu pastorado (1524). O irado apóstolo vagueou de cidade em cidade, anunciando a liberdade de “Israel”, e o iminente Reino do Céu sobre a terra. 

 Encontrou Münzer um clima político propício na cidade livre de Mülhausen, na Turíngia, onde a indústria têxtil reunira um proletariado numeroso. Heinrich Pfeiffer, ex-monge, já iniciara ali, com o apoio da baixa classe média, um movimento para arrebatar o conselho municipal da oligarquia patrícia. Münzer pregou seu programa radical aos trabalhadores da cidade e aos camponeses da vizinhança. A 17 de março de 1525, os adeptos armados de Pfeiffer e Münzer depuseram os nobres e estabeleceram um “Conselho Eterno” para governar Mülhausen. Segundo Melanchthon, os radicais vitoriosos expulsaram os monges e tomaram todas as propriedades da Igreja; entretanto, nenhum teólogo dessa era poder ter crédito para relatar imparcialmente as atividades ou opiniões de seus adversários. Não se estabeleceu nenhuma república comunista; Pfeiffer revelou-se mais capaz na prática do que Münzer, e dominou a revolta segundo as necessidades da classe média. Antecipando um ataque das tropas imperiais, Münzer reuniu os trabalhadores e os camponeses em um exército, e mandou fundir artilharia pesada para ele no mosteiro dos Frades Descalços. “Avante!” era seu grito para os homens; “avante enquanto o fogo está quente! Que suas espadas fiquem mais quentes ainda com o sangue!” 

 Pela mesma ocasião levantes camponeses convulsionavam a Alemanha meridional. Talvez uma tempestade de granizo (1524), que aniquilou todas as esperanças de colheita em Stühlingen, tenha servido de gatilho para a revolta. Esse distrito, perto de Schaffhausen, não ficava longe demais da Suíça para sentir o exemplo dos resolutos camponeses que se tinham libertado de tudo menos das formalidades do poder feudal. A 24 de agosto de 1524, Hans Müller, agindo por sugestão de Münzer, reuniu à sua volta alguns camponeses de Stühlingen, e uniu-os em uma “Irmandade Evangélica” para emancipar os lavradores de toda a Alemanha. Em breve tiveram a adesão dos rendeiros descontentes do abade de Reichenau, do bispo de Constança, dos condes de Werdenburg, Montfort, Lupfen e Sulz. No fim de 1524 havia uns 30.000 camponeses em armas na Alemanha meridional que se recusavam a pagar impostos ao governo, dízimos à Igreja ou direitos feudais, e que juravam emancipação ou morte. Em Memmingen, seus delegados, sob a direção ou influência dos protestantes zuinglianos de Zurique, redigiram em março de 1525 os “Doze Artigos” que incendiaram metade da Alemanha. 

 Ao leitor cristão paz, e a graça de Deus através de Cristo. 

 Há muitos anticristãos que ultimamente aproveitaram a assembléia dos camponeses para atirar o escárnio sobre o Evangelho, dizendo: É este o fruto do novo evangelho? É para ninguém ser obediente, e sim serem todos rebeldes... para derrubar, ou talvez matar, os senhores espirituais e temporais? A todos esses críticos sem deus e malevolentes respondem os artigos seguintes a fim de, primeiro, retirar esta censurada Palavra de Deus, e segundo, para justificar de maneira cristã a desobediência, mais ainda, a rebelião dos camponeses. 

 Primeiro: É nosso humilde pedido e súplica, como também vontade e intenção de todos nós, que no futuro tenhamos autoridade e poder de tal maneira que uma comunidade inteira possa escolher e nomear um pastor, e também ter o direito de demiti-lo.... 

 Segundo: Uma vez que o dízimo é citado no Velho Testamento e cumprido no Novo, nós... pagaremos o justo dízimo do grão, porém de maneira adequada.... Queremos que no futuro ele seja recolhido e recebido por nosso preboste clerical, que será nomeado pela comunidade; que desse dízimo seja dado ao pastor... um pecúlio modesto e suficiente para ele e os seus... que o restante seja distribuído aos pobres e necessitados da mesma aldeia.... O pequeno dízimo, não o daremos absolutamente, pois Deus criou o gado para o livre uso dos homens.... 

 Terceiro: Tem sido costume até agora que os homens nos detenham como sua propriedade, o que é lamentável, sabendo-se que Cristo nos redimiu e comprou a todos com o precioso derramamento de Seu Sangue, tanto aos pequenos como aos grandes.... Portanto, está de acordo com as Escrituras que sejamos livres, e assim seremos... A nossos governantes escolhidos e nomeados (nomeados para nós por Deus) obedeceremos de boa vontade em todos os assuntos justos e cristãos, e não temos dúvida de que, como cristãos sinceros e verdadeiros, nos libertarão alegremente da servidão, ou nos mostrarão no Evangelho que somos servos.... 

 Sexto: Temos uma queixa séria contra os serviços que são aumentados dia a dia.... 

 Oitavo: Somos fortemente lesados, pois muitos de nós temos arrendamentos que não sustentam os aluguéis que pagamos, e os camponeses sofrem perdas e ruína. Que os senhores mandem homens honrados inspecionar os tais arrendamentos, e determinar um aluguel justo... pois cada lavrador é digno da sua paga.... 

 Décimo: Estamos lesados porque alguns se apropriaram de prados dos campos comuns, que já pertenceram à comunidade.... 

 Undécimo: Queremos o direito de matar inteiramente abolido. Não o toleraremos, nem permitiremos que viúvas e órfãos sejam tão vergonhosamente roubados.... 

 Duodécimo: Se um ou mais dos artigos aqui apresentados... puder ser-nos demonstrado impróprio segundo a Palavra de Deus, desistiremos dele se isso nos for explicado com argumentos tirados das Escrituras. 

 Os chefes camponeses, encorajados pelas declarações semi-revolucionárias de Lutero, enviaram-lhe uma cópia dos Artigos, e solicitaram-lhe apoio. Ele respondeu com um panfleto impresso em abril de 125: Ermahung zum Frieden (Exortação à Paz). Aplaudia o oferecimento dos camponeses de se submeterem à correção pelas Escrituras. Registrava as acusações, que iam aumentando, de que seus discursos e suas obras tinham fomentado a revolta; negava sua responsabilidade, e lembrava a campanha que fizera pela obediência civil. Mas não retirou a crítica à classe dos senhores: 

 Não temos ninguém a quem agradecer esta rebelião maligna a não ser vós, príncipes e senhores, e principalmente vós, bispos e padres e monges alucinados, cujos corações estão endurecidos contra o Santo Evangelho, embora saibais que é verdade e que não podeis demiti-lo. Além disso, em vosso governo temporal, não fazeis outra coisa senão espoliar e roubar vossos súditos, para poderdes levar vida de esplendor e soberba, até o pobre povo comum não poder agüentar mais.... 

 Muito bem, então, uma vez que sois a causa desta ira de Deus, indubitavelmente cairá sobre vós, se não modificardes a tempo vossos métodos.... Os camponeses estão reunidos, e isto pode resultar na ruína, destruição e desolação da Alemanha por duros assassínios e derramamento de sangue, a menos que Deus seja levado por vosso arrependimento e impedi-lo. 

 Aconselhava os príncipes e senhores a reconhecer a justiça dos Artigos, e insistia em uma política de consideração benevolente. Aos camponeses dirigiu que refreassem a violência e a vingança; predizia que o recurso à violência deixaria os camponeses em situação ainda pior do que antes. Previa que uma revolta violenta traria o descrédito ao movimento pela reforma religiosa, e que seria censurado por tudo. Opunha-se à apropriação dos dízimos pelas congregações. As autoridades deviam ser obedecidas, e tinham o direito de cobrar impostos ao povo para pagar as despesas do governo. A “liberdade de um homem cristão” devia ser compreendida por liberdade espiritual, e compatível com a servidão, até com a escravidão. 

 Abraão e outros patriarcas não tinham escravos? Lede o que São Paulo ensina a respeito dos criados, e que nesse tempo eram todos escravos. Portanto, vosso terceiro artigo é inoperante face ao Evangelho.... Este artigo deveria tornar todos os homens iguais... e isso é impossível. Pois um reino terreno não pode sobreviver se não houver nele uma desigualdade de pessoas, de modo que algumas sejam livres, outras presas, algumas soberanas, outras súditas. 

 Seu conselho final, se tivesse sido seguido, teria poupado à Alemanha muito derramamento de sangue e muita devastação: 

 "Escolhei, entre os nobres, determinados condes e senhores, e das cidades alguns conselheiros, e tratai desses assuntos e resolvei-os de maneira amistosa. Vós, senhores, abandonai vossa teimosia... e desisti de uma parte de vossa tirania e opressão, para que a gente pobre tenha ar e espaço para viver. Por sua parte os camponeses deveriam deixar-se instruir, ceder e deixar passar alguns artigos que visam longe demais e alto demais." 

 Os dirigentes camponeses, entretanto, achavam que agora era tarde demais para recuar; em qualquer conciliação mais cedo ou mais tarde seriam castigados. Choraram Lutero como um traidor, e prosseguiram na revolta. Alguns assumiram de maneira muito literal o sonho da igualdade: os nobres deveriam desmantelar seus castelos, e viver como camponeses e burgueses; não deveriam andar mais a cavalo, pois isso os elevava acima de seu próximo. Os pastores deveriam ser informados de que dali em diante seriam criados, e não donos, de suas congregações, e seriam expulsos se não se ativessem estritamente e apenas às Escrituras. Exigências similares vinham dos trabalhadores das cidades. Denunciaram o monopólio dos cargos da cidade pelos ricos, o sonegamento dos fundos públicos pro funcionários corruptos, os preços constantemente crescentes enquanto os salários permaneciam os mesmos. “Seria melhor para a salvação da alma”, disse um radical, “se os senhores prelados não fossem tão ricos e luxuriosos, e se suas posses fossem divididas entre os pobres.” Wendel Hipler e Friedrich Weigant propuseram que toda a propriedade da Igreja fosse confiscada em favor das necessidades seculares; que todos os impostos de transporte e direitos de tarifas fossem abolidos; que houvesse em todo o Império uma só cunhagem e um só sistema de pesos e medidas. 

 (...) 

 As declarações extremadas de Lutero sobre a Guerra dos Camponeses escandalizam-nos hoje porque a ordem social foi tão bem estabelecida que nós acreditamos em sua continuidade, e podemos tratar com brandura os poucos que a perturbassem com violência. Mas Lutero estava diante da dura realidade de bandos de camponeses que transformavam suas justas queixas em pilhagem indiscriminada, e que ameaçavam a completa subversão da lei, do governo, da produção e da distribuição na Alemanha. Os acontecimentos justificavam sua advertência de que a revolução religiosa pela qual arriscara a vida seria seriamente ameaçada pela reação conservadora que se deveria seguir a uma revolta malograda. Ele deve ter-se sentido um tanto em dívida pessoal para com os príncipes e nobres que os tinham protegido em Wittenberg e Worms em Wartburg, e podia muito bem a si mesmo que o salvaria contra Carlos V e Clemente VII se o poder principesco deixasse de amparar a Reforma. A única liberdade que lhe parecia digna de se lutar por ela era a liberdade de adorar a Deus, buscar a salvação segundo a própria consciência. Que diferença fazia que, nesse breve Vorspiel para a vida eterna, o indivíduo fosse príncipe ou escravo? Nós deveríamos aceitar nossa condição neste mundo sem nos queixarmos, presos de corpo e de dever, porém livres na alma e na graça de Deus. 

 (...) 

 A maioria dos anabatistas adotava a severidade puritana de moral bem como a simplicidade de maneira e de vestir. Desenvolvendo com lógica precipitada a idéia de Lutero da liberdade cristã, condenavam todo governo de força, e toda a resistência a ele pela força. Repeliam o serviço militar com o argumento de que é invariavelmente pecaminoso extinguir a vida humana. Como os primeiros cristãos, recusavam jurar votos, sem excetuar os votos de fidelidade a príncipe ou imperador. Sua saudação habitual era: “A paz do Senhor seja contigo” – eco do cumprimento judaico e muçulmano e precursor da maneira quaker. Enquanto Lutero, Zwingli, Calvino e Knox concordavam com os papas sobre o absurdo da tolerância religiosa, os anabatistas pregavam-na e praticavam-na; um deles, Balthasar Hübmaier, escreveu a primeira defesa clara dessa tolerância (1524). Escarneciam dos cargos públicos e de todos os recursos ao litígio. Eram anarquistas tolstoianos três séculos antes de Tolstoi, e um século depois de Peter Chelcicky, de quem talvez copiado o credo. Herdando ciente ou involuntariamente a doutrina dos taboritas boêmios ou dos Irmãos Morávios, alguns anabatistas proclamaram uma comunidade de bens; alguns, se pudermos acreditar em cronistas hostis, propuseram uma comunidade de esposas. Entretanto, de modo geral a seita rejeitava qualquer partilha compulsória de bens, advogava o auxílio mútuo voluntário, e sustentava que no Reino dos Céus o comunismo seria automático e universal. Todos os grupos anabatistas inspiravam-se no Apocalipse e na espera confiante do breve retorno de Cristo à terra; muitos crentes afirmavam saber o dia e a hora de Sua vinda. Então todos os ímpios – nesse caso todos, menos os anabatistas – seriam eliminados pela espada do Senhor, e os eleitos viveriam na glória em um paraíso terrestre sem leis ou casamento, possuindo todas as coisas boas em abundância. Assim os homens esperançosos se endureciam contra o trabalho e a monogamia. 

Os anabatistas apareceram pela primeira vez na Suíça. Talvez um cristianismo pacífico tivesse penetrado sorrateiramente pelos valdenses do sul da França e pelos belgardos dos Países-Baixos. Aqui e ali, como em Basiléia, alguns intelectuais adotaram a idéia de uma sociedade comunista. As passagens comunistas da Utopia de Thomas More podem ter agitado os sábios que se reuniam em volta de Erasmo nessa cidade. Três membros desse círculo tornaram-se chefes anabatistas: Conrad Grebel e Felix Manz de Zurique, e Balthazar Hübmaier de Waldshut – bem em frente à fronteira da Áustria. Em 1524, Münzer visitou Waldshut, Carlstadt foi a Zurique, e formou-se em Zurique uma seita anabatista sob o nome de “Espirituais” ou “Irmãos”. Pregava o batismo adulto e a vinda de Cristo, repelia a Igreja e o Estado, e propunha a cessação dos juros, dos impostos, do serviço militar, dos dízimos e dos votos.