Legenda da imagem

 

Estudos Bíblicos

 
A caverna de Platão

Imagem Ilustrativa

Algumas considerações preliminares sobre a liberdade 

Ser livre não é fácil. 

Muitos não sabem ser livres e acabam se perdendo em sua liberdade – é verdade. Desde os tempos do Éden foi assim. Deus fez o homem para ser livre e não para viver aprisionado ou dominado por outro homem. O Senhor ordenou ao homem que dominasse sobre todo ser vivo (Gn 1:28), mas nunca disse para ele dominar sobre outro homem: sempre que um indivíduo pretende dominar outro, temos aí constituídos os princípios de uma tirania.

Também, o Senhor não colocou o homem em uma prisão para evitar que ele pecasse. A árvore do conhecimento do bem e do mal estava ao alcance da mão de Adão e Eva. É claro que Deus poderia ter colocado essa árvore em um lugar inacessível ao homem para que ele nunca pecasse, mas Ele não fez isso. Antes, a colocou ao alcance de sua mão e apenas lhe disse, em outras palavras: “você é livre, mas eu não quero que você coma do fruto dessa árvore. Escolha por você mesmo: se obedecer a minha voz, viverá, mas caso decida fazer o que seus olhos e seus desejos acharem melhor, faça como quiser. Mas, lembre-se, você é responsável por seus atos -  assuma isso, pois você já sabe o que lhe acontecerá se escolher o caminho errado: certamente morrerás”. Assim, Deus designou o homem para a liberdade e para a responsabilidade.

Como eu disse, muitos não sabem ser livres, mas, ainda assim, essa é a melhor opção, porque essa é a vontade de Deus. Somente quando estamos livres somos capazes de realizar a vontade de Deus – Deus não usa pessoas em cativeiro . Ora, se eu não peco por falta de opção, não posso me gloriar de minha santidade. Por exemplo: aquele que não adultera porque não tem oportunidade de adulterar não pode se gloriar de sua fidelidade. Mas, quando a oportunidade aparece e ele a rejeita, por amor à sua esposa e por amor a Deus, então ele pode dizer: venci a tentação!

O apóstolo Pedro entendeu que a vontade de Deus era que a igreja fosse livre e, por isso, teve que chamá-la à responsabilidade, senão vejamos:

“15 Porque assim é a vontade de Deus, que, pela prática do bem, façais emudecer a ignorância dos insensatos; 16 como livres que sois, não usando, todavia, a liberdade por pretexto da malícia, mas vivendo como servos de Deus.” (1 Pedro 2:15-16 RA)

Igualmente, o apóstolo Paulo, ao enfrentar aqueles que queriam impor a regra da circuncisão aos libertos da lei, foi duro com esses homens que se insurgiam contra a liberdade da graça, declarando que tais homens eram perturbadores e que incitavam a igreja à rebeldia. Mas, depois do discurso da liberdade, Paulo chamou a igreja à responsabilidade, conforme se vê a seguir:“

1 Para a liberdade foi que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes e não vos submetais, de novo, a jugo de escravidão. 2  Eu, Paulo, vos digo que, se vos deixardes circuncidar, Cristo de nada vos aproveitará. 3  De novo, testifico a todo homem que se deixa circuncidar que está obrigado a guardar toda a lei. 4  De Cristo vos desligastes, vós que procurais justificar-vos na lei; da graça decaístes. (...) 7  Vós corríeis bem; quem vos impediu de continuardes a obedecer à verdade? 8  Esta persuasão não vem daquele que vos chama. 9  Um pouco de fermento leveda toda a massa. 10  Confio de vós, no Senhor, que não alimentareis nenhum outro sentimento; mas aquele que vos perturba, seja ele quem for, sofrerá a condenação. 11  Eu, porém, irmãos, se ainda prego a circuncisão, por que continuo sendo perseguido? Logo, está desfeito o escândalo da cruz. 12  Tomara até se mutilassem os que vos incitam à rebeldia. 13 Porque vós, irmãos, fostes chamados à liberdade; porém não useis da liberdade para dar ocasião à carne; sede, antes, servos uns dos outros, pelo amor.” (Gálatas 5:1-13 RA)

Mas, quem não sabe ser livre, infelizmente, acaba voltando ao jugo da lei. Certa vez, soltei um pássaro que estava preso em uma gaiola na casa de um tio meu. Dois dias depois ele estava de volta: ele não sabia ser livre, pois desde seu nascimento sempre viveu na gaiola. A liberdade o mataria, pois ele era fraco e indefeso. Não sabia sequer conquistar seu alimento sozinho. Entre voar livremente, desfrutar do sol, das árvores, dos rios e ajuntar-se a outros grupos de aves, mas com a responsabilidade de se defender e de ter de caçar sua própria comida, ele preferiu a gaiola. Nela, ele não gozaria dos benefícios da liberdade, mas se sentia seguro e bem alimentado: tratava-se de um preso feliz, comendo sua ração diária, sempre igual, na mesma quantidade e na mesma hora, porque ele não queria arcar com o preço da liberdade. Se Jesus pensasse assim, estaríamos perdidos. Mas, ele saiu do conforto de seu trono e pagou o preço da nossa liberdade.

Foi pensando assim que eu percebi que apenas os determinados e os destemidos podem enfrentar, com sucesso, esse caminho para fora da caverna – o caminho da liberdade. Mas, independentemente da escolha de cada um, todos devem, pelo menos, saber que há luz do lado de fora. Depois, eles são livres para escolher: se preferirem, poderão ficar onde estão e não se arriscar. 

Cada um conhece suas próprias fraquezas, medos e comodismo. Entretanto, conhecendo as opções disponíveis, o homem torna-se dono de seu próprio destino. Isso é inevitável e foi Deus quem nos trouxe o conhecimento da verdade e nos colocou na condição de livre arbítrio, para que jamais venhamos a dizer que não sabíamos quais as opções que tínhamos à nossa frente.

De volta à cavernaHoje, há mais de 10 anos da minha saída de uma caverna, volto mais uma vez a dizer que há luz do lado de fora.

Pois bem, vou começar fazendo um breve comentário sobre quem foi Platão e depois vou transcrever o texto de seu livro “A República” , que narra a alegoria da caverna, a qual me referi em meu testemunho. Na sequência, vou fazer um resumo simplificado do texto de Platão e, ao final, tentarei mostrar a significação das palavras dessa alegoria dentro do contexto de minha experiência pessoal.

A partir de agora, começo minha descida à caverna.

Sobre Platão

Platão integra o período clássico da Filosofia (Séc. V - IV a.C), inaugurado pelos ensinamentos de Sócrates, o qual, assim como Jesus, não deixou nada escrito. Conhecemos Sócrates pelos escritos de Platão e conhecemos Jesus pelos escritos dos apóstolos. Sócrates acreditava que a palavra viva era a palavra falada e Jesus, mesmo sem ter escrito uma só linha, afirmou que as suas palavras não passariam (Mt. 24:35).

Platão, por sua vez, afirmou que conhecer é conhecer a essência das coisas. Segundo ele, a ciência moderna admite o uso dos sentidos para a observação, mas isso não é seguro, pois os sentidos nos enganam, ou seja, nem sempre o que parece ser é. Por isso, Platão defendeu que o homem deve usar a razão para conhecer a verdade das coisas. Existe um mundo inteligível e um mundo sensível. E, segundo Platão, o verdadeiro mundo é o inteligível, pois o mundo sensível (físico) é influenciado pelos sentidos humanos, que nos enganam, pois a matéria está em movimento.

A alegoria da caverna de Platão

Para aqueles que acharam o texto original difícil, por ser um escrito antigo, vou fazer um resumo com a essência dessa alegoria de Platão e depois compará-la à realidade a que me referi em meu testemunho.

Vamos imaginar um grupo de pessoas habitando no interior de uma caverna subterrânea. Lá embaixo estão todos acorrentados pelo pescoço e pés, de costas para a entrada da caverna e de frente para a parede que está ao fundo da caverna. Tudo o que podem ver é a parede da caverna. Desde seu nascimento, geração após geração, seres humanos ali vivem acorrentados, sem poder mover a cabeça para a entrada, nem se locomover, forçados a olhar apenas a parede do fundo, e sem nunca terem visto o mundo exterior nem a luz do Sol.

Atrás dessas pessoas há um muro alto que fica entre elas e a entrada da caverna. Ao longo desse muro muitas outras pessoas passam conversando e carregando nos ombros esculturas sob a forma de homens, mulheres e animais, que se elevam para além da borda do muro. A iluminação que vem de uma fogueira queimando atrás desse muro se projeta nos objetos carregados pelos homens e lança sombras em movimento na parede ao fundo da caverna. Os prisioneiros julgam que essas sombras são as próprias coisas externas, e que os artefatos projetados são os seres vivos que se movem e que falam. 

Assim, a única coisa que as pessoas da caverna podem ver é este “teatro de sombras”. E como essas pessoas estão ali desde que nasceram, elas acham que as sombras que veem são a única coisa que existe. 

Agora, vamos imaginar que um desses habitantes da caverna consiga se libertar dos grilhões que o prende e queira saber de onde vêm aquelas sombras projetadas na parede. Quando ele chega no muro e se ergue para ver as figuras que se elevam para além da borda do muro, ele fica com sua visão completamente ofuscada por aquele brilho inesperado, ao qual a sua visão não está acostumada. A luz é tão intensa que ele não consegue enxergar nada. Mas, insistindo em olhar, pouco depois pode ver a precisão dos contornos das figuras, de que ele até então só via as sombras. Se ele conseguir escalar o muro e passar pelo fogo para poder sair da caverna, terá mais dificuldade ainda para enxergar devido à abundância de luz que há do lado de fora da caverna. Chegando lá, depois de manter as mãos sobre olhos por algum tempo, começará a abri-los, aos poucos, e com o tempo poderá contemplar a beleza que sempre esteve ali, perto do local onde ele sempre viveu. 

Ele fica encantado com tudo o que vê. Deslumbra-se, tem a felicidade de, finalmente, ver as próprias coisas, descobrindo que, em sua prisão, vira apenas sombras. Pela primeira vez ele vê cores e contornos precisos. Ele vê animais e flores de verdade e compreende que tudo o que ele conhecia antes era apenas uma silueta que não podia servir para dar a compreensão da realidade. Também, ele está feliz por poder se mover livremente pela natureza, desfrutando da vida que acabara de conquistar. 

Deseja ficar longe da caverna, mas as outras pessoas que ainda continuam lá dentro da caverna não lhe saem da cabeça. Ele até pensa em notificar os outros da realidade exterior, mas lembra-se da subida íngreme e penosa. Também, lembra-se da luz ofuscante e considera que o retorno também será trabalhoso, pois deverá enfrentar novamente as trevas, o que é muito pior do que se habituar à luz. 

Mesmo assim, ele decide voltar. De volta à caverna, o ex-prisioneiro será desajeitado, não saberá mover-se nem falar de modo compreensível para os outros. Ele tenta, com muito jeito, explicar a todos que as sombras na parede não passam de trêmulas imitações da realidade... mas, quem irá acreditar nele? 

Os habitantes da caverna se aproveitam da sua dificuldade de explicar o que viu e o ridicularizam dizendo que perdeu o juízo e que, por isso, é loucura tentar fazer o mesmo que ele fez. As pessoas apontam para a parede da caverna e dizem que aquilo que veem é tudo o que existe; é a única verdade que existe; é a realidade. 

Por fim, acabam atentando contra a vida daquele que retornou para lhes dizer um monte de "mentiras".

A aplicação da alegoria no contexto do meu testemunho pessoal

Por meio da referida alegoria relatada por Platão, comparada a uma parábola de Jesus, nos serve como ilustração de uma realidade. A partir dela, podemos refletir um pouco acerca do que entendemos ser a verdade do evangelho que sustenta a nossa fé. 

Pensando nisso, será que nossas verdades são simplesmente “sombras” que se encontram à nossa frente? Será que nossas verdades condizem com verdadeiro evangelho de Jesus? Ou será que trocamos Jesus por sua sombra e a sua verdade por outra que satisfaça apenas nossa religiosidade? Será que não estamos presos dentro da caverna, com grilhões nos pescoços e nos pés, sem poder nos mover e acreditando que Jesus é Davi, Moisés, Elias, Samuel ou qualquer outro tipo que o possa representar? Será que não estamos presos dentro das muralhas de nossos próprios sentidos, percepções, conceitos e preconceitos?

A minha experiência cristã tem me ensinado algumas coisas que eu gostaria de compartilhar com você, que está tentando enxergar um pouco do que eu já vi e estou tentando relatar. 

Eu não concordo com Platão quanto ao conhecimento da verdade exclusivamente por meio da razão. Creio que conhecer a verdade, para nós que cremos na palavra de Deus, significa conhecer Jesus, que disse que ser a verdade. Por isso, nesse particular, deixo Platão e fico com Jesus. Confio que Ele nos ensina o exato caminho em que devemos andar para a preservação da integridade do nosso espírito, alma e corpo (1Ts 5:23).

Aprendi, a duras penas, que a base confiável para o desenvolvimento da minha fé é a palavra de Jesus. Tudo que existe antes Dele é sombra. Tudo o que vem depois dele não pode ultrapassar seus ensinamentos. Fora de Jesus, tudo é sombra. Jesus é o real, o princípio e fim de todas as coisas (Ap 22:13). Jesus é o messias profetizado por tantos profetas de Deus. Ele é a consumação de todo um ritual encenado durante centenas de anos por meio da morte de animais. Ele é a figura real de tantas e tantas simbologias e figuras do passado. Ele é a verdade!“

13 E a vós outros, que estáveis mortos pelas vossas transgressões e pela incircuncisão da vossa carne, vos deu vida juntamente com ele [Jesus], perdoando todos os nossos delitos; 14  tendo cancelado o escrito de dívida, que era contra nós e que constava de ordenanças, o qual nos era prejudicial, removeu- o inteiramente, encravando-o na cruz; 15  e, despojando os principados e as potestades, publicamente os expôs ao desprezo, triunfando deles na cruz. 16 Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou lua nova, ou sábados, 17  porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo.” (Colossenses 2:13-17 RA)

“4  Ora, se ele estivesse na terra, nem mesmo sacerdote seria, visto existirem aqueles que oferecem os dons segundo a lei, 5  os quais ministram em figura e sombra das coisas celestes, assim como foi Moisés divinamente instruído, quando estava para construir o tabernáculo; pois diz ele: Vê que faças todas as coisas de acordo com o modelo que te foi mostrado no monte.” (Hebreus 8:4-5 RA)

“Ora, visto que a lei tem sombra dos bens vindouros, não a imagem real das coisas, nunca jamais pode tornar perfeitos os ofertantes, com os mesmos sacrifícios que, ano após ano, perpetuamente, eles oferecem.” (Hebreus 10:1 RA)

Moisés, Samuel, Davi etc., nenhum destes homens pode servir para fixação de fundamentos doutrinários da nossa religião depois que conhecemos Jesus. Os outros servos do passado, igualmente, mesmo tipologicamente apontando para Jesus são apenas a sombra do que viria a se manifestar. O fundamento da igreja está na pedra angular, Jesus. E, posteriormente, na doutrina deixada pelos apóstolos. Por isso, a palavra de Jesus não pode ser substituída por nenhum ato ou fato passado, por mais nobre que seja. 

Por  exemplo, há quem diga que Davi é um tipo de Jesus “naquilo que ele não pecou”. Concordamos, mas é preciso ter cuidado com isso. O risco é descambar para uma inversão de ordem e de valores, substituindo a sombra pelo real. 

 Muita atenção! 

Se algum ato de Davi apenas se parece com os de Jesus, ainda assim é melhor ficar com os atos de Jesus. Por que não? Se são iguais, ou parecidos, por que não basear a doutrina da igreja de Jesus no próprio Jesus? Por que preferir a sombra? Por que desenvolver toda uma doutrina com base em Davi, se eu conheço Jesus, o real?

Pois bem, eu vivi por muitos anos acreditando que a obra de Deus era a “Obra de Davi”. Desse modo, sem perceber, eu estava fundamentando minha fé em Davi, enaltecendo atos que Jesus repudiaria, com certeza. Fiz muita coisa que, no fundo, expressava a falta de amor por meus irmãos em Cristo: desprezo, palavras pejorativas e insinuações maldosas sobre o trabalho de outros grupos evangélicos. Sim, os grilhões não permitiam que eu virasse o meu pescoço e movesse os meus pés em outra direção. Para mim, aquilo era o certo, a verdade, a realidade, razão de minha existência. Eu acreditava, sinceramente, que tudo aquilo que eu fazia era a vontade de Deus, pois eu estava amparado pela “Obra de Davi”, que seria a “Obra do Espírito Santo de Deus”.

Mas, hoje sei que é impossível enxergar Jesus em sua plenitude real quando estamos fixando nossos olhos apenas em sua sombra. As formas são parecidas e até podemos dizer que conhecemos os contornos de Jesus, mas o fato é que eu estava distante de praticar os seus ensinamentos enquanto eu estava reproduzindo os atos de Davi. Na verdade, Jesus para mim era o mesmo que o cordeiro para o judeu no tempo do sacrifício da lei: uma sombra.

Jesus viveu aproximadamente mil anos depois de Davi e isso já explica muito sobre a diferença das atitudes de um de do outro. Davi era um guerreiro e conquistou os termos de Israel à base de muito sangue inimigo derramado, senão vejamos:“

1 Depois disto, feriu Davi os filisteus e os humilhou; tomou a Gate e suas aldeias das mãos dos filisteus. 2  Também derrotou os moabitas, e assim ficaram por servos de Davi e lhe pagavam tributo. 3  Também Hadadezer, rei de Zoba, foi derrotado por Davi, até Hamate, quando aquele foi restabelecer o seu domínio sobre o rio Eufrates. 4  Tomou-lhe Davi mil carros, sete mil cavaleiros e vinte mil homens de pé; Davi jarretou [alejou] a todos os cavalos dos carros, menos para cem deles. 5  Vieram os siros de Damasco a socorrer a Hadadezer, rei de Zoba; porém Davi matou dos siros vinte e dois mil homens.” (1 Crônicas 18:1-5 RA)

As conquistas de Davi podiam ser necessárias e aquilo até estava de acordo com a vontade de Deus para aquele tempo, ou seja, nisso ele não pecou. Mas, seria esse um comportamento aplicável tipologicamente a Jesus? 

Parece incrível, mas os ensinamentos diretos da boca de Jesus têm sido desprezados e têm dado lugar aos ensinamentos da Obra de Davi. Há religiosos que entendem que para estabelecer seus domínios podem sair matando todos os que não estiverem se rendendo a eles, assim como fazia Davi. Matam, humilham, descartam, cobram tributos (dízimos) e escravizam (controle mental) e ainda acreditam que estão fazendo a vontade de Deus.

Esquecem-se que a vinda de Jesus ao mundo provocou uma verdadeira revolução de conceitos, práticas, doutrinas etc. Há um rompimento com os valores do passado. Quando a terra tremeu e as rochas fenderam em sua morte, Deus estava nos mostrando como o mundo seria abalado após Jesus e que as estruturas mais estáveis desta terra seriam atingidas. Nada mais seria como antes. O filho de Deus rompeu com a lei ao consumá-la, aniquilou as regras criadas pelos fariseus, alterou a religião dos judeus fazendo cessar os sacrifícios de animais, mas o mais importante: trouxe princípios e valores eternos para que dali por diante os cumpríssemos, a despeito de tudo aquilo que já havia sido ensinado antes, senão vejamos:

“20  Porque vos digo que, se a vossa justiça não exceder em muito a dos escribas e fariseus, jamais entrareis no reino dos céus. 21 Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. 22  Eu, porém, vos digo que todo aquele que sem motivo se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo. 23  Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, 24  deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta.  (Mateus 5:20... leia em sua bíblia o texto completo até o verso 48)

Nenhum cristão em sã consciência, enxergando claramente a Jesus (o real e não a uma sombra tipológica) pode se sentir confortável em uma religião firmada nos atos de Davi, especialmente quanto aos incompatíveis com os ensinamentos do Mestre. Jesus não era um guerreiro e nunca mandou executar ninguém, nem mesmo seus inimigos (fariseus e escribas e soldados romanos) ou aqueles que não o aceitavam. Ao contrário, Jesus deu um exemplo bem diferente:

“51 E aconteceu que, ao se completarem os dias em que devia ele ser assunto ao céu, manifestou, no semblante, a intrépida resolução de ir para Jerusalém 52  e enviou mensageiros que o antecedessem. Indo eles, entraram numa aldeia de samaritanos para lhe preparar pousada. 53  Mas não o receberam, porque o aspecto dele era de quem, decisivamente, ia para Jerusalém. 54  Vendo isto, os discípulos Tiago e João perguntaram: Senhor, queres que mandemos descer fogo do céu para os consumir? 55  Jesus, porém, voltando-se os repreendeu e disse: Vós não sabeis de que espírito sois. 56  Pois o Filho do Homem não veio para destruir as almas dos homens, mas para salvá-las. E seguiram para outra aldeia.” (Lucas 9:51-56 RA)

Se executar inimigos e entrar em guerra era algo razoável no tempo de Davi, Jesus alterou radicalmente esse comportamento. Jesus mandou Pedro guardar a espada, senão vejamos:

“51 E eis que um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, sacou da espada e, golpeando o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe a orelha. 52  Então, Jesus lhe disse: Embainha a tua espada; pois todos os que lançam mão da espada à espada perecerão. 53  Acaso, pensas que não posso rogar a meu Pai, e ele me mandaria neste momento mais de doze legiões de anjos?” (Mateus 26:51-53 RA)

Davi orientou Salomão à vingança, deixando ordem para que Joabe fosse executado na primeira oportunidade. Davi não se lembrou que um dia Joabe foi seu grande companheiro de batalhas, seu antigo general, que por ele lutou inúmeras vezes. Davi, naquele momento, só se lembrou que Joabe falhou e, por isso, não haveria para ele perdão.

“5 Também tu sabes o que me fez Joabe, filho de Zeruia, e o que fez aos dois comandantes do exército de Israel, a Abner, filho de Ner, e a Amasa, filho de Jéter, os quais matou, e, em tempo de paz, vingou o sangue derramado em guerra, manchando com ele o cinto que trazia nos lombos e as sandálias nos pés. 6  Faze, pois, segundo a tua sabedoria e não permitas que suas cãs desçam à sepultura em paz.” (1 Reis 2:5-6 RA)

É claro que tudo isso estava dentro de um propósito compatível com a época em que Davi viveu. Por isso, encontraremos várias explicações razoáveis para tal atitude de Davi. Mas, é bom lembrar que tais fatos somente podem ser compreendidos naquele contexto. Hoje, tal comportamento não pode servir de parâmetro para a igreja de Jesus, pois o nosso mestre nos deixou nova instrução. Jesus, que é a imagem real do evangelho da salvação, nos ensinou a resolver os problemas com nossos inimigos de um modo bem diferente:

“38 Ouvistes que foi dito: Olho por olho, dente por dente. 39 Eu, porém, vos digo: não resistais ao perverso; mas, a qualquer que te ferir na face direita, volta-lhe também a outra; 40  e, ao que quer demandar contigo e tirar-te a túnica, deixa-lhe também a capa. 41  Se alguém te obrigar a andar uma milha, vai com ele duas. 42  Dá a quem te pede e não voltes as costas ao que deseja que lhe emprestes. 43  Ouvistes que foi dito: Amarás o teu próximo e odiarás o teu inimigo. 44  Eu, porém, vos digo: amai os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem; 45  para que vos torneis filhos do vosso Pai celeste, porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons e vir chuvas sobre justos e injustos. 46  Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes? Não fazem os publicanos também o mesmo? 47  E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis de mais? Não fazem os gentios também o mesmo? 48  Portanto, sede vós perfeitos como perfeito é o vosso Pai celeste.” (Mateus 5:38-48 RA)

Com o olhar nos princípios e ensinamentos de Jesus, entendemos que nossa missão é conciliadora. Não é razoável ensinar os membros da igreja a virarem as costas aos seus “desafetos”. Se isso é aceitável na obra de Davi, não é na obra de Jesus. 

Os discípulos de Jesus, certamente, ficarão desconfortáveis com todo ensinamento que os induza a amar e a respeitar somente os membros de sua denominação. Também, ficarão perplexos diante da ausência de perdão diante dos erros das pessoas. Ainda que seja admissível a exclusão de um membro por sua contumácia no pecar, será sempre possível sua reintegração à comunhão da igreja ou da participação dos seus serviços porque o perdão faz parte da essência da obra de Jesus quando há arrependimento, embora no tempo de Davi as coisas funcionassem de modo diverso. 

“21 Então, Pedro, aproximando-se, lhe perguntou: Senhor, até quantas vezes meu irmão pecará contra mim, que eu lhe perdoe? Até sete vezes? 22  Respondeu-lhe Jesus: Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” (Mateus 18:21-22 RA)

Veja, ainda, que o apóstolo Paulo ensinou na mesma linha de Jesus, dizendo:

“16 Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos. 17  Não torneis a ninguém mal por mal; esforçai-vos por fazer o bem perante todos os homens; 18  se possível, quanto depender de vós, tende paz com todos os homens; 19  não vos vingueis a vós mesmos, amados, mas dai lugar à ira; porque está escrito: A mim me pertence a vingança; eu é que retribuirei, diz o Senhor. 20  Pelo contrário, se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber; porque, fazendo isto, amontoarás brasas vivas sobre a sua cabeça. 21  Não te deixes vencer do mal, mas vence o mal com o bem.” (Romanos 12:16-21 RA)

Se alguém defende a obra de Davi hoje deve estar preparado para ser tratado como Joabe amanhã, caso falhe.

Enfim, vamos ressaltar: Jesus é diferente de Davi e as sombras nos dão apenas uma noção de quem seja Jesus, mas não nos mostram claramente quem ele é na realidade. 

 HÁ LUZ DO LADO DE FORA! 

Brasília, 26 de junho de 2016.

Pastor Sólon Pereira 

 
Por que fomos criados?

Imagem Ilustrativa

O propósito da nossa criação exclui a possibilidade de termos um fim em nós mesmos. 

Quem pensa que veio a este mundo para cuidar de seus próprios interesses, ganhar dinheiro, alcançar sucesso pessoal, construir impérios e gozar prazeres não conhece a essência e os desígnios de Deus. 
Antes da fundação do mundo, Deus já existia e em nada dependia de nós para a sua existência. Ou seja, Deus não existe em função do homem.
“Antes que os montes nascessem e se formassem a terra e o mundo, de eternidade a eternidade, tu és Deus.” (Salmos 90:2 RA)

De modo contrário, a bíblia sagrada nos informa que, a partir de um certo momento da eternidade, nós fomos criados e passamos a existir para um fim específico. Ao que podemos notar pela leitura da palavra de Deus, o propósito da nossa criação exclui a possibilidade de termos um fim em nós mesmos, pois fomos criados “por Deus” (único), “para Deus” e “em Deus existimos, vivemos e nos movemos, conforme se vê a seguir. 

“Tu és digno, Senhor e Deus nosso, de receber a glória, a honra e o poder, porque todas as coisas tu criaste, sim, por causa da tua vontade vieram a existir e foram criadas.” (Apocalipse 4:11 RA) 

“todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele.” (1 Coríntios 8:6 RA) 

“pois nele vivemos, e nos movemos, e existimos, como alguns dos vossos poetas têm dito: Porque dele também somos geração.” (Atos 17:28 RA) 

Separando essas informações temos:

a) fomos criados por Deus, o qual merece toda glória (digno); 

b) existimos porque Deus espera algo de nós (existimos para ele); 

c) Deus é a fonte da nossa vida, de modo que precisamos Dele para viver (nele vivemos);

d) Deus é força que nos motiva, pois Nele temos propósito a cumprir (nele nos movemos)Jesus é, igualmente, alvo dessa glória devida a Deus, pois o próprio Senhor o coloca no mesmo nível de divindade e como razão da criação e da nossa existência, senão vejamos:

 “15  Este [Jesus] é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; 16  pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. 17  Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste. 18  Ele é a cabeça do corpo, da igreja. Ele é o princípio, o primogênito de entre os mortos, para em todas as coisas ter a primazia, 19  porque aprouve a Deus que, nele, residisse toda a plenitude” (Colossenses 1:15-19 RA) 

Separando essas informações temos: 

a) fomos criados por meio de Jesus, em quem reside toda a plenitude (tudo); 

b) existimos porque Jesus espera algo de nós. Tem propósito em nós (criados para ele); 

c) Jesus é fonte de vida, de modo que precisamos dele para viver (nele tudo subsiste); 

d) Jesus é força diretiva que nos move e dá ordens aos nossos movimentos e ações, orientando-nos ao seu propósito (ele é a cabeça do corpo).

Adicionalmente, a palavra de Deus nos ensina que o Espírito Santo de Deus foi designado para, entre outras coisas, em tempo específico, realizar um propósito de Deus, qual seja: conduzir o homem à verdade, convencê-lo de seus pecados e das conseqüências de se desprezar a vontade de Deus, que é a santificação (arrependimento, confissão e perdão dos pecados) e, assim, glorificar a Jesus

 “7  Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei. 8  Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: (...)  13  quando vier, porém, o Espírito da verdade, ele vos guiará a toda a verdade; porque não falará por si mesmo, mas dirá tudo o que tiver ouvido e vos anunciará as coisas que hão de vir. 14  Ele me glorificará, porque há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar. 15  Tudo quanto o Pai tem é meu; por isso é que vos disse que há de receber do que é meu e vo-lo há de anunciar.” (João 16:7-12; 13-15 RA) 

Nesse mister de convencer o homem de sua necessidade de restauração ao estado original (santo), o próprio Espírito Santo de Deus glorifica a Jesus, assim como o Pai o glorificou e o exaltou acima de todo o nome. E quando Jesus é exaltado e reconhecido como Deus, o Pai também é glorificado:

“9  Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, 10  para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, 11  e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai.” (Filipenses 2:9-11 RA) 

E quanto a nós? 

Se já sabemos que fomos criados por Deus e por Jesus. Se já sabemos que o Espírito Santo nos foi concedido para nos ajudar na tarefa de santificação. Se já sabemos que não fomos criados para um fim em nós mesmos. Se já sabemos que em Deus e em Jesus existimos, vivemos e nos movemos para um propósito específico... qual seria este propósito? 

Fomos criados para sermos santos e para o louvor da glória de Deus!

Segundo a palavra de Deus, fomos criados para sermos santos e para o louvor da sua glória. Isso justifica a tarefa que foi dada ao Espírito Santo, de nos conduzir à santificação. Mas, para que devemos ser santificados? Ora, a santidade é imperativa para o louvor da glória de Deus, que é santo e só admite em sua presença adoradores santificados.

“porque escrito está: Sede santos, porque eu sou santo.” (1 Pedro 1:16 RA)

 “Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor,” (Hebreus 12:14 RA) 

No princípio de todas as coisas, o homem criado para a glória de Deus era santo, puro e sem o conhecimento do mal. Mas, por causa do pecado caiu e perdeu a condição original de adorador da glória de Deus, uma vez que foi lançado de sua presença (Gn 3:23-24). Por isso, após a queda, tanto Adão como nós temos que buscar primeiro a santificação pelo perdão de nossos pecados para cumprirmos com o propósito de Deus, de sermos adoradores.

Mas, como o próprio Adão não poderia solucionar o problema do pecado e tornar à comunhão com Deus por si mesmo (Gn 3:7), Deus, em sua infinita misericórdia, trouxe-o novamente à sua santa presença cobrindo-o com a pele de um animal sacrificado (Gn 3:21). De igual modo, nossa comunhão com Deus só se estabelece após nossa restauração do pecado, o que hoje é possível por meio do sacrifício de Jesus (o cordeiro de Deus – Jo 1:29), que nos santifica para, como filhos, prosseguirmos no propósito para o qual inicialmente fomos criados.

Sim, eis a razão da nossa criação e existência: para louvor da glória de Deus

“4 assim como nos escolheu nele antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor 5  nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, 6  para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado,” (Efésios 1:4-6 RA)

 “11  nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade, 12  a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo;” (Efésios 1:11-12 RA) 

Quem corre atrás de satisfação pessoal, dinheiro, fama e prazeres nunca preenche o vazio de seu coração. Nunca alcançará a plenitude da vida porque não atende ao propósito do criador.

Agora que conhecemos o que Deus espera de nós, estamos conscientes de que jamais seremos felizes, plenos e satisfeitos se negarmos a Deus o louvor à sua glória. 

Por mais que o homem conquiste bens, riquezas, prazeres, fama e tudo o mais que desejar para satisfazer o seu ego, jamais encontrará a paz, a felicidade. Antes, ficará como “o cão que corre atrás do rabo”. Assim é aquele que corre atrás de coisas que nunca o satisfazem e nem preenchem o vazio de seu coração. Sim, este nunca alcançará a plenitude da vida.

E diante da magnitude e perfeição da criação, que lhe dá evidências da existência de Deus, o homem que não glorifica a Deus é indesculpável porque, mesmo percebendo que existe um soberano criador, não se rende a ele em louvor e adoração: 

“20  Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas. Tais homens são, por isso, indesculpáveis; 21  porquanto, tendo conhecimento de Deus, não o glorificaram como Deus, nem lhe deram graças; antes, se tornaram nulos em seus próprios raciocínios, obscurecendo-se-lhes o coração insensato. 22  Inculcando-se por sábios, tornaram-se loucos” (Romanos 1:20-22 RA) 

O homem que não glorifica a Deus em sua existência é indesculpável!

Por fim, há algo que precisa ser esclarecido. Mesmo sabendo que o amor é um dos atributos comunicáveis de Deus, não temos informação bíblica nos dizendo que quando Deus projetou e criou o homem estava precisando de alguém para amar e para amá-lo.De outro modo, os registros bíblicos que facilmente encontramos sobre o amor de Deus pelo homem e vice-versa dizem respeito a um momento posterior à criação e, em especial, depois do pecado. 

“Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força.” (Deuteronômio 6:5 RA) 

“Mas Deus prova o seu próprio amor para conosco pelo fato de ter Cristo morrido por nós, sendo nós ainda pecadores.” (Romanos 5:8 RA) 

Quem ama cumpre mandamento; quem adora realiza o propósito de sua existência 

O fato é que podemos afirmar que, antes de formar o homem, Deus tinha um propósito: criar adoradores que não fossem anjos, mas humanos. E esse propósito (predestinado) está claramente descrito na palavra de Deus (Ef 1:4-6; 11-12). 

Por isso, para a sua própria felicidade, é de se esperar que o homem cumpra com a função para o qual fora criado.Entendemos que aqueles que, pregando ou cantando, colocam o homem no centro, invertem as motivações centrais da existência e propósitos de Deus e do homem. Deus ama o homem, sim, e quer salvar a humanidade da perdição, mas Deus não existe em função de sua criação. 

Deus não existe para o homem e sim o homem para Deus. 

Portanto, o homem deveria desocupar em sua mente o lugar que pertence a Deus. Enquanto ele não deixar Deus ocupar o lugar principal em sua vida, pensando que Deus existe para servi-lo, independentemente de suas atitudes, não glorificará ao Senhor e, consequentemente, não cumprirá com o propósito para o qual fora criado.

A Deus seja o louvor e a glória para sempre! 

 “Não a nós, SENHOR, não a nós, mas ao teu nome dá glória, por amor da tua misericórdia e da tua fidelidade.” (Salmos 115:1 RA) 

Louvai-o, todos os seus anjos; louvai-o, todas as suas legiões celestes.” (Salmos 148:2 RA)

Todo ser que respira louve ao SENHOR. Aleluia!” (Salmos 150:6 RA)

Em 17 de junho de 2012.

Pastor Sólon Pereira 

 
A Igreja e o óleo da unção

Imagem Ilustrativa

"O QUE" OU "QUEM" DEVEMOS UNGIR NA IGREJA?

Após entrar em contato com a moderna literatura evangélica sobre “batalha espiritual” e passar alguns anos praticando a unção de pessoas, de coisas e de lugares, creio que posso expressar minha opinião a esse respeito.

Para o neopentecostalismo, o óleo é um elemento poderoso. Em alguns casos, a oração é considerada ineficaz se não for acompanhada da “unção com óleo”. Os textos que dão suportes a estes pensamentos são fundamentalmente tirados do Velho Testamento, em especial, da Lei de Moisés. Modernamente, ainda que sem amparo bíblico direto, os adeptos do movimento de libertação (exorcismo), utilizam o óleo como elemento imprescindível ao seu trabalho.

Especificamente no que diz respeito a ungir coisas e pessoas, em processos de libertação e proteção contra o acesso de espíritos malignos, ficam as perguntas: Jesus ou os apóstolos fizeram ou ensinaram algo parecido? Eles deixaram algum exemplo desses para seguirmos? O que nos diz a bíblia e, em especial, o Novo Testamento sobre ungir coisas e pessoas?


Antes que eu me detivesse na tarefa de pesquisar, fui convencido pelas experiências particulares de meus amigos neopentecostais de que esse era o procedimento correto a ser seguido. Embora eu não tivesse encontrado fundamentos neotestamentários para ungir coisas e lugares, lembrava-me das palavras de Rebecca Brown que em seus livros e palestras sempre enfatizava a importância do uso do óleo na “batalha espiritual”.  Assim, prossegui com essa prática porque eu pensava: se não faz bem, mal também não faz. 

De fato, eu nunca tinha percebido nenhum prejuízo direto decorrente dessa prática moderna. Por isso, quando alguém me pedia para ungir carro, portas e janelas de suas residências, instrumentos musicais etc. eu atendia, sem maiores problemas. E nos seminários que eu participava, as orações de encerramento de algumas palestras levavam-me a untar as mãos antes das ministrações. Assim, procedi por muitos anos. 

Mas, agora, diante da verdade bíblica, a questão que pretendo enfrentar: o óleo faz parte do ritual do Novo Testamento? Qual a utilidade dessa prática? Realmente não faz mal? Esta análise se limitará à unção para fins de consagração, proteção, cura ou outros fins espirituais. Não será objeto deste artigo a unção (azeite ou unguento) para fins medicinais, para hidratação da pele, para o exercício da hospitalidade, para preparação fúnebre ou para outras aplicações cotidianas constantes dos usos e costumes dos tempos bíblicos. 

A unção no Velho Testamento 

Na Lei de Moisés, não temos dúvida de que a prática de ungir os elementos que integravam o culto levítico, era proveniente de orientação do Senhor. Moisés recebeu uma receita específica (elementos e quantidades) para preparar o “óleo sagrado” (azeite de oliveira, mirra, cinamomo, cálamo e cássia). Este era preparado especificamente para se ungir a tenda, a arca da aliança, a mesa dos pães com seus utensílios, o candelabro com seus utensílios, o altar do sacrifício e seus utensílios, o altar do incenso, a bacia e seu suporte, senão vejamos: 

"22 Disse mais o Senhor a Moisés: 23 Tu, pois, toma das mais excelentes especiarias: de mirra fluida quinhentos siclos, de cinamomo odoroso a metade, a saber, duzentos e cinqüenta siclos, e de cálamo aromático duzentos e cinqüenta siclos, 24 e de cássia quinhentos siclos, segundo o siclo do santuário, e de azeite de oliveira um him. 25 Disto farás o óleo sagrado para a unção, o perfume composto segundo a arte do perfumista; este será o óleo sagrado da unção. 26 Com ele ungirás a tenda da congregação, e a arca do Testemunho, 27 e a mesa com todos os seus utensílios, e o candelabro com os seus utensílios, e o altar do incenso, 28 e o altar do holocausto com todos os utensílios, e a bacia com o seu suporte. 29 Assim consagrarás estas coisas, para que sejam santíssimas; tudo o que tocar nelas será santo. 30 Também ungirás Arão e seus filhos e os consagrarás para que me oficiem como sacerdotes. 31 Dirás aos filhos de Israel: Este me será o óleo sagrado da unção nas vossas gerações. 32 Não se ungirá com ele o corpo do homem que não seja sacerdote, nem fareis outro semelhante, da mesma composição; é santo e será santo para vós outros. 33 Qualquer que compuser óleo igual a este ou dele puser sobre um estranho será eliminado do seu povo. " (Êxodo 30:22-33) 

Essas mesmas normas podem ser constatadas em Ex 29:36-37 e Ex 40:1-6, mas o importante a ser observado é que esta unção era aplicável exclusivamente aos objetos do culto levítico e aos sacerdotes que ministravam no tabernáculo. O óleo sagrado, por sua vez, não era “um óleo qualquer”, mas uma composição de elementos específicos e não poderia ser fabricado (imitado) por alguém que não fosse sacerdote e nem aplicado em quem não fosse sacerdote. Aquele que ousasse fabricar óleo igual ao sagrado ou aplica-lo sobre um estranho (não sacerdote) deveria ser eliminado do povo de Deus. 

Vale destacar, também, que a consagração dos sacerdotes não se limitava à unção. O ritual incluía um novilho, dois cordeiros, pães e bolos sem fermento, local específico (à porta da tenda da congregação) e um ritual de purificação (lavagem de pés, vestimentas e adereços específicos), turbante, cinturões, sacrifício dos animais separados e queima da carne, do couro e do excremento do novilho fora do acampamento. Esses e outros detalhes do ritual de consagração dos sacerdotes estão em Êxodo 29. A unção com o óleo sagrado era apenas um elemento do ritual em que Deus ordenou “assim você os consagrará, para que me sirvam como sacerdotes” (Ex. 29:1). Por isso, devemos entender que a consagração de um sacerdote não se satisfazia apenas com a unção, mas exigia um ritual com diversos outros elementos. 

Com a instituição dos reis, observamos que a consagração do governante era distinta. A unção passou a ser utilizada, mas com azeite de oliva puro. Assim foi com Saul e com Davi. Samuel (sacerdote) os ungiu por orientação de Deus, senão vejamos: 

"16 Amanhã a estas horas, te enviarei um homem da terra de Benjamim, o qual ungirás por príncipe sobre o meu povo de Israel, e ele livrará o meu povo das mãos dos filisteus; porque atentei para o meu povo, pois o seu clamor chegou a mim. 17 Quando Samuel viu a Saul, o Senhor lhe disse: Eis o homem de quem eu já te falara. Este dominará sobre o meu povo." (1 Samuel 9:16-17)

 "1 Tomou Samuel um vaso de azeite, e lho derramou sobre a cabeça, e o beijou, e disse: Não te ungiu, porventura, o Senhor por príncipe sobre a sua herança, o povo de Israel?" (1 Samuel 10:1) 

"1 Disse o Senhor a Samuel: Até quando terás pena de Saul, havendo-o eu rejeitado, para que não reine sobre Israel? Enche um chifre de azeite e vem; enviar-te-ei a Jessé, o belemita; porque, dentre os seus filhos, me provi de um rei." [...] 13 Tomou Samuel o chifre do azeite e o ungiu no meio de seus irmãos; e, daquele dia em diante, o Espírito do Senhor se apossou de Davi. Então, Samuel se levantou e foi para Ramá." (1 Samuel 16:1 e 13) 

Como se pode notar, desde o primeiro momento em que se iniciou a prática de unção de reis, não havia ritual específico e o elemento utilizado não era o óleo sagrado de Êxodo 30:22-33. Os reis eram ungidos com o puro azeite. Logo, há uma importante diferença inicial a ser observada. O óleo para unção de utensílios do tabernáculo e dos sacerdotes tinha uma exigência específica, uma composição especial que nem mesmo poderia ser imitada ou utilizada em quem não fosse sacerdote, enquanto a unção de reis podia ser procedida com qualquer azeite puro. 

 Outra curiosidade é que a unção de reis que a bíblia descreve inclui o derramamento do azeite em grande proporção (vaso e chifre de azeite). Não se tratava de um simples toque de mãos untadas em azeite, mas de um despejar de azeite sobre a cabeça. Assim, também, era a prática para a unção dos sacerdotes, senão vejamos: 

"10 O sumo sacerdote entre seus irmãos, sobre cuja cabeça foi derramado o óleo da unção, e que for consagrado para vestir as vestes sagradas, não desgrenhará os cabelos, nem rasgará as suas vestes." (Levítico 21:10) 

O próprio rei Davi, relata como a unção de um sacerdote escorre por sua barba e vestes: 

"1 Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos! 2 É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce para a barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes." (Salmos 133:1-2) 

Mas, a unção de pessoas, no sentido de separação para um mister especial, não se limita a sacerdotes e reis. Inclui os profetas, senão vejamos: 

"13 Ouvindo-o Elias, envolveu o rosto no seu manto e, saindo, pôs-se à entrada da caverna. Eis que lhe veio uma voz e lhe disse: Que fazes aqui, Elias? [...] 15 Disse-lhe o Senhor: Vai, volta ao teu caminho para o deserto de Damasco e, em chegando lá, unge a Hazael rei sobre a Síria. 16 A Jeú, filho de Ninsi, ungirás rei sobre Israel e também Eliseu, filho de Safate, de Abel-Meolá, ungirás profeta em teu lugar." (1 Reis 19:13-16) 

A unção no Novo Testamento 

Jesus e a autoridade sobre doenças e espíritos malignos 

No Evangelho de Marcos está a informação que serve de fundamento para as unções que presenciamos hoje na igreja moderna. Vejamos o texto:

"7 Chamou Jesus os doze e passou a enviá-los de dois a dois, dando-lhes autoridade sobre os espíritos imundos. 8 Ordenou-lhes que nada levassem para o caminho, exceto um bordão; nem pão, nem alforje, nem dinheiro; 9 que fossem calçados de sandálias e não usassem duas túnicas. 10 E recomendou-lhes: Quando entrardes nalguma casa, permanecei aí até vos retirardes do lugar. 11 Se nalgum lugar não vos receberem nem vos ouvirem, ao sairdes dali, sacudi o pó dos pés, em testemunho contra eles. 12 Então, saindo eles, pregavam ao povo que se arrependesse; 13 expeliam muitos demônios e curavam numerosos enfermos, ungindo-os com óleo [os enfermos]. " (Marcos 6:7-13 RA)

A primeira coisa que devemos notar é que, na parte instrutiva da passagem, Jesus lhes deu-lhes autoridade sobre espíritos malignos e ordenou que nada levassem, exceto o bordão. O Mestre não faz nenhuma referência ao óleo e nem mesmo associa a autoridade sobre demônios a esse elemento de unção. 

Apenas na parte descritiva da passagem surge a informação de que os discípulos ungiam pessoas enfermas e estas eram curadas. A versão  NVI facilita a compreensão do verso 13, deixando claro que a unção com óleo somente se refere aos enfermos e não aos endemoninhados, senão vejamos: 

“Expulsavam muitos demônios e ungiam muitos doentes com óleo, e os curavam” (NVI) 

Neste caso, desde logo, podemos assegurar que a unção com óleo não está relacionada à expulsão de demônios, mas apenas à aplicação no caso dos enfermos. Entretanto, mesmo quanto à questão dos enfermos é bom lembrar que Jesus não ordenou tal coisa. 

Seja como for, o importante a ser ressaltado é que Jesus não lhes deu nenhuma instrução que ligasse a libertação ou a cura à unção com óleo. Eles nem mesmo tinham este exemplo em Jesus, uma vez que o Mestre nunca utilizou o óleo em nenhuma de suas libertações ou curas – nem antes, nem durante, nem depois. 

O evangelho de Lucas vem reforçar este entendimento. Quando Lucas relata o envio dos setenta discípulos para uma missão, as instruções de Jesus são repetidas e o propósito da missão inclui a cura de enfermos e a pregação do evangelho, mas nada fala sobre unção com óleo: 

"1 Depois disto, o Senhor designou outros setenta; e os enviou de dois em dois, para que o precedessem em cada cidade e lugar aonde ele estava para ir. 2 E lhes fez a seguinte advertência: A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos. Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para a sua seara. 3 Ide! Eis que eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos. 4 Não leveis bolsa, nem alforje, nem sandálias; e a ninguém saudeis pelo caminho. [...] 9 Curai os enfermos que nela houver e anunciai-lhes: A vós outros está próximo o reino de Deus." (Lucas 10:1-4; 9) 

Em seguida, Lucas apresenta a parte descritiva da missão, ou seja, o relato do que aconteceu na viagem. Eles estavam felizes porque puderam exercer autoridade sobre espíritos malignos, mas nenhuma informação há que relacione a libertação dos oprimidos ao óleo. Em vez disso, eles atestam que a submissão dos demônios ocorria pela autoridade do nome de Jesus. 

"17 Então, regressaram os setenta, possuídos de alegria, dizendo: Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome! 18 Mas ele lhes disse: Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago. 19 Eis aí vos dei autoridade para pisardes serpentes e escorpiões e sobre todo o poder do inimigo, e nada, absolutamente, vos causará dano. 20 Não obstante, alegrai-vos, não porque os espíritos se vos submetem, e sim porque o vosso nome está arrolado nos céus. " (Lucas 10:17-20) 

Sim, além de não haver nenhum exemplo ou instrução de Jesus acerca de unção com óleo para a cura ou libertação de pessoas, há o reconhecimento de que a autoridade está no nome de Jesus isso sempre foi suficiente, dispensando instrução especial de Jesus para reforçar a autoridade e poder dos discípulos. 

Quem afirma que precisa do auxílio do óleo para promover a libertação de pessoas endemoninhadas deve admitir que não confia plenamente na autoridade do nome de Jesus ou que não está suficientemente preparado com oração e jejum para exercê-la. 

Em todos os evangelhos, o único reforço para se exercer autoridade sobre qualquer tipo de entidades malignas é o jejum e a oração, conforme o próprio Jesus nos indicou na seguinte passagem: 

"17 E um, dentre a multidão, respondeu: Mestre, trouxe-te o meu filho, possesso de um espírito mudo; 18 e este, onde quer que o apanha, lança-o por terra, e ele espuma, rilha os dentes e vai definhando. Roguei a teus discípulos que o expelissem, e eles não puderam. [...] 25 Vendo Jesus que a multidão concorria, repreendeu o espírito imundo, dizendo-lhe: Espírito mudo e surdo, eu te ordeno: Sai deste jovem e nunca mais tornes a ele. 26 E ele, clamando e agitando-o muito, saiu, deixando-o como se estivesse morto, a ponto de muitos dizerem: Morreu. 27 Mas Jesus, tomando-o pela mão, o ergueu, e ele se levantou. 28 Quando entrou em casa, os seus discípulos lhe perguntaram em particular: Por que não pudemos nós expulsá-lo? 29 Respondeu-lhes: Esta casta não pode sair senão por meio de oração [e jejum]. " (Marcos 9:17-29) 

A mesma passagem citada por Mateus inclui a fé, mas nada fala sobre óleo como auxílio ao processo de libertação: 

"19 Então, os discípulos, aproximando-se de Jesus, perguntaram em particular: Por que motivo não pudemos nós expulsá-lo? 20 E ele lhes respondeu: Por causa da pequenez da vossa fé. Pois em verdade vos digo que, se tiverdes fé como um grão de mostarda, direis a este monte: Passa daqui para acolá, e ele passará. Nada vos será impossível. 21 [Mas esta casta não se expele senão por meio de oração e jejum.] " (Mateus 17:19-21) 

Enfim, pela simples leitura dos evangelhos de Marcos e Lucas podemos eliminar a relação entre unção com óleo e processos de libertação de pessoas. A única possibilidade que nos resta, mesmo que não ordenada ou confirmada por Jesus, é a unção de enfermos, conforme veremos a seguir. 

A orientação de Tiago para uso de óleo em enfermos 

Se em primeira análise neotestamentária afastamos a ligação entre óleo e expulsão de demônios, restou-nos a relação entre óleo e unção de enfermos. 

Sobre essa questão específica, a Carta de Tiago nos traz a única passagem do Novo Testamento em que há uma instrução sobre a aplicação de óleo em enfermos. 

"14 Está alguém entre vós doente? Chame os presbíteros da igreja, e estes façam oração sobre ele, ungindo-o com óleo, em nome do Senhor. 15 E a oração da fé salvará o enfermo, e o Senhor o levantará; e, se houver cometido pecados, ser-lhe-ão perdoados. 16 Confessai, pois, os vossos pecados uns aos outros e orai uns pelos outros, para serdes curados. Muito pode, por sua eficácia, a súplica do justo." (Tiago 5:14-16)

 Primeiramente, é importante notar que o contexto desse versículo nos traz um ensino sobre o poder e a importância da oração, enquanto o óleo é apenas um “detalhe” acrescentado ao texto. Observem que é a oração que salvará o doente. Ou seja, o resultado virá da oração e não da unção. 

Exatamente por ser o óleo um elemento adicional é que surgem dúvidas quanto à sua exigência na prática neotestamentária. Há quem defenda que sua aplicação era simplesmente medicinal, segundo os costumes da época. Neste caso, seria como tomar um remédio e orar para que seus efeitos sejam alcançados. 

Prefiro crer que haja um sentido espiritual na indicação de Tiago, uma vez que ele sugere que isso seja feito pelos presbíteros da igreja, que não eram médicos. Também, não há no texto indicação de modos de aplicação a determinadas enfermidades. O fato é que o óleo era utilizado em alguns casos como remédio, mas não para qualquer tipo de enfermidade. Como Tiago não define o tipo de doenças, significa dizer que se tratava de um elemento de fé a ser adicionado ao ato da oração. 

Por isso mesmo, é possível assegurar que essa unção era para o doente e não para a doença. Logo, se é um elemento espiritual e não um remédio, não faz sentido ungir a barriga da pessoa que se queixa de problema no estômago. Também, não é necessário colocar a mão em nenhuma outra parte do corpo do enfermo, sob pretexto de realizar a unção no local da enfermidade. Não é necessário nem mesmo pedir para uma mulher colocar a mão com óleo em partes íntimas de outra mulher enquanto se faz a oração. Permitir tais práticas é consentir com abusos e inconveniências. É lamentável observar tais coisas no meio da igreja. 

Além disso, dar ao óleo um poder sobrenatural por si mesmo conduz à idolatria, à superstição e ao misticismo que deve ser combatido por qualquer discípulo de Jesus. A cura se dá pelo poder da oração e pela obediência aos preceitos bíblicos e não pelo azeite

Para não sermos levados por invencionices do evangelicalismo moderno, devemos refutar práticas não amparadas pela bíblia. Se pensamos que tais inserções não fazem mal é porque não percebemos que heresias são infiltradas sorrateiramente para abrir portas para o misticismo, para o comércio de óleos trazidos de Israel, para inconveniências e para nos fazer aceitar passivamente todas as práticas antibíblicas atualmente introduzidas nas igrejas. Logo, fazem mal, sim! 

O óleo não carrega nenhuma magia e nenhum poder em si mesmo, de modo que se queremos utilizá-lo especificamente nos limites seguros da bíblia, podemos dispensá-lo, sem medo, de todo o processo de libertação ou de unções a grupos de pessoas reunidas em cultos ou seminários e restringi-lo a aplicações particulares e reservadas, ocasião em que chamamos os Presbíteros da igreja para orarem por nós, quando estivermos enfermos. 

Portanto, ungir enfermos em suas casas e em hospitais, este sim é um ato de obediência a Deus. Se cremos no poder e na eficácia da palavra de Deus, podemos abandonar os excessos e as crendices. 

Unção para consagração de pessoas ao ministério 

Até aqui já podemos notar algo interessante. Nenhum dos usos do óleo no Velho Testamento (ordenação sacerdotal, consagração de objetos e locais) são recomendados no Novo Testamento e o único uso consentido no Novo Testamento não foi recomendado pelo Velho Testamento. 

Enquanto no Velho Testamento pessoas eram “separadas” por unção, no Novo Testamento são pela imposição das mãos das autoridades eclesiásticas constituídas por Deus, senão vejamos: 

"4 e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra. 5 O parecer agradou a toda a comunidade; e elegeram Estêvão, homem cheio de fé e do Espírito Santo, Filipe, Prócoro, Nicanor, Timão, Pármenas e Nicolau, prosélito de Antioquia. 6 Apresentaram-nos perante os apóstolos, e estes, orando, lhes impuseram as mãos. 7 Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé. 8 Estêvão, cheio de graça e poder, fazia prodígios e grandes sinais entre o povo." (Atos 6:4-8)

"12 Ninguém despreze a tua mocidade; pelo contrário, torna-te padrão dos fiéis, na palavra, no procedimento, no amor, na fé, na pureza. 13 Até à minha chegada, aplica-te à leitura, à exortação, ao ensino. 14 Não te faças negligente para com o dom que há em ti, o qual te foi concedido mediante profecia, com a imposição das mãos do presbitério. 15 Medita estas coisas e nelas sê diligente, para que o teu progresso a todos seja manifesto." (1 Timóteo 4:12-15) 

Uma vez que não há qualquer suporte no Novo Testamento para ungir literalmente pessoas para o exercício de um ministério, seguir com essa prática revela o quanto se deseja trazer o Velho Testamento para os rituais da igreja. Para quem deseja livrar-se desse tipo de inclinação, sem medo ou culpa, recomendo a leitura do livro “Dízimos e Ofertas: pretextos dos impiedosos”. 

Apenas para relembrar, a consagração sacerdotal exigia um ritual específico, que incluía a unção dos sacerdotes, a qual só podia ser feita com o unguento preparado especificamente para isso, cuja fórmula está em Êxodo 30:22-33. Ademais, o óleo sagrado só podia ser aplicado em objetos do culto levítico e sobre sacerdotes que ministravam no tabernáculo. 

Por isso, se alguém quer usar a consagração de sacerdotes e dos utensílios do tabernáculo como fundamento para a moderna consagração de coisas e de ministros do evangelho, deve se lembra que isso é impossível. Não só porque inclui ritual específico, com sacrifício de animais, estola sacerdotal etc., mas porque a reprodução do óleo sagrado é proibida pela própria Lei que instituiu a unção como elemento integrante desse ritual.

De outro modo, ainda que se tratasse de uma possibilidade aplicável à igreja (não é), os adeptos das práticas do Velho Testamento, que se firmam nos exemplos da unção dos reis e dos profetas, deveriam ser fiéis ao procedimento verotestamentário e derramar azeite na cabeça dos seus pastores, bispos, apóstolos etc. e não apenas passar um dedo de óleo em suas testas. 

Entretanto, infelizmente, qualquer que seja o tipo de unção escolhida, nenhuma delas estará amparada por Jesus e nem pelos apóstolos. 

Para quem prefere afirmar que a unção praticada hoje nas igrejas tem apenas um sentido simbólico, é bom lembrar que o próprio Jesus, citado profeticamente como ungido do Senhor para apregoar boas novas não foi literalmente ungido em nenhuma passagem do Novo Testamento. Entretanto, Jesus assumiu pessoalmente a profecia sem que alguém tivesse derramado uma gota de óleo sobre a sua cabeça com esse propósito. 

Jesus, Rei Ungido de Deus, Sumo Sacerdote e Profeta, assume que o revestimento do Espírito Santo que estava sobre ele era a marca profética de sua unção, dispensando, portanto, o ritual físico de unção tanto do sacerdote como do Rei ou do profeta. 

"17 Então, lhe deram o livro do profeta Isaías, e, abrindo o livro, achou o lugar onde estava escrito [Is 61:1-3]: 18 O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, 19 e apregoar o ano aceitável do Senhor. 20 Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos na sinagoga tinham os olhos fitos nele. 21 Então, passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir." (Lucas 4:17-21)

Portanto, se queremos a unção, no sentido espiritual para o exercício de um chamado, somente precisamos do enchimento do Espírito Santo e da imposição de mãos de homens realmente separados por Deus para o Ministério. 

Mas, devemos lembrar que não há consagração humana que mude a situação de uma vida não consagrada. 

Unção de coisas, objetos, casas templos etc. 

Mais uma vez devo reafirmar. Somente os objetos do tabernáculo e do templo precisavam ser ungidos com um óleo especificamente fabricado para esse fim. O ritual não podia ser realizado com o puro azeite e nem com um outro óleo qualquer. Também, esse óleo preparado não podia ser utilizado em nenhum outro objeto que não pertencesse ao culto levítico de Jerusalém. 

Logo, temos três bons motivos para não ungir objetos pessoais, nossas casas, templos ou coisa parecida: 

1) não estamos mais sob a lei cerimonial do Velho Testamento, que foi consumada em Jesus Cristo. Seguir rituais da Lei implica desconsideração da obra de Jesus na cruz; 

2) nossas igrejas não são templos levíticos e não dispõem dos mesmos utensílios. Nossos cultos em nada se parecem com o ritual da lei; 

3) se queremos consagrar um objeto inanimado, podemos fazer isso pela nossa disposição em separá-lo para um uso especial, sem necessidade de passar óleo nele, pois isso nunca foi recomendado por qualquer passagem bíblica dirigida à igreja de Jesus. 

Também, não é razoável ungir fechaduras, portas, janelas e ambientes para evitar que os demônios entrem na sua casa. Embora tais ensinamentos venham de pessoas sinceras e dedicadas a Deus, não procedem da bíblia, mas de revelações particulares. 

Exemplo disso é a indicação de Rebecca Brown em seu livro “Prepare-se para a Guerra (Editora Danprewan, 1998, p. 68-70): 

1. Unja sua casa. O Senhor ensinou-me este princípio logo no início do nosso ministério. Elaine e eu suportamos, por meses, opressão interminável tanto de demônios como de espíritos humanos em projeção astral. De noite, tão logo adormecíamos, éramos arrancadas da cama e atiradas ao chão por espíritos invisíveis.  Objetos apareciam e desapareciam de minha casa. Móveis e outros objetos eram arremessados no ar por forças invisíveis, e assim por diante. Exausta, uma noite eu clamei ao Senhor em desespero. ‘Pai por favor, o que podemos fazer? Parece que a minha casa está escancarada para qualquer espírito maligno que queira entrar. Tu sabes como estes espíritos estão nos incomodando. Eu não posso suportar mais isto!’ 

Neste ponto o Espírito Santo encheu a minha mente com a narrativa do cordeiro pascal em Êxodo, capítulo 12. Então ele disse: ‘Desde a morte de Jesus, não há mais sacrifícios de sangue. Então, o que você diria que é o equivalente do sangue hoje?’ ‘O óleo?’ Eu perguntei. ‘Está correto’. Então o Senhor também recordou-me do trecho em Êxodo capítulo 40, onde ele havia instruído Moisés a usar o óleo da unção: [...] Enquanto eu meditava nestas palavras, o Senhor mostrou-me que eu deveria pegar óleo  ungir a minha casa, e santifica-la a Ele. Assim, eu peguei o óleo que tinha à mão (óleo de cozinha) e coloquei um pouco sobre as molduras de todas as portas, sobre as próprias portas, e m cada janela, na lareira, e em todas as outras aberturas que davam acesso à casa. Tendo feito isso, pedi ao Senhor para fazer meu lar santo a Ele, e para selá-lo com um escudo do seu precioso sangue. Então, deixando as portas abertas, voltei para dentro de casa, fiquei parada de pé no meio, e pedi ao Senhor para limpá-la e pôr para fora todos os espíritos humanos. Então ordenei a todos os espíritos demoníacos, no nome de Jesus Cristo, que deixassem a minha casa para sempre. A mudança foi imediata e dramática. Minha casa foi selada e nenhum espírito humano ou demoníaco podia entrar deste momento em diante. [...] 

 Algumas vezes as pessoas me perguntam que tipo de óleo nós usamos. Lembre-se, o óleo é somente um símbolo. Não nada mágico no óleo em si. Óleo é óleo. Eu já usei óleo de motor em uma ocasião em que não havia nada mais disponível. O uso do óleo é um sinal de obediência e o óleo mesmo é apenas um símbolo. A limpeza e o selo são feitos pelo poder de Jesus Cristo através de sua obra terminada na cruz do Calvário. (os grifos não constam do original) 

Não há que se questionar as experiências pessoais de Rebecca Brown, mas o fato é que o seu próprio relato nos mostra que sua doutrina de proteção procede de uma revelação particular e não da bíblia. Ela apenas buscou um texto que pudesse dar suporte à revelação particular que teve. E quando ela fala que o uso do óleo é um sinal de obediência, está se referindo, na verdade, à obediência à sua própria experiência e não à Palavra do Senhor propriamente dita. É importante afirmar que obedecer a Deus significa obedecer à sua santa Palavra e não obedecer a revelações particulares, que são fontes de heresias que distorcem as escrituras sagradas e criam doutrinas sem fim, as quais afastam os homens da vontade de Deus. 

Hoje, lamentavelmente, temos inúmeras igrejas que apresentam tal procedimento como uma doutrina bíblica, sendo que não há nenhuma indicação bíblica para que alguém faça isso. Nem o Velho Testamento nem o Novo apoiam a revelação particular de Rebecca. Primeiramente, porque em nenhum lugar das escrituras sagradas há indicação de que o símbolo do sangue tenha sido substituído pelo óleo. Ademais, o sangue do cordeiro passado nas portas das casas dos hebreus, na passagem pascal (Êxodo 12), era para guarda-los da mortandade providenciada pelo próprio Deus (por meio de seu anjo) nas casas dos egípcios. Ou seja, não se tratava de investida de demônios sobre o povo de Deus, ao contrário, era um juízo de Deus sobre os Egípcios: 

“7  Tomarão do sangue e o porão em ambas as ombreiras e na verga da porta, nas casas em que o comerem; [...] 12  Porque, naquela noite, passarei [Deus] pela terra do Egito e ferirei na terra do Egito todos os primogênitos, desde os homens até aos animais; executarei juízo sobre todos os deuses do Egito. Eu sou o SENHOR. 13  O sangue vos será por sinal nas casas em que estiverdes; quando eu vir o sangue, passarei por vós, e não haverá entre vós praga destruidora, quando eu ferir a terra do Egito.” (Êxodo 12:7-13 RA) 

Em segundo lugar, como já vimos, a unção para consagração de objetos do templo não podia ser feita com qualquer óleo. Revelações particulares desse tipo, infelizmente, têm levado inúmeras pessoas ao misticismo e ao paganismo.Portanto, se há alguma coisa a ser ungida (pelo Espírito Santo) ou consagrada, esta é você, discípulo de Jesus. Quem quer estar protegidos contra ataques malignos, deve manter a santidade, a devoção a Deus e tapar as brechas do pecado em sua vida. Dentro de casa, a santificação é o que impede a ação do Diabo. Por isso, basta eliminar a idolatria e os pontos de contato com o reino de Satanás - onde há luz, não há trevas.   Também, não é possível associar a unção dos objetos sagrados à proteção dos mesmos contra ataques malignos - não há respaldo bíblico para isso. Por último, é importante lembrar que a unção de objetos do Tabernáculo, utilizados exclusivamente para o culto levítico em Jerusalém, nada tem a ver com a consagração de objetos pessoais. 

Conclusão 

Vimos que o Novo Testamento não dá suporte para unção de objetos e a unção de pessoas é exclusivamente relacionada à oração pelos enfermos, de modo pessoal e reservado, por presbíteros da igreja. Não há qualquer ensinamento bíblico que fundamente o uso de óleo em cultos, seminários ou procedimentos de libertação. Tampouco, há necessidade de despejar óleo sobre os chamados por Deus para um ministério qualquer. 

Especificamente no que diz respeito à libertação de pessoas endemoninhadas e à proteção contra o acesso de espíritos malignos, restou demonstrado que nem Jesus e nem os apóstolos fizeram ou ensinaram coisa parecida. Também, não há qualquer exemplo bíblico dessa prática para que possamos adotá-la. 

Precisamos ter cuidado para não embarcarmos “na onda” dos falsos mestres, que criam doutrinas com revelações particulares, deturpam o evangelho, tentam fazer do cristão um judeu e querem implementar práticas verotestamentárias ao culto e às doutrinas cristãs, do mesmo modo que faziam os judaizantes na igreja do primeiro século. 

Também, devemos estar atentos aos propagadores do anti-Evangelho. Para esses, o óleo é uma substância mágica, cheia de poderes, que pode mudar a vida da pessoa que for ungida. Assim, o homem sincero, mas que ignora o conteúdo bíblico pode ser conduzido ao paganismo, passando a praticar um tipo de “macumba gospel”. 

A maior prova que temos do mal que fazem as heresias criadas a partir de experiências particulares, algumas até sobrenaturais, é o fato de que as pessoas se tornam arredias à Palavra de Deus, ou seja, desprezam e debocham dos estudos sérios da palavra de Deus e preferem confiar nas experiências místicas que começam a produzir. Essas pessoas são capazes de chamar de perturbadores aqueles que querem mostrar-lhes o que diz a palavra de Deus. Se as escrituras sagradas não apoiam suas práticas e experiências, acham que isso é normal e aceitável diante de Deus, pois pensam que os resultados que produzem é que revelam a verdade e não o contrário

Se perdemos o parâmetro bíblico e se nos esquecemos que somos discípulos de Cristo, corremos o risco de sermos conduzidos a um sincretismo religioso altamente destrutivo, porque este elimina a essência do evangelho de Jesus Cristo, nosso Senhor. Voltemos, pois, à obediência à Palavra de Deus, servindo-o com sinceridade e praticando o evangelho puro e simples. 

Portanto, Deus é Deus, com ou sem azeite. E heresia faz mal, sim! É como o fermento colocado nas três porções de farinha – leveda toda a massa (Mt 13:33) 

Por: Pastor Sólon Lopes Pereira 

Em, 9 de novembro de 2014.

 
A Obra de Deus
Imagem Ilustrativa

Introdução

A expressão “Obra de Deus”, embora muito comum e de simples compreensão, tem sido mal interpretada por muitos cristãos. Alguns pensam que o termo se refira à Igreja de Jesus, enquanto outros são levados a acreditar que signifique uma denominação cristã em especial. Nem todos entendem que se trata de uma ATIVIDADE COM UM FIM ESPECÍFICO.
Sem complicar as coisas, neste breve estudo apresentaremos os textos bíblicos e os esclarecimentos que elucidam a significação tanto da “Obra de Deus”, como de outras expressões relacionadas, quais sejam: Obra Criadora, Obra Redentora e Obra do Espírito.

A Obra Criadora

Conforme Gn 2:1-2, após criar tudo o que existe, a bíblia nos conta que Deus descansou de toda a obra que realizou. Ou seja, depois de tudo pronto, a sua Obra Criadora estava consumada. Nada mais havia para fazer, embora seu produto estivesse apenas começando.

A Obra Redentora

Concluída a Obra Criadora, em decorrência da desobediência de Adão, Deus planejou a redenção de toda a humanidade. A execução desse plano é o que chamamos de “Obra Redentora”, por meio da qual Deus se propôs a salvar o homem. 

Em que se constituía o plano da salvação? Segundo o projeto de Deus, tal plano incluía a morte de um cordeiro inocente para o restabelecimento da comunhão quebrada entre Deus e o homem por causa do pecado. 

Desde o período do Velho Testamento, o projeto de Deus já podia ser reconhecido, mas por meio de figuras e símbolos. Entretanto, quando Jesus morreu e ressuscitou, consumou o plano de Deus para a nossa redenção: “Está consumado!”

Mais tarde, sabendo então que tudo estava concluído, para que a Escritura se cumprisse, Jesus disse: "Tenho sede". Estava ali uma vasilha cheia de vinagre. Então embeberam uma esponja nela, colocaram a esponja na ponta de um caniço de hissopo e a ergueram até os lábios de Jesus. Tendo-o provado, Jesus disse: "Está consumado! " Com isso, curvou a cabeça e entregou o espírito. (João 19:28-30)

A participação de Jesus neste projeto ficou evidenciada em várias passagens das escrituras sagradas, onde ele deixa claro que estava realizando a Obra de Deus, a qual se cumpriria nele próprio, senão vejamos:

"Disse Jesus: “A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e concluir a sua obra. (João, 4:34)

“Eu tenho um testemunho maior que o de João; a própria obra que o Pai me deu para concluir, e que estou realizando, testemunha que o Pai me enviou. (João, 5:36)

Corroborando com esse entendimento, o livro de Atos faz menção à Obra de Deus como um projeto para a remissão de pecados (salvação). E quando se refere a realizá-la “em nossos dias”, cita os profetas, ou seja, refere se aos dias dos profetas, ocasião em que a Obra Redentora ainda não estava consumada, pois Jesus ainda não tinha vindo a este mundo – eles tinham apenas a lei e os sacrifícios como sombra das coisas que haveriam de vir.

“38 Tomai, pois, irmãos, conhecimento de que se vos anuncia remissão de pecados por intermédio deste; 39  e, por meio dele, todo o que crê é justificado de todas as coisas das quais vós não pudestes ser justificados pela lei de Moisés. 40  Notai, pois, que não vos sobrevenha o que está dito nos profetas: 41  Vede, ó desprezadores, maravilhai-vos e desvanecei, porque eu realizo, em vossos dias [tempo dos profetas], obra tal que não crereis se alguém vo-la contar.” (Atos 13:38-41 RA)

Assim, concluímos que as poucas vezes que a expressão “Obra de Deus” foi utilizada na bíblia, em sua maior parte refere-se à salvação da humanidade. Sabendo disso, não há como dissociar a “Obra de Deus” da “Obra de Redenção”, uma vez que esta é à consumação daquela.

Com a ressurreição de Jesus, inicia-se, então, a parte do Espírito Santo e a cooperação humana.

A Obra do Espírito Santo

Segundo a bíblia sagrada, o Espírito Santo de Deus e o homem são os únicos que ainda têm uma missão a cumprir nesta terra. Ao homem cabe lutar por sua própria salvação e pela salvação de seus semelhantes. Ao Espírito Santo cumpre ajudá-lo nesta jornada de luta.

O Espírito Santo é consolador, guia, intercessor e ajudador. Somente ele pode convencer o homem do pecado, da justiça e do juízo e, além disso, revela os mistérios de Deus e opera curas, sinais e maravilhas que glorificam o Senhor Jesus, apontando para a Obra Redentora.

"26 mas o Consolador, o Espírito Santo, a quem o Pai enviará em meu nome, esse vos ensinará todas as coisas e vos fará lembrar de tudo o que vos tenho dito." (João 14:26)

"7 Mas eu vos digo a verdade: convém-vos que eu vá, porque, se eu não for, o Consolador não virá para vós outros; se, porém, eu for, eu vo-lo enviarei. "8 Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo:" (João 16:7-8)

"4 Ora, os dons são diversos, mas o Espírito é o mesmo. "5 E também há diversidade nos serviços, mas o Senhor é o mesmo. "6 E há diversidade nas realizações, mas o mesmo Deus é quem opera tudo em todos. "7 A manifestação do Espírito é concedida a cada um visando a um fim proveitoso." (1 Coríntios 12:4-7)

"26 Também o Espírito, semelhantemente, nos assiste em nossa fraqueza; porque não sabemos orar como convém, mas o mesmo Espírito intercede por nós sobremaneira, com gemidos inexprimíveis." (Romanos 8:26)

Muitos são os textos que revelam toda a Obra do Espírito Santo cooperando com o homem, mas, ao observarmos os citados já podemos perceber que ninguém mais pode realizar esta obra. Apenas o Espírito Santo pode fazer o que lhe foi designado. 

A parte do homem

Uma vez que a Obra Redentora já foi consumada na cruz do calvário e que a Obra do Espírito somente o próprio Espírito pode realizar, resta ao homem aceita-las, tornando-se um cooperador da anunciação do evangelho de Cristo Jesus. Todos os salvos receberam uma comissão do mestre: ir pelo mundo pregando o evangelho da salvação a toda a criatura.

Cumpre a nós, que já o aceitamos, trabalhar para que outros possam conhecer a Obra Redentora consumada por Jesus. Esta é a nossa grande comissão!

“E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura.” (Mc 16:15 RA)

Se pensarmos bem, à luz dos versículos bíblicos até aqui apresentados, teremos que reconhecer que nós não podemos realizar a Obra de Deus, do mesmo modo que não poderíamos realizar a Obra Criadora e nem a Obra Redentora. Tampouco seria possível a qualquer homem realizar a Obra do Espírito Santo. 

A única obra que estamos em condições de realizar é a obra reservada aos homens, qual seja, cumprir a grande comissão que nos foi confiada.

Quando Jesus foi indagado sobre o que o homem poderia fazer para realizar as obras de Deus, a resposta apontou para a fé e não para realizações humanas, senão vejamos:

"28 Dirigiram-se, pois, a ele, perguntando: Que faremos para realizar as obras de Deus? "29 Respondeu-lhes Jesus: A obra de Deus é esta: que CREIAIS naquele que por ele foi enviado." (João 6:28-29)

Sim, pela fé cremos na Obra Criadora, na Obra Redentora e na Obra do Espírito Santo, o que é necessário para que possamos fazer a nossa parte. 

O que podemos fazer?

Podemos trabalhar em conjunto no cumprimento da grande comissão, tornando a Obra Redentora conhecida por meio da pregação do evangelho da salvação. Sim, é dessa forma que podemos trabalhar na Obra do Senhor. Vamos fazê-la conhecida!

“Tenho ouvido, ó SENHOR, as tuas declarações, e me sinto alarmado; aviva a tua obra, ó SENHOR, no decorrer dos anos, e, no decurso dos anos, FAZE-A CONHECIDA; na tua ira, lembra-te da misericórdia.” (Habacuque 3:2 RA)

O apóstolo Paulo nos deixou exemplo:

“Se Timóteo for, tomem providências para que ele não tenha nada que temer enquanto estiver com vocês, pois ele trabalha na obra do Senhor, assim como eu.” (1 Coríntios, 16:10)

Sejamos, pois, dedicados em fazer a nossa parte, pois nosso trabalho na Obra de Deus não é vão!

“Portanto, meus amados irmãos, mantenham-se firmes, e que nada os abale. Sejam sempre dedicados à obra do Senhor, pois vocês sabem que, no Senhor, o trabalho de vocês não será inútil. (1 Coríntios, 15:58)

Por isso, a expressão “OBRA DE DEUS”, no que diz respeito à nossa parte, significa uma ATIVIDADE COM UM FIM ESPECÍFICO, qual seja: ANUNCIAR O EVANGELHO DA SALVAÇÃO.

Conclusão

Uma vez que, em sentido estrito, a Obra de Deus, a Obra Redentora e a Obra do Espírito são de competência exclusiva de Deus, de Jesus e do Espírito Santo, respectivamente, à luz dos textos bíblicos apresentados, podemos concluir que, no máximo, somos apenas cooperadores desse projeto, cumprindo-nos anunciar o evangelho da salvação para que a Obra Redentora se torne conhecida.

Assim, todos aqueles que estão anunciando o evangelho do Senhor Jesus, seja em que denominação for, apesar das imperfeições existentes em cada uma delas, estão, em sentido amplo, realizando a Obra de Deus e, com a cooperação da Obra do Espírito, contribuindo para que a Obra Redentora se torne conhecida e que, por ela, o homem seja salvo. 

Em, 16 de abril de 2016. 

Pastor Sólon Pereira

 
A tradição do casamento

Imagem Ilustrativa

Vamos pensar? 

Nossa memória está impregnada pela cerimônia religiosa que envolve o casamento de tal modo que temos dificuldade para separar a instituição de Deus da tradição criada pelos homens.

Leia este estudo apenas se você tem a bíblia como única regra de fé, pois será necessário afastar, por alguns momentos, seus conceitos e preconceitos para fazer uma avaliação adequada das considerações expostas neste texto.

Afinal, se nós cremos no Deus Jeová porque a bíblia nos diz que ele é o único Deus, ao qual devemos seguir, por que não aceitar que a própria bíblia nos dê as informações sobre as demais coisas que sustentam a nossa fé? Esse raciocínio inicial é importantíssimo, pois quando aceitamos crer em algo ou em algum ensinamento que não está escrito na bíblia, abrimos o caminho para a aceitação de qualquer outra coisa ou doutrina que também não esteja nela escrita. Neste caso, ao passo que admitimos o que não está escrito, reduzimos o valor do que está escrito e tudo passa a ser aceitável e questionável ao mesmo tempo.

Instituição original do casamento

Sem qualquer ministro, ritual ou procedimento, Deus instituiu o casamento de modo bem simples e objetivo, conforme se vê a seguir: 

24 Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne. (Gn 2:24 RA) 

Desse primeiro texto, depreendemos que, a partir do momento em que um homem e uma mulher, de comum acordo, saem da casa de seus pais com o desejo de constituírem uma unidade familiar, o ato sexual consuma o casamento. 

Para evitar precipitações daqueles que adotaram o mundanismo como padrão de relacionamento, é bom esclarecer que a simples relação sexual entre um homem e uma mulher não estabelece o casamento. Antes da prática sexual, é preciso que haja uma saída pacífica e consentida da casa dos pais com o propósito específico de constituir e assumir a responsabilidade de uma família em lar próprio e para toda a vida. Se a relação sexual entre um homem e uma mulher solteira e virgem for antecipada, cria-se, neste caso, segundo os padrões bíblicos, a obrigação do casamento e do dote, sem qualquer outro ritual, senão vejamos: 

“28 Se um homem achar moça virgem, que não está desposada, e a pegar, e se deitar com ela, e forem apanhados, 29 então, o homem que se deitou com ela dará ao pai da moça cinqüenta siclos de prata; e, uma vez que a humilhou, lhe será por mulher; não poderá mandá-la embora durante a sua vida.” (Dt 22:28-29 RA) 

Desde os primeiros registros, portanto, Deus não abre possibilidades para que a relação sexual seja uma prática descomprometida, casual, ainda que frequente e visando ao atendimento de necessidades fisiológicas, financeiras ou religiosas, no caso da prostituição por dinheiro ou para atender rituais pagãos (prostitutas cultuais). 

A primeira prova de que, mesmo após o gênesis, Deus não exigia outros rituais para a formação de uma família pelo casamento está no exemplo de Isaque e Rebeca. Os detalhes constam do texto de Gênesis, capítulo 24 e 49;  e Rm 9:10, onde notamos todos os elementos essenciais ao casamento instituídos por Deus, quais sejam: 

1 – Vontade do noivo - Gn 24:63-67; 

2 – Consentimento (bênção) do pai do noivo (a mãe havia falecido) - Gn 24:1-4;3 – Propósito e confirmação de Deus - Gn 24:12-26 

4 – jugos iguais (mesmo povo, mesma fé, mesmo Deus) – Gn 24:4, 24, 47-48 

5- Vontade da noiva - Gn 24:57-59; 

6 – Consentimento (benção) dos pais da noiva - Gn 24:50-51, 55, 59-61; 

7 – união sexual com animus de formação de uma unidade familiar permanente - Gn 24:66-67;

8 – fidelidade e compromisso e lealdade por toda a vida (Rm 9:10 - Gn 49:31).

Por esse primeiro exemplo, no mínimo, devemos entender que os princípios de Deus para o casamento estão todos muito bem definidos sem a exigência de um ritual religioso nos moldes que conhecemos. 

Aliás, a palavra casamento ocorre poucas vezes em todo o Velho Testamento (Gn 34:12; Ct 8:8; Dn 2:43; 11:17) e o termo “bodas” somente duas vezes, em referência ao casamento de Sansão. No Novo testamento, as poucas referências a casamento ocorrem nas bodas de Caná da Galileia (Jo 2:1-2); na menção profética de Jesus sobre a alegria de se estar com o noivo antes de sua partida (Mt 9:15; Mc 2:19; Lc 5:34); na indicação de que os anjos do céu não se casam (Mt 22:30; Mc 12:25; Lc 20:34-35); na referência profética de Noé quanto à vida cotidiana no tempo do fim (Mt 24:38; Lc 17:27); na advertência quanto à vigilância (Lc 12:36); no ensino sobre o lugar que devemos procurar ocupar durante uma festa de casamento (Lc 14:8-11); nos conselhos de Paulo sobre o casamento (1Co 7:1-40); e na advertência de Paulo sobre ensinos de demônios procedentes de pessoas que proíbem o casamento e a abstinência de alimentos (1Tm 4:3). Entretanto, em nenhuma dessas passagens do Novo Testamento há qualquer sugestão ou imposição de regras, rituais ou cerimônias para a formalização do ato do casamento. 

Logo, cultos, missas, ministrações, celebrações, vestes especiais, festas, testemunhas, padrinhos, damas de honra e registro documental não podem ser considerados exigências das escrituras sagradas ou de Deus para as núpcias. Por conclusão óbvia, de modo contrário, a ausência de cerimônia religiosa no ato do casamento, por si só, não deve ser considerada pecado. 

O casamento dos tempos bíblicos: preceitos e tradição

Em Israel, o casamento era possível a partir da idade núbil, qual seja: treze anos e um dia para os rapazes e doze anos e um dia para as moças. Porém, era comum que os jovens se casassem por volta dos dezoito anos de idade. 

É comum ouvirmos dizer que o casamento dos tempos bíblicos era um negócio de família. Entretanto, antes disso, havia uma preocupação de Deus com a preservação das tribos e suas respectivas terras. Como o direito de herança pertencia ao varão, se um israelita tivesse apenas filhas, elas deveriam casar-se dentro da própria tribo, de modo que a herança não viesse a ser transferida para outra tribo: 

“6 Esta é a palavra que o SENHOR mandou acerca das filhas de Zelofeade, dizendo: Sejam por mulheres a quem bem parecer aos seus olhos, contanto que se casem na família da tribo de seu pai. 7 Assim, a herança dos filhos de Israel não passará de tribo em tribo; pois os filhos de Israel se hão de vincular cada um à herança da tribo de seus pais. 8 Qualquer filha que possuir alguma herança das tribos dos filhos de Israel se casará com alguém da família da tribo de seu pai, para que os filhos de Israel possuam cada um a herança de seus pais. 9 Assim, a herança não passará de uma tribo a outra; pois as tribos dos filhos de Israel se hão de vincular cada uma à sua herança. 10  Como o SENHOR ordenara a Moisés, assim fizeram as filhas de Zelofeade, 11  pois Macla, Tirza, Hogla, Milca e Noa, filhas de Zelofeade, se casaram com os filhos de seus tios paternos. 12  Casaram-se nas famílias dos filhos de Manassés, filho de José, e a herança delas permaneceu na tribo da família de seu pai. 13 São estes os mandamentos e os juízos que ordenou o SENHOR, por intermédio de Moisés, aos filhos de Israel nas campinas de Moabe, junto ao Jordão, na altura de Jericó.” (Números 36:6-13 RA) 

Exatamente por questões que envolviam a herança, era muito importante que o israelita tivesse pelo menos um filho homem, pois a preservação da propriedade decorria da transmissão da herança aos descendentes (Êx 15:17-18; Sl 127; 128). Por isso, a mulher estéril era tão desprezada (Gn 30:1-2, 23; 1 Sm 1:6-10; Lc 1:25). 

Situação igualmente grave ocorria quando o marido morria sem deixar herdeiro à mulher. Para resolver esse problema, deu-se início à prática do levirato (Gn 38:8), que veio a integrar a Lei de Moisés (Dt. 25:5-10). Assim, quando uma mulher enviuvava, o irmão do marido morto tinha de se casar com ela. Os filhos deste casamento tornavam-se herdeiros do irmão falecido, a fim de que "o nome deste não se apague em Israel" (Dt. 25:6). Se um homem recusava casar-se com a cunhada viúva, ele sofria a ignomínia pública (Dt. 25:7-10; Rt 4:1-7).

Quanto à liturgia do casamento, ante a completa ausência de textos bíblicos que estabeleçam uma cerimonia para casamento, devemos reconhecer que tudo o que temos hoje a esse respeito faz parte de uma tradição. Embora não haja dúvida de que o casamento em si seja uma instituição divina, confirmada por Jesus (Mt 19:5; Mc 10:7) e por Paulo (Ef 5:31), o fato é que a cerimônia foi criada por homens em razão de conceitos religiosos, culturais, sociais e econômicos.

Não podemos ignorar que há séculos o ato do casamento envolve liturgia e festa, de modo que nem mesmo sabemos quando exatamente essa tradição iniciou. Entretanto, conhecemos razões que motivaram algumas tradições. Registros históricos dão conta de que o desenvolvimento socioeconômico passou a exigir formalidades para a realização de um casamento. O ato deixou de ser uma simples decisão individual do homem e da mulher, que se uniam com a bênção de seus pais, e tornou-se um negócio da família. 

A passagem bíblica do casamento de Jacó com Raquel é suficiente para que notemos uma evolução em relação à união de Isaque com Rebeca. Parece-nos que no tempo de Jacó o casamento já exigia obediência a uma certa tradição de família, que incluía um banquete, uma ordem de entrega das filhas e motivações financeiras. Para que Jacó tomasse Raquel por mulher, seu sogro Labão lhe informou que na sua terra a filha mais nova não seria dada em casamento antes da mais velha. Assim, Jacó teve que aceitar primeiramente a união com Lia (filha mais velha de Labão) para que recebesse posteriormente Raquel como esposa. Além disso, Jacó teve que pagar um dote, em forma de trabalho, em relação a cada uma de suas esposas. Por fim, notamos que o casamento (união sexual dos noivos) se formalizava durante uma festa, sem qualquer cerimônia religiosa. Vejamos o texto: 

21 Disse Jacó a Labão: Dá-me minha mulher, pois já venceu o prazo, para que me case com ela. 22 Reuniu, pois, Labão todos os homens do lugar e deu um banquete. 23 À noite, conduziu a Lia, sua filha, e a entregou a Jacó. E coabitaram. 24 (Para serva de Lia, sua filha, deu Labão Zilpa, sua serva.) 25 Ao amanhecer, viu que era Lia. Por isso, disse Jacó a Labão: Que é isso que me fizeste? Não te servi eu por amor a Raquel? Por que, pois, me enganaste? 26 Respondeu Labão: Não se faz assim em nossa terra, dar-se a mais nova antes da primogênita. 27 Decorrida a semana desta, dar-te-emos também a outra, pelo trabalho de mais sete anos que ainda me servirás. 28 Concordou Jacó, e se passou a semana desta; então, Labão lhe deu por mulher Raquel, sua filha. (Gn 29:21-28 RA) 

Importante que fique claro que a tradição da terra de Labão não era nem mesmo conhecida por Jacó. Daí podemos deduzir que na terra de Jacó não existia essa tradição. Ou seja, a tradição não procedia de Deus, mas fazia parte da cultura local. 

Sobre essa questão, a passagem bíblica das bodas de Sansão nos dá outras informações, deixando igualmente claro que o ritual do casamento era uma questão de costume e não uma ordenança de Deus: 

2 subiu, e declarou-o a seu pai e a sua mãe, e disse: Vi uma mulher em Timna, das filhas dos filisteus; tomai-ma, pois, por esposa. (...) 5 Desceu, pois, com seu pai e sua mãe a Timna; e, chegando às vinhas de Timna, eis que um leão novo, bramando, lhe saiu ao encontro. (...) 7 Desceu, e falou àquela mulher, e dela se agradou. 8 Depois de alguns dias, voltou ele para a tomar; e, apartando-se do caminho para ver o corpo do leão morto, eis que, neste, havia um enxame de abelhas com mel. (...) 10 Descendo, pois, seu pai à casa daquela mulher, fez Sansão ali um banquete; porque assim o costumavam fazer os moços. (...) 12 Disse-lhes, pois, Sansão: Dar-vos-ei um enigma a decifrar; se, nos sete dias das bodas, mo declarardes e descobrirdes, dar-vos-ei trinta camisas e trinta vestes festivais; (...) 17 Ela chorava diante dele os sete dias em que celebravam as bodas; ao sétimo dia, lhe declarou, porquanto o importunava; então, ela declarou o enigma aos seus patrícios. (Jz 14:2-17 RA) 

Embora não haja outros textos bíblicos verotestamentários sobre a tradição do casamento, a história do povo hebreu nos informa sobre os costumes que passaram a integrar o casamento. 

Normalmente, em Israel, o pai tinha interesse em casar suas filhas com homens bem sucedidos que garantissem o sustento e a proteção delas – eles eram os primeiros a ser consultados e, assim, iniciava-se uma transação. 

Da parte do homem, era comum que o jovem consultasse seu pai sobre seu desejo de tomar uma determinada mulher por esposa, pedindo-lhe aprovação. Ele precisava do consentimento de seus pais, pois incluiria uma mulher em sua parentela. Quando o homem se casava, sua mulher passava a fazer parte da sua parentela e a sogra tornava-se sua segunda mãe, razão pela qual era importante que a família do noivo aprovasse a moça. 

Seu pai, então, estando de acordo, iniciava os entendimentos com o pai da moça. Era comum, também, que um amigo muito chegado do noivo participasse das negociações. Os acertos tinham o objetivo de compensar a família da moça pelo trabalho que ela prestava em casa e que cessaria dali em diante. As mulheres eram mão de obra importante no cotidiano bíblico e seu trabalho fazia falta no lar. Era costume que essa compensação fosse feita em dinheiro. 

A moça, por sua vez, ao ser consultada, podia manifestar sua discordância e isso era respeitado. 

Naquele tempo eram comuns casamentos arranjados por pura conveniência, fugindo, assim, ao padrão original estabelecido por Deus desde o gênesis. Questões financeiras acabavam provocando distorções no instituto do casamento, uma vez que a família do noivo deveria providenciar um dote a ser pago ao pai da noiva. Este, por sua vez, não poderia gastá-lo, pois era uma reserva no caso de a mulher tornar-se viúva ou ser vítima de um repúdio (Gn 31:14-15) – mas ele podia aplicar o dinheiro e usufruir dos juros. Enquanto a proposta teórica da tradição era manter uma reserva para tempos difíceis, a ganância acabou por transformar o casamento em um negócio lucrativo para alguns pais que, na verdade, vendiam suas filhas. 

Se o pretendente fosse pobre e não tivesse como arcar com o dote, podia pagá-lo com trabalho, mas também havia casos em que o pai da noiva dispensava o dote do futuro genro dele. Contudo, ao pai da noiva também cabia gastar. Ele também dava um dote à filha, em dinheiro, bens ou qualquer outra coisa que favorecesse o novo lar que se formava (1 Jz 1:12-15). 

Feitos todos os arranjos para o casamento, acontecia o noivado. Os noivos, embora ainda não vivessem juntos, já eram considerados desposados, oficialmente. Após o noivado, os jovens já eram chamados de esposa e de marido (Mt 1:19). Além disso, o noivo ficava isento do serviço militar, obrigatório para todos os homens (Dt 20:7). 

Como visto, as negociações eram importantes. Tudo ficava bem ajustado, inclusive quanto o pai da noiva receberia caso o casamento não se consumasse. Se o marido morresse ou desistisse do casamento, parte dos bens seriam devolvidos aos pais. Mas, devido ao número de pessoas envolvidas e das quantias de dinheiro empenhadas, era muito raro haver uma dissolução do noivado. 

O noivado durava cerca de um ano, período em que a casa era providenciada pelo noivo e o enxoval pela noiva. A família da jovem ficava encarregada dos preparativos para a festa do casamento, mas, normalmente, as despesas da festa corriam por conta do pai do noivo. 

Segundo a tradição, os casamentos não dispensavam uma grande festa, característica dos judeus, que gostavam de muita animação e de festejos bem alegres. Parentes viajavam grandes distâncias e era uma desonra não comparecer à festa. 

Antes do casamento, havia o cortejo nupcial. A noiva saía de sua casa acompanhada das pessoas que formavam o seu grupo e o noivo vinha de outro lugar por ele escolhido. O destino, era a casa do pai do noivo, que financiava a festa. Os dois grupos vinham cantando e tocando instrumentos musicais. 

Durante a festa, não havia cerimônia religiosa, nenhuma liturgia. O casamento não era formalizado por rabinos, sacerdotes, juízes ou outra autoridade religiosa. O ritual se cumpria apenas no encontro dos dois, onde poderiam dizer algumas palavras ou algum salmo em meio a muita animação. Em certo momento, os dois se retiravam para um quarto preparado para ser a câmara nupcial. A consumação do ato se dava com a união sexual dos noivos, que fazia dos dois uma só carne. Enquanto o casal consumava o casamento, os convidados continuavam a festejar, ao som de muita música, danças, comidas e bebidas. Após algum tempo, o casal voltava ao centro da festa trazendo a prova de que a noiva era virgem: o lençol manchado com sangue. 

Entretanto, nos desajustes da tradição, tudo era possível. Era possível, inclusive, que a moça negociada não fosse virgem. Talvez, essa tenha sido a razão da criação do costume de se consumar o casamento em uma festa diante de muitas testemunhas. 

A virgindade da noiva era essencial para a concretização do negócio entre as famílias. O vestido branco era um símbolo importante da pureza da noiva, ou seja, da sua virgindade. Todos deveriam saber que uma virgem estava sendo entregue ao noivo naquela comemoração. O lençol branco da cama, manchado com o sangue da virgem, era entregue, em seguida, ao seu pai e ele o guardava como mais uma prova em favor de sua filha (Dt 22:13-15). Assim, seu marido não poderia levantar acusação de ter achado nela coisa imoral e repudiá-la (Dt. 24:1). 

A festa, portanto, não era apenas um momento de alegria pelas núpcias, mas um ato importante para a garantia do negócio que estava sendo consumado naqueles dias. 

Esse mesmo ritual tradicional foi preservado, com mínimas alterações, ainda no período do Novo Testamento. Indício de que a tradição, em geral, estava mantida e foi recepcionada por Jesus está na parábola das bodas do filho do Rei: 

“2 O reino dos céus é semelhante a um rei que celebrou as bodas de seu filho. 3 Então, enviou os seus servos a chamar os convidados para as bodas; mas estes não quiseram vir. 4 Enviou ainda outros servos, com esta ordem: Dizei aos convidados: Eis que já preparei o meu banquete; os meus bois e cevados já foram abatidos, e tudo está pronto; vinde para as bodas.” (Mt 22:2-4 RA) 

Nessa parábola notamos que era o pai do noivo que preparava a festa, diferentemente da nossa tradição ocidental. Ao que tudo indica, o costume conhecido por Jesus era exatamente o que citamos, como podemos ver na parábola das dez virgens: 

“1 Então, o reino dos céus será semelhante a dez virgens [acompanhantes da noiva] que, tomando as suas lâmpadas, saíram a encontrar-se com o noivo. [...] 6 Mas, à meia-noite, ouviu-se um grito: Eis o noivo! Saí ao seu encontro! [...] 10 E, saindo elas para comprar, chegou o noivo, e as que estavam apercebidas entraram com ele para as bodas [casa do pai do noivo]; e fechou-se a porta.” (Mt 25:1-10 RA)É possível afirmar que a tradição do banquete estava sendo observada no tempo de Jesus, uma vez que seu primeiro milagre ocorreu exatamente em uma festa de casamento (Jo 2:1-11). 

Importante observar que o casamento instituído por Deus era consumado pela união sexual dos cônjuges, em casa própria e com propósito de formação de uma família. Com o advento da tradição israelita, o casamento passou a ser reconhecido antes mesmo que os compromissados fossem morar em sua nova casa e se entregassem ao ato sexual. No momento em que o contrato estivesse firmado entre as famílias, os jovens já se consideravam desposados, a exemplo de José e Maria que, mesmo antes de se unirem pelo ato sexual já eram considerados casados. 

“Ora, o nascimento de Jesus Cristo foi assim: estando Maria, sua mãe, desposada com José, sem que tivessem antes coabitado, achou-se grávida pelo Espírito Santo.” (Mateus 1:18 RA) 

Entretanto, é de se notar que a tradição, aparentemente recepcionada por Deus, não invalida, substitui ou afasta ou a instituição original. Quem garante isso é o próprio filho de Deus que, em seu ministério, reafirmou os termos originais para a consumação do casamento, senão vejamos:

“4 Então, respondeu ele: Não tendes lido que o Criador, desde o princípio, os fez homem e mulher 5  e que disse: Por esta causa deixará o homem pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? 6 De modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem.” (Mateus 19:4-6 RA) 

Vale destacar que, na tradição israelita, o fato do casal já se considerar comprometido, desposado, quando as famílias firmaram o contrato, não é suficiente para afirmarmos que o casamento tenha sido consumado segundo o padrão original do criador, que se dá pela coabitação social e sexual. 

Portanto, é possível dizer, com segurança, que Deus aceita a consumação do casamento sob seus preceitos originais, sem os acréscimos da tradição. O que a tradição adiciona, desde que não desvirtue ou altere o fundamento inicialmente estabelecido pelo criador, pode ser aceito, sem problemas. Só não é razoável afirmar que o simples contrato seja suficiente para consumar o casamento, segundo o padrão original de Deus, explicitamente definido nas escrituras sagradas. 

A origem católica da tradição cristã para casamentos 

Os registros históricos Católicos Apostólicos Romanos atestam a origem da cerimônia de casamento que observamos hoje. 

 Até meados do Século XVI, ou seja, durante os primeiros 1.500 anos de cristianismo, quando duas pessoas batizadas resolviam se casar, simplesmente realizavam uma festa para dar satisfação social daquela decisão dos nubentes. Até então, a própria Igreja Católica reconhecia como sacramento válido qualquer celebração que se fizesse publicamente, não se exigindo cerimônia religiosas e nem mesmo a presença de um sacerdote. Os fieis simplesmente decidiam se casar e anunciavam publicamente que estavam casados. Isso era feito em uma festa, conforme a possibilidade das famílias envolvidas. 

Essa era a prática reconhecida como válida pela Igreja Cristã durante 16 séculos. 

 Aos poucos, instalou-se outra prática. Por costume, os nubentes, após o casamento, procuravam a igreja para o pedir uma bênção sacerdotal especial, que era dirigida especialmente à mulher, à esposa. Faziam isso para prepara-la para assumir o risco de ser mãe. É bom lembrar que naquele tempo não existiam os recursos modernos como temos hoje. Qualquer complicação na gestação ou durante o parto poderia levar a mulher ao óbito. A bênção, então, era para a mulher que realizaria a missão de ser mãe e assumiria, com sua própria vida, os riscos decorrentes da gravidez. 

 Entretanto, a Igreja Católica começou a perceber alguns abusos por parte dos homens, que, secretamente, casavam-se com mais de uma mulher, normalmente em cidades diferentes. Em cada região que estava, levava sua esposa para a igreja com o fim de realizar a cerimônia matrimonial, pós-casamento. E como a Igreja Católica percebeu que estava abençoando aquilo que contrariava a ordem da monogamia, decidiu disciplinar a prática da cerimônia nupcial no Concílio de Trento. 

Apenas para relembrar, o Concílio de Trento foi convocado para discutir uma série de questões que precisavam ser definidas pela Igreja e abriu seus trabalhos no dia 13 de dezembro de 1545, no terceiro domingo do mês. As discussões se arrastaram por duas décadas, resultando, ao final, em seus cânones definitivos. 

Um dos documentos ali produzidos foi o Decreto Tametsi, por meio do qual a Igreja Católica Apostólica Romana definiu que o casamento entre dois católicos só seria válido se os noivos se apresentassem diante de um legítimo sacerdote (devidamente ordenado), competente para realizar a cerimônia em sua região (sob sua jurisdição) e na presença de, no mínimo, duas testemunhas. 

De fato, o Concílio passou a qualificar o casamento como um contrato formal, fazendo depender a validade do acordo de vontade dos nubentes, da manifestação expressa diante do sacerdote e das testemunhas

Nos países em que o Concílio de Trento foi publicado, sua vigência passou a ser imediata para todos os católicos. Nos demais países, sob o papado de Pio IV, em 1564 foi criada a "Sagrada Congregação dos Cardeais Mediadores do Concílio Tridentino", para que o mesmo fosse divulgado e interpretado à luz da igreja católica. 

Enfim, foi dessa maneira que surgiu a cerimônia matrimonial católica, copiada pouco tempo depois pela igreja protestante. Por isso, desde o século XVI, católicos só consideram válido o casamento que respeite sua regra (Decreto Tametsi), criada em razão de distorção identificada naquele tempo. É bom lembrar que a regra católica não decorreu de um ordenamento bíblico, mas de uma necessidade de controle eclesiástico sobre seus fiéis. 

Curiosamente, a igreja protestante não só acolheu a regra católica como também a divinizou

A tradição cultural do casamento ocidental 

A despeito da bíblia ser nosso referencial de práticas religiosas, no que diz respeito ao casamento não adotamos o ritual apresentado pela bíblia como tradição em Israel. De modo diverso, a cultura ocidental acolheu a tradição católica e, além das exigências mínimas do Decreto Tametsi, passou a adotar liturgia e símbolos próprios. No Brasil, por exemplo, os jovens, em boa medida, namoram com ou sem o consentimento dos pais, o que é algo absolutamente inimaginável na cultura bíblica, onde nem mesmo existe a figura do namoro. 

Depois do namoro, a tradição brasileira é o noivado que, em tese, é uma promessa de casamento entre os próprios noivos e independe de aprovação dos pais dos noivos. Com o noivado, os compromissados passam a usar alianças, o que é uma tradição desconhecida pela bíblia. 

Em relação ao casamento, propriamente dito, normalmente é realizado em uma igreja, capela ou templo, onde um pastor, padre ou líder religioso conduz a cerimônia recolhendo os votos de fidelidade dos nubentes e, após isso, concedendo a sua bênção diante de testemunhas (convidados), de padrinhos e dos pais dos noivos. A noiva veste-se de branco, que representaria sua pureza (não se trata de pureza da alma, mas da pureza sexual: virgindade) e é levada ao “altar” por seu pai, que a entrega ao seu futuro marido, como símbolo do seu consentimento. Há, também, crianças (damas de honra) que conduzem as alianças e espalham pétalas pelo caminho entre a porta do salão até o “altar”, como parte da liturgia, mas nem mesmo sabemos se isso tem algum significado ou se é apenas para deixar a celebração mais bonita e alegre. 

O banquete vem logo após a liturgia do casamento. Segundo a nossa tradição, a festa, que dura apenas algumas horas, é financiada pelo pai da noiva e o ato sexual é, em tese, reservado para depois da festa, de modo distinto da tradição israelita. 

Enfim, por mais espiritual que seja, a tradição do casamento ocidental não foi retirada da bíblia e, praticamente, em nada se parece com o casamento realizado pela tradição israelita. O que fazemos hoje deve-se à nossa tradição cultural, que tem seus próprios símbolos. 

Equívocos religiosos 

Uma vez que constatamos que a liturgia do casamento, especialmente a ocidental, não foi retirada da bíblia, as perguntas seguintes servirão para testar se nossa religiosidade está associada à vontade de Deus ou se, em algum ponto, estamos equivocados. 

•um pastor, padre ou líder religioso pode casar ou recasar alguém? Se sim, qual o texto bíblico que, objetivamente, ampara tal pretensão? 

•o que é indispensável? O vestido branco ou a pureza? 

•pais precisam consentir com o casamento dos filhos? 

•os votos de amor eterno e de fidelidade conjugal são apenas formalidades de uma liturgia e não produzem quaisquer vinculações espirituais subsequentes? 

•qual o significado de uma aliança diante da aceitação resignada do divórcio até mesmo pelas igrejas cristãs? 

•quem criou a certidão de casamento? Deus ou os homens? Se foi o Senhor, qual o texto bíblico que fundamenta tal formalidade? Se não foi Jeová, por que a igreja insiste em afirmar que um casal que não tem uma certidão de casamento está em pecado, mesmo nos casos em que ambos deixaram seus pais, uniram-se pelo ato sexual com o desejo de formarem uma família e são fieis um ao outro? 

•quem instituiu a liturgia do casamento? Deus ou os homens? Se foi Deus, qual o ritual certo? O dos israelitas ou o dos povos do ocidente? Se o correto é o dos israelitas, por que os pastores, em geral, pensam que somente a cerimônia realizada por suas igrejas consumam o casamento? 

•o que consuma um casamento? A cerimônia religiosa ou a relação sexual consentida e precedida de ajuste familiar e estabelecimento de lar próprio com animus definitivo? 

•as testemunhas e padrinhos de uma cerimônia religiosa de casamento são apenas pessoas que ocupam um lugar distinto na celebração ou isso implica responsabilidades?

•o que vale mais? O ritual ou a vontade e a aprovação Deus? 

•por que algumas igrejas valorizam tanto a cerimônia e não cuidam de instruir seus jovens quanto à pureza sexual, quanto ao jugo desigual (2Co 6:14-15), quanto ao consentimento dos pais, quanto ao ódio que Deus tem do divórcio, quanto aos casos de impossibilidade de recasamento e quanto às consequências dos votos inconsequentes? 

Obs: em relação ao divórcio, vale a pena ler o alerta apresentado no capítulo 5 do livro “Dízimos e Ofertas: pretextos dos impiedosos” 

Enfim, aparentemente, o casamento que tem sido valorizado pelas igrejas é o ritual e não a sua essência como instituição divina. 

“Respondeu-lhes Jesus: Por causa da dureza do vosso coração é que Moisés vos permitiu repudiar vossa mulher; entretanto, não foi assim desde o princípio.” (Mateus 19:8 RA)

O fato que podemos não querer ver é que casamento não é uma cerimônia. Aliás, esta é até dispensável aos olhos de Deus. Entretanto, o que Deus não dispensa é exatamente aquilo que não queremos pregar, anunciar e observar – a justiça, a misericórdia e a fé diante do soberano Senhor. 

“16 Ai de vós, guias cegos, que dizeis: Quem jurar pelo santuário, isso é nada; mas, se alguém jurar pelo ouro do santuário, fica obrigado pelo que jurou! 17 Insensatos e cegos! Pois qual é maior: o ouro ou o santuário que santifica o ouro? 18 E dizeis: Quem jurar pelo altar, isso é nada; quem, porém, jurar pela oferta que está sobre o altar fica obrigado pelo que jurou. 19 Cegos! Pois qual é maior: a oferta ou o altar que santifica a oferta?” (Mt 23:16-19 RA) 

“23 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas! 24 Guias cegos, que coais o mosquito e engolis o camelo!” (Mt 23:23-24 RA) 

Sim, Deus não é injusto ao exigir que sejamos santos, respeitosos e fieis em nossos relacionamentos. A misericórdia de Deus se revela em perdoar os pecados daqueles que reconhecem o seu erro e se arrependem. A fé se resume em crermos que a Palavra normativa de Deus é o fundamento pelo qual devemos viver, pois o justo viverá por fé. 

O valor da tradição 

Talvez agora tenhamos percebido que não somos tão espirituais como queremos parecer, uma vez que não valorizamos o que realmente tem valor. 

Entretanto, isso não significa que a liturgia seja desprezível. Ela só não é essencial ao casamento, mas sua realização é até saudável. O valor da tradição e de seus símbolos pode perfeitamente ser reconhecida. O próprio Deus não a rechaçou enquanto ela foi observada por centenas de anos pelos israelitas. Apesar da tradição não ter sido criada por Deus, ela parece ter sido admitida, sem problemas. O próprio Jesus, além de realizar seu primeiro milagre em uma festa de casamento, chega a utilizar a figura das bodas em uma parábola. Também valeu-se da simbologia da noiva e do noivo em mensagens proféticas. 

Então, por que Deus não condenou a tradição? 

Simples, porque ela é útil ao propósito de preservação de valores divinos. Deus chega a nos recomendar que não abandonemos alguns marcos antigos e que nos voltemos a veredas antigas para não sermos destruídos, senão vejamos: 

14 Não mudes os marcos do teu próximo, que os antigos fixaram na tua herança, na terra que o Senhor, teu Deus, te dá para a possuíres. (Dt 19:14 RA) 

16 Assim diz o Senhor: Ponde-vos à margem no caminho e vede, perguntai pelas veredas antigas, qual é o bom caminho; andai por ele e achareis descanso para a vossa alma; mas eles dizem: Não andaremos. (Jr 6:16 RA) 

Ora, se uma tradição, mesmo a ocidental, foi estabelecida de modo alinhado à vontade do Senhor, não há razão para removê-la. 

Importante seria que o vestido branco não fosse apenas uma roupa de ocasião ou um símbolo, mas uma realidade na vida da noiva. 

Importante seria que a entrega da noiva ao seu futuro marido pelo pai não fosse apenas um ritual, mas a expressão de um consentimento pacífico. 

Importante seria que os votos de amor e de fidelidade não fossem apenas declarações inconsequentes, mas a expressão da verdade e do compromisso inarredável, independentemente de circunstâncias futuras. 

Importante seria se as alianças não fossem apenas uma decoração que distingue um solteiro de um casado, mas a lembrança permanente de que o casamento é uma relação indissolúvel e não um mero contrato. 

Importante seria que os nubentes não procurassem o pastor apenas como figura essencial à realização de uma cerimônia, mas como um partícipe espiritual capaz de interferir positivamente na preparação dos noivos durante o processo da efetivação da união. 

Importante seria se padrinhos e as testemunhas não fossem apenas convidados distintos, mas pessoas capazes de lembrar os noivos de seus compromissos assumidos diante de Deus e dos homens. 

Importante seria se a festa fosse a comemoração de uma união segundo o padrão de Deus e não uma festividade para atender a padrões sociais. 

Sobre a tradição, podemos, ainda, entender que alguns costumes apresentam símbolos que, se respeitados em sua essência, preservam as nossas vidas, encaminhando-nos pelos caminhos de Deus. Uma tradição que insere na sociedade um valor divino pode ser repetida por séculos, de geração a geração, conforme vimos na questão do casamento tradicional judeu. Veja-se que a tradição judaica preservou fortemente naquela cultura o valor da virgindade e da reserva de uma mulher a apenas um marido. Mesmo que alguém tenha respeitado essa tradição sem compreender exatamente o que estava fazendo, certamente foi preservado de ações absolutamente abomináveis ao senhor, como é o caso da união sexual descomprometida, cujos resultados são desastrosos para as famílias. 

A tradição sem valor 

O que temos visto nos nossos dias? Cerimônias de casamento que não passam de rituais sociais que precisam de um revestimento religioso para a suas realizações. Na verdade, em muitos casos, o casamento é apenas uma farsa para atender anseios individuais e padrões sociais. Deus e a igreja são apenas “panos de fundo” de um momento particular para algumas famílias. 

CONCLUSÃO 

Assim, uma vez que os símbolos dessa tradição nada mais informam à sociedade, a tradição, por si só, fica esvaziada, sem qualquer valor para Deus. Mas, o Senhor nos chama para voltarmos às veredas antigas. Para tanto, deveríamos primeiramente valorizar a instituição em si. Em segundo lugar, poderemos recuperar o valor da tradição, fazendo a ligação de seus símbolos com a vontade de Deus. 

Portanto, casamento não é apenas uma liturgia religiosa e dela não depende. 

Entretanto, embora as tradições que envolvem o casamento em si não tenham sido criadas por Deus, não há nenhum problema em sua perpetuação. Bom seria que seus símbolos estivessem alinhados aos preceitos divinos e não fossem apenas formalidades desconectadas de sua essência. 

Brasília/DF, em 28 de outubro de 2014. 

Pastor Sólon Lopes Pereira

 
Anonimato e internet

Imagem Ilustrativa

QUEM É VOCÊ? A QUEM REPRESENTA? QUE ESPÍRITO GOVERNA SUA VIDA?

"Ai dos que escondem profundamente o seu propósito do Senhor, e as suas próprias obras fazem às escuras, e dizem: Quem nos vê? Quem nos conhece?" (Isaías 29:15)

Com o advento das redes sociais, as possibilidades de relacionamentos entre pessoas foi ampliado. As facilidades de contato entre indivíduos, mesmo distantes fisicamente, sem dúvida, tem rompido barreiras.
Isso é bom? Sem dúvida! O homem é um ser social por natureza. Deus, ao cria-lo, disse: “não é bom que esteja só” (Gn 2:18). A socialização é, portanto, divina. Desde sua gênese o homem vive em comunidades, rodeados por pessoas. Família, parentes, colegas de trabalho, de escola, de festa, de esporte, vizinhos, amigos, amigos de amigos, conhecidos, e até mesmo pessoas que só conhecemos virtualmente.

Mas, quando dizemos que relacionamentos sociais são bons, evidentemente estamos nos referindo a relacionamentos de qualidade. Isso não significa que não haja diferenças. Até mesmo os enfrentamento de ideias, gostos, opiniões, credos e culturas diferentes são saudáveis e necessários ao amadurecimento de um relacionamento, desde que haja respeito mútuo. 

A propósito do crescente movimento de relações interpessoais virtuais e das incertezas que permeiam esses relacionamentos, que se desenvolvem por trás de computadores, tablets e smartphones, iremos abordar neste artigo a questão do anonimato sob o ponto de vista bíblico, para saber até que ponto a tecnologia social tem sido benéfica àqueles que professam a fé cristã. 

Luz e trevas 

Antes de falarmos do anonimato, propriamente dito, é bom sabermos que Deus é luz, que Jesus é a luz do mundo e que seus discípulos também são luz. 

"5 Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma." (1 João 1:5) 

"12 De novo, lhes falava Jesus, dizendo: Eu sou a luz do mundo; quem me segue não andará nas trevas; pelo contrário, terá a luz da vida." (João 8:12)

"14 Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte;" (Mateus 5:14) 

Do lado oposto estão as trevas, identificadas como império de Satanás, cujas obras são más e se manifestam tanto exteriormente como interiormente, quando a maldade está apenas nos corações. 

"13 Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor," (Colossenses 1:13) 

"11 E não sejais cúmplices nas obras infrutíferas das trevas; antes, porém, reprovai-as." (Efésios 5:11) 

"5 Portanto, nada julgueis antes do tempo, até que venha o Senhor, o qual não somente trará à plena luz as coisas ocultas das trevas, mas também manifestará os desígnios dos corações; e, então, cada um receberá o seu louvor da parte de Deus. " (1 Coríntios 4:5) 

A razão dessa identificação das coisas divinas com a luz e das obras perversas com as trevas é porque desde o princípio da criação, Deus fez separação entre luz e trevas. Também, disse que não haveria comunicação entre luz e trevas, assim como as obras dos filhos da luz não poderiam se comunicar com as obras malignas de Satanás:

"4 E viu Deus que a luz era boa; e fez separação entre a luz e as trevas." (Gênesis 1:4) 

"14 Não vos ponhais em jugo desigual com os incrédulos; porquanto que sociedade pode haver entre a justiça e a iniqüidade? Ou que comunhão, da luz com as trevas? 15 Que harmonia, entre Cristo e o Maligno? Ou que união, do crente com o incrédulo?" (2 Coríntios 6:14-15) 

"6 Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade." (1 João 1:6) 

Pois bem, que isso fique bem claro: luz e trevas não se comunicam. Tudo o que se relaciona a Deus é luz, transparência e verdade. E tudo o que se relaciona a Satanás é escuridão, onde as coisas não são claras, não são identificáveis e não são perceptíveis. Na escuridão todas as coisas ficam ocultas exatamente pela ausência de luz. 

Os discípulos de Jesus não podem estar entre aqueles que praticam as obras das trevas. Nesse particular, aplica-se o velho ditado popular: “diga-me com quem andas e eu te direi quem és”. Ora, pelo fruto se conhece a árvore. Quem pratica o bem não precisa se esconder. Quem fala a verdade não tem de que se envergonhar. Somente quem pratica as obras das trevas precisam da escuridão para encobrir suas ações e intenções: 

"14 De madrugada se levanta o homicida, mata ao pobre e ao necessitado, e de noite se torna ladrão. 15 Aguardam o crepúsculo os olhos do adúltero; este diz consigo: Ninguém me reconhecerá; e cobre o rosto. 16 Nas trevas minam as casas, de dia se conservam encerrados, nada querem com a luz. 17 Pois a manhã para todos eles é como sombra de morte; mas os terrores da noite lhes são familiares. " (Jó 24:14-17) 

Mas, quem é da luz, do dia, permanece vigilante para que não seja pego de surpresa, pois Jesus vem e naquele grande dia não podemos nos encontrar praticando qualquer obra das trevas: 

"4 Mas vós, irmãos, não estais em trevas, para que esse Dia como ladrão vos apanhe de surpresa; 5 porquanto vós todos sois filhos da luz e filhos do dia; nós não somos da noite, nem das trevas. 6 Assim, pois, não durmamos como os demais; pelo contrário, vigiemos e sejamos sóbrios. 7 Ora, os que dormem dormem de noite, e os que se embriagam é de noite que se embriagam. 8 Nós, porém, que somos do dia, sejamos sóbrios, revestindo-nos da couraça da fé e do amor e tomando como capacete a esperança da salvação; 9 porque Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a salvação mediante nosso Senhor Jesus Cristo," (1 Tessalonicenses 5:4-9) 

Portanto, devemos observar se a nossa vida está realmente na luz ou se ainda há pecados inconfessos e atitudes cuja luz não pode incidir sobre elas. 

O que é anonimato? 

O temo anonimato deriva do grego ανωνυμία, que significa "sem nome". Em nossos dicionários é normalmente definido como estado ou característica do que é anônimo, sem nome ou assinatura. A pessoa que age anonimamente é, então, aquela que, por hábito ou procedimento, age sem se identificar. 

O anônimo não tem rosto porque não quer ou não pode ser reconhecido. Ele se esconde por necessidade ou por medo. Alguns omitem suas verdadeiras identidades para, paradoxalmente, ter uma vida normal. 

O que é um fake (“falso”, em inglês) 

No mundo virtual, o anonimato se revela não apenas pela omissão de assinatura, mas pela apresentação de uma identidade falsa. Para que alguém se apresente anonimamente em uma rede social, por exemplo, deve criar contas ou perfis que omitam a sua identidade real. Para isso, é comum usar identidades de famosos, cantores, personagens de filme ou até mesmo outras pessoas anônimas. O perfil criado com esse fim é denominado fake ("falso" em inglês). 

Normalmente, o propósito da criação de um fake é a diversão, quando se busca conhecer novas pessoas, debater sobre diversos assuntos ou bisbilhotar sem se expor. Mas, há, também, mentes criminosas e mal intencionadas que utilizam desse mesmo recurso para levar adiante seus propósitos. O fato é que os fakes sentem-se livres para ser quem quiserem. Podem até mesmo adotar uma segunda vida, com uma nova personalidade e um novo visual. Alguns, de tanto apresentarem outra pessoa em seu lugar acabam se prendendo a uma vida falsa, a uma personalidade diferente, totalmente desvinculada da sua verdadeira. 

Intencionalmente, ou não, o fake leva uma vida dupla e, em razão disso, fica patologicamente oscilando entre sua personalidade socialmente conhecida e aquela que desenvolveu para o anonimato. 

O anonimato e o Marco Civil da Internet 

O “Marco Civil da Internet” admite o anonimato, mas não protege o anônimo que violar preceitos da legislação civil ou penal. Este deverá ser revelado pelos detentores de seus dados, caso solicitado por medida judicial. 

Mesmo considerando que o anônimo deixará de ser anônimo por ordem judicial, não há como deixar de perceber que a Constituição Brasileira não foi plenamente atendida em seu propósito de evitar o anonimato já no ato da livre expressão. Ora, a mesma Constituição que garante aos cidadãos a liberdade de expressão e o direito à informação veda expressamente o anonimato, nos termos dos seus arts. 5° e 220. 

Com o advento do Marco Civil da Internet temos uma questão que certamente ainda será melhor avaliada no futuro. Se, por um lado, a Constituição garante o direito à liberdade de expressão desde que não seja por um ato anônimo, de outro lado temos o “Marco Civil” permitindo o anonimato na prática, o que pode, em alguns casos, frustrar a expectativa do legislador Constituinte. 

Porém, não pretendemos avaliar a constitucionalidade do Marco Civil, mas sim o quanto o anonimato pode ser compatível com a palavra de Deus. Se há margem para se alegar a legalidade do disfarce diante dos homens, isso não implica em alteração dos valores e princípios bíblicos, conforme veremos adiante. 

Jesus e o anonimato 

Ao analisar a vida e a obra de Jesus, não conseguimos imaginar qualquer aprovação ao anonimato. Jesus enfrentou toda a estrutura religiosa farisaica sem se ocultar. Ao contrário, ele era um homem público e podia ser encontrado por todos aqueles que quisessem conhecê-lo. 

Por isso, por mais nobres que sejam as razões de um internauta que não quer ser identificado, localizado ou questionado, não acreditamos que Jesus aprovaria uma ação anônima por um de seus discípulos. Afinal, quem tem um comportamento ilibado e está comprometido com a verdade não tem o que temer. Esse foi o exemplo de Jesus, que enfrentava os religiosos de seu tempo sem recuar ou se esconder. 

O próprio Jesus ensinou que quem entra sorrateiramente pela brecha, pela janela, escondido ou de modo dissimulado e na escuridão da noite é o ladrão. O pastor entra pela porta. Quem gosta de escuridão é o ladrão. Este procura agir nas trevas para não ser identificado, julgado e condenado, caso seja apanhado em sua má obra. 

“1 Em verdade, em verdade vos digo: o que não entra pela porta no aprisco das ovelhas, mas sobe por outra parte, esse é ladrão e salteador. 2 Aquele, porém, que entra pela porta, esse é o pastor das ovelhas. 3  Para este o porteiro abre, as ovelhas ouvem a sua voz, ele chama pelo nome as suas próprias ovelhas e as conduz para fora. 4  Depois de fazer sair todas as que lhe pertencem, vai adiante delas, e elas o seguem, porque lhe reconhecem a voz; 5  mas de modo nenhum seguirão o estranho; antes, fugirão dele, porque não conhecem a voz dos estranhos.” (João 10:1-5 RA) 

A injustiça do anonimato 

Não é bom quando pensamos que estamos falando com uma pessoa e, na verdade, não sabemos com quem estamos conversando. Ainda que o anônimo não esteja mal intencionado ou agressivo, ninguém gosta de ser enganado. 

No caso dos que ofendem, difamam ou importunam outras pessoas anonimamente, há o agravante da injustiça, pois o ofendido não sabe contra quem está lutando. Discutir com um anônimo é o mesmo que lutar com a “mulher invisível” que, a qualquer momento, pode atacar pelas costas sem que se tenha oportunidade de defesa. Ataques assim, como emboscadas reais, mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossível a defesa da vítima, no direito penal são considerados crimes qualificados, porque a vítima não tem como se defender de seu agressor. 

A covardia do anonimato 

Outra característica dos anônimos é a covardia. O covarde tem medo de ser reconhecido. Ele teme porque conhece a sua própria fraqueza e não quer ser desmascarado. Pessoas assim não servem para a guerra porque são medrosas. 

Quanto, porém, aos covardes, aos incrédulos, aos abomináveis, aos assassinos, aos impuros, aos feiticeiros, aos idólatras e a todos os mentirosos, a parte que lhes cabe será no lago que arde com fogo e enxofre, a saber, a segunda morte.” (Apocalipse 21:8 RA) 

O perigo do anonimato 

Os anônimos, protegidos pela escuridão, sentem-se encorajados a dizer o que não diriam se as pessoas, principalmente os atacados, soubessem quem são. No anonimato eles se sentem seguros. Na liberdade da escuridão não se preocupam em manter o debate racional e descambam para ataques pessoais, ofensas morais, acusações criminosas, ameaças de toda ordem e, para os sádicos, praticam a tortura psicológica. 

Aqueles que se embrenham em discussões, tornam-se pessoas irresponsáveis, pois sentem-se seguros. Eles sabem que não irão responder por suas palavras, acusações, ataques pessoais ou crimes de injúria, calúnia ou difamação. Podem agir como quiserem, pois, além de não serem responsabilizados pelos danos que causarem a terceiros, nunca serão atingidos de volta, até porque o adversário está discutindo com uma pessoa que, na verdade, não existe. 

Onde está, então, o perigo? 

É verdade que o risco de alguém buscar a identificação judicial de um anônimo ofensor é muito baixo. Mesmo com as tão esperadas regras do “Marco Civil da Internet”, o regulamento para a responsabilidade civil de provedores e usuários a respeito de conteúdo publicado na internet, bem como medidas para preservar e garantir direitos fundamentais do internauta, ainda dependem de medidas judiciais. E como nós bem sabemos, poucas pessoas se animam a tamanho desgaste. Isso porque na maioria das vezes os ofensores não possuem qualquer expressão para merecer confiança ou crédito, além do que movimentar a máquina estatal judiciária custa caro, é moroso e pode ser frustrante. 

Para nós, cristãos, discípulos e imitadores de Jesus, o problema é maior. Se um fake ofensor não for identificado pelos homens, certamente o será por Deus. 

 "Ocultar-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o veja? — diz o Senhor; porventura, não encho eu os céus e a terra? — diz o Senhor." (Jeremias 23:24) 

Também, se é possível que um fake ofensor não seja responsabilizado por suas ações diante de um tribunal terreno, certamente não é crível que escape do tribunal eterno. Para quem crê que a bíblia é a palavra de Deus e a mais alta expressão da verdade, não há como fugir disso: 

"36 Digo-vos que de toda palavra frívola que proferirem os homens, dela darão conta no Dia do Juízo;" (Mateus 12:36)

 "Portanto, não os temais; pois nada há encoberto, que não venha a ser revelado; nem oculto, que não venha a ser conhecido." (Mateus 10:26)

Mas, o problema não é só para aqueles anônimos que se valem dessa condição para proferir ofensas. O simples fato de se falsear a verdade já é um ato condenável por Deus. Até mesmo aparentar ser o que não se é foi motivo de dura reprimenda de Jesus. Os fariseus que por trás de roupas brancas escondiam uma personalidade diferente foram chamados de hipócritas, ou seja, mascarados. 

O temo hipócrita vem do grego e servia para qualificar o ato artístico de representar um papel teatral. Por isso, essa palavra era utilizada para identificar um ator ou uma atriz. No sentido em que estamos acostumados, refere-se a uma pessoa falsa, fingida, que faz coisas que na verdade não faria em outra situação. Hipócrita, portanto, é a pessoa que age como outra e, assim, não é alguém confiável. Uma pessoa hipócrita é aquela que finge ser o que não é, finge ter algo que não tem, seja por motivos religiosos, morais, sociais ou até mesmo para melhorar a sua própria autoestima. 

Enfim, hipócrita é uma pessoa dissimulada, na qual não se pode confiar, pois suas verdadeiras intensões são ocultas. Por essa razão, Jesus repreendeu severamente os fariseus, senão vejamos:

"25 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque limpais o exterior do copo e do prato, mas estes, por dentro, estão cheios de rapina e intemperança! 26 Fariseu cego, limpa primeiro o interior do copo, para que também o seu exterior fique limpo! 27 Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque sois semelhantes aos sepulcros caiados, que, por fora, se mostram belos, mas interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia! 28 Assim também vós exteriormente pareceis justos aos homens, mas, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade. (...) 33 Serpentes, raça de víboras! Como escapareis da condenação do inferno?" (Mateus 23:25-28; 33) 

Eis, portanto, o verdadeiro perigo do anonimato. Se homens não nos veem e não conseguem nos julgar por nossos atos, Deus tudo vê (Mt 10:26) e nos garante que a injustiça não prevalecerá (Dt 32:4). Se os homens não se importam com aqueles que dizem ser quem não são, Deus se importa (2Co 13:5-8). Se os homens não condenam quem não diz a verdade sobre si mesmo, Deus condena (Ap 22:15). Se os homens acham que falsear a verdade por questões pessoais é um ato aceitável, Deus nos diz que o “sim é sim” e que o “não é não” e o que passa disso procede de Satanás (Mt 5:37). 

Se não praticamos os ensinamentos de Jesus, nossa casa está edificada sobre a areia, nossa religião é vã e toda a nossa experiência espiritual deve ser questionada. 

Conclusão 

Essas observações são apenas uma provocação para que cada leitor faça uma avaliação sobre as atitudes certas a tomar ao longo da sua vida cristã. Se somos discípulos de Cristo, não devemos admitir em nossas vidas comportamentos próprios de quem vive nas trevas. 

Ora, o anonimato, como tentamos demonstrar, é uma atitude que esconde a pessoa que se manifesta atrás de uma máscara hipócrita, ocultando sua face e suas intenções. Quem está na luz vive e defende a verdade sem precisar dissimular. Toda dissimulação dirigida ao próximo é injusta e covarde e quem assim procede corre grande risco, não de ser descoberto e condenado por homens, mas por Deus. 

Pense nisso!

Em 1 de maio de 2014.

Pastor Sólon Pereira 

 
Bibliomancia: consulta à palavra de Deus

Imagem Ilustrativa

Não confunda "Deus pode falar como quiser" com a prática da "Consulta à palavra de Deus"

Consulta à palavra de Deus

O que é? 

Segundo os praticantes da consulta à palavra de Deus, esta é a forma de se saber a vontade de Deus, seja para comprar, vender, viajar, namorar, casar, batizar etc. Também, é utilizada para confirmar se um dom espiritual (visão, revelação ou sonho) procede de Deus ou não. 

Como é a prática de consultar a palavra de Deus? 

O método é muito simples. Após uma oração, precedida invariavelmente da expressão “clamamos pelo sangue de Jesus”, o orador pergunta a Deus o que quer saber e, em seguida, de olhos fechados, abre a bíblia aleatoriamente e coloca o dedo em alguma parte da página que abriu. De preferência, deve ler apenas o versículo tirado “na sorte” e, se a mensagem desse verso for boa (vitória, bem-aventurança, consolação, louvor ou bênção), a resposta de Deus é “sim”. De modo contrário, se o texto se referir a alguma repreensão, juízo, tragédia, rebelião, desobediência, maldição, morte, confusão ou algo que pareça ruim, a resposta é “não”. 
No caso de consultas coletivas, o processo é semelhante. Neste caso, todos os presentes abrem suas bíblias após a oração, mas apenas três pessoas devem ler os textos que tiraram. Se dois deles forem bons, a resposta é “sim”. Se dois deles forem ruins, a resposta é “não”.

Essa prática é bíblica? 

Deus pode falar quando e do modo que quiser. Não podemos limitá-lo. Se Ele quiser falar conosco, falará de qualquer jeito, seja pela abertura da bíblia, seja por um mensageiro, seja por uma placa, seja por um louvor, seja por uma mula, seja por um livro evangélico etc. Sendo assim, nada impede que o Soberano se manifeste por meio da abertura aleatória da bíblia. 
Mas, a questão não é se Deus pode falar assim ou não, mas se essa foi a forma recomendada por Deus à igreja como prática para quem deseje conhecer a sua vontade. 

 A consulta a Deus no Velho Testamento 

O tempo dos patriarcas e a consulta a Deus

No tempo dos patriarcas, encontramos o primeiro registro que se tem na bíblia sobre perguntar algo a Deus. A passagem está no livro de Gênesis, quando Rebeca estava intrigada com a revolução que ocorria em seu ventre, conforme veremos no trecho a seguir:
 “21 Isaque orou ao SENHOR por sua mulher, porque ela era estéril; e o SENHOR lhe ouviu as orações, e Rebeca, sua mulher, concebeu. 22 Os filhos lutavam no ventre dela; então, disse: Se é assim, por que vivo eu? E consultou ao SENHOR. 23 Respondeu-lhe o SENHOR: Duas nações há no teu ventre, dois povos, nascidos de ti, se dividirão: um povo será mais forte que o outro, e o mais velho servirá ao mais moço.” (Gênesis 25:21-23 RA) 
O mesmo texto, na versão corrigida de Almeida, diz que Rebeca “foi-se a perguntar ao Senhor”, o que nos dá uma noção mais linear com o contexto. O modo como Deus respondeu não ficou registrado, mas seguindo a coerência com outras passagens em que o Senhor se manifestou naquele tempo (Gn 28:12-13; Gn 31:11), notamos que a resposta profética e detalhada provavelmente lhe foi revelada por sonho. Se fosse por aparição de Anjo, certamente isso seria registrado, como em passagens semelhantes (Gn 16:7-11). 
A conclusão é: ela orou a Deus, colocando sua angústia diante Dele e Ele a respondeu, em detalhes, por sonho. 

A consulta a Deus no tempo de Moisés e da Lei 

No tempo de Moisés, temos uma passagem que nos conta que o povo vinha a ele para consultar a Deus sobre suas questões e disputas pessoais. Mas, no mesmo texto, Moisés deixa claro que tudo o que ele fazia era declarar a justiça segundo os estatutos e as leis de Deus. Ou seja, ao analisar uma demanda, Moisés a resolvia proferindo o que Deus havia definido sobre aquele assunto. E ninguém melhor do que ele para dizer o que estava ou não em conformidade com a vontade de Deus, uma vez que ele era o principal responsável pela tradição da transmissão oral dos estatutos do Senhor, senão vejamos: 
“14 Vendo, pois, o sogro de Moisés tudo o que ele fazia ao povo, disse: Que é isto que fazes ao povo? Por que te assentas só, e todo o povo está em pé diante de ti, desde a manhã até ao pôr-do-sol? 15  Respondeu Moisés a seu sogro: É porque o povo me vem a mim para consultar a Deus; 16  quando tem alguma questão, vem a mim, para que eu julgue entre um e outro e lhes declare os estatutos de Deus e as suas leis.” (Êxodo 18:14-16 RA)

Urim e Tumim 

Primeiramente, é importante registrar que tudo o que se sabe sobre o Urim e Tumim é que eram coisas (ninguém sabe exatamente o quê) colocadas sobre a estola sacerdotal do Sumo Sacerdote, mais precisamente no peitoral, e que essa estola completa deveria ser usada no dia em que ele entrasse no santo dos santos para a sua ministração, que ocorria uma única vez ao ano, no dia da expiação, conforme se vê a seguir: 
“Também porás no peitoral do juízo o Urim e o Tumim, para que estejam sobre o coração de Arão, quando entrar perante o SENHOR; assim, Arão [Sumo Sacerdote] levará o juízo dos filhos de Israel sobre o seu coração diante do SENHOR continuamente.” (Êxodo 28:30 RA) 
“7 Vestiu a Arão da túnica, cingiu-o com o cinto e pôs sobre ele a sobrepeliz; também pôs sobre ele a estola sacerdotal, e o cingiu com o cinto de obra esmerada da estola sacerdotal, e o ajustou com ele. 8  Depois, lhe colocou o peitoral, pondo no peitoral o Urim e o Tumim;” (Levítico 8:7-8 RA) 
“32 Quem for ungido e consagrado para oficiar como sacerdote no lugar de seu pai fará a expiação, havendo posto as vestes de linho, as vestes santas; 33  fará expiação pelo santuário, pela tenda da congregação e pelo altar; também a fará pelos sacerdotes e por todo o povo da congregação. 34  Isto vos será por estatuto perpétuo, para fazer expiação uma vez por ano pelos filhos de Israel, por causa dos seus pecados. E fez Arão como o SENHOR ordenara a Moisés.” (Levítico 16:32-34 RA) 
Urim e Tumim (luz e verdade) eram símbolos que faziam parte do éfode vestido pelo Sumo Sacerdote. Esses símbolos eram sinais que indicavam que ele estava investido de autoridade para falar da parte de Deus em com verdade e clareza. A resposta dada pelo Sumo Sacerdote dependia de uma instrução dada à sua mente. Não consistia em apenas um “sim” ou “não”, afastando, desse modo, a crença de que o Urim e Tumim seriam pedras de cores diferentes “jogadas” como dados. 
Mesmo assim, há quem diga que o Urim e o Tumim eram um ou mais acessórios do éfode, destacáveis de modo que podiam ser usados à maneira de dados. E pelo modo como caíam, revelavam a vontade de Deus. Esse pensamento, entretanto, não possui sustentação bíblica. 
Também, há quem diga que a bíblia faz duas referências ao lançamento de sortes, em íntima conexão com as consultas do Urim e Tumim. Seguem os textos: 
“19 Mas vós rejeitastes, hoje, a vosso Deus, que vos livrou de todos os vossos males e trabalhos, e lhe dissestes: Não! Mas constitui um rei sobre nós. Agora, pois, ponde-vos perante o SENHOR, pelas vossas tribos e pelos vossos grupos de milhares. 20 Tendo Samuel feito chegar todas as tribos, foi indicada por sorte a de Benjamim. 21  Tendo feito chegar a tribo de Benjamim pelas suas famílias, foi indicada a família de Matri; e dela foi indicado Saul, filho de Quis. Mas, quando o procuraram, não podia ser encontrado. 22  Então, tornaram a perguntar ao SENHOR se aquele homem viera ali. Respondeu o SENHOR: Está aí escondido entre a bagagem.” (1 Samuel 10:19-22 RA) 
“37 Disse, porém, o sacerdote: Cheguemo-nos aqui a Deus. Então, consultou Saul a Deus, dizendo: Descerei no encalço dos filisteus? Entregá-los-ás nas mãos de Israel? Porém aquele dia Deus não lhe respondeu. 38  Então, disse Saul: Chegai-vos para aqui, todos os chefes do povo, e informai-vos, e vede qual o pecado que, hoje, se cometeu. 39  Porque tão certo como vive o SENHOR, que salva a Israel, ainda que com meu filho Jônatas esteja a culpa, seja morto. Porém nenhum de todo o povo lhe respondeu. 40  Disse mais a todo o Israel: Vós estareis de um lado, e eu e meu filho Jônatas, do outro. Então, disse o povo a Saul: Faze o que bem te parecer. 41  Falou, pois, Saul ao SENHOR, Deus de Israel: Mostra a verdade. Então, Jônatas e Saul foram indicados por sorte, e o povo saiu livre. 42  Disse Saul: Lançai a sorte entre mim e Jônatas, meu filho. E foi indicado Jônatas.” (1 Samuel 14:37-42 RA) 
Na segunda passagem (14:37-42), Saul rogou ao Senhor que lhe desse a conhecer por meio da sorte porque Deus não o havia respondido inicialmente (por profeta?). O fato é que a palavra usada no original é thamim; que se pronunciava thummim. Por essa razão, alguns entendem que o Urim e Tumim eram peças que permitiam o lançamento de sortes. Mas nas duas passagens citadas, o lançar as sortes é ato distinto de consultar o Senhor (por profeta), e se realizava para propósito diferente daquele que pedia conselhos. 
Para eliminar as confusões a esse respeito, basta entender que o Urim e Tumim não faziam manifestações exteriores por si mesmos. Antes, eram símbolos. O sumo sacerdote vestia o éfode com o Urim e Tumim, sinais de sua investidura para obter a luz e a verdade, como as duas palavras indicam, a fim de que pudesse buscar o conselho do Senhor da maneira por Ele indicada. 
Humildemente, o consulente punha diante de Deus, por meio do Sumo Sacerdote, a sua petição. A resposta vinha à mente do Sumo Sacerdote, de modo um pouco diferente do que ocorria com o profeta. Os símbolos indicariam que a luz e a verdade estariam com o Sumo Sacerdote e a resposta consistia em uma iluminação interior, sem nenhum sinal exterior em paralelo como no caso das revelações advindas aos profetas, que conheciam a cultura, o ambiente, os fatos e, principalmente, a vontade já declarada de Deus para o seu povo. 
Em 1 Samuel 28:6, há outra referência ao Urim e Tumim no dias do Rei Saul, quando ele pretendeu ouvir o Senhor, mas nada lhe foi respondido. 
 “Consultou Saul ao SENHOR, porém o SENHOR não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas.” (1 Samuel 28:6 RA) 
Por essa passagem, já podemos nos certificar que o Urim e Tumim não eram instrumentos que falavam por si sós, além do que não obrigavam a uma resposta sempre que fossem usados
Referida passagem é suficiente para mostrar que a mensagem de Deus dependia de uma instrução dada à mente do Sacerdote e não consistia em apenas um “sim” ou “não”, afastando, desse modo, a crença de que o Urim e Tumim seriam pedras de cores diferentes “jogadas” como dados. Se fosse assim, Saul teria necessariamente uma resposta, mas não teve. 
É preciso observar que o único versículo bíblico que indica o Urim e Tumim como oráculo de Deus, na separação de Josué para sua futura missão como líder nacional, fica muito claro que o canal da mensagem de Deus seria o Sumo Sacerdote e não o instrumento de consulta em si, conforme se vê a seguir: 
“18 Disse o SENHOR a Moisés: Toma Josué, filho de Num, homem em quem há o Espírito, e impõe-lhe as mãos; 19 apresenta-o perante Eleazar, o sacerdote, e perante toda a congregação; e dá-lhe, à vista deles, as tuas ordens. 20  Põe sobre ele da tua autoridade, para que lhe obedeça toda a congregação dos filhos de Israel. 21  Apresentar-se-á perante Eleazar, o sacerdote, o qual por ele [Eleazar] consultará, segundo o juízo do Urim, perante o SENHOR; segundo a sua palavra, [de Deus dada a Eleazar] sairão e, segundo a sua palavra, entrarão, ele, e todos os filhos de Israel com ele, e toda a congregação.” (Números 27:18-21 RA) 
As demais referências bíblicas ao Urim e Tumim nada falam sobre oráculo de Deus, mas sobre a necessidade de sua presença na Estola Sacerdotal, como característica completa da revelação de Deus àquele que está designado para um mister único diante do Senhor: o Sumo Sacerdócio, senão vejamos: 
“8 De Levi disse: Dá, ó Deus, o teu Tumim e o teu Urim para o homem, teu fidedigno, que tu provaste em Massá, com quem contendeste nas águas de Meribá; 9  aquele que disse a seu pai e a sua mãe: Nunca os vi; e não conheceu a seus irmãos e não estimou a seus filhos, pois guardou a tua palavra e observou a tua aliança. 10  Ensinou os teus juízos a Jacó e a tua lei, a Israel; ofereceu incenso às tuas narinas e holocausto, sobre o teu altar. 11  Abençoa o seu poder, ó SENHOR, e aceita a obra das suas mãos, fere os lombos dos que se levantam contra ele e o aborrecem, para que nunca mais se levantem.” (Deuteronômio 33:8-11 RA)
“O governador lhes disse que não comessem das coisas sagradas, até que se levantasse um sacerdote com Urim e Tumim.” (Esdras 2:63 RA) 
“O governador lhes disse que não comessem das coisas sagradas, até que se levantasse um sacerdote com Urim e Tumim.” (Neemias 7:65 RA) 
É claro que há outras referências atribuídas a respostas do Urim e Tumim, mas em nenhuma delas há referência expressa dizendo que a consulta foi realizada por esse instrumento. 
Em conhecimento extra-bíblico, advindo das literaturas sobre o assunto, temos que a utilização do Urim e Tumim perdurou até a destruição do Templo por Nabucodonosor e que apenas questões nacionais e relevantes eram submetidas ao Sumo Sacerdote, a exemplo da passagem do Rei Saul.  De fato, não há como imaginarmos os milhões de habitantes de Israel indo a Jerusalém para consultar a Deus se podiam realizar algum negócio pessoal. 

Lançamento de sortes 

Sobre o lançamento de sortes, é preciso esclarecer que essa era uma prática pagã daquele tempo, mas foi orientada por Deus em duas questões específicas e temporárias, a saber: para a designação do bode emissário e para repartição da terra conquistada entre as tribos de Israel: 
 “Lançará sortes sobre os dois bodes: uma, para o SENHOR, e a outra, para o bode emissário.” (Levítico 16:8 RA) 
“Todavia, a terra se repartirá por sortes; segundo os nomes das tribos de seus pais, a herdarão.” (Números 26:55 RA) 
Desse modo, podemos entender que tal procedimento só deve ser utilizado por orientação específica de Deus. Se Deus mandar explicitamente, temos que obedecer. 
 No tempo da reconstrução dos muros de Jerusalém, houve um lançamento de sortes para a distribuição de ofertas de lenha a serem trazidas à casa de Deus. Mas, é bom que se observe que isso foi feito apenas para uma distribuição isenta de preferências pessoais e não para que se soubesse a vontade de Deus, senão vejamos: 
“Nós, os sacerdotes, os levitas e o povo deitamos sortes acerca da oferta da lenha que se havia de trazer à casa do nosso Deus, segundo as nossas famílias, a tempos determinados, de ano em ano, para se queimar sobre o altar do SENHOR, nosso Deus, como está escrito na Lei.” (Neemias 10:34 RA) 
O que se pode concluir a respeito do lançamento de sortes, no Velho Testamento, é que só foi praticado nos casos em que Deus orientou expressamente e com fins de se determinar uma distribuição de terras e tarefas com isenção de preferências pessoais, mas não como uma prática para forçar Deus a falar acerca de um assunto. É claro que o Soberano deve ter “movido os dados” para que a distribuição da terra fosse feita segundo a sua vontade, mas isso não foi ensinado como prática além daquele momento específico. Fora isso, Deus abomina a adivinhação
“Também queimaram a seus filhos e a suas filhas como sacrifício, deram-se à prática de adivinhações e criam em agouros; e venderam-se para fazer o que era mau perante o SENHOR, para o provocarem à ira.” (2 Reis 17:17 RA) 
Entretanto, vamos deixar claro: o propósito de Deus está acima de qualquer outro. Quando Deus quer fazer algo, tudo conspirará para que a sua vontade prevaleça. 
 “A sorte se lança no regaço, mas do SENHOR procede toda decisão.” (Provérbios 16:33 RA) 
Foi isso o que ocorreu com o profeta Jonas. Tentando fugir de sua obrigação para com o Senhor, foi interceptado e lançado onde Deus o queria. A sorte lançada pelos tripulantes do navio em que ele estava era uma prática pagã, mas naquele momento o Soberano tinha um propósito a realizar e essa foi a maneira de cumpri-la. Então, do mesmo modo que Deus interferiu na passagem de Balaão (Nm 22), o Senhor interferiu naquela ação dos pagãos para cumprir o seu propósito. 
“5 Então, os marinheiros, cheios de medo, clamavam cada um ao seu deus e lançavam ao mar a carga que estava no navio, para o aliviarem do peso dela. Jonas, porém, havia descido ao porão e se deitado; e dormia profundamente. 6 Chegou-se a ele o mestre do navio e lhe disse: Que se passa contigo? Agarrado no sono? Levanta-te, invoca o teu deus; talvez, assim, esse deus se lembre de nós, para que não pereçamos. 7 E diziam uns aos outros: Vinde, e lancemos sortes, para que saibamos por causa de quem nos sobreveio este mal. E lançaram sortes, e a sorte caiu sobre Jonas.” (Jonas 1:5-7 RA) 
Essa passagem de Jonas jamais pode ser entendida como uma prática autorizada pelo Senhor. Do mesmo modo que Deus alterou “o tempo e o mar”, por sobre o qual navegavam justos e injustos, Deus interferiu em uma prática utilizada pelos homens pagãos daquele tempo que buscavam resposta de seus deuses. 

O tempo dos juízes e a consulta a Deus 

No tempo dos Juízes, há uma passagem onde o povo de Israel se dirigiu a Betel para consultar a Deus (Jz 20:18) sobre uma guerra a ser travada. Entretanto, o texto não diz por que meio ou em que sentido se realizou aquela consulta, onde a resposta de Deus não foi apenas um “sim” ou “não”, mas indicou qual a tribo sairia primeiramente à batalha. O mesmo ocorre quando o povo foi a Betel para saber quem iniciaria a guerra contra os cananeus. Com base nessas passagens, percebemos que a consulta foi realizada nos mesmos termos que a consulta feita a Moisés – procurou-se um homem de Deus (profeta), conhecedor da palavra do Senhor para indicar a melhor solução ao caso. 
 “1 Depois da morte de Josué, os filhos de Israel consultaram o SENHOR, dizendo: Quem dentre nós, primeiro, subirá aos cananeus para pelejar contra eles? 2  Respondeu o SENHOR: Judá subirá; eis que nas suas mãos entreguei a terra.” (Juízes 1:1-2 RA) 
"E levantaram-se os filhos de Israel, e subiram a Betel; e consultaram a Deus, dizendo: Quem dentre nós subirá primeiro a pelejar contra Benjamim? E disse o SENHOR: Judá subirá primeiro." (Juízes 20:18) 

O tempo de Davi e a consulta a Deus 

No tempo de Davi, onde há o maior número de registro desse tipo de procedimento, notaremos que todas as consultas foram feitas em relação a alguma questão nacional de vida ou morte, tal como ocorrido na passagem de Juízes 20:18. O livro de Samuel traz mais luz sobre esse tipo de prática e esclarece, inclusive, qual era o instrumento utilizado nas consultas – o profeta ou o Sumo Sacerdote, visto que havia orientações nas respostas que não poderiam ser transmitidas pelo simples lançamento de sorte
"(Antigamente em Israel, indo alguém consultar a Deus, dizia assim: Vinde, e vamos ao vidente; porque ao profeta de hoje, antigamente se chamava vidente)." (1Sm 9:9)
Vejamos, a seguir, os textos sobre as consultas realizadas por Davi, que se repetem no livro das Crônicas:
Consultou Davi ao SENHOR, dizendo: Irei eu e ferirei estes filisteus? Respondeu o SENHOR a Davi: Vai, e ferirás os filisteus, e livrarás Queila.” (...) “Então, Davi tornou a consultar o SENHOR, e o SENHOR lhe respondeu e disse: Dispõe-te, desce a Queila, porque te dou os filisteus nas tuas mãos.” (1 Samuel 23:2,4 RA) 
“Então, consultou Davi ao SENHOR, dizendo: Perseguirei eu o bando? Alcançá-lo-ei? Respondeu-lhe o SENHOR: Persegue-o, porque, de fato, o alcançarás e tudo libertarás.” (1 Samuel 30:8 RA) 
“Depois disto, consultou Davi ao SENHOR, dizendo: Subirei a alguma das cidades de Judá? Respondeu-lhe o SENHOR: Sobe. Perguntou Davi: Para onde subirei? Respondeu o SENHOR: Para Hebrom.” [lá assumiu o governo] (2 Samuel 2:1 RA) 
Davi consultou ao SENHOR, dizendo: Subirei contra os filisteus? Entregar-mos-ás nas mãos? Respondeu-lhe o SENHOR: Sobe, porque, certamente, entregarei os filisteus nas tuas mãos.” (2 Samuel 5:19 RA) 
Davi consultou ao SENHOR, e este lhe respondeu: Não subirás; rodeia por detrás deles e ataca-os por defronte das amoreiras.” (2 Samuel 5:23 RA) 
“Houve, em dias de Davi, uma fome de três anos consecutivos. Davi consultou ao SENHOR, e o SENHOR lhe disse: Há culpa de sangue sobre Saul e sobre a sua casa, porque ele matou os gibeonitas.” (2 Samuel 21:1 RA) 
Em aproximadamente dois séculos do tempo dos Juízes e nos quarenta anos de reinado de Davi, simplesmente não há registros bíblicos de consulta a Deus para questões pessoais. Somente questões nacionais relevantes, especialmente envolvendo vida ou morte, foram submetidas a um profeta para que se ouvisse um conselho de Deus.
Nem mesmo quando Davi fugia de Saul e foi acolhido pelo sacerdote Aimeleque, ocasião em que recebeu a espada de Golias, cuidou-se de uma questão pessoal. Na verdade, tratava-se de uma questão nacional, pois o futuro rei estava sendo preservado para assumir o trono de Israel.
“9 Então, respondeu Doegue, o edomita, que também estava com os servos de Saul, e disse: Vi o filho de Jessé chegar a Nobe, a Aimeleque, filho de Aitube, 10  e como Aimeleque, a pedido dele, consultou o SENHOR, e lhe fez provisões, e lhe deu a espada de Golias, o filisteu.” (1 Samuel 22:9-10 RA)
Também, é importante registrar que Deus não está obrigado a responder o homem ou falar com ele na hora que ele quiser, independente da situação em que se encontre, tal como se pretende fazer nos dias atuais. Vejamos o exemplo de Saul:
“Disse, porém, o sacerdote: Cheguemo-nos aqui a Deus. Então, consultou Saul a Deus, dizendo: Descerei no encalço dos filisteus? Entregá-los-ás nas mãos de Israel? Porém aquele dia Deus não lhe respondeu.” (1 Samuel 14:37 RA)
Consultou Saul ao SENHOR, porém o SENHOR não lhe respondeu, nem por sonhos, nem por Urim, nem por profetas.” (1 Samuel 28:6 RA)
Por fim, devemos lembrar que quando Jeroboão enviou sua mulher a consultar o profeta Aías, para saber se seu filho que estava doente se recuperaria (questão pessoal), o Senhor aproveitou aquela oportunidade para enviar sua mensagem ao Rei sobre toda a sua prática condenável diante Dele. Em vez de ser um oráculo para questão pessoal do Rei, aproveitou-se uma oportunidade para fazer chegar ao Rei a palavra do Senhor sobre outras questões nacionais, além de proferir uma sentença sobre a situação do menino, conforme se vê a seguir:
“5  Porém o SENHOR disse a Aías: Eis que a mulher de Jeroboão vem consultar-te sobre seu filho, que está doente. (...) 7 Vai e dize a Jeroboão: Assim diz o SENHOR, Deus de Israel: Porquanto te levantei do meio do povo, e te fiz príncipe sobre o meu povo de Israel, 8  e tirei o reino da casa de Davi, e to entreguei, e tu não foste como Davi, meu servo, que guardou os meus mandamentos e andou após mim de todo o seu coração, para fazer somente o que parecia reto aos meus olhos; 9  antes, fizeste o mal, pior do que todos os que foram antes de ti, e fizeste outros deuses e imagens de fundição, para provocar-me à ira, e me viraste as costas; 10  portanto, eis que trarei o mal sobre a casa de Jeroboão, e eliminarei de Jeroboão todo e qualquer do sexo masculino, tanto o escravo como o livre, e lançarei fora os descendentes da casa de Jeroboão, como se lança fora o esterco, até que, de todo, ela se acabe. 11  Quem morrer a Jeroboão na cidade, os cães o comerão, e o que morrer no campo aberto, as aves do céu o comerão, porque o SENHOR o disse. 12  Tu, pois, dispõe-te e vai para tua casa; quando puseres os pés na cidade, o menino morrerá.” (1 Reis 14:5-12 RA)
No tempo dos Reis, após Davi, vemos que a prática de se consultar a Deus, também em questões nacionais, era comum, mas como a corrupção era constante, havia nos palácios e fora dele profetas profissionais, corrompidos pela corte e que somente falavam segundo o coração do Rei, conforme veremos a seguir:
“6 Então, o rei de Israel ajuntou os profetas, cerca de quatrocentos homens, e lhes disse: Irei à peleja contra Ramote-Gileade ou deixarei de ir? Eles disseram: Sobe, porque o Senhor a entregará nas mãos do rei. 7  Disse, porém, Josafá: Não há aqui ainda algum profeta do SENHOR para o consultarmos? 8  Respondeu o rei de Israel a Josafá: Há um ainda, pelo qual se pode consultar o SENHOR, porém eu o aborreço, porque nunca profetiza de mim o que é bom, mas somente o que é mau. Este é Micaías, filho de Inlá. Disse Josafá: Não fale o rei assim.” (1 Reis 22:6-8 RA) 
A conclusão que podemos chegar dessas passagens do Velho Testamento que se referem à consulta a Deus são as seguintes:
a) as consultas a Deus eram realizadas apenas para questões nacionais relevantes ou de vida ou morte;
b) Somente o sumo sacerdote podia consultar o Senhor por meio do Urim e Tumim. Ao que nos indica o texto de Números 27:18-21, Deus falava com ele do mesmo modo que falava com um profeta, não se tratando de uma resposta “sim” ou “não”;
c) O meio comum de se consultar a Deus é por meio de seus profetas ou homens designados por Deus para falar os seus estatutos;
d) Deus não pode ser forçado a responder quando não quer falar; 

O Novo Testamento e a consulta a Deus

No tempo do Novo Testamento, veremos que a prática de consulta a Deus não mais existia nos moldes do Velho Testamento. Tudo que se tem após Jesus é uma ação do Espírito Santo de Deus inspirando o homem ou o impelindo, senão vejamos:
“1 Havia na igreja de Antioquia profetas e mestres: Barnabé, Simeão, por sobrenome Níger, Lúcio de Cirene, Manaém, colaço de Herodes, o tetrarca, e Saulo. 2 E, servindo eles ao Senhor e jejuando, disse o Espírito Santo: Separai-me, agora, Barnabé e Saulo para a obra a que os tenho chamado. 3 Então, jejuando, e orando, e impondo sobre eles as mãos, os despediram. 4  Enviados, pois, pelo Espírito Santo, desceram a Selêucia e dali navegaram para Chipre.” (Atos 13:1-4 RA)
“4 Encontrando os discípulos, permanecemos lá durante sete dias; e eles, movidos pelo Espírito, recomendavam a Paulo que não fosse a Jerusalém. 5 Passados aqueles dias, tendo-nos retirado, prosseguimos viagem, acompanhados por todos, cada um com sua mulher e filhos, até fora da cidade; ajoelhados na praia, oramos. 6 E, despedindo-nos uns dos outros, então, embarcamos; e eles voltaram para casa.” (Atos 21:4-6 RA)
Como se pode notar, após uma ação do Espírito Santo de Deus, não houve qualquer consulta para a confirmação da palavra de Deus. Eles apenas se mantiveram em jejum e oração e julgaram que aquela era, de fato, a vontade do Senhor.

A consulta à palavra de Deus e a escolha de Matias 

“21 É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, 22  começando no batismo de João, até ao dia em que dentre nós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição. 23  Então, propuseram dois: José, chamado Barsabás, cognominado Justo, e Matias. 24  E, orando, disseram: Tu, Senhor, que conheces o coração de todos, revela-nos qual destes dois tens escolhido 25  para preencher a vaga neste ministério e apostolado, do qual Judas se transviou, indo para o seu próprio lugar. 26  E os lançaram em sortes, vindo a sorte recair sobre Matias, sendo-lhe, então, votado lugar com os onze apóstolos.” (Atos 1:21-26 RA) 
É interessante que os apóstolos escolheram dois, mas não sabemos quantos se encaixavam nos critérios que eles mesmos definiram. Ora, por que eles não submeteram o critério a Deus? Será que Deus queria escolher um daqueles dois? 
É bom notar que em nenhum momento o Espírito Santo orientou o lançamento de sortes para a escolha do substituto de Judas.
Mas, como eles lançaram sortes, um deles seria escolhido, mesmo que nenhum dos dois fosse o escolhido de Deus. Fazendo assim, os apóstolos deixaram Deus sem outra opção e a sorte caiu sobre Matias.Quando forçamos Deus a falar na hora que queremos, corremos o risco de agir segundo os nossos intentos, achando que estamos cumprindo a vontade de Deus. Somente o desdobramento das situações da vida é que confirmarão, ou não, se a nossa escolha estava de acordo com a vontade de Deus. 
Para que possamos compreender essa passagem, temos que lembrar que o livro de atos é um livro histórico e que é impossível interpretar cada versículo como uma ordem de Deus, mas apenas como registro de fatos ocorridos, fossem segundo a vontade de Deus, ou não. 
Para exemplificar, podemos citar o texto em que os apóstolos estão em grande contenda. Estaríamos, então, autorizados a praticar a contenda, já que os apóstolos fizeram isso? Ora, se um fato histórico não condiz com os ensinamentos de Jesus, devo considerá-los apenas como registro histórico, nada mais. E isso não significa que o registro histórico não tenha sido feito pelo Espírito Santo de Deus, já que toda a bíblia é inspirada. Desse entendimento resulta que pareceu necessário ao Espírito Santo de Deus registrar um fato histórico para o nosso conhecimento da verdade, ainda que retrate fatos que o Senhor reprova, senão vejamos. 
“Tendo havido, da parte de Paulo e Barnabé, contenda e não pequena discussão com eles, resolveram que esses dois e alguns outros dentre eles subissem a Jerusalém, aos apóstolos e presbíteros, com respeito a esta questão.” (Atos 15:2 RA) 
Mas, para que não sejamos incautos, devemos analisar o desdobramento do fato histórico e avaliar se houve ou não uma aprovação de Deus naquele sentido. 
Por exemplo, está registrado no livro de Atos que alguns judeus praticavam a expulsão de demônios e que um dia tentaram fazer isso em nome de Jesus, mesmo sem serem seguidores de Jesus e de seus princípios. Se não fosse o desdobramento do texto, poderíamos pensar que a atividade espiritual cristã pode estar desconectada dos princípios de Jesus. Mas, o resultado mostrou que o mundo das trevas não se submete àqueles que não têm autoridade sobre eles. 
“13 E alguns judeus, exorcistas ambulantes, tentaram invocar o nome do Senhor Jesus sobre possessos de espíritos malignos, dizendo: Esconjuro-vos por Jesus, a quem Paulo prega. 14  Os que faziam isto eram sete filhos de um judeu chamado Ceva, sumo sacerdote. 15  Mas o espírito maligno lhes respondeu: Conheço a Jesus e sei quem é Paulo; mas vós, quem sois? 16  E o possesso do espírito maligno saltou sobre eles, subjugando a todos, e, de tal modo prevaleceu contra eles, que, desnudos e feridos, fugiram daquela casa.” (Atos 19:13-16 RA) 
Pois bem, vamos, então, analisar o desdobramento da escolha de Matias. Ele nunca mais foi citado em nenhuma das epístolas que se seguiram ao livro de Atos. Foi aprovado pela sorte dos apóstolos, mas o substituto escolhido por Deus parece ter sido Paulo, senão vejamos: 
“13 Ananias, porém, respondeu: Senhor, de muitos tenho ouvido a respeito desse homem, quantos males tem feito aos teus santos em Jerusalém; 14 e para aqui trouxe autorização dos principais sacerdotes para prender a todos os que invocam o teu nome. 15 Mas o Senhor lhe disse: Vai, porque este é para mim um instrumento escolhido para levar o meu nome perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel;” (Atos 9:13-15 RA) 
A conclusão é: não podemos forçar Deus a falar. Se fizermos isso, corremos o risco de agir segundo os nossos intentos, achando que estamos cumprindo a vontade de Deus. Somente o desdobramento das situações da vida é que confirmarão, ou não, se a nossa escolha estava de acordo com a vontade de Deus. 
É por isso que não podemos abrir mão de analisar os resultados de nossas ações. 

Jesus na sinagoga de Nazaré: cumpriu-se uma profecia. Houve consulta? 

A leitura tendenciosa da palavra de Deus gera muitas distorções. Há quem afirme que quando Jesus abriu o livro de Isaías na sinagoga de Nazaré teria feito uma abertura aleatória, o que confirmaria a prática de consulta à palavra de Deus.Vejamos o texto: 
“15 E ensinava nas sinagogas, sendo glorificado por todos. 16  Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler. 17  Então, lhe deram o livro do profeta Isaías, e, abrindo o livro, ACHOU o lugar onde estava escrito: 18  O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, 19  e apregoar o ano aceitável do Senhor. 20  Tendo fechado o livro, devolveu-o ao assistente e sentou-se; e todos na sinagoga tinham os olhos fitos nele. 21  Então, passou Jesus a dizer-lhes: Hoje, se cumpriu a Escritura que acabais de ouvir.” (Lucas 4:15-21 RA) 
Uma leitura sincera do texto citado nos leva a reconhecer que Jesus PROCUROU (e achou) o texto que leria naquela oportunidade. Ao achar (encontrar), leu-o e, após fechar o livro e devolvê-lo, declarou que aquela profecia estava se cumprindo nele.Não houve, portanto, nenhuma prática de sortear um texto qualquer das sagradas escrituras

A consulta a palavra de Deus e o dom de discernimento de espíritos 

Consultar a palavra de Deus, além de não ser uma prática constante do Velho Testamento, indica uma fuga dos princípios da Nova Aliança e anula por completo o dom do discernimento de espíritos (1 Cor 12:10). 
Se precisamos de abrir aleatoriamente a bíblia para saber a vontade de Deus, o dom de discernimento de espíritos perde sua utilidade. Por exemplo, se alguém faz uma consulta bíblica aleatória para saber se uma “visão” procede do Espírito Santo de Deus, para que serve, então, o dom de discernimento de espíritos? 
Há uma passagem no livro de Atos dos Apóstolos que nos mostra que, após Ágabo apresentar uma ilustração e mensagem sobre o destino de Paulo em Jerusalém, muitos interpretaram que aquela profecia poderia ser evitada se Paulo simplesmente não fosse para Jerusalém. Ninguém procurou consultar a Deus para saber se aquela profecia vinha do Senhor. Todos discerniram que procedia do Espírito Santo. Entretanto, falharam ao tentar interpretar a vontade de Deus. Inicialmente, queriam que Paulo não fosse para Jerusalém, a fim de evitar o que havia sido anunciado pelo profeta. Mas, Paulo os fez entender que aquela era a vontade de Deus, exatamente como havia sido anunciada pelo profeta. Segue o texto para nossa melhor compreensão: 
 “10 Demorando-nos ali alguns dias, desceu da Judéia um profeta chamado Ágabo; 11  e, vindo ter conosco, tomando o cinto de Paulo, ligando com ele os próprios pés e mãos, declarou: Isto diz o Espírito Santo: Assim os judeus, em Jerusalém, farão ao dono deste cinto e o entregarão nas mãos dos gentios. 12  Quando ouvimos estas palavras, tanto nós como os daquele lugar, rogamos a Paulo que não subisse a Jerusalém. 13  Então, ele respondeu: Que fazeis chorando e quebrantando-me o coração? Pois estou pronto não só para ser preso, mas até para morrer em Jerusalém pelo nome do Senhor Jesus. 14  Como, porém, não o persuadimos, conformados, dissemos: Faça-se a vontade do Senhor!” (Atos 21:10-14 RA) 
Se a igreja de Jesus estiver santificada, em obediência e comunhão com Ele, estará em plenas condições de discernir os espíritos.

Consulta à palavra de Deus para a confirmação de um dom espiritual 

Para que, ao abrir a bíblia, eu tenha a certeza de que Deus falou, sem dúvida será necessário que o Espírito de Deus tenha agido para me conduzir ao texto onde o Senhor que me falar. 
De igual modo, se eu tive um sonho, só posso afirmar que procede de Deus se me foi dado pelo Espírito Santo, que agiu em minha mente para me mostrar algo que o Senhor queria me falar. 
Como se vê, nos dois casos é necessária uma ação especial do Espírito Santo de Deus. Ora, uma vez que temos dois eventos que dependem de uma ação do Espírito Santo (o dom espiritual e a consulta à palavra), qual deles tem mais valor? A operação que concedeu o sonho, por exemplo, ou a que me fez abrir a bíblia em um determinado texto? 
O fato é que essa pergunta me leva à seguinte questão: se eu não tenho certeza de que o sonho foi dado por Deus, por que eu teria certeza de que a consulta foi direcionada por Ele, se ambos os eventos dependem de uma ação do Espírito Santo? 
Se eu creio que a segunda operação é infalível, por que não crer que a primeira também o seja? Será que o Espírito Santo não tem condições de operar convencimento logo na primeira vez? Por que a primeira operação é questionável e a segunda não, uma vez que as duas operações devem ser igualmente espirituais? 
A resposta é: as duas operações dependem de um mover sobrenatural de Deus, mas somente na segunda operação você não deixa alternativa para Deus – “ou Ele fala ou Ele fala”. No caso de uma visão, por exemplo, você pode até se convencer de que foi apenas uma imaginação, mas a leitura do texto bíblico não deixa dúvidas – está escrito, é só ler! Todas as vezes que alguém abrir bíblia aleatoriamente, invariavelmente, terá um texto lá para ler. 
Desse modo, Deus não tem como se negar a falar, não é mesmo? 
Sobre essa questão, com todo respeito por quem pensa diferente, cremos que consultar a bíblia para saber se um dom espiritual procede de Deus é um ato de fuga da ordenança bíblica de provar os espíritos. 
Deus ordenou aos seus servos que provassem os espíritos, com discernimento, e não disse para que “o Espírito provasse os espíritos”
O que acontece na consulta à palavra é exatamente isso: precisa-se de uma operação sobrenatural para confirmar outra operação sobrenatural. 
É até compreensível que alguém ache na consulta à palavra uma maneira mais fácil e cômoda de se provar os espíritos, pois tudo o que se tem a fazer é julgar se um texto é “positivo” ou “negativo”. Isso é muito mais fácil do que ter que exercitar o discernimento de espíritos, pois, para provar espíritos o homem tem de ser espiritual. 
Abrindo aleatoriamente a bíblia, ainda que aquele que a consulta não seja espiritual, ou não esteja em comunhão com Deus, terá apenas que avaliar um texto e depois afirmar que “Deus falou”, afastando a sua responsabilidade pelo acerto ou pelo erro que disso decorrer. 

É razoável obrigar Deus a falar quando eu quero? 

Se isso fosse possível, também seria viável exigirmos que Deus nos concedesse um sonho no dia em que nós desejássemos uma resposta sobre qualquer assunto. Ora, se o espírito que irá operar tanto em uma situação como na outra é o mesmo, por que não se pode forçar um sonho durante o sono? 
 Todos sabemos que não podemos exigir de Deus um sonho no dia que quisermos. Então, por que presumir que podemos obter Dele uma resposta na hora que quisermos? Isso é arriscado, porque na segunda hipótese deixamos Deus sem alternativa: eu coloco meu dedo e pronto, “Ele tem que dizer algo”. Neste caso, o homem se torna Senhor e Deus um servo ao seu dispor. 
Atenção! Deus é Deus e não depende das nossas regras para agir. Sem sombra de dúvidas, o mesmo Espírito de Deus que pode falar pela palavra, pode mover-se no nosso espírito para nos fazer entender que é Ele quem quer falar ou que está falando. Quem duvida disso, deve, também, duvidar de tudo o mais. 
Portanto, o único modo de não sermos enganados é conferindo o espiritual (dons e experiências sobrenaturais) com a palavra de Deus. Se uma coisa se encaixar na outra, então é de Deus! 

Como consultar a Deus nos dias de hoje? 

Conhecer a vontade de Deus é realmente importante. Tal como no passado, hoje temos os mesmos recursos para consultar a sua vontade. A mais eficaz de todas é a leitura e da palavra de Deus, que é viva e eficaz para discernir os intentos e propósitos do coração humano e que nos conduz ao conhecimento do Altíssimo e de toda a sua vontade para as nossas vidas. 
“Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e propósitos do coração.” (Hebreus 4:12 RA) 
Quando lemos e meditamos na palavra de Deus, em atitude de submissão, permitimos que o Espírito Santo de Deus opere em nossas vidas, guiando-nos por retas veredas. E a palavra viva, vivificada pelo Espírito Santo de Deus, penetra em nós e aguça nossos sentidos espirituais, ajudando-nos a afastar idéias erradas e planos prejudiciais à nossa existência. 
A palavra de Deus, viva, é apta para nos ajudar a separar os pensamentos que são da nossa natureza carnal e da nossa alma (idéias, sentimentos, pensamentos e decisões) daqueles que fazem parte do projeto e da vontade de Deus. Por isso precisamos conhecê-la e não utilizá-la como amuleto ou como instrumento de sortes. 
Quanto mais temos o conhecimento do Altíssimo, mais condições temos de fazer as escolhas corretas e decidir entre o certo e o errado; entre o bem e o mal; entre a verdade e a mentira; entre o puro e o herético, entre o conveniente e o inconveniente. 
 Era assim que Moisés dava resposta ao povo quando vinha a ele para decidir suas causas. Moisés, como conhecedor da vontade de Deus, declarava a justiça nas causas humanas segundo os estatutos e as leis de Deus. Ou seja, ao analisar uma demanda, Moisés a resolvia proferindo qual era a palavra de Deus sobre aquele assunto (Êxodo 18:14-16). 
Muito mais condições nós temos hoje para saber tomar nossas decisões consultando sempre a palavra de Deus (não por sorte), já que temos um tesouro em nossas mãos (a bíblia). Eventualmente, se algo está fora da nossa possibilidade de conhecimento natural, o Senhor pode agir para nos falar por meios sobrenaturais. Devemos estar atentos! 
Ao nos submetermos à vontade do Soberano, certamente, teremos ação do Espírito Santo para nos ajudar e a trazer luz e verdade sobre nós em nossas decisões, pois a letra mata, mas o espírito vivifica. 
“o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica.” (2 Coríntios 3:6 RA) 

Consulta à palavra ou bibliomancia? 

A prática de consulta a oráculos por meio de sorteio de textos de um livro sagrado ocorre a pelo menos 3.000 anos. Os chineses utilizam um livro sagrado chamado "I Ching" ou "Livro das Mutações" para saber a vontade dos deuses na solução de suas questões. 
Segundo consta da Wikipédia , o “I Ching” é um texto clássico chinês, composto de várias camadas sobrepostas ao longo do tempo. Trata-se de um dos mais antigos textos chineses que chegaram até nossos dias. “Ching, significando clássico, foi o nome dado por Confúcio à sua edição dos antigos livros. Antes era chamado apenas “I”: o ideograma “I” é traduzido de muitas formas, e no século XX ficou conhecido no ocidente como ‘mudança’ ou ‘mutação’. 
O livro sagrado chinês tanto pode ser lido e estudado quanto pode ser usado como oráculo. E como todo oráculo, segundo a tradição, “exige a aproximação correta: a meditação prévia, o ritual, e a formulação precisa da pergunta. Segundo os chineses, o oráculo nunca falha. Quem falha é o consulente: se a pergunta não foi clara e precisa, isto indica que a pessoa não tem clareza sobre o que deseja saber. O ritual tem a função psicológica de focar a atenção da pessoa na consulta”. 
Bibliomancia, segundo o dicionário Aurélio, é “adivinhação por meio de um livro que se abre ao acaso”. Conforme consulta à Wikipédia , “é a prática que procura por respostas a questões pessoais, mas já foi usada para tentar compreender o significado da vida e da realidade, lendo passagens aleatórias em qualquer livro, mas principalmente na Bíblia, I Ching e em dicionários”. 
Como se vê, o termo bibliomancia se aplica à prática de consulta à palavra. Não se trata de uma referência pejorativa, mas de uma significação comumente conhecida para se ter um conhecimento do acaso. 
A semelhança da consulta à palavra de Deus com o I Ching não diz respeito apenas à questão da aleatoriedade da consulta a um “livro de sabedoria” considerado religioso, mas ao fato de que todos aceitam essa prática como infalível. Se não der certo, a culpa é de quem consultou e não do oráculo. 
Atenção! Não é uma atitude responsável colocar a culpa em Deus por nossas escolhas quando algo não dá certo: “foi Deus quem quis assim”. Temos que amadurecer e agir sem precipitação, com a cabeça no lugar, e assumir a responsabilidade por nossas ações. Deus nos fez homens livres para escolher. É insano abrir mão da liberdade que recebemos e deixar o Soberano decidir se compramos um carro ou não. Todos têm em suas vidas vários exemplos bons e ruins para contar. A vida é cheia de acertos e erros. Só não é razoável colocar a responsabilidade de tudo que fazemos em Deus. 
No caso específico da consulta à palavra, acredita-se que essa prática só pode dar errado se o consulente não estiver em comunhão com Deus, ou estiver em pecado, fazendo uma consulta segundo o seu coração. Como essa situação é de difícil constatação, quando se nota a infelicidade decorrente da consulta à palavra, resta apenas a presunção de que havia algo errado na vida do consulente, pois a consulta dentro de certos padrões não pode falhar. 

Considerações finais 

 Evidentemente, todas as pessoas dadas à consultar a bíblia terão a contar um grande número de experiências pessoais. Cremos em todas elas. Não questionamos a experiência pessoal de ninguém. 
Entretanto, é muito importante que se saiba que nenhuma experiência pessoal pode substituir a palavra de Deus. Se Deus disse claramente que é assim... assim é – não há o que acrescentar nem retirar. Mas, se Deus nunca disse que é assim, ficamos lançados à sorte e corremos o risco de sermos alvo da manipulação da nossa própria mente, da mente de outros homens e do Diabo. 
A única segurança que temos no mundo espiritual é andar exatamente como nos ensina a palavra de Deus – “sem tirar nem por”, a exemplo do que Deus disse a respeito do livro do apocalipse: 
“18  Eu, a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro, testifico: Se alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro; 19  e, se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, da cidade santa e das coisas que se acham escritas neste livro. 20 Aquele que dá testemunho destas coisas diz: Certamente, venho sem demora. Amém! Vem, Senhor Jesus! 21  A graça do Senhor Jesus seja com todos.” (Apocalipse 22:18-21 RA) 
Como vimos, é muito arriscado andarmos praticando doutrinas acrescidas à palavra de Deus ou abraçando distorções de textos bíblicos para adequá-lo às nossas próprias práticas. Essa é a fonte de todas as heresias até hoje noticiadas e que se utilizam da bíblia como referência. Se há alguém que tem grande interesse no erro e na destruição do crente, não é Deus. 
O meu povo está sendo destruído, porque lhe falta o conhecimento. Porque tu, sacerdote, rejeitaste o conhecimento, também eu te rejeitarei, para que não sejas sacerdote diante de mim; visto que te esqueceste da lei do teu Deus, também eu me esquecerei de teus filhos.” (Oséias 4:6 RA) 
“Respondeu-lhes Jesus: Errais, não conhecendo as Escrituras nem o poder de Deus.” (Mateus 22:29 RA) 
Se Jesus, Paulo ou outro apóstolo tivesse recomendado tal prática para a nossa tomada de decisão, certamente seríamos os primeiros a defender esse ensinamento. Entretanto, como não existe nenhuma ordem a esse respeito, fica o alerta de Paulo: 
“8 Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. 9  Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema.” (Gálatas 1:8-9 RA) 
A graça do Senhor Jesus Cristo, e o amor de Deus, e a comunhão do Espírito Santo sejam com todos vós. 
Em 4 de novembro de 2016. 
Por Pastor Sólon Pereira 
 
O Clamor pelo Sangue de Jesus

Imagem Ilustrativa

Não confunda "sangue de Jesus" com "clamor pelo sangue de Jesus" 

Considerando que conhecemos o valor do sacrifício de Jesus, representado por seu sangue derramado na cruz do calvário, façamos uma reflexão quanto à necessidade de realizarmos formalmente um “clamor pelo sangue de Jesus” todas as vezes que desejarmos fazer uma oração inicial para nos achegarmos à presença de Deus.

Do ponto de vista histórico, temos de admitir que não há referências bíblicas específicas quanto a isso. Não há registros de que, desde a igreja primitiva até o século IV, houvesse tal prática no âmbito cristão. De modo semelhante, o protestantismo iniciado com Lutero não nos deixou registros ou ensinamentos a respeito da necessidade de um clamor pelo sangue de Jesus antes de determinadas orações para que essas fossem aceitas diante de Deus.

Sabendo disso, entender o formal “clamor pelo sangue de Jesus” como requisito essencial para acesso a Deus significaria dizer que a Assembleia de Deus, que é conhecida como uma igreja dada à oração, durante os seus 100 anos de existência não foi (e ainda não é) ouvida por Deus quando seus membros se reúnem e fazem suas orações sem clamar pelo sangue de Jesus. De igual modo, podemos dizer que a Igreja Batista e todas as outras denominações evangélicas também não são ouvidas por Deus. 

Evidentemente, as coisas não são bem assim! 

Embora não haja problema algum em observarmos uma formalidade dessa natureza, desde que isso não seja razão de soberba, precisamos ter cuidado para não sermos levados a crer que aqueles que assim não fazem estão fora da vontade ou da revelação de Deus. E é exatamente esse o objetivo deste estudo. Esclarecer que, se Deus nunca exigiu tal prática de sua igreja, não há nada de errado com quem assim não procedem. 

O fato é que, desde sempre, qualquer oração sincera que parte de um coração arrependido dos pecados cometidos e com disposição à confissão e ao pedido de perdão terá aceitação de Deus, independentemente de um formal “clamor pelo sangue de Jesus”. 

Não há dúvida de que nós só acessamos o santíssimo lugar devido ao sacrifício de Jesus, que derramou seu sangue por nós pecadores, mas isso não torna necessária a criação de um ritual novo, não prescrito para a igreja. O ritual do Velho Testamento era exigido pela lei de Moisés e, por isso, devia ser observado, o que não ocorreu com o advento da graça, conforme veremos neste estudo. 

O SANGUE DE JESUS 

Neste tópico, pretendemos considerar a importância dos ensinamentos bíblicos sobre o “sangue de Jesus”, mas com o cuidado de mantê-lo estritamente em sua função bíblica. 

Vamos iniciar com o seguinte texto de Hebreus: 

“Com efeito, quase todas as coisas, segundo a lei, se purificam com sangue; e, sem derramamento de sangue, não há remissão.” (Hebreus 9:22 RA) 

É difícil imaginar que um crente em Jesus não tenha compreendido que o perdão de pecados deve-se ao sacrifício de Jesus, que se ofereceu como expiação pelo pecado do mundo (1 João 1:9-2:2), alcançando, evidentemente, todo aquele que se arrepende de seus pecados, confessando-os, deixando-os e, assim, aceitando a Jesus como Senhor e Salvador. 

Desde o Velho Testamento, a exigência da lei para o perdão de pecados e para a purificação era um ritual que envolvia o sacrifício de um cordeiro, cujo sangue era levado à presença de Deus, no santíssimo lugar, como prova da morte do animal que havia sido sacrificado no lugar do pecador, substituindo-o. O ritual implicava na transferência do pecado do pecador para a vítima inocente que seria imolada, uma vez que havia, desde o Éden, uma sentença de morte decretada para o pecador. Assim, quando o animal morria, levava consigo o pecado e deixava o homem livre da sentença que pesava sobre ele, salvando-o da morte. 

Todo esse ritual levítico apontava, entretanto, para um sacrifício perfeito, que não haveria de se repetir anualmente. 

Ao escritor da carta aos Hebreus, portanto, restou a difícil missão de fazer com que os judeus percebessem que a velha aliança havia sido substituída por uma nova. Para tanto, o autor fez detalhado estudo para relacionar o sacerdócio e os sacrifícios realizados por ordenança da Lei de Moisés ao sacerdócio de Cristo e ao sacrifício do “cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo”. 

O autor trata da inferioridade dos sacrifícios de animais em Hebreus 10, mas no capítulo 9 começa a lançar os alicerces para essa discussão. Entre outras coisas, lembrou que o sumo sacerdote levava anualmente o sangue de um animal para o Santo dos Santos, mas Jesus Cristo ofereceu a si mesmo na presença de Deus como sacrifício uma só vez. Também, deixou claro que os sacrifícios de animais não poderiam jamais pagar o preço da “eterna redenção”. O sangue de animais somente cobria o pecado até que o sangue de Cristo “tirasse o pecado do mundo” (Jo 1:9). 

Hoje, ao estudarmos o livro de Hebreus, aprendemos que o nosso perdão e, consequentemente, nosso acesso ao Senhor se deve ao sacrifício do “cordeiro de Deus” (Jesus), sendo Ele o próprio Sumo Sacerdote, já que Ele ofereceu a si mesmo. Sim, o acesso ao Senhor depende do sacrifício de Jesus, já que ninguém pode se achegar a Deus sem estar purificado, uma vez que a própria palavra nos ensina que “sem santificação ninguém verá a Deus”. 

“Segui a paz com todos e a santificação, sem a qual ninguém verá o Senhor,” (Hebreus 12:14 RA) 

Por essa razão, o escritor da carta aos Hebreus afirma que o “novo e vivo caminho” de acesso a Deus é o sangue de Jesus. O nosso Senhor Jesus já abriu o caminho que nos leva à comunhão com o santíssimo Deus quando derramou o seu sangue e rasgou o véu do santuário, findando a necessidade de se imolar animais, tal como se fazia para o cumprimento da lei. 

Todo o ensinamento sobre o sacrifício de Jesus e sobre o seu sangue derramado nada tem a ver com nossas orações diárias, mas sim com nossa vida diária, com a disposição de nossos corações. 

A partir do momento em que o véu se rasgou, podemos ter a intrepidez de entrar no santíssimo lugar, pois o acesso nos foi franqueado pelo sacrifício de Jesus, representado por seu sangue: 

 “19 Tendo, pois, irmãos, intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus [seu sacrifício], 20  pelo novo e vivo caminho que ele nos consagrou pelo véu, isto é, pela sua carne, 21  e tendo grande sacerdote sobre a casa de Deus, 22  aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de fé, tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura.” (Hebreus 10:19-22 RA) 

É bom observar que o texto acima nos diz que temos intrepidez para entrar no Santo dos Santos, pelo sangue de Jesus (entre vírgulas), ou seja, porque Jesus já morreu, derramou seu sangue e o véu já se rasgou. O texto não diz que temos intrepidez para entrar no Santo dos Santos “clamando pelo sangue de Jesus” em nossas orações

Se já conhecemos a obra redentora de Jesus, para termos acesso a Deus, segundo as escrituras sagradas, devemos nos aproximar com sincero coração. Foi assim desde a igreja primitiva, a exemplo da passagem de Cornélio (At 10:1-4) e é assim até hoje. Basta crermos. 

Até aqui, já podemos perceber que o sacrifício realizado por Jesus nos garante perdão, salvação e comunhão com Deus. O poder do sangue de Jesus está em sua eficácia para nos purificar de todo pecado, mas em nenhum texto bíblico Deus nos orienta a pronunciarmos a expressão “clamamos pelo sangue de Jesus” como condição para que a oração produza esse efeito. Isso não foi exigido por Jesus, nem por Paulo e nem pelo escritor da carta aos Hebreus. 

Se observarmos o ritual da lei, podemos notar que o sangue servia para atestar a morte do animal. Quando o sumo sacerdote se achegava ao santíssimo lugar ele levava a prova de que o animal havia sido sacrificado – o sangue. De igual modo, quando o sangue era aspergido sobre o altar ou sobre os utensílios que se queria purificar, tal ato representava que a purificação advinha do sacrifício de um animal. 

O valor e importância do sangue era demonstrar um fato: o animal inocente morreu no lugar do pecador. 

Mas, isso passou! Ficou para trás! O ritual foi substituído por um novo e vivo caminho! A partir do sacrifício de Jesus, o ritual e as práticas repetitivas perderam o sentido, dando lugar a outra realidade. 

Para que, sem medo, deixemos para trás um ritual que apenas era a representação de uma realidade futura, temos que nos ater à essência do texto de Hebreus, especialmente dos versos 19 e 20. Ora, o que nos garante o perdão, a salvação e o acesso a Deus (comunhão) é o sacrifício. O sangue é apenas a prova de que o sacrifício aconteceu. 

Em sua essência, o que importa para Deus não é a prova de que Jesus morreu, pois disso Ele já sabe. A Deus interessa saber se em nossos corações há a consciência de nossos pecados; se estamos sinceramente arrependidos; se somos “réus confessos”; e se compreendemos que o perdão nos foi concedido porque lançamos sobre Jesus os nossos pecados que, por substituição, morreu em nosso lugar, expiando a nossa culpa. 

Quando o texto de Hebreus diz que entramos no Santo dos Santos pelo sangue de Jesus ele está dizendo que só entramos na presença de Deus porque Jesus morreu em nosso lugar, derramando o seu sangue para nos conceder o perdão e a purificação necessária a esse acesso ao lugar onde o pecador não pode estar. 

Na verdade, o escritor de Hebreus está nos ensinando a nos desligarmos dos rituais e não criando um novo ritual. Ele afasta o ritual e apresenta um novo e vivo caminho que depende da consciência e não de rituais. Vejamos, então, como deve acontecer a aproximação do homem a Deus desde que Jesus morreu, uma só vez, de modo expiatório: 

“aproximemo-nos, com sincero coração, em plena certeza de , tendo o coração purificado de má consciência e lavado o corpo com água pura.” (Hebreus 10:22 RA) 

Os elementos essenciais são: fé, coração sincero e purificado de má consciência. Pronunciar ritualisticamente uma “expressão mágica” de nada adiantará se os requisitos essenciais não estiverem presentes. Isso não garante o perdão e nem o acesso a Deus. O que nos introduz na presença do Senhor é um coração purificado da má consciência, arrependido e despojado da vaidade que impede a confissão do pecado. 

É fato que se não fosse o sacrifício de Jesus, que derramou o seu sangue, os rituais deveriam prosseguir continuamente, ano após ano. Mas, o ato sacrificial do Filho de Deus interrompeu o ritual, dando lugar à liberdade de se entrar e de se permanecer na presença de Deus com um coração purificado da má consciência do pecado. Uma vez que já entendemos e aceitamos a morte expiatória de Jesus, o véu já foi rasgado e retirado da nossa face. O caminho de acesso a Deus já nos foi aberto. Porém, ninguém deve pretender entrar ou ficar na presença de Deus com um coração carregado de imundícies provenientes de pecados sem arrependimento. Quem vive em pecado e não se arrepende está nas trevas e não na luz. 

Todo esse ensinamento sobre o sacrifício de Jesus e sobre o seu sangue derramado nada tem a ver com nossas orações diárias, mas sim com nossa vida diária. Não é a menção ao sangue de Jesus que nos dá acesso a Deus, mas a consciência de que um preço já foi pago e um caminho novo nos foi aberto, sendo que só nos resta arrepender e confessar os nossos pecados para que possamos entrar na presença de Deus. 

“9 Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça. 10 Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós. 2:1 Filhinhos meus, estas coisas vos escrevo para que não pequeis. Se, todavia, alguém pecar, temos Advogado junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo; 2  e ele é a propiciação pelos nossos pecados e não somente pelos nossos próprios, mas ainda pelos do mundo inteiro.” (1 João 1:9, 10 - 2:1, 2 RA) 

É importante observar que a condição para o perdão, para a purificação e, consequentemente, para se estar em condições de trilhar, com intrepidez, o novo caminho aberto na cruz em direção ao Santo dos Santos é a confissão de pecados, que implica em anterior arrependimento.

Assim, entramos na presença de Deus, mas para lá permanecermos temos que observar mais um trecho da primeira carta de João, conforme segue: 

“5 Ora, a mensagem que, da parte dele, temos ouvido e vos anunciamos é esta: que Deus é luz, e não há nele treva nenhuma. 6  Se dissermos que mantemos comunhão com ele e andarmos nas trevas, mentimos e não praticamos a verdade. 7  Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado. 8 Se dissermos que não temos pecado nenhum, a nós mesmos nos enganamos, e a verdade não está em nós. 9  Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça.” (1 João 1:5-9 RA) 

Na passagem transcrita, João está tratando com pessoas que já são salvas, que já acessaram a presença de Deus em algum momento de suas vidas e, portanto, foram remidas pelo sacrifício de Jesus, o que normalmente chamamos de “lavados no sangue de Jesus”. 

Esses tais deveriam andar na luz sem nenhuma comunicação com as obras das trevas para permanecerem na presença do Senhor. João diz que se alguém anda nas trevas é porque não está na luz. E esses que vivem nas trevas, ocultando seus pecados (sem arrependimento), mesmo que sejam crentes em Jesus, não alcançam o perdão, já que a condição do perdão é arrependimento e confissão. Sem isso, o sacrifício de Jesus, representado pelo seu sangue, não pode operar na vida do pecador. 

Ora, a eficácia do sangue de Jesus (do sacrifício realizado), só opera na vida de quem vive na luz, pois na claridade nenhum pecado fica escondido. Os que realmente vivem na luz são aqueles que reconhecem seus pecados e se arrependem de tê-los cometido, desejando nunca mais repeti-los. Uma vez que os pecados de quem vive na luz são expostos por meio da confissão e do arrependimento, o sangue de Jesus (sacrifício) é eficaz para produzir o perdão e a purificação. 

Importante dizer que clamar pelo sangue de Jesus não produz efeito algum se não houver arrependimento do pecado. Se há arrependimento e reconhecimento do meio que Deus escolheu para a purificação, o clamor indispensável é por perdão. Neste caso, a eficácia do sangue de Jesus é automática, pois Deus é fiel para perdoar o pecado e purificar de toda a injustiça. 

Esta é, portanto, a condição para que o homem permaneça na presença de um Deus santo: um viver santo. E isso não está relacionado a uma prática de se invocar o sangue de Jesus, mas de se andar na luz. 

Curiosidade 

Há quem diga que quando se clama pelo sangue de Jesus se está a clamar pela sua vida ou pelo seu Espírito, mas isso não tem qualquer fundamento bíblico expresso. 

Ora, se Deus quisesse que clamássemos pela “vida” ou pelo “Espírito de Jesus” por que não nos disse isso claramente? Por que Deus iria dizer uma coisa querendo dizer outra? Por que Jesus não explicou isso aos seus discípulos, do mesmo modo como ensinou a orar “em seu nome”? 

Enfim, se queremos estar bem firmados na palavra de Deus, podemos optar por obedecer às doutrinas que estejam expressamente delimitadas nas escrituras sagradas. 

O PODER DO SANGUE DE JESUS X O PODER DO NOME DE JESUS 

Segundo os registros bíblicos, o poder que podemos exercer contra as trevas está no “sangue” ou no “nome” de Jesus, a fim de que não venhamos a ser envergonhados. 

Por isso, é mais sábio e mais prudente apoiarmos as nossas práticas religiosas na palavra de Deus e não em experiências pessoais alheias, por mais espirituais e bem-sucedidas que possam parecer. 

O fato é que não há na bíblia qualquer indicação de invocação do poder do sangue de Jesus, seja em que situação de perigo for. Em vez disso, há expressa recomendação quanto à invocação do nome de Jesus diante de qualquer operação das trevas, senão vejamos: 

“Estes sinais hão de acompanhar aqueles que creem: em meu nome, expelirão demônios; falarão novas línguas;” (Marcos 16:17 RA) 

Mas, “que mal há em se invocar o poder do sangue de Jesus?” Nenhum! O único problema é a ineficácia. Por exemplo: em um dia frio posso usar uma camiseta ou um casaco. Neste caso, somente o casaco me aquecerá, embora a camiseta em si não me faça mal algum. 

No caso de enfrentamento de poderes das trevas, temos a mesma situação: por que eu usaria o clamor pelo sangue de Jesus se Jesus me disse para usar o seu nome? Somente quem não deseja a eficácia nesse enfrentamento recomendaria o contrário. 

Ora, na medida em que o sangue de Jesus é meio de purificação e comunhão do homem e não de invocação de poder para reprimir as obras das trevas, ao fazermos essa confusão, corremos o risco de sermos envergonhados diante das obras malignas do Diabo. 

Apenas a título de curiosidade, note-se que, ao orarmos, nós não encerramos a oração dizendo: “pelo poder do sangue de Jesus”. Por que? Simplesmente porque Jesus nos ensinou a orarmos ao Pai em seu nome: “em nome de Jesus”. Ora, por que eu trocaria uma coisa recomendada por uma não recomendada? 

Ao passo que a bíblia não nos ensina a invocar o “poder do sangue de Jesus”, ela nos instrui, claramente sobre o poder do “nome de Jesus” e nos dá o direito de usá-lo como invocação dessa autoridade. 

O evangelho de Mateus relata que, pouco antes de Jesus subir para o Pai, disse o seguinte: 

“Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra.” (Mateus 28:18 RA) 

“E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra.” (Mateus 28:18 RC) 

O evangelho de Marcos, ao se referir a este mesmo momento, relata que Jesus ordenou aos seus discípulos que saíssem pelo mundo pregando o evangelho e, para lhes assegurar a vitória, delegou-lhes a sua autoridade e poder pelo uso de “seu nome”, senão vejamos: 

“15 E disse-lhes: Ide por todo o mundo e pregai o evangelho a toda criatura. 16  Quem crer e for batizado será salvo; quem, porém, não crer será condenado. 17  Estes sinais hão de acompanhar aqueles que crêem: em meu nome, expelirão demônios; falarão novas línguas; 18  pegarão em serpentes; e, se alguma coisa mortífera beberem, não lhes fará mal; se impuserem as mãos sobre enfermos, eles ficarão curados. 19 De fato, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi recebido no céu e assentou-se à destra de Deus.” (Marcos 16:15-19 RA) 

Como visto, Jesus declara possuir todo poder no céu e na terra e, em seguida, delega esse poder e autoridade aos seus discípulos para deter as trevas e para curar doentes. Tudo isso, entretanto, com a menção de seu nome, já que Ele (Jesus) é a fonte de toda autoridade e poder que nos foram delegados. Desse modo, fazendo menção ao seu nome, estamos dizendo aos espíritos das trevas e às doenças causadas por eles que os estamos repreendendo por ordem do detentor de toda autoridade e poder. Não fazemos nada em nosso próprio nome, pois nenhum poder temos em nós mesmos. Isso, sim, é ser submisso ao soberano Deus e fazer apenas o que Ele nos manda. 

“Assim também vós, depois de haverdes feito quanto vos foi ordenado, dizei: Somos servos inúteis, porque fizemos apenas o que devíamos fazer.” (Lucas 17:10 RA) 

Isso é muito importante: o mínimo que Deus espera de nós é que façamos o que Ele nos mandou fazer e do modo como nos foi ordenado. Fazer outra coisa que não seja o que nos foi ordenada e deixar de fazer o que é a nossa obrigação é pretender alcançar êxito por nossos próprios méritos, o que é muito perigoso. 

Também, é relevante destacar que, no momento em que Jesus mandou seus discípulos exercerem autoridade sobre as trevas em seu nome, Ele já tinha derramado seu sangue em sacrifício. Naquele instante Ele já poderia, se fosse o caso, ter orientado seus discípulos quanto ao “poder do seu sangue”, ao invés de instruí-los quanto ao poder do seu nome. 

E por que Jesus, após sua ressurreição, ao dar as últimas instruções aos seus discípulos antes de subir ao céu, não ensinou a seus discípulos sobre o “poder de seu sangue”? 

Simples: porque isso não era para ser ensinado. Nem por Ele, nem por Paulo e nem por qualquer outro apóstolo. Se fosse para ser ensinado, Ele o teria feito, do mesmo modo como ensinou a usar SEU NOME. 

O “CLAMOR PELO SANGUE DE JESUS” É UMA DOUTRINA BÍBLICA? 

Após notarmos a importância do sangue de Jesus e colocá-lo em seu devido lugar, passamos a avaliar se na prática diária de nossas orações devemos incluir a expressão formal “clamamos pelo sangue de Jesus” para que possamos ser purificados e recebidos na presença de Deus. 

De pronto, pode-se afirmar que não há na bíblia qualquer referência direta a essa prática. As orações praticadas tanto no Velho como no Novo Testamento não se apresentam como atos litúrgicos envolvendo frases prontas para a repetição. 

Partindo dessa primeira observação, passaremos a tecer algumas considerações sobre a razoabilidade de se incluir a prática do “clamor pelo sangue de Jesus” entre as doutrinas bíblicas reconhecidas pelo meio evangélico. 

O importante e o essencial estão claramente registrados na Bíblia 

O Senhor Deus, por meio de seus apóstolos, orientou a igreja quanto às coisas importantes e essenciais que deveriam ser praticadas e não incluiu que se clamasse pelo sangue de Jesus antes de um culto, de uma reunião ou de uma oração. Isto é, Deus não deixou à igreja nenhum ensinamento doutrinário objetivo que incluísse o “clamor pelo sangue de Jesus” como condição para acessar a sua presença ou para que nossas orações fossem ouvidas ou para que alguma reunião dos santos fosse considerada aceitável diante dele. 

Vejamos, a seguir, como os apóstolos resolveram não impor regras aos gentios que se convertiam a Deus, decidindo apenas recomendar-lhes, de modo claro e objetivo, naquilo que consideraram ser essencial à prática da vida cristã. 

“19 Pelo que, julgo eu, não devemos perturbar aqueles que, dentre os gentios, se convertem a Deus, 20  mas escrever-lhes que se abstenham das contaminações dos ídolos, bem como das relações sexuais ilícitas, da carne de animais sufocados e do sangue. (...) 28 Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não vos impor maior encargo além destas coisas essenciais: 29  que vos abstenhais das coisas sacrificadas a ídolos, bem como do sangue, da carne de animais sufocados e das relações sexuais ilícitas; destas coisas fareis bem se vos guardardes. Saúde.” (Atos 15:19-20; 28,29 RA) 

E a primeira questão a ser analisada é exatamente esta: houve alguma recomendação sobre a prática do “clamor pelo sangue de Jesus”? Não! Em nenhuma passagem bíblica os apóstolos em suas cartas às igrejas ensinaram o ritual do clamor pelo sangue de Jesus como algo essencial a qualquer oração dirigida a Deus. 

Quando o apóstolo Paulo ensinou a igreja de Corinto sobre dons espirituais e sobre a organização de reuniões da comunidade cristã, não mencionou a necessidade de se clamar pelo sangue de Jesus, nem para tratar com dons espirituais nem como condição para o início das reuniões. 

“12 Assim, também vós, visto que desejais dons espirituais, procurai progredir, para a edificação da igreja. 13  Pelo que, o que fala em outra língua deve orar para que a possa interpretar. 14  Porque, se eu orar em outra língua, o meu espírito ora de fato, mas a minha mente fica infrutífera. 15 Que farei, pois? Orarei com o espírito, mas também orarei com a mente; cantarei com o espírito, mas também cantarei com a mente.” (1 Coríntios 14:12-15 RA) 

“26 Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação. 27 No caso de alguém falar em outra língua, que não sejam mais do que dois ou quando muito três, e isto sucessivamente, e haja quem interprete. 28  Mas, não havendo intérprete, fique calado na igreja, falando consigo mesmo e com Deus. 29  Tratando-se de profetas, falem apenas dois ou três, e os outros julguem. 30  Se, porém, vier revelação a outrem que esteja assentado, cale-se o primeiro. 31  Porque todos podereis profetizar, um após outro, para todos aprenderem e serem consolados. 32  Os espíritos dos profetas estão sujeitos aos próprios profetas; 33  porque Deus não é de confusão, e sim de paz. Como em todas as igrejas dos santos,” (1 Coríntios 14:26-33 RA) 

Ora, será que Deus deixaria de fora do nosso manual (a bíblia) algo imprescindível à nossa prática cristã? Será que Deus teria prazer em esconder de seus santos servos um preceito indispensável para o desenvolvimento da comunhão deles com o Pai?Nesse particular, é bom lembrar que Jesus falava por parábolas para ocultar seus mistérios dos incrédulos fariseus e não de seus discípulos. A estes, Jesus explicava tudo, pois importava que ficassem bem instruídos acerca de sua vontade, senão vejamos: 

 33. Com muitas parábolas semelhantes Jesus lhes anunciava a palavra, tanto quanto podiam receber. 34. Não lhes dizia nada sem usar alguma parábola. Quando, porém, estava a sós com os seus discípulos, explicava-lhes tudo. (Marcos 4:33,34) 

Apenas a título de comparação, no que é essencial à oração, Jesus não nos deixou sem instrução. Fomos devidamente orientados que nossas petições a Deus deveriam ser feitas em Seu nome. Neste caso, a expressão nos foi objetivamente ensinada para ser utilizada quando nos achegássemos a Deus para lhe apresentar nossas petições. Jesus fez isso porque considerou este ato de fundamental importância e que não deveria ser deixado de fora da prática cristã. 

“Não fostes vós que me escolhestes a mim; pelo contrário, eu vos escolhi a vós outros e vos designei para que vades e deis fruto, e o vosso fruto permaneça; a fim de que tudo quanto pedirdes ao Pai em meu nome, ele vo-lo conceda.” (João 15:16 RA) 

“Naquele dia, nada me perguntareis. Em verdade, em verdade vos digo: se pedirdes alguma coisa ao Pai, ele vo-la concederá em meu nome.” (João 16:23 RA)

Portanto, considerando que a todos os livros da bíblia são dirigidos ao povo de Deus, concluímos neste tópico que, se um ensinamento não está registrado nas escrituras sagradas, é porque não é indispensável à prática cristã. 

Deus se revela aos seus discípulos e não os deixa sem instrução 

Conforme já indicamos, Deus ocultou seus mistérios aos incrédulos e não aos seus discípulos. 

O Novo Testamento deixa claro que Jesus declarou que quando falava por parábolas estava dificultando o entendimento dos mistérios do Reino de Deus aos incrédulos, aos fariseus e aos demais doutores da Lei que não criam que Ele era o filho de Deus, pois esses eram indiferentes ou queriam matá-lo. 

Mas, a seus discípulos, que tinham interesse em segui-lo, Jesus se revelava em particular deixando clara sua mensagem para que pudessem compreendê-la e praticá-la, como podemos observar nos exemplos a seguir. 

“10 Então, se aproximaram os discípulos e lhe perguntaram: Por que lhes falas por parábolas? 11 Ao que respondeu: Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido.” (Mateus 13:10-11 RA)

“10 Quando Jesus ficou só, os que estavam junto dele com os doze o interrogaram a respeito das parábolas. 11  Ele lhes respondeu: A vós outros vos é dado conhecer o mistério do reino de Deus; mas, aos de fora, tudo se ensina por meio de parábolas,” (Marcos 4:10-11 RA) 

“Então, despedindo as multidões, foi Jesus para casa. E, chegando-se a ele os seus discípulos, disseram: Explica-nos a parábola do joio do campo.” (Mateus 13:36 RA) 

Observe, agora, com quem Jesus estava tratando e a quem estava se dirigindo quando disse algumas coisas que as pessoas não entenderam.

“18 Perguntaram-lhe, pois, os judeus: Que sinal nos mostras, para fazeres estas coisas? 19  Jesus lhes respondeu: Destruí este santuário, e em três dias o reconstruirei. 20  Replicaram os judeus: Em quarenta e seis anos foi edificado este santuário, e tu, em três dias, o levantarás? 21  Ele, porém, se referia ao santuário do seu corpo. 22  Quando, pois, Jesus ressuscitou dentre os mortos, lembraram-se os seus discípulos de que ele dissera isto; e creram na Escritura e na palavra de Jesus.” (João 2:18-22 RA) 

“3  A isto, respondeu Jesus: Em verdade, em verdade te digo que, se alguém não nascer de novo, não pode ver o reino de Deus. 4  Perguntou-lhe Nicodemos: Como pode um homem nascer, sendo velho? Pode, porventura, voltar ao ventre materno e nascer segunda vez?” (João 3:3-4 RA)

Lendo Mateus, do capítulo 5 ao 7, é possível notar a clareza de Jesus quando estava ensinando seus discípulos sobre a essência daquilo que devemos ser e fazer, chegando, inclusive, a dar um exemplo de como se deve orar (Mt 6:5-13) afastando a hipocrisia formalística dos fariseus. Observemos a quem o sermão do monte estava sendo dirigido: aos seus discípulos. 

“1 Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos; 2  e ele passou a ensiná-los, dizendo:” (Mateus 5:1-2 RA) 

É claro que podemos argumentar que Jesus não ensinaria a clamar pelo seu sangue se Ele ainda estava vivo. Sim, mas mesmo depois de ressurreto, quando seu sangue já havia sido derramado, ele também não ensinou isso aos seus discípulos conforme já vimos anteriormente.

Mas, será que após a morte de Jesus, o Espírito Santo de Deus teria revelado o “mistério do clamor ritualístico pelo sangue de Jesus” aos discípulos? Se revelou, por que eles esconderiam isso de nós? 

Certamente, o Espírito Santo não deixaria um importante ensinamento em código para que tivéssemos que decifrar. Se não foi assim com os apóstolos, porque seríamos tratados de modo diferente? 

Lembrando de Paulo, é bom que se diga que ele ficou três anos se fortalecendo e aprendendo com os discípulos antes de iniciar seu ministério junto aos gentios (Gl 1:15-18) e quando começou a escrever às igrejas nada falou sobre a necessidade de se clamar pelo sangue de Jesus para se iniciar uma reunião ou uma oração específica. 

Ora, bem sabemos que Deus oculta seus ensinos dos sábios e entendidos deste mundo, que o querem decifrá-los por seus próprios métodos científicos e racionais, sem se sujeitarem à sua palavra, mas com os pequeninos o Senhor não age dessa maneira. Antes, revela-se, senão vejamos: 

“Naquela hora, exultou Jesus no Espírito Santo e exclamou: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos (discípulos). Sim, ó Pai, porque assim foi do teu agrado.” (Lucas 10:21 RA) 

Portanto, podemos concluir que o novo testamento nos apresenta um Deus que tem prazer em se revelar aos seus servos e em ensiná-los, independentemente da capacidade intelectual ou da condição social de cada um. Os mistérios de Deus só ficam ocultos aos incrédulos. Quem examina a palavra de Deus, com sinceridade, perceberá que Deus se revela aos seus filhos e não esconde sua doutrina da sua amada igreja. 

A história da igreja prova a desnecessidade do clamor 

Por último, a história da igreja, desde a sua instituição, nos mostra que a ausência formal do “clamor pelo sangue de Jesus” nunca impediu a manifestação de Deus ou a presença de Jesus no meio de seu povo para comunhão, visitação e revelação. 

Em primeiro lugar, é bom lembrar que o próprio Jesus disse que estaria presente em nosso meio pelo simples fato de estarmos reunidos em seu nome, sem apresentar nenhuma outra condição. 

“Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles.” (Mateus 18:20 RA) 

Quando Pedro, por revelação, foi enviado à casa de Cornélio testificou que as orações desse homem subiam a Deus. É bom lembrar que Cornélio ainda não conhecia a Jesus, por isso sua oração não foi precedida pelo clamor pelo sangue de Jesus. Mas mesmo assim foi ouvida por Deus. Ora, Cornélio acessou o santíssimo lugar, pois o véu já estava rasgado e o seu coração era sincero

“e disse: Cornélio, a tua oração foi ouvida, e as tuas esmolas, lembradas na presença de Deus.” (Atos 10:31 RA) 

Quanto à igreja primitiva, não há qualquer registro bíblico ou histórico que indique que nossos irmãos tivessem uma prática parecida com o “clamor pelo sangue de Jesus” para iniciar uma reunião ou mesmo uma oração. 

De igual modo, é bom notar que os manuais de história da igreja também não relatam que a igreja, em seus quase dois mil anos de existência tenha desenvolvido a prática do clamor pelo sangue de Jesus. Mesmo retirando desse contexto o período das trevas pelo qual a igreja passou, temos centenas de anos em que a igreja desfrutou de intimidade, salvação, revelação de Deus, amadurecimento, reavivamentos etc. sem que haja notícia de uma prática dessa natureza. 

Ora, se no período da igreja primitiva e durante os grandes avivamentos da igreja nunca se sentiu falta do “clamor pelo sangue de Jesus” para que Deus se fizesse presente em uma reunião, por que hoje isso seria essencial? Observe que não estamos afirmando que o sacrifício de Jesus ou o seu sangue derramado não tenha valor ou não seja importante. Estamos dizendo que o ritual ou o pronunciamento de uma frase específica não é essencial para que entremos no santo lugar. Fazemos isso pela fé e, obviamente, considerando o sacrifício de Jesus e o seu sangue derramado para nos purificar. 

Portanto, a conclusão deste último ponto é que nós nem mesmo seríamos servos de Deus hoje se a igreja que nos precedeu, desde o princípio, não tivesse alcançado o favor, a graça, o amor e a revelação de Deus, tendo trabalhado pela expansão do evangelho. Uma história de, aproximadamente, dois mil anos deve ser suficiente, no mínimo, para nos mostrar que Deus nunca deixou de operar em sua igreja, mesmo não existindo por todos esses anos o ritual do clamor pelo sangue de Jesus para iniciar uma reunião ou uma oração. Corrobora com essa percepção trecho extraído do livro "O que estão fazendo com a igreja", de Augustus Nicodemus, Editora Mundo Cristão, p. 148: 

"historicamente, todos os fundadores de seitas, dentro e fora do cristianismo, sempre reivindicaram que foram iluminados por Deus para conhecerem a verdade final, que havia sido oculta da Igreja até então. Foi assim que os mórmons, as Testemunhas de Jeová, seitas apocalípticas, o G-12, o movimento de batalha espiritual e o próprio islamismo começaram. O que todos eles têm em comum é a crença de que a verdade evolui, cresce e muda, e que revelações contemporâneas de Deus têm mais autoridade que as Escrituras." Augustus Nicodemus, em "O que estão fazendo com a igreja", Editora Mundo Cristão, p. 148. 

CONCLUSÃO 

De todo o exposto, concluímos que a prática de se “clamar pelo sangue de Jesus” para validar uma oração não pode ser considerada uma doutrina bíblica. 

Entretanto, tal prática não traz qualquer prejuízo à oração, não a invalida e não a faz melhor ou pior, uma vez que Deus está observando o coração e a sinceridade do homem que se dirige a Ele. 

Evidentemente, se em qualquer das cartas de Paulo ou de outro apóstolo, dirigida à igreja, tivesse sido registrado algo parecido como: “clamai pelo sangue de Jesus ao iniciar qualquer reunião”, nós seríamos os primeiros a defender essa prática. 

Mas, como não existe nenhum texto bíblico, nem parecido com o que referimos, pela fé sentimos segurança em nossas orações com corações sinceros diante do Pai. 

Em, 22 de janeiro de 2012. 

Atualização em 01 de julho de 2016. 

Pastor Sólon Pereira

 
Cronologia da "Semana Santa"

Exposição cronológia dos fatos antes da crucificação de Jesus 

A RESSURREIÇÃO DE LÁZARO

Iniciamos nossa contextualização a partir da chegada de Jesus em Betânia, quando Lázaro estava morto há 4 dias. 

Jesus, outra vez profundamente comovido, foi até o sepulcro. Era uma gruta com uma pedra colocada à entrada. "Tirem a pedra", disse ele. Disse Marta, irmã do morto: "Senhor, ele já cheira mal, pois já faz quatro dias". Disse-lhe Jesus: "Não lhe falei que, se você cresse, veria a glória de Deus? " Então tiraram a pedra. Jesus olhou para cima e disse: "Pai, eu te agradeço porque me ouviste. Eu sabia que sempre me ouves, mas disse isso por causa do povo que está aqui, para que creia que tu me enviaste". Depois de dizer isso, Jesus bradou em alta voz: "Lázaro, venha para fora! " O morto saiu, com as mãos e os pés envolvidos em faixas de linho, e o rosto envolto num pano. Disse-lhes Jesus: "Tirem as faixas dele e deixem-no ir". (João 11:38-44) 

Devido ao grande alvoroço na cidade, que assistiu este grandioso milagre, o Sinédrio dos judeus se reuniu para decidir qual providência tomariam a respeito de Jesus.

A REUNIÃO DO SINÉDRIO 

Da reunião do Sinédrio, os judeus decidiram que deveriam matar tanto Jesus como Lázaro: 

“Então os chefes dos sacerdotes e os fariseus convocaram uma reunião do Sinédrio. "O que estamos fazendo? ", perguntaram eles. "Aí está esse homem realizando muitos sinais miraculosos. Se o deixarmos, todos crerão nele, e então os romanos virão e tirarão tanto o nosso lugar como a nossa nação". Então um deles, chamado Caifás, que naquele ano era o sumo sacerdote, tomou a palavra e disse: "Nada sabeis! Não percebeis que vos é melhor que morra um homem pelo povo, e que não pereça toda a nação". Ele não disse isso de si mesmo, mas, sendo o sumo sacerdote naquele ano, profetizou que Jesus morreria pela nação judaica, e não somente por aquela nação, mas também pelos filhos de Deus que estão espalhados, para reuni-los num povo. E daquele dia em diante, resolveram tirar-lhe a vida.  (João 11:47-53) 

JESUS RETIRA-SE PARA UM POVOADO CHAMADO EFRAIM, PRÓXIMO AO DESERTO 

Conhecedor de todas as coisas, Jesus preferiu se retirar para uma região distante de Betânia e de Jerusalém até que o seu tempo se cumprisse. 

Por essa razão, Jesus não andava mais publicamente entre os judeus. Ao invés disso, retirou-se para uma região próxima do deserto, para um povoado chamado Efraim, onde ficou com os seus discípulos.” (João 11:54) 

JESUS VOLTA A BETÂNIA (6 DIAS ANTES DA PÁSCOA) 

Preparado para o grande sacrifício, Jesus retorna para Betânia e inicia-se a chamada SEMANA SANTA, segundo a tradição católica. Apresentaremos, a seguir, a narrativa cronológica dos fatos, segundo nossa conciliação e harmonização dos textos dos evangelhos.

A SEMANA SANTA

SEXTA-FEIRA 

Jesus chega a Betânia, seis dias antes da páscoa, e neste mesmo dia foi-lhe preparado um jantar.
Seis dias antes da Páscoa Jesus chegou a Betânia, onde vivia Lázaro, a quem ressuscitara dos mortos. Ali prepararam um jantar para Jesus. Marta servia, enquanto Lázaro estava à mesa com ele. (João12:1-2) 

SÁBADO 

Jesus chega em Betânia na sexta-feira, mas o jantar certamente ocorreu depois do pôr do sol, ou seja, no sábado, segundo a virada do dia dos judeus. 
“Seis dias antes da Páscoa Jesus chegou a Betânia, onde vivia Lázaro, a quem ressuscitara dos mortos. Ali prepararam um jantar para Jesus. Marta servia, enquanto Lázaro estava à mesa com ele. (João12:1-2)
Neste jantar, Maria derrama um frasco de nardo puro nos pés de Jesus e enxuga com seus cabelos. Judas, que furtava o dinheiro da bolsa, critica o ato de Maria, dizendo que o valor daquele perfume (300 denários) poderia ser dado aos pobres. Jesus repreende Judas e diz que pobres sempre haveriam, mas o ato de Maria era uma preparação para o seu sepultamento.
Então Maria pegou um frasco de nardo puro, que era um perfume caro, derramou-o sobre os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos. E a casa encheu-se com a fragrância do perfume. Mas um dos seus discípulos, Judas Iscariotes, que mais tarde iria traí-lo, fez uma objeção: "Por que este perfume não foi vendido, e o dinheiro dado aos pobres? Seriam trezentos denários". Ele não falou isso por se interessar pelos pobres, mas porque era ladrão; sendo responsável pela bolsa de dinheiro, costumava tirar o que nela era colocado. Respondeu Jesus: "Deixe-a em paz; que o guarde para o dia do meu sepultamento. Pois os pobres vocês sempre terão consigo, mas a mim vocês nem sempre terão". (João 12:3-8)
Durante o dia de sábado, é provável que Jesus tenha aproveitado para descansar, em Betânia, segundo determinava a Lei. Além disso, é perfeitamente razoável que ele precisasse recompor suas forças antes de iniciar o período mais difícil e doloroso de seu ministério.

DOMINGO 

No dia seguinte ao sábado (domingo), Jesus se dirige a Jerusalém.
No dia seguinte [domingo], a grande multidão que tinha vindo para a festa ouviu falar que Jesus estava chegando a Jerusalém. Pegaram ramos de palmeiras e saíram ao seu encontro, gritando: "Hosana! " "Bendito é o que vem em nome do Senhor! " "Bendito é o Rei de Israel! " (João 12:12,13) 
É razoável que ele tenha passado o sábado em Betânia, descansando um pouco antes de iniciar o período mais difícil e doloroso de seu ministério. 
Esta é, portanto, a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, conhecida como "DOMINGO DE RAMOS"
Quando se aproximaram de Jerusalém e chegaram a Betfagé, ao monte das Oliveiras, Jesus enviou dois discípulos, dizendo-lhes: "Vão ao povoado que está adiante de vocês; logo encontrarão uma jumenta amarrada, com um jumentinho ao lado. Desamarrem-nos e tragam-nos para mim. Se alguém lhes perguntar algo, digam-lhe que o Senhor precisa deles e logo os enviará de volta". Isso aconteceu para que se cumprisse o que fora dito pelo profeta: "Digam à cidade de Sião: ‘Eis que o seu rei vem a você, humilde e montado num jumento, num jumentinho, cria de jumenta’ ". Os discípulos foram e fizeram o que Jesus tinha ordenado. Trouxeram a jumenta e o jumentinho, colocaram sobre eles os seus mantos, e sobre estes Jesus montou. Uma grande multidão estendeu seus mantos pelo caminho, outros cortavam ramos de árvores e os espalhavam pelo caminho. A multidão que ia adiante dele e os que o seguiam gritavam: "Hosana ao Filho de Davi! " "Bendito é o que vem em nome do Senhor! " "Hosana nas alturas! " (Mateus 21:1-9) 
Jesus purifica o Templo 
Neste mesmo dia, Jesus entra no Templo e expulsa os cambistas e comerciantes que ali faziam do Santuário de Deus um local de comércio. 
Jesus entrou no templo e expulsou todos os que ali estavam comprando e vendendo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas, e lhes disse: "Está escrito: ‘A minha casa será chamada casa de oração’; mas vocês estão fazendo dela um ‘covil de ladrões’". (Mateus 21:12,13) 
No final do dia ("domingo de ramos"), Jesus retorna para Betânia: 
“E, deixando-os, saiu da cidade para Betânia, onde passou a noite. (Mateus 21:17) 

SEGUNDA-FEIRA 

Na manhã do dia seguinte (segunda-feira), Jesus volta a Jerusalém e, no caminho, teve fome. Como não encontrou figos em uma figueira, amaldiçoou-a. 
“De manhã cedo [segunda-feira], quando voltava para a cidade [Jerusalém], (...) (Mateus 21:17,18) 
No dia seguinte [segunda-feira], quando estavam saindo de Betânia [indo para Jerusalém], Jesus teve fome. Vendo à distância uma figueira com folhas, foi ver se encontraria nela algum fruto. Aproximando-se dela, nada encontrou, a não ser folhas, porque não era tempo de figos. Então lhe disse: "Ninguém mais coma de seu fruto". E os seus discípulos ouviram-no dizer isso. (Marcos 11:12-14)
Ao final do dia, Jesus retornou para Betânia, onde se alimentava e passava a noite. 

TERÇA-FEIRA 

Ao amanhecer da terça-feira, Jesus vai novamente para Jerusalém. No caminho, passou pela figueira que ele havia amaldiçoado na manhã anterior e os discípulos notaram que ela havia secado: 
Ao cair da tarde [segunda-feira, antes do pôr do sol], eles saíram da cidade. De manhã [terça-feira], ao passarem, viram a figueira seca desde as raízes. Lembrando-se Pedro, disse a Jesus: "Mestre! Vê! A figueira que amaldiçoaste secou! " (Marcos 11:19-21) 
No final do dia, Jesus foi à casa de Simão, o leproso.

QUARTA-FEIRA

A quarta-feira (para nós, terça-feira de noite) foi a noite em que Jesus, “dois dias antes da páscoa”, esteve na casa de Simão, o leproso, para um jantar com Marta, Maria, Lázaro e seus discípulos. Ao mesmo tempo, em Jerusalém, acontecia uma reunião na casa de Caifás, o Sumo Sacerdote, convocada para decidir o que fariam com Jesus:
Tendo dito essas coisas, disse Jesus aos seus discípulos: "Como vocês sabem, estamos a dois dias da Páscoa, e o Filho do homem será entregue para ser crucificado". Naquela ocasião os chefes dos sacerdotes e os líderes religioso do povo se reuniram no palácio do sumo sacerdote, cujo nome era Caifás, e juntos planejaram prender Jesus à traição e matá-lo. Mas diziam: "Não durante a festa, para que não haja tumulto entre o povo". Estando Jesus em Betânia, na casa de Simão, o leproso... (Mateus 26:1-6)
Na casa de Simão, o leproso, no jantar, Jesus anuncia aos seus discípulos que sua crucificação estava se aproximando.
Nessa mesma oportunidade, Jesus lava os pés dos discípulos:
Um pouco antes da festa da Páscoa, sabendo Jesus que havia chegado o tempo em que deixaria este mundo e iria para o Pai, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim. Estava sendo servido o jantar, e o diabo já havia induzido Judas Iscariotes, filho de Simão, a trair Jesus. Jesus sabia que o Pai havia colocado todas as coisas debaixo do seu poder, e que viera de Deus e estava voltando para Deus; assim, levantou-se da mesa, tirou sua capa e colocou uma toalha em volta da cintura. Depois disso, derramou água numa bacia e começou a lavar os pés dos seus discípulos, enxugando-os com a toalha que estava em sua cintura. (João 13:1-5)
Ao final do jantar, Judas retira-se para negociar com os chefes dos sacerdotes a entrega de Jesus
Estando Jesus em Betânia, reclinado à mesa na casa de um homem conhecido como Simão, o leproso, (...) Então Judas Iscariotes, um dos Doze, dirigiu-se aos chefes dos sacerdotes a fim de lhes entregar Jesus. A proposta muito os alegrou, e lhe prometeram dinheiro. Assim, ele procurava uma oportunidade para entregá-lo. (Marcos 14:3-11) 
Nesta ocasião, Judas apenas negocia por 30 moedas de prata o preço pela entrega de Jesus e passa a buscar a melhor oportunidade de cumprir sua parte do trato com os sacerdotes, o que veio a ocorrer somente na sexta-feira, após a ceia, quando Jesus vai para o Monte das Oliveiras e Judas vai ao encontro dos
Não há informações sobre o período do dia de quarta-feira. Provavelmente Jesus tenha ficado em Betânia se preparando para os acontecimentos do dia seguinte, início de sua saga sacrificial.

QUINTA-FEIRA 

Neste dia Jesus não vai de manhã para Jerusalém. De Betânia, ele envia dois de seus discípulos à Jerusalém para prepararem a páscoa e só vai para lá ao anoitecer, ou seja, na sexta-feira. 
No primeiro dia da festa dos pães sem fermento, quando se costumava sacrificar o cordeiro pascal, os discípulos de Jesus lhe perguntaram: "Aonde queres que vamos e te preparemos a refeição da Páscoa? " Então ele enviou dois de seus discípulos, dizendo-lhes: "Entrem na cidade [Jerusalém], e um homem carregando um pote de água virá ao encontro de vocês. Sigam-no e digam ao dono da casa em que ele entrar: ‘O Mestre pergunta: Onde é o meu salão de hóspedes, no qual poderei comer a Páscoa com meus discípulos? ’ Ele lhes mostrará uma ampla sala no andar superior, mobiliada e pronta. Façam ali os preparativos para nós". Os discípulos se retiraram, entraram na cidade e encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito. E prepararam a Páscoa. Ao anoitecer [já era sexta-feira], Jesus chegou com os Doze. (Marcos 14:12-17) 
OBS: A referência de Marcos é ao “primeiro dia da festa dos pães sem fermento”, porque com o por do sol iniciaria a comemoração da páscoa. Assim, Jesus envia seus discípulos na quinta-feira, pois o primeiro dia da páscoa (sexta-feira) se daria após o por do sol. 

SEXTA-FEIRA 

Páscoa - ceia

Ao anoitecer, após o pôr do sol da quinta-feira, ou seja, no início da sexta-feira judaica, Jesus chega em Jerusalém para comemorar a páscoa, sua última ceia com seus discípulos:
Os discípulos se retiraram, entraram na cidade e encontraram tudo como Jesus lhes tinha dito. E prepararam a Páscoa. Ao anoitecer [início da sexta-feira], Jesus chegou com os Doze. (Marcos 14:16-17)
Jesus come a páscoa com seus discípulos e esta se torna a primeira Ceia, que passou a ser um sacramento da igreja.

O traidor é revelado

Durante a ceia, Jesus desmascara o traidor:
Ao anoitecer, Jesus estava reclinado à mesa com os Doze. E, enquanto estavam comendo, ele disse: "Digo-lhes que certamente um de vocês me trairá". Eles ficaram muito tristes e começaram a dizer-lhe, um após outro: "Com certeza não sou eu, Senhor!" Afirmou Jesus: "Aquele que comeu comigo do mesmo prato há de me trair. O Filho do homem vai, como está escrito a seu respeito. Mas ai daquele que trai o Filho do homem! Melhor lhe seria não haver nascido". Então, Judas, que haveria de traí-lo, disse: "Com certeza não sou eu, Mestre! " Jesus afirmou: "Sim, é você". (Mateus 26:20-25)
Ao anoitecer, Jesus chegou com os Doze. Quando estavam comendo, reclinados à mesa, Jesus disse: "Digo-lhes que certamente um de vocês me trairá, alguém que está comendo comigo". (Marcos 14:17,18)

Judas, possuído, retira-se para entregar Jesus

Ao final da ceia, após a revelação do traidor, Judas, possuído por Satanás, retira-se para concluir sua traição:
Depois de dizer isso, Jesus perturbou-se em espírito e declarou: "Digo-lhes que certamente um de vocês me trairá". Seus discípulos olharam uns para os outros, sem saber a quem ele se referia. Um deles, o discípulo a quem Jesus amava, estava reclinado ao lado dele. Simão Pedro fez sinais para esse discípulo, como a dizer: "Pergunte-lhe a quem ele está se referindo". Inclinando-se para Jesus, perguntou-lhe: "Senhor, quem é? "Respondeu Jesus: "Aquele a quem eu der este pedaço de pão molhado no prato". Então, molhando o pedaço de pão, deu-o a Judas Iscariotes, filho de Simão. Tão logo Judas comeu o pão, Satanás entrou nele. "O que você está para fazer, faça depressa", disse-lhe Jesus. Mas ninguém à mesa entendeu por que Jesus lhe disse isso. Visto que Judas era o encarregado do dinheiro, alguns pensaram que Jesus estava lhe dizendo que comprasse o necessário para a festa, ou que desse algo aos pobres. Assim que comeu o pão, Judas saiu. E era noite. Depois que Judas saiu, Jesus disse: "Agora o Filho do homem é glorificado, e Deus é glorificado nele. (João 13:21-31)

Jesus vai para o Monte das Oliveiras

Enquanto Judas se dirige aos sacerdotes, Jesus retira-se para o Monte das Oliveiras.
Enquanto comiam, Jesus tomou o pão, deu graças, partiu-o, e o deu aos discípulos, dizendo: "Tomem; isto é o meu corpo". Em seguida tomou o cálice, deu graças, ofereceu-o aos discípulos, e todos beberam. E lhes disse: "Isto é o meu sangue da aliança, que é derramado em favor de muitos. Eu lhes afirmo que não beberei outra vez do fruto da videira, até aquele dia em que beberei o vinho novo no Reino de Deus". Depois de terem cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras. (Marcos 14:22-26)

Pedro nega Jesus

No caminho do Monte das Oliveiras, Jesus fala sobre seu abandono antes da crucificação e, ante a reação de Pedro, profetizou que Pedro o negaria antes que o galo cantasse três vezes.
Depois de terem cantado um hino, saíram para o monte das Oliveiras. Então Jesus lhes disse: "Ainda esta noite todos vocês me abandonarão. Pois está escrito: ‘Ferirei o pastor, e as ovelhas do rebanho serão dispersas’. Mas, depois de ressuscitar, irei adiante de vocês para a Galiléia". Pedro respondeu: "Ainda que todos te abandonem, eu nunca te abandonarei!" Respondeu Jesus: "Asseguro-lhe que ainda esta noite, antes que o galo cante, três vezes você me negará". (Mateus 26:30-34)
A oração do Getsêmani
Chegando ao local conhecido como Getsêmani, Jesus se apartou de seus discípulos para orar reservadamente. Os discípulos adormeceram enquanto Jesus aceitava do Pai o cálice que estava para tomar:
Então Jesus foi com seus discípulos para um lugar chamado Getsêmani e disse-lhes: "Sentem-se aqui enquanto vou ali orar". Levando consigo Pedro e os dois filhos de Zebedeu, começou a entristecer-se e a angustiar-se. Disse-lhes então: "A minha alma está profundamente triste, numa tristeza mortal. Fiquem aqui e vigiem comigo". Indo um pouco mais adiante, prostrou-se com o rosto em terra e orou: "Meu Pai, se for possível, afasta de mim este cálice; contudo, não seja como eu quero, mas sim como tu queres". Então, voltou aos seus discípulos e os encontrou dormindo. "Vocês não puderam vigiar comigo nem por uma hora? ", perguntou ele a Pedro. "Vigiem e orem para que não caiam em tentação. O espírito está pronto, mas a carne é fraca". E retirou-se outra vez para orar: "Meu Pai, se não for possível afastar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade". Quando voltou, de novo os encontrou dormindo, porque seus olhos estavam pesados. Então os deixou novamente e orou pela terceira vez, dizendo as mesmas palavras. Depois voltou aos discípulos e lhes disse: "Vocês ainda dormem e descansam? Chegou a hora! Eis que o Filho do homem está sendo entregue nas mãos de pecadores. (Mateus 26:36-45)

Jesus é preso

Depois da terceira vez que Jesus encontra os discípulos dormindo, pede que se levantem porque Judas estava chegando com os enviados dos chefes dos sacerdotes e líderes religiosos do povo. Judas identifica Jesus com um beijo, Pedro corta a orelha de Malco e o mestre foi preso:
Levantem-se e vamos! Aí vem aquele que me trai!" Enquanto ele ainda falava, chegou Judas, um dos Doze. Com ele estava uma grande multidão armada de espadas e varas, enviada pelos chefes dos sacerdotes e líderes religiosos do povo. O traidor havia combinado um sinal com eles, dizendo-lhes: "Aquele a quem eu saudar com um beijo, é ele; prendam-no". Dirigindo-se imediatamente a Jesus, Judas disse: "Salve, Mestre! ", e o beijou. Jesus perguntou: "Amigo, que é que o traz? " Então os homens se aproximaram, agarraram Jesus e o prenderam. Um dos que estavam com Jesus, estendendo a mão, puxou a espada e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha. Disse-lhe Jesus: "Guarde a espada! Pois todos os que empunham a espada, pela espada morrerão. (Mateus 26:46-52)
Levantem-se e vamos! Aí vem aquele que me trai!" Enquanto ele ainda falava, apareceu Judas, um dos Doze. Com ele estava uma multidão armada de espadas e varas, enviada pelos chefes dos sacerdotes, mestres da lei e líderes religiosos. O traidor havia combinado um sinal com eles: "Aquele a quem eu saudar com um beijo, é ele: prendam-no e levem-no em segurança". Dirigindo-se imediatamente a Jesus, Judas disse: "Mestre! ", e o beijou. Os homens agarraram Jesus e o prenderam. (Marcos 14:42-46)
Simão Pedro, que trazia uma espada, tirou-a e feriu o servo do sumo sacerdote, decepando-lhe a orelha direita. (O nome daquele servo era Malco.) Jesus, porém, ordenou a Pedro: "Guarde a espada! Acaso não haverei de beber o cálice que o Pai me deu?" Assim, o destacamento de soldados com o seu comandante e os guardas dos judeus prenderam Jesus. Amarraram-no e o levaram primeiramente a Anás, que era sogro de Caifás, o sumo sacerdote naquele ano. (João 18:10-13)

Jesus é levado a Anás, sogro do Sumo Sacerdote

Do Getsêmani Jesus foi levado amarrado à Casa de Anás (sogro de Caifás), para ser interrogado pelo Sumo Sacerdote Caifás. Jesus sofre as primeiras agressões. Além de ter sido conduzido amarrado, um soldado o esbofeteia porque não gostou da resposta que Jesus deu ao Sumo Sacerdote.
Assim, o destacamento de soldados com o seu comandante e os guardas dos judeus prenderam Jesus. Amarraram-no e o levaram primeiramente a Anás, que era sogro de Caifás, o sumo sacerdote naquele ano. Caifás era quem tinha dito aos judeus que seria bom que um homem morresse pelo povo. (João 18:12-14)
Enquanto isso, o sumo sacerdote interrogou Jesus acerca dos seus discípulos e dos seus ensinamentos. Respondeu-lhe Jesus: "Eu falei abertamente ao mundo; sempre ensinei nas sinagogas e no templo, onde todos os judeus se reúnem. Nada disse em segredo. Por que me interrogas? Pergunta aos que me ouviram. Certamente eles sabem o que eu disse". Quando Jesus disse isso, um dos guardas que estava perto bateu-lhe no rosto. "Isso é jeito de responder ao sumo sacerdote? ", perguntou ele. Respondeu Jesus: "Se eu disse algo de mal, denuncie o mal. Mas se falei a verdade, por que me bateu? " (João 18:19-23)

Jesus é enviado a Caifás, o Sumo Sacerdote

O Sinédrio judaico reuniu-se na casa de Caifás para julgar Jesus. Como não encontraram testemunho capaz de justificar a condenação, contrataram pessoas para dar falso testemunho a respeito de Jesus até que conseguiram duas testemunhas que afirmaram ter ouvido de Jesus que ele destruiria o Templo e o reconstruiria em 3 dias. Então Caifás perguntou se Jesus era o Cristo. Ao ouvir sua resposta, condenou Jesus por blasfêmia:
Então, Anás enviou Jesus, de mãos amarradas, a Caifás, o sumo sacerdote. (João 18:24)
Os chefes dos sacerdotes e todo o Sinédrio estavam procurando um depoimento falso contra Jesus, para que pudessem condená-lo à morte. Mas nada encontraram, embora se apresentassem muitas falsas testemunhas. Finalmente se apresentaram duas que declararam: "Este homem disse: ‘Sou capaz de destruir o santuário de Deus e reconstruí-lo em três dias’". Então o sumo sacerdote levantou-se e disse a Jesus: "Você não vai responder à acusação que estes lhe fazem? " Mas Jesus permaneceu em silêncio. O sumo sacerdote lhe disse: "Exijo que você jure pelo Deus vivo: se você é o Cristo, o Filho de Deus, diga-nos". "Tu mesmo o disseste", respondeu Jesus. "Mas eu digo a todos vós: chegará o dia em que vereis o Filho do homem assentado à direita do Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu". Foi quando o sumo sacerdote rasgou as próprias vestes e disse: "Blasfemou! Por que precisamos de mais testemunhas? Vocês acabaram de ouvir a blasfêmia. Que acham? " "É réu de morte! ", responderam eles. (Mateus 26:59-66)
Depois o sumo sacerdote levantou-se diante deles e perguntou a Jesus: "Você não vai responder à acusação que estes lhe fazem? " Mas Jesus permaneceu em silêncio e nada respondeu. Outra vez o sumo sacerdote lhe perguntou: "Você é o Cristo, o Filho do Deus Bendito? " "Sou", disse Jesus. "E vereis o Filho do homem assentado à direita do Poderoso vindo com as nuvens do céu". O sumo sacerdote, rasgando as próprias vestes, perguntou: "Por que precisamos de mais testemunhas? Vocês ouviram a blasfêmia. Que acham? " Todos o julgaram digno de morte. (Marcos 14:60-64)

Jesus sofre humilhação e agressões físicas

Ao final do julgamento pelo Sinédrio, Jesus foi humilhado, agredido fisicamente e insultado pelos presentes:
Então alguns lhe cuspiram no rosto e lhe deram murros. Outros lhe davam tapas e diziam: "Profetize-nos, Cristo. Quem foi que lhe bateu?" (Mateus 26:67-68)
Então alguns começaram a cuspir nele; vendaram-lhe os olhos e, dando-lhe murros, diziam: "Profetize! " E os guardas o levaram, dando-lhe tapas. (Marcos 14:65)

Pilatos condena Jesus à crucificação

Ao amanhecer da sexta-feira, Jesus foi novamente amarrado e entregue a Pilatos, a quem competia a condenação da pena de morte:
De manhã bem cedo, os chefes dos sacerdotes com os líderes religiosos, os mestres da lei e todo o Sinédrio chegaram a uma decisão. Amarrando Jesus, levaram-no e o entregaram a Pilatos. (Marcos 15:1)
Pilatos, sem identificar crime passível de morte em Jesus, ofereceu à multidão a oportunidade de libertação de um prisioneiro em razão da festa da páscoa. As opções eram Jesus ou Barrabás. Ao escolher Barrabás, Jesus foi sentenciado à morte de cruz.
"Vocês querem que eu lhes solte o rei dos judeus? ", perguntou Pilatos, sabendo que fora por inveja que os chefes dos sacerdotes lhe haviam entregado Jesus. Mas os chefes dos sacerdotes incitaram a multidão a pedir que Pilatos, ao contrário, soltasse Barrabás. "Então, que farei com aquele a quem vocês chamam rei dos judeus? ", perguntou-lhes Pilatos. "Crucifica-o", gritaram eles. "Por quê? Que crime ele cometeu? ", perguntou Pilatos. Mas eles gritavam ainda mais: "Crucifica-o! " Desejando agradar a multidão, Pilatos soltou-lhes Barrabás, mandou açoitar Jesus e o entregou para ser crucificado. (Marcos 15:9-15)

A coroa de espinhos

Após a sentença, Jesus ficou nas mãos dos soldados romanos, que o humilharam e o maltrataram:
Os soldados levaram Jesus para dentro do palácio, isto é, ao Pretório e reuniram toda a tropa. Vestiram-no com um manto de púrpura, depois fizeram uma coroa de espinhos e a colocaram nele. E começaram a saudá-lo: "Salve, rei dos judeus! " Batiam-lhe na cabeça com uma vara e cuspiam nele. Ajoelhavam-se e lhe prestavam adoração. Depois de terem zombado dele, tiraram-lhe o manto de púrpura e vestiram-lhe suas próprias roupas. Então o levaram para fora, a fim de crucificá-lo. (Marcos 15:16-20)

A crucificação

Saindo do Pretório bem cedo, os soldados levaram Jesus ao Gólgota, conhecido como “Lugar da Caveira” e às 9 horas da manhã de sexta-feira Jesus foi crucificado:
Levaram Jesus ao lugar chamado Gólgota, que quer dizer Lugar da Caveira. Então lhe deram vinho misturado com mirra, mas ele não o bebeu. E o crucificaram. Dividindo as roupas dele, tiraram sortes para saber com o que cada um iria ficar. Eram nove horas da manhã quando o crucificaram. (Marcos 15:22-25)

A morte de Jesus

Ao meio-dia a terra escureceu e assim permaneceu até às 15h, quando Jesus rendeu o seu espírito:
Já era quase meio dia, e trevas cobriram toda a terra até às três horas da tarde; o sol deixara de brilhar. E o véu do santuário rasgou-se ao meio. Jesus bradou em alta voz: "Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito". Tendo dito isso, expirou. (Lucas 23:44-46)
Mas Jesus, com um alto brado, expirou. E o véu do santuário rasgou-se em duas partes, de alto a baixo. Quando o centurião que estava em frente de Jesus ouviu o seu brado e viu como ele morreu, disse: "Realmente este homem era o Filho de Deus! " (Marcos 15:37-39)
Segundo a tradição católica, esta é a “SEXTA-FEIRA DA PAIXÃO”. 

SÁBADO

 Como se tratava do dia de descanso dos Judeus, as mulheres aguardaram o amanhecer do domingo para irem ao sepulcro, fazer preparativos no corpo de Jesus. Segundo a tradição católica, este é o “SÁBADO DE ALELUIA” da semana santa. 

DOMINGO 

Jesus não está no sepulcro, ressuscitou. Segundo a tradição católica, este é o “DOMINGO DE PÁSCOA”. 
"Não tenham medo", disse ele. "Vocês estão procurando Jesus, o Nazareno, que foi crucificado. Ele ressuscitou! Não está aqui. Vejam o lugar onde o haviam posto. (Marcos 16:6) 

DESENCONTROS DAS NARRATIVAS DOS EVANGELHOS ATÉ A CRUCIFICAÇÃO 

A FIGUEIRA AMALDIÇOADA POR JESUS 
Segundo o evangelho de Mateus, na segunda-feira, após o “domingo de ramos”, Jesus sai de Betânia para retornar à Jerusalém e no caminho teve fome. Passando por uma figueira com folhas, mas sem frutos, amaldiçoou-a, de modo que ela secou-se imediatamente. 
E, deixando-os, saiu da cidade para Betânia, onde passou a noite. De manhã cedo, quando voltava para a cidade, Jesus teve fome. Vendo uma figueira à beira do caminho, aproximou-se dela, mas nada encontrou, a não ser folhas. Então lhe disse: "Nunca mais dê frutos! " Imediatamente a árvore secou. (Mateus 21:17-19) 
Segundo os estudiosos dos evangelhos, esta é mais uma narrativa condensada, um resumo de um fato que, na visão de Mateus, não merecia maiores detalhes, bastando apresentar a essência do ocorrido.
Isso porque o evangelista Marcos relata que Jesus teria amaldiçoado a figueira na manhã de segunda-feira, quando se dirigia a Jerusalém, e somente na manhã da terça-feira, quando ele estaria fazendo o mesmo percurso para Jerusalém é que os discípulos constataram que a figueira havia secado. 
Muitos estenderam seus mantos pelo caminho, outros espalharam ramos que haviam cortado nos campos. Os que iam adiante dele e os que o seguiam gritavam: "Hosana! " "Bendito é o que vem em nome do Senhor! " "Bendito é o Reino vindouro de nosso pai Davi! " "Hosana nas alturas! " Jesus entrou em Jerusalém e dirigiu-se ao templo. Observou tudo à sua volta e, como já era tarde, foi para Betânia com os Doze. No dia seguinte [segunda-feira], quando estavam saindo de Betânia, Jesus teve fome. Vendo à distância uma figueira com folhas, foi ver se encontraria nela algum fruto. Aproximando-se dela, nada encontrou, a não ser folhas, porque não era tempo de figos. Então lhe disse: "Ninguém mais coma de seu fruto". E os seus discípulos ouviram-no dizer isso. (Marcos 11:8-14) 
De manhã [terça-feira], ao passarem, viram a figueira seca desde as raízes. Lembrando-se Pedro, disse a Jesus: "Mestre! Vê! A figueira que amaldiçoaste secou! " (Marcos 11:20,21) 
Nossa opção ao apresentar a cronologia dos fatos considera que a figueira foi amaldiçoada na segunda-feira pela manhã e foi encontrada seca na terça-feira de manhã, uma vez que a narrativa de Marcos apresenta melhor detalhamento sobre o fato do que a narrativa de Mateus. 
A UNÇÃO DE JESUS EM BETÂNIA 
Segundo João, Maria teria ungido Jesus na refeição que ocorreu seis dias antes da páscoa. 
Seis dias antes da Páscoa Jesus chegou a Betânia, onde vivia Lázaro, a quem ressuscitara dos mortos. ali prepararam um jantar para Jesus. Marta servia, enquanto Lázaro estava à mesa com ele. Então Maria pegou um frasco de nardo puro, que era um perfume caro, derramou-o sobre os pés de Jesus e os enxugou com os seus cabelos. E a casa encheu-se com a fragrância do perfume. (João12:1-3) 
Os evangelhos sinóticos (Mateus e Marcos) informam que dois dias antes da páscoa, em Betânia, houve uma refeição na casa de Simão, o leproso. A divergência com o evangelho de João está em relação à unção de Jesus por Maria. Mateus e Marcos afirmam que foi na refeição que ocorreu dois dias antes da páscoa que Jesus teria sido ungido por Maria. 
Tendo dito essas coisas, disse Jesus aos seus discípulos: "Como vocês sabem, estamos a dois dias da Páscoa, e o Filho do homem será entregue para ser crucificado". Naquela ocasião os chefes dos sacerdotes e os líderes religioso do povo se reuniram no palácio do sumo sacerdote, cujo nome era Caifás, e juntos planejaram prender Jesus à traição e matá-lo. Mas diziam: "Não durante a festa, para que não haja tumulto entre o povo". Estando Jesus em Betânia, na casa de Simão, o leproso, aproximou-se dele uma mulher com um frasco de alabastro contendo um perfume muito caro. Ela o derramou sobre a cabeça de Jesus, quando ele se encontrava reclinado à mesa. (Mateus 26:1-7)
Faltavam apenas dois dias para a Páscoa e para a festa dos pães sem fermento. Os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei estavam procurando um meio de flagrar Jesus em algum erro e matá-lo. Mas diziam: "Não durante a festa, para que não haja tumulto entre o povo". Estando Jesus em Betânia, reclinado à mesa na casa de um homem conhecido como Simão, o leproso, aproximou-se dele certa mulher com um frasco de alabastro contendo um perfume muito caro, feito de nardo puro. Ela quebrou o frasco e derramou o perfume sobre a cabeça de Jesus. (Marcos 14:1-3) 
É certo que Jesus fez mais de uma refeição ao fim do dia na cidade de Betânia, pois ele foi a Jerusalém algumas vezes nos seis dias que antecederam a páscoa. Ele ia a Jerusalém pela manhã, mas voltava no fim do dia para dormir em Betânia. 
Jesus entrou no templo e expulsou todos os que ali estavam comprando e vendendo. Derrubou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas, e lhes disse: "Está escrito: ‘A minha casa será chamada casa de oração’; mas vocês estão fazendo dela um ‘covil de ladrões’". Os cegos e os mancos aproximaram-se dele no templo, e ele os curou. Mas quando os chefes dos sacerdotes e os mestres da lei viram as coisas maravilhosas que Jesus fazia e as crianças gritando no templo: "Hosana ao Filho de Davi", ficaram indignados, e lhe perguntaram: "Não estás ouvindo o que estas crianças estão dizendo? " Respondeu Jesus: "Sim, vocês nunca leram: ‘dos lábios das crianças e dos recém-nascidos suscitaste louvor’? " E, deixando-os, saiu da cidade para Betânia, onde passou a noite. De manhã cedo, quando voltava para a cidade, Jesus teve fome. (Mateus 21:12-18) 
"Bendito é o Reino vindouro de nosso pai Davi! " "Hosana nas alturas! " Jesus entrou em Jerusalém e dirigiu-se ao templo. Observou tudo à sua volta e, como já era tarde, foi para Betânia com os Doze. No dia seguinte, quando estavam saindo de Betânia, Jesus teve fome. (Marcos 11:10-12) 
Então ele entrou no templo e começou a expulsar os que estavam vendendo. Disse-lhes: "Está escrito: ‘A minha casa será casa de oração’; mas vocês fizeram dela ‘um covil de ladrões’". Todos os dias ele ensinava no templo. Mas os chefes dos sacerdotes, os mestres da lei e os líderes do povo procuravam matá-lo. (Lucas 19:45-47) 
Possivelmente, a coincidência de refeições diversas em Betânia deve causado uma referência incorreta de um dos evangelistas em relação a qual dessas ocasiões Jesus teria sido ungido por Maria. 
Nossa opção ao apresentar a cronologia dos fatos considera que a unção de Jesus por Maria teria ocorrido no jantar que ocorreu seis dias antes da páscoa, devido à sequência mais regular dos fatos apresentadas no evangelho de João. 
Brasília/DF, em 9 de abril de 2017. 
Pastor Sólon Pereira
 
Desigrejados

Imagem Ilustrativa

DA LIBERTAÇÃO AO CULTO A DEUS 

Enquanto o povo hebreu esta escravizado no Egito, não havia para eles nenhuma oportunidade de liberdade religiosa. Eles não podiam cultuar a Deus como haviam aprendido com seus antepassados, porque no Egito o bode, o boi e a vaca, por exemplo, eram animais sagrados e não podiam ser oferecidos em sacrifício para adoração ao Senhor. 
Por mais que o povo conhecesse a história de seus antepassados e de um Deus que havia feito promessas a Abraão, a falta do culto à divindade enfraquecia os laços entre eles e Deus. Entretanto, todos sabiam que o Deus deles não era como os deuses dos egípcios e, por isso, no auge da sua angústia, eles clamaram e o Senhor os ouviu. 

"23 Decorridos muitos dias, morreu o rei do Egito; os filhos de Israel gemiam sob a servidão e por causa dela clamaram, e o seu clamor subiu a Deus." (Êxodo 2:23)

É de se notar que o grito de socorro do povo era em razão da tirania com que eles eram tratados e não porque desejassem cultuar ao Senhor. Na verdade, eles apenas queriam se livrar da dor, da angústia e dos sofrimentos que pesavam sobre eles.
Ao ouvir a súplica do povo, o Senhor enviou o libertador, Moisés, que já estava sendo preparado para aquele momento. Orientado por Deus, Moisés se apresenta ao povo e expõe a proposta de libertação que incluía não só o fim da escravidão, da dor, da angústia e do sofrimento, mas a promessa de uma terra melhor, de uma vida futura gloriosa. A esperança brota nos corações, mas a proposta de Deus para a libertação e para a vitória incluía a sua motivação para resgatá-los: “para que me prestem culto”. Isso significava celebrar festa ao Senhor, oferecer sacrifícios e servi-lo. 

"1 Depois, foram Moisés e Arão e disseram a Faraó: Assim diz o Senhor, Deus de Israel: Deixa ir o meu povo, para que me celebre uma festa no deserto. 2 Respondeu Faraó: Quem é o Senhor para que lhe ouça eu a voz e deixe ir a Israel? Não conheço o Senhor, nem tampouco deixarei ir a Israel. 3 Eles prosseguiram: O Deus dos hebreus nos encontrou; deixa-nos ir, pois, caminho de três dias ao deserto, para que ofereçamos sacrifícios ao Senhor, nosso Deus, e não venha ele sobre nós com pestilência ou com espada." (Êxodo 5:1-3) 

"16 Diga-lhe: o Senhor, o Deus dos hebreus, mandou-me dizer-lhe: Deixe ir o meu povo, para prestar-me culto no deserto. Mas até agora você não me atendeu. " (Êxodo 7:16 NVI) 

Assim que o povo foi tirado do Egito pela mão forte e poderosa de Deus, a ordem do Senhor no deserto foi a construção de um templo móvel, o Tabernáculo, que poderia ser montado e desmontado para acompanha-los em toda a sua jornada rumo à Canaã. O tabernáculo, portanto, seria o local escolhido por Deus para ser o centro do culto e da adoração de seu povo, assim como ele havia planejado desde o momento em que enviou Moisés para conduzi-los para fora do Egito. 
Podemos perceber que embora o propósito inicial daquele que sofre pela escravidão de Faraó seja apenas livrar-se do sofrimento, Deus tem mais que isso para ele. O Senhor tem promessa de uma vida melhor, mas a motivação do criador para libertá-lo não é simplesmente para que ele viva melhor, mas para que ele seja um adorador, um participante do culto e do serviço a Deus. Se, por um lado, a motivação inicial do homem é ser abençoado, a de Deus é ser cultuado. 
Desse modo, Deus deixa claro aos israelitas que pretendiam ser livres da escravidão, e de suas mazelas, almejando alcançar as promessas de Deus, que eles não deveriam se esquecer que o Senhor esperava que eles se tornassem adoradores no local que ele estaria escolhendo para que eles o servissem. Essa era a condição do Soberano. 

O LOCAL DO CULTO NO VELHO TESTAMENTO 

Quando Deus estabeleceu a velha aliança no deserto, ao apresentar suas leis, mostrou, também, os detalhes de como ele deveria ser cultuado. Designou como seria o local do culto, com seus detalhes estruturais e seus utensílios, além de designar os trabalhadores levitas e consagrar os sacerdotes da família de Arão. Por fim, o Senhor definiu os detalhes do ritual que eles deveriam seguir para lhe prestar culto e disse que naquele local ele próprio se encontraria com o povo, o santificaria e se manifestaria. 

"42 Este será o holocausto contínuo por vossas gerações, à porta da tenda da congregação, perante o Senhor, onde vos encontrarei, para falar contigo ali. 43 Ali, virei aos filhos de Israel, para que, por minha glória, sejam santificados, 44 e consagrarei a tenda da congregação e o altar; também santificarei Arão e seus filhos, para que me oficiem como sacerdotes." (Êxodo 29:42-44) 

Naquele momento inaugural do culto e da consagração dos sacerdotes, Deus deixou claro que seu desejo era perpetuar pelas gerações seguintes o serviço e o culto a ele. Por isso, na ocasião em que apontou para o futuro, vislumbrando o dia em que os israelitas haveriam de tomar posse da terra prometida, o Senhor fez questão de afirmar que ele próprio escolheria um local para que o povo acorresse para ali com o fim de lhe prestar culto. Os israelitas não deveriam fazer como os outros povos, onde cada servia ao seu deus como melhor lhe parecia. 

Vocês, porém, não adorarão ao Senhor, o seu Deus, como eles. Mas procurarão o local que o Senhor, o seu Deus, escolher dentre todas as tribos para ali pôr o seu nome para sua habitação. Para lá vocês deverão ir (...) Vocês não agirão como estamos agindo aqui, cada um fazendo o que bem entende, pois ainda não chegaram ao lugar de descanso e à herança que o Senhor, o seu Deus, lhes está dando. (...) Então, para o lugar que o Senhor, o seu Deus, escolher como habitação do seu Nome, vocês levarão tudo o que eu lhes ordenar: holocaustos e sacrifícios, dízimos e dádivas especiais e tudo o que tiverem prometido em voto ao Senhor. E regozijem-se ali perante o Senhor, o seu Deus, vocês, os seus filhos e filhas, os seus servos e servas e os levitas que vivem nas cidades de vocês, por não terem recebido terras nem propriedades. Tenham o cuidado de não sacrificar os seus holocaustos em qualquer lugar que lhes agrade. (Deutereonômio 12:4-5; 8-13 NVI) 

Interessante notar que o propósito de haver um local específico para se prestar culto não era apenas um capricho de Deus, mas um desejo de união, integração entre famílias, levitas, nação e Deus. Além disso, era uma oportunidade para se acolher o estrangeiro o órfão e a viúva, incluindo-os em sua celebração e, ao mesmo tempo, amparando-os. Todos deveriam se alegrar naquele lugar, apresentar sua gratidão, suas ofertas, seus dízimos e compartilhá-los com suas famílias, com os levitas, com os estrangeiros, com os órfãos e com as viúvas. Assim, o Senhor pretendia manter a nação integrada em torno dele e não deveria haver desamparo ao menos favorecidos nem isolamento de grupos ou de famílias. 

"11 Alegrar-te-ás perante o Senhor, teu Deus, tu, e o teu filho, e a tua filha, e o teu servo, e a tua serva, e o levita que está dentro da tua cidade, e o estrangeiro, e o órfão, e a viúva que estão no meio de ti, no lugar que o Senhor, teu Deus, escolher para ali fazer habitar o seu nome." (Deuteronômio 16:11) 

Apenas por exceção, na impossibilidade de deslocamento, os sacrifícios a Deus poderiam ser oferecidos fora do lugar escolhido por Deus. Mas, nesse caso, o Senhor faz questão de dizer que não teria o mesmo significado. Vacas e ovelhas deveriam ser comidas como se eles estivessem comendo animais cujas carnes não têm o mesmo sabor. 

21 Se estiver longe de ti o lugar que o Senhor, teu Deus, escolher para nele pôr o seu nome, então, matarás das tuas vacas e tuas ovelhas, que o Senhor te houver dado, como te ordenei; e comerás dentro da tua cidade, segundo todo o teu desejo. 22 Porém, como se come da carne do corço e do veado, assim comerás destas carnes; destas comerá tanto o homem imundo como o limpo.” (Deuteronômio 12:21-22) 

Portanto, os princípios muito bem definidos em razão do local de culto eram o do amor, da integração e do amparo aos necessitados, ou melhor, podemos resumi-los em comunhão e amor a Deus e ao próximo. 

O CULTO A DEUS NO NOVO TESTAMENTO 

De modo semelhante ao que ocorreu com a libertação dos hebreus, cada pessoa liberta da escravidão do pecado e das garras de Satanás (Faraó) deve entender qual o propósito de Deus ao agir em seu favor. Deus não livra o homem da escravidão do pecado para que ele viva para ele mesmo, de modo egoísta e independente, mas para que ele esteja a serviço do seu Reino, prestando culto e adoração ao Senhor. Esse propósito também está manifesto na razão da criação do homem. 

"4 assim como nos escolheu, nele, antes da fundação do mundo, para sermos santos e irrepreensíveis perante ele; e em amor 5 nos predestinou para ele, para a adoção de filhos, por meio de Jesus Cristo, segundo o beneplácito de sua vontade, 6 para louvor da glória de sua graça, que ele nos concedeu gratuitamente no Amado, (...) 11 nele, digo, no qual fomos também feitos herança, predestinados segundo o propósito daquele que faz todas as coisas conforme o conselho da sua vontade, 12 a fim de sermos para louvor da sua glória, nós, os que de antemão esperamos em Cristo;" (Efésios 1:4-6; 11-12) 

Por isso, cada um dos resgatados pelo Senhor para uma nova vida deve se tornar um discípulo de Jesus Cristo e procurar envolver-se com o seu propósito, participando dos cultos e reuniões da igreja. 

POR QUE DEVEMOS NOS REUNIR? 

Uma dúvida pode surgir no coração dos novos libertos, nascidos de novo. Por que temos que reunir com os demais irmãos e não podemos seguir nosso caminho devocional isoladamente? 

Jesus se reunia diariamente no Templo 

Enquanto Jesus estava em Jerusalém, ia ao Templo todos os dias, onde aproveitava a reunião de pessoas para pregar seus ensinamentos. 

"47 Diariamente, Jesus ensinava no templo; mas os principais sacerdotes, os escribas e os maiorais do povo procuravam eliminá-lo;" (Lucas 19:47) 

"53 Diariamente, estando eu convosco no templo, não pusestes as mãos sobre mim. Esta, porém, é a vossa hora e o poder das trevas. " (Lucas 22:53) 

Notamos, também, que Jesus não menosprezou o Templo, como se fosse um lugar qualquer. A única ocasião em que vemos o mestre se irritar foi exatamente quando expulsou os cambistas e comerciantes que se aproveitavam das reuniões para auferir lucros. Jesus deixou claro naquela oportunidade que aquele local estava reservado por Deus como “Casa de oração”.

"12 Tendo Jesus entrado no templo, expulsou todos os que ali vendiam e compravam; também derribou as mesas dos cambistas e as cadeiras dos que vendiam pombas. 13 E disse-lhes: Está escrito: A minha casa será chamada casa de oração; vós, porém, a transformais em covil de salteadores. 14 Vieram a ele, no templo, cegos e coxos, e ele os curou." (Mateus 21:12-14)

Jesus se reunia nas sinagogas 

Estando fora de Jerusalém, na galileia ou na Judeia, Jesus também procurava reunir-se nas sinagogas dos judeus, local onde ensinava o evangelho do reino e realizava curas e milagres.

"23 Percorria Jesus toda a Galiléia, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades entre o povo." (Mateus 4:23) 

"44 E pregava nas sinagogas da Judéia." (Lucas 4:44)

"35 E percorria Jesus todas as cidades e povoados, ensinando nas sinagogas, pregando o evangelho do reino e curando toda sorte de doenças e enfermidades." (Mateus 9:35) 

"21 Depois, entraram em Cafarnaum, e, logo no sábado, foi ele ensinar na sinagoga." (Marcos 1:21)

"2 Chegando o sábado, passou a ensinar na sinagoga; e muitos, ouvindo-o, se maravilhavam, dizendo: Donde vêm a este estas coisas? Que sabedoria é esta que lhe foi dada? E como se fazem tais maravilhas por suas mãos?" (Marcos 6:2) 

Em Nazaré, cidade onde fora criado, embora todos o conhecessem, Jesus não andou de casa em casa, reunindo-se com pequenos grupos, mas preferiu dirigir-se à Sinagoga para anunciar seu evangelho. 

"54 E, chegando à sua terra, ensinava-os na sinagoga, de tal sorte que se maravilhavam e diziam: Donde lhe vêm esta sabedoria e estes poderes miraculosos? 55 Não é este o filho do carpinteiro? Não se chama sua mãe Maria, e seus irmãos, Tiago, José, Simão e Judas? 56 Não vivem entre nós todas as suas irmãs? Donde lhe vem, pois, tudo isto?" (Mateus 13:54-56) 

Notamos, também, que Jesus tinha o hábito (costume) de frequentar a sinagoga aos sábados, onde ouvia e fazia leitura das escrituras. 

"16 Indo para Nazaré, onde fora criado, entrou, num sábado, na sinagoga, segundo o seu costume, e levantou-se para ler." (Lucas 4:16) 

Enfim, todos os evangelhos deixam explícito que Jesus tinha o hábito de se reunir nas sinagogas (fora de Jerusalém) e no Templo (em Jerusalém), locais onde tinha a oportunidade de compartilhar o evangelho do reino com seus discípulos, com todo o povo e com os demais religiosos de seu tempo. 

"20 Declarou-lhe Jesus: Eu tenho falado francamente ao mundo; ensinei continuamente tanto nas sinagogas como no templo, onde todos os judeus se reúnem, e nada disse em oculto." (João 18:20) 

Jesus se reunia em outros locais 

Nem todas as reuniões de Jesus eram planejadas, como as que participava nas sinagogas. Afinal, onde Jesus estivesse ali estariam pessoas o seguindo, de modo que até mesmo no caminho, em seus deslocamentos, havia ajuntamentos esperando que ele proferisse palavras de ensino e manifestasse o poder de Deus. 
Pelo evangelho de Marcos, podemos ter uma boa visão desse fato. Jesus foi batizado por João Batista, vai para o deserto para se consagrar e, em seguida, escolhe seus discípulos e vai para Cafarnaum, onde procura a Sinagoga para ensinar (Mc 1:21). Quando sai da Sinagoga com seus discípulos foi para a casa de Simão, onde curou a sua sogra (Mc 1:29-31).  Evidentemente, a notícia se espalhou e uma multidão de pessoas se avolumou ao anoitecer ao redor da casa onde Jesus estava. Embora não fosse a intenção de Jesus fazer uma reunião na casa de Simão, ele aproveitou a ocasião - curou os doentes e libertou os endemoninhados (Mc 1:32-34). Na madrugada do dia seguinte, Jesus buscou um lugar reservado para orar sozinho (Mc 1:35). Quando os discípulos o encontraram, Jesus os convida a irem aos povoados vizinhos para pregar o evangelho do Reino. E assim ele fez, percorrendo toda a Galileia e pregando nas sinagogas (Mc 1:38-39). 
Importante registo de Marcos nos mostra a razão pela qual Jesus foi impedido de continuar pregando nas sinagogas por um certo tempo. Um leproso que havia sido curado por Jesus fez um excelente trabalho de divulgação do milagre recebido, de tal modo que a multidão tornou-se impedimento para que Jesus entrasse nas cidades. Dada a quantidade de pessoas que o cercavam, Jesus não conseguia ficar em locais fechados. 

“40 Aproximou-se dele um leproso rogando-lhe, de joelhos: Se quiseres, podes purificar-me. 41 Jesus, profundamente compadecido, estendeu a mão, tocou-o e disse-lhe: Quero, fica limpo! 42 No mesmo instante, lhe desapareceu a lepra, e ficou limpo. 43 Fazendo-lhe, então, veemente advertência, logo o despediu 44  e lhe disse: Olha, não digas nada a ninguém; mas vai, mostra-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que Moisés determinou, para servir de testemunho ao povo.” 45 Mas, tendo ele saído, entrou a propalar muitas coisas e a divulgar a notícia, a ponto de não mais poder Jesus entrar publicamente em qualquer cidade, mas permanecia fora, em lugares ermos; e de toda parte vinham ter com ele." (Marcos 1:40-45) 

Em momento futuro, quando Jesus retornou a Cafarnaum, estando ele em casa, a multidão o cercou novamente e ali somente os poucos que conseguiram entrar naquela residência tiveram o privilégio de ouvir o que ele ensinava. Na mesma oportunidade um paralítico, ajudado por seus amigos, invadiu a casa pelo telhado e foi curado (Mc 2:1-12). Ao conseguir sair dali, Jesus seguia beira-mar da Galileia e devido à multidão que o cercava passou a ensiná-los ao ar livre (Mc 2:13). Nesse seu trajeto, viu o publicano Levi, filho de Alfeu, na coletoria, chamou-o e depois foi almoçar em sua casa, onde foi inquirido sobre o jejum dos discípulos de João e sobre o fato de estar reunido com pecadores e publicanos (Mc 2:15-22). 
Enfim, este breve relato é suficiente para que possamos compreender que o fato de Jesus aproveitar ocasiões para pregar seu evangelho fora do Templo e da Sinagogas não significa que ele estivesse dispensando as reuniões naqueles locais ou que preferisse reunir-se fora deles. As reuniões fora do Templo e das Sinagogas ocorriam em circunstâncias não planejadas e Jesus as aproveitava, assim como nós também devemos aproveitar qualquer oportunidade para transmitirmos o evangelho do Reino, seja na rua, seja no trabalho, seja em nossas reuniões sociais ou mesmo no transporte coletivo para o trabalho. Mas, isso não significa que podemos dispensar as reuniões programadas da igreja. 
Certamente, Jesus não tinha a mesma tranquilidade que nós temos para fazer reuniões reservadas. Marcos, registra que certa vez Jesus estava em uma casa com seus discípulos, mas o tumulto de pessoas querendo acessá-los impedia até que se alimentassem com tranquilidade. 

"20 Então, ele foi para casa. Não obstante, a multidão afluiu de novo, de tal modo que nem podiam comer." (Marcos 3:20) 

Por isso, especialmente depois da multiplicação dos pães, Jesus tinha que se afastar dos centros urbanos e até mesmo se retirar para regiões gentílicas para conseguir instruir seus discípulos em particular. 

"24 Levantando-se, partiu dali para as terras de Tiro [e Sidom]. Tendo entrado numa casa, queria que ninguém o soubesse; no entanto, não pôde ocultar-se, 25 porque uma mulher, cuja filhinha estava possessa de espírito imundo, tendo ouvido a respeito dele, veio e prostrou-se-lhe aos pés." (Marcos 7:24-25) 

"30 E, tendo partido dali, passavam pela Galiléia, e não queria que ninguém o soubesse; 31 porque ensinava os seus discípulos e lhes dizia: O Filho do Homem será entregue nas mãos dos homens, e o matarão; mas, três dias depois da sua morte, ressuscitará." (Marcos 9:30-31) 

O próprio sermão do monte, quando Jesus tinha a intenção de ensinar seus discípulos, é um bom exemplo de como Jesus procurava alguns momentos mais reservados. 

"1 Vendo Jesus as multidões, subiu ao monte, e, como se assentasse, aproximaram-se os seus discípulos; 2 e ele passou a ensiná-los, dizendo: " (Mateus 5:1-2)

Pode-se notar que Jesus ao ver a multidão subiu a um monte, de modo que nem todos conseguiriam segui-lo, a exemplo dos enfermos. Lá em cima, embora muitos o tivessem seguido, Jesus dirigiu a sua mensagem aos seus discípulos, em especial. 
Portanto, podemos afirmar que Jesus, enquanto pode, manteve o hábito de reunir-se tanto no Templo (em Jerusalém), como nas Sinagogas (fora de Jerusalém), deixando de fazê-lo apenas circunstancialmente, de modo que não podemos dispensar seu exemplo em relação à sua aprovação quanto a estarmos reunidos como igreja em nossos locais separados para isso. Evidentemente, isso não nos impede de aproveitarmos outras oportunidades fora desses locais para cumprirmos nossa missão. 

Os primeiros cristãos se reuniam 

Assim que Jesus foi elevado ao céu os discípulos imediatamente procuraram ficar reunidos, de modo persistente, unânimes, ou seja, não faziam reuniões em grupos separados. Escolheram, então, um local espaçoso para fazerem suas reuniões e orações, onde desenvolveram o hábito de se reunirem em local apropriado, com capacidade para acomodar uma quantidade maior de pessoas. 

"12 Então, voltaram para Jerusalém, do monte chamado Olival, que dista daquela cidade tanto como a jornada de um sábado. 13 Quando ali entraram, subiram para o cenáculo onde se reuniam Pedro, João, Tiago, André, Filipe, Tomé, Bartolomeu, Mateus, Tiago, filho de Alfeu, Simão, o Zelote, e Judas, filho de Tiago. 14 Todos estes perseveravam unânimes em oração, com as mulheres, com Maria, mãe de Jesus, e com os irmãos dele. " (Atos 1:12-14)

Nesse mesmo lugar, além das orações, trataram de questões relativas à liderança e pediram a direção de Deus para definir quem substituiria Judas no apostolado. 

"15 Naqueles dias, levantou-se Pedro no meio dos irmãos (ora, compunha-se a assembleia de umas cento e vinte pessoas) e disse: 16 Irmãos, convinha que se cumprisse a Escritura que o Espírito Santo proferiu anteriormente por boca de Davi, acerca de Judas, que foi o guia daqueles que prenderam Jesus, (...) 23 Então, propuseram dois: José, chamado Barsabás, cognominado Justo, e Matias. 24 E, orando, disseram: Tu, Senhor, que conheces o coração de todos, revela-nos qual destes dois tens escolhido 25 para preencher a vaga neste ministério e apostolado, do qual Judas se transviou, indo para o seu próprio lugar." (Atos 1:15-25) 

Após cinquenta dias de reuniões, os primeiros cristãos ainda estavam unânimes. 

"1 Ao cumprir-se o dia de Pentecostes, estavam todos reunidos no mesmo lugar;" (Atos 2:1) 

Nessa ocasião, estando reunidos, desceu sobre a congregação o Espírito Santo de Deus. O evento poderia ter acontecido individualmente, na particularidade de cada cristão em suas casas ou em grupos menores, mas Deus valorizou a reunião dos crentes e abençoou-os não só com o batismo, mas com a oportunidade de testemunharem publicamente a diversos visitantes estrangeiros que foram atraídos para aquele lugar. 

"5 Ora, estavam habitando em Jerusalém judeus, homens piedosos, vindos de todas as nações debaixo do céu. 6 Quando, pois, se fez ouvir aquela voz, afluiu a multidão, que se possuiu de perplexidade, porquanto cada um os ouvia falar na sua própria língua. (...) 9 Somos partos, medos, elamitas e os naturais da Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto e Ásia, 10 da Frígia, da Panfília, do Egito e das regiões da Líbia, nas imediações de Cirene, e romanos que aqui residem, 11 tanto judeus como prosélitos, cretenses e arábios. Como os ouvimos falar em nossas próprias línguas as grandezas de Deus?" (Atos 2:5-6; 9-11) 

Foi exatamente nesta oportunidade, em um local de fácil acesso ao público, que Pedro proferiu seu primeiro discurso evangelístico, oportunidade em que se converteram quase três mil pessoas. 

"14 Então, se levantou Pedro, com os onze; e, erguendo a voz, advertiu-os nestes termos: Varões judeus e todos os habitantes de Jerusalém, tomai conhecimento disto e atentai nas minhas palavras. (...) 37 Ouvindo eles estas coisas, compungiu-se-lhes o coração e perguntaram a Pedro e aos demais apóstolos: Que faremos, irmãos? 38 Respondeu-lhes Pedro: Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados, e recebereis o dom do Espírito Santo. 39 Pois para vós outros é a promessa, para vossos filhos e para todos os que ainda estão longe, isto é, para quantos o Senhor, nosso Deus, chamar. 40 Com muitas outras palavras deu testemunho e exortava-os, dizendo: Salvai-vos desta geração perversa. 41 Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados, havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas. " (Atos 2:14; 37-41) 

É necessário observar que as reuniões em locais separados para congregar os salvos foi uma excelente opção para os primeiros cristãos e é uma ótima alternativa para a igreja do nosso tempo, que está de portas abertas para receber pessoas de todos os lugares para escutar uma mensagem que pode atrair cada vez mais ouvintes ao arrependimento, ao perdão, ao batismo e à integração naquela mesma comunhão.
Portanto, as reuniões da igreja não podem ser desprezadas ou consideradas como desnecessárias. Os primeiros cristãos foram persistentes em ficar reunidos esperando a manifestação de Deus e nós que já fomos alcançados pela salvação não podemos nos omitir quanto à nossa responsabilidade de permanecermos juntos, orando, adorando, tratando das questões pertinentes ao Reino de Deus e suplicando pela manifestação do Espírito Santo. Não podemos nos esquecer que nossas reuniões públicas, em locais espaçosos, constituem oportunidade para atrairmos visitantes e permitir que ouçam uma mensagem sobre o evangelho da salvação. É bom notar, também, que se não houvesse um grande grupo reunido, a manifestação de Deus pela variedade de línguas não teria sido ampla o suficiente para alcançar todos os estrangeiros. Embora somente Pedro tenha pregado, todo o conjunto de pessoas foi decisivo para o acolhimento dos estrangeiros. 

A igreja primitiva se reunia no Templo

Imediatamente após o evento do cenáculo, aquele grande número de novos convertidos passou a se reunir regularmente no Templo, precisamente no pátio, que era um local espaçoso o suficiente para acolher a todos e, também, porque os apóstolos mantinham o hábito de frequentar o Templo. 
Ao que nos indica o relato de Atos, os primeiros convertidos mantiveram o hábito diário das reuniões regulares no Templo e com seus testemunhos atraíam cada vez mais pessoas para a congregação dos crentes. 

"42 E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações. 43 Em cada alma havia temor; e muitos prodígios e sinais eram feitos por intermédio dos apóstolos. 44 Todos os que creram estavam juntos e tinham tudo em comum. 45 Vendiam as suas propriedades e bens, distribuindo o produto entre todos, à medida que alguém tinha necessidade. 46 Diariamente perseveravam unânimes no templo, partiam pão de casa em casa [ação fraternal] e tomavam as suas refeições com alegria e singeleza de coração, 47 louvando a Deus e contando com a simpatia de todo o povo. Enquanto isso, acrescentava-lhes o Senhor, dia a dia, os que iam sendo salvos." (Atos 2:42-47) 

É bom notar que a unanimidade (“estavam juntos”) ocorria no Templo. O partir do pão “de casa em casa” e o compartilhamento de refeições era uma atividade social para amparar os menos favorecidos. 
Por certo, as atividades fora do Templo é que geravam a simpatia da comunidade dos não crentes e tornavam a graça de Deus manifesta a todos, de modo que isso abria o caminho para que o Senhor acrescentasse às reuniões dos crentes (no Templo) cada vez mais pessoas, o que não poderia ser feito em locais pequenos, já que logo na primeira pregação foram acrescentadas quase três mil pessoas. 
Em certa ocasião, Pedro e João, ao se dirigirem ao templo para orar, curaram um homem coxo que estava colocado próximo à porta formosa. Ao ser curado, aquele homem seguiu os apóstolos para dentro do Templo, onde causou grande admiração nos que ali estavam. Ao notar a aglomeração, Pedro aproveitou a oportunidade para anunciar o evangelho de Jesus. 

"1 Pedro e João subiam ao templo para a oração da hora nona. 2 Era levado um homem, coxo de nascença, o qual punham diariamente à porta do templo chamada Formosa, para pedir esmola aos que entravam. 3 Vendo ele a Pedro e João, que iam entrar no templo, implorava que lhe dessem uma esmola. (...) 7 E, tomando-o pela mão direita, o levantou; imediatamente, os seus pés e tornozelos se firmaram; 8 de um salto se pôs em pé, passou a andar e entrou com eles no templo, saltando e louvando a Deus. (...) 11 Apegando-se ele a Pedro e a João, todo o povo correu atônito para junto deles no pórtico chamado de Salomão. 12 À vista disto, Pedro se dirigiu ao povo, dizendo: Israelitas, por que vos maravilhais disto ou por que fitais os olhos em nós como se pelo nosso próprio poder ou piedade o tivéssemos feito andar?" (Atos 3:1-3; 7-8; 11-12) 

Após sua exposição, exatamente ali, no Templo, mais duas mil pessoas foram alcançadas pelo evangelho de Jesus e o número de salvos chegou a quase cinco mil homens, o que nos mostra como Deus aprovava a atitude dos apóstolos. 

"4 Muitos, porém, dos que ouviram a palavra a aceitaram, subindo o número de homens a quase cinco mil. " (Atos 4:4) 

Por ocasião desses acontecimentos, Pedro e João acabaram presos. Depois que foram libertados, mesmo sob ameaças (At 4:18 e 21) não abandonaram a ideia de se reunirem com a igreja no Templo. 
No capítulo 5 de Atos, notamos que os apóstolos continuaram a pregar e a se reunirem com toda a igreja no Templo. Deus aprovava todo o trabalho dos apóstolos e as reuniões da congregação, tanto que os honravam com o crescimento do número dos salvos e com a manifestação do seu poder por meio da vida deles. 

"12 Muitos sinais e prodígios eram feitos entre o povo pelas mãos dos apóstolos. E costumavam todos reunir-se, de comum acordo, no Pórtico de Salomão. 13 Mas, dos restantes, ninguém ousava ajuntar-se a eles; porém o povo lhes tributava grande admiração. 14 E crescia mais e mais a multidão de crentes, tanto homens como mulheres, agregados ao Senhor," (Atos 5:12-14) 

Portanto, não há como desconsiderar que o método de espalhar a graça e o amor de Deus por meio de nossos relacionamentos diários deve ser feito fora dos locais de reunião da igreja, mas isso não dispensa de modo nenhum o nosso dever de nos reunirmos nos locais separados para as reuniões da igreja, ainda que seja um local ao ar livre, debaixo de uma árvore ou no pátio de uma escola. Mas, nossa responsabilidade não é apenas de atrair pessoas com nosso comportamento, mas de leva-los às reuniões da igreja para que ouçam uma mensagem sobre o evangelho da salvação de Jesus. Foi assim que o Senhor acrescentou diariamente novos salvos à sua igreja, mostrando que aprovava aquele modo de trabalhar. Ora, se Deus aprovou essa metodologia no tempo dos primeiros cristãos, por que ele a rejeitaria em nosso tempo? 

A igreja primitiva se reunia outros locais 

A igreja cresceu em número e isso foi muito bom. Enquanto estavam todos congregados em uma mesma cidade, em um mesmo Templo e com os mesmos líderes, tudo estava sendo preparado para uma segunda fase da igreja. Ela teria que se espalhar pelo mundo para que a mensagem do evangelho alcançasse não só os judeus de Jerusalém, mas, também, os samaritanos e, depois, os gentios. 
Por essa razão, Deus permitiu que sobreviesse uma perseguição sobre os primeiros cristãos, de modo que foram obrigados a se dispersarem pelas regiões da Judeia e de Samaria. 

"1 (...) Naquele dia, levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, exceto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria." (Atos 8:1) 

"14 Ouvindo os apóstolos, que estavam em Jerusalém, que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram-lhe Pedro e João;" (Atos 8:14) 

Por óbvio, na medida que os crentes se espalharam, as reuniões perderam a dimensão inicial e, por certo, cada novo grupo que se formava tinha como ponto inicial pequenas reuniões, provavelmente em suas casas, com pessoas mais próximas. Exemplo disso foi o ocorrido com Cornélio que, ao mandar chamar Pedro, estava reunido com um grupo de parentes e amigos em sua própria casa para receber a mensagem do evangelho.

"23 Pedro, pois, convidando-os a entrar, hospedou-os. No dia seguinte, levantou-se e partiu com eles; também alguns irmãos dos que habitavam em Jope foram em sua companhia. 24 No dia imediato, entrou em Cesaréia. Cornélio estava esperando por eles, tendo reunido seus parentes e amigos íntimos." (Atos 10:23-24) 

Daí percebemos que, em certa medida, as reuniões nas casas são o modo natural como o evangelho pode se espalhar pelos bairros, cidades, estados e nações. Deus, mais uma vez, aprovou tal procedimento ao derramar sobre os ouvintes de Pedro o Espírito Santo. 

"44 Ainda Pedro falava estas coisas quando caiu o Espírito Santo sobre todos os que ouviam a palavra." (Atos 10:44) 

Entretanto, notamos, também, que, na medida que a número de salvos ia crescendo, era natural que buscassem locais maiores para suas reuniões, segundo o modelo aprendido desde as reuniões de Jerusalém. 
Em Antioquia, por exemplo, após a perseguição, o pequeno grupo que se dispersou para ali cresceu e, certamente, não estava mais reunido em casas. E nessa ocasião, os salvos foram chamados pela primeira vez de cristãos e o local de reunião certamente era apropriado para reuniões maiores, senão vejamos: 

"19 Então, os que foram dispersos por causa da tribulação que sobreveio a Estêvão se espalharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus. 20 Alguns deles, porém, que eram de Chipre e de Cirene e que foram até Antioquia, falavam também aos gregos, anunciando-lhes o evangelho do Senhor Jesus. 21 A mão do Senhor estava com eles, e muitos, crendo, se converteram ao Senhor. 22 A notícia a respeito deles chegou aos ouvidos da igreja que estava em Jerusalém; e enviaram Barnabé até Antioquia. 23 Tendo ele chegado e, vendo a graça de Deus, alegrou-se e exortava a todos a que, com firmeza de coração, permanecessem no Senhor. 24 Porque era homem bom, cheio do Espírito Santo e de fé. E muita gente se uniu ao Senhor. 25 E partiu Barnabé para Tarso à procura de Saulo; 26 tendo-o encontrado, levou-o para Antioquia. E, por todo um ano, se reuniram naquela igreja [nvi: “como a igreja”] e ensinaram numerosa multidão. Em Antioquia, foram os discípulos, pela primeira vez, chamados cristãos. " (Atos 11:19-26) 

Não é difícil notar que o local de reunião em Antioquia não poderia ser uma casa, pois não caberia aquela numerosa multidão. Também, observamos que as reuniões eram regulares e que Paulo e Barnabé ficaram ali os ensinando por um ano inteiro. 
Desde então, o processo se repetia e, na medida que ocorriam as viagens missionárias dos apóstolos, novos grupos se formavam. Logo, as notícias sobre igrejas que se reuniam nas casas em nada invalidam o processo de transferência das reuniões para locais maiores e apropriados para a comunhão e para o ensino de uma grande quantidade de pessoas ao mesmo tempo. 
Certa vez, Paulo estava em Trôade reunido com a igreja em um cenáculo que ficava no terceiro andar de um edifício e ali permaneceu com os irmãos por toda a noite ensinando-lhes, o que nos mostra o quanto a igreja sente necessidade tanto de estar reunida para o partir do pão como de ouvir os ensinamentos da parte de Deus. 

"7 No primeiro dia da semana, estando nós reunidos com o fim de partir o pão, Paulo, que devia seguir viagem no dia imediato, exortava-os e prolongou o discurso até à meia-noite. 8 Havia muitas lâmpadas no cenáculo onde estávamos reunidos. 9 Um jovem, chamado Êutico, que estava sentado numa janela, adormecendo profundamente durante o prolongado discurso de Paulo, vencido pelo sono, caiu do terceiro andar abaixo e foi levantado morto. 10 Descendo, porém, Paulo inclinou-se sobre ele e, abraçando-o, disse: Não vos perturbeis, que a vida nele está. 11 Subindo de novo, partiu o pão, e comeu, e ainda lhes falou largamente até ao romper da alva. E, assim, partiu. 12 Então, conduziram vivo o rapaz e sentiram-se grandemente confortados. " (Atos 20:7-12) 

Não podemos deixar de reconhecer o quanto a expansão da igreja contou inicialmente com pessoas de bom coração que abriam as portas de suas casas para um novo trabalho de evangelização. Mas, não se pode afirmar que a igreja tenha permanecido em casas ou que seja esse o local adequado para a reunião permanente dos crentes. 
Vejamos o caso da igreja de Corinto, que começou com apenas um casal e, após algum tempo, já estava reunida em locais apropriados para reuniões de maior proporção. 
A igreja de Corinto teve início quando Priscila e Áquila receberam o evangelho pregado por Paulo na Sinagoga da cidade. Paulo ficou hospedado na casa deles que, provavelmente, tornou-se um ponto inicial de acolhimento de novos crentes, embora Paulo tenha continuado pregando regularmente na Sinagoga dos judeus. 

"1 Depois disto, deixando Paulo Atenas, partiu para Corinto. 2 Lá, encontrou certo judeu chamado Áqüila, natural do Ponto, recentemente chegado da Itália, com Priscila, sua mulher, em vista de ter Cláudio decretado que todos os judeus se retirassem de Roma. Paulo aproximou-se deles. 3 E, posto que eram do mesmo ofício, passou a morar com eles e ali trabalhava, pois a profissão deles era fazer tendas. 4 E todos os sábados discorria na sinagoga, persuadindo tanto judeus como gregos. " (Atos 18:1-4) 

Em seguida, pela evangelização de Paulo, Tício e Crispo, líder da Sinagoga local, bem como toda a sua família se converteram, assim como muitos outros que acompanharam as pregações de Paulo por 18 meses em Corinto. 

"7 Saindo dali, entrou na casa de um homem chamado Tício Justo, que era temente a Deus; a casa era contígua à sinagoga. 8 Mas Crispo, o principal da sinagoga, creu no Senhor, com toda a sua casa; também muitos dos coríntios, ouvindo, criam e eram batizados. (...) 11 E ali permaneceu um ano e seis meses, ensinando entre eles a palavra de Deus. " (Atos 18:7-9; 11) 

Mais adiante, ao lermos a primeira carta de Paulo aos Coríntios, podemos perceber que naquela ocasião eles já tinham um local próprio para suas reuniões, como podemos perceber pelo modo como Paulo os orientou acerca da ceia, deixando claro que a reunião não era realizada em casas.

"18 Porque, antes de tudo, estou informado haver divisões entre vós quando vos reunis na igreja [nvi: “como igreja”]; e eu, em parte, o creio. 19 Porque até mesmo importa que haja partidos entre vós, para que também os aprovados se tornem conhecidos em vosso meio. 20 Quando, pois, vos reunis no mesmo lugar, não é a ceia do Senhor que comeis. 21 Porque, ao comerdes, cada um toma, antecipadamente, a sua própria ceia; e há quem tenha fome, ao passo que há também quem se embriague. 22 Não tendes, porventura, casas onde comer e beber? Ou menosprezais a igreja de Deus e envergonhais os que nada têm? Que vos direi? Louvar-vos-ei? Nisto, certamente, não vos louvo. (...) 34 Se alguém tem fome, coma em casa, a fim de não vos reunirdes para juízo. Quanto às demais coisas, eu as ordenarei quando for ter convosco." (1 Coríntios 11:18-22; 34)

De igual modo, Paulo deixa claro que as reuniões da igreja de Corinto não eram em casas quando dá suas ordens em relação ao modo como deveriam ordenar as reuniões, mostrando, inclusive, que era um local aberto ao público, possibilitando a entrada de estranhos (incrédulos e indoutos). 

"23 Se, pois, toda a igreja se reunir no mesmo lugar, e todos se puserem a falar em outras línguas, no caso de entrarem indoutos ou incrédulos, não dirão, porventura, que estais loucos? 24 Porém, se todos profetizarem, e entrar algum incrédulo ou indouto, é ele por todos convencido e por todos julgado; 25 tornam-se-lhe manifestos os segredos do coração, e, assim, prostrando-se com a face em terra, adorará a Deus, testemunhando que Deus está, de fato, no meio de vós. 26 Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação." (1 Coríntios 14:23-26) 

Logo, a formação da igreja de Corinto nos é um bom indicativo tanto da necessidade da igreja estar reunida para ser edificada, como nos mostra que o seu progresso numérico permite que o grupo faça suas reuniões em locais públicos apropriados para receber uma grande quantidade de pessoas, embora saibamos que locais menores propiciam uma aproximação maior das pessoas. 

A igreja primitiva se reunia em casas 

A igreja de Jesus também pode estar reunida em casas.

 "5 saudai igualmente a igreja que se reúne na casa deles. Saudai meu querido Epêneto, primícias da Ásia para Cristo." (Romanos 16:5)"14 Saudai Asíncrito, Flegonte, Hermes, Pátrobas, Hermas e os irmãos que se reúnem com eles. 15 Saudai Filólogo, Júlia, Nereu e sua irmã, Olimpas e todos os santos que se reúnem com eles." (Romanos 16:14-15) 

Apesar dessas indicações de reuniões em Roma, talvez pelas condições locais, não vemos nenhuma crítica dos apóstolos às reuniões realizadas em locais que acomodassem grande quantidade de pessoas ao mesmo tempo, como o que acontece no que hoje chamamos de igreja. 
Seja como for, mesmo que as reuniões em casa fossem uma realidade passageira, circunstancial, o importante é que a igreja deve estar reunida e os crentes não podem viver indiferentes a essa necessidade. 

Paulo pregava nas sinagogas 

Paulo usou por muito tempo a estratégia de iniciar suas apresentações do evangelho de Jesus aproveitando as oportunidades que lhe eram abertas para falar nas sinagogas dos judeus. Sempre tinham aqueles que lhe davam crédito e aceitavam a sua mensagem. Então, em um primeiro momento, enquanto era possível, Paulo permanecia pregando nas sinagogas e reunindo ali os que iam sendo acrescentados à igreja, ainda isso não durasse muito tempo.

"20 E logo pregava, nas sinagogas, a Jesus, afirmando que este é o Filho de Deus. 21 Ora, todos os que o ouviam estavam atônitos e diziam: Não é este o que exterminava em Jerusalém os que invocavam o nome de Jesus e para aqui veio precisamente com o fim de os levar amarrados aos principais sacerdotes? 22 Saulo, porém, mais e mais se fortalecia e confundia os judeus que moravam em Damasco, demonstrando que Jesus é o Cristo. " (Atos 9:20-22) 

"5 Chegados a Salamina, anunciavam a palavra de Deus nas sinagogas judaicas; tinham também João como auxiliar." (Atos 13:5) 

"14 Mas eles, atravessando de Perge para a Antioquia da Pisídia, indo num sábado à sinagoga, assentaram-se. 15 Depois da leitura da lei e dos profetas, os chefes da sinagoga mandaram dizer-lhes: Irmãos, se tendes alguma palavra de exortação para o povo, dizei-a. " (Atos 13:14-15) 

"1 Em Icônio, Paulo e Barnabé entraram juntos na sinagoga judaica e falaram de tal modo, que veio a crer grande multidão, tanto de judeus como de gregos." (Atos 14:1)

"10 E logo, durante a noite, os irmãos enviaram Paulo e Silas para Beréia; ali chegados, dirigiram-se à sinagoga dos judeus. 11 Ora, estes de Beréia eram mais nobres que os de Tessalônica; pois receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim. 12 Com isso, muitos deles creram, mulheres gregas de alta posição e não poucos homens." (Atos 17:10-12)

 Assim, é importante destacar que a prática de se pregar, exortar e ensinar em locais abertos ao público foi uma prática aprovada por Deus, tanto que foi assim que a igreja de Jesus começou e cresceu. Daí, mais uma vez, notamos a importância de procurarmos as reuniões onde a palavra de Deus esteja sendo anunciada, para que sejamos edificados e constrangidos a seguir a Jesus diariamente. 

A igreja primitiva se reunia em escolas 

Quando Paulo estava em Éfeso, inicialmente pregou o evangelho por três meses na Sinagoga, mas devido às resistências daqueles que não acolhiam a mensagem, ele decidiu mudar-se, com seus discípulos para a escola de Tirano, onde fazia as reuniões regulares com a igreja, de modo que atraiu muitos ouvintes e dali espalhou a mensagem do reino para toda a Ásia. 

"18:19 Chegados a Éfeso, deixou-os ali; ele, porém, entrando na sinagoga, pregava aos judeus. (...) 19:8 Durante três meses, Paulo frequentou a sinagoga, onde falava ousadamente, dissertando e persuadindo com respeito ao reino de Deus. 9 Visto que alguns deles se mostravam empedernidos e descrentes, falando mal do Caminho diante da multidão, Paulo, apartando-se deles, separou os discípulos, passando a discorrer diariamente na escola de Tirano. 10 Durou isto por espaço de dois anos, dando ensejo a que todos os habitantes da Ásia ouvissem a palavra do Senhor, tanto judeus como gregos." (Atos 18:19; 19:8-10) 

Novamente, concluímos que a reunião dos crentes é importante, não só para a edificação da igreja e para se vivenciar a experiência comunitária, mas para dar oportunidade àqueles que ainda não tiveram a oportunidade de serem confrontados pessoalmente com a palavra de Deus. Não fosse a energia, a fé e a perseverança daqueles que se mantiveram agregados ao longo dos séculos, nós nem mesmo teríamos recebido o evangelho da salvação, uma vez que o isolamento leva o homem a viver somente para si mesmo e a “lavar as suas mãos” aos outros. 

BENEFÍCIOS DE PARTICIPARMOS DA IGREJA 

Nos cultos e reuniões da igreja o novo nascido ouvirá a pregação da Palavra de Deus e será fortalecido, exortado e encorajado a permanecer firme na fé e na esperança, por meio da comunhão com outros, participando ativamente das atividades da igreja (Corpo de Cristo) e de muitos benefícios. 

Oportunidade de exercer dons e ser edificados 

Nas reuniões da igreja, temos a oportunidade de exercitarmos os dons que recebemos do Espírito Santo de Deus para a edificação uns dos outros. 

"26 Que fazer, pois, irmãos? Quando vos reunis, um tem salmo, outro, doutrina, este traz revelação, aquele, outra língua, e ainda outro, interpretação. Seja tudo feito para edificação." (1 Coríntios 14:26) 

Quando nos encontramos, podemos ouvir palavras e mensagens que podem proceder tanto da boca do pastor como pela boca dos nossos irmãos que podem nos instruir e aconselhar. 

"16 Habite, ricamente, em vós a palavra de Cristo; instruí-vos e aconselhai-vos mutuamente em toda a sabedoria, louvando a Deus, com salmos, e hinos, e cânticos espirituais, com gratidão, em vosso coração." (Colossenses 3:16) 

Adoração 

Na igreja cantamos louvores ao nosso soberano Deus, fazemos orações de agradecimento e engrandecimento ao Senhor e elevamos nosso espírito ao céu. Evidentemente, podemos adorar a Deus em outros lugares, mas o culto é sempre estimulante da nossa adoração, uma vez que se ficamos em casa, tendemos a nos envolver com outras atividades e deixamos a adoração em segundo plano. 

"21 a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus, por todas as gerações, para todo o sempre. Amém!" (Efésios 3:21) 

"20 Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou no meio deles. " (Mateus 18:20) 

Instrumentalização dos santos 

Frequentando a igreja, suas reuniões e seminários estaremos nos preparando para assumir o nosso chamado e a desenvolver nossa vocação, uma vez que Deus separa, no meio de sua igreja, aqueles que serão missionários, profetas, evangelistas, pastores e professores. 

"11 E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, 12 com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, para a edificação do corpo de Cristo," (Efésios 4:11-12) 

"4 Porque assim como num só corpo temos muitos membros, mas nem todos os membros têm a mesma função, 5 assim também nós, conquanto muitos, somos um só corpo em Cristo e membros uns dos outros, 6 tendo, porém, diferentes dons segundo a graça que nos foi dada: se profecia, seja segundo a proporção da fé; 7 se ministério, dediquemo-nos ao ministério; ou o que ensina esmere-se no fazê-lo; 8 ou o que exorta faça-o com dedicação; o que contribui, com liberalidade; o que preside, com diligência; quem exerce misericórdia, com alegria. " (Romanos 12:4-8)

 Evangelismo – instrução para a missão 

Na igreja, também, somos instruídos para o exercício da nossa missão comum, que é levarmos o evangelho de Jesus por onde formos, seja em nossa parentela, em nosso trabalho, em nossa escola ou em nossos momentos de lazer. 

"18 Jesus, aproximando-se, falou-lhes, dizendo: Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra. 19 Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; 20 ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século. " (Mateus 28:18-20)

Além disso, as reuniões são sempre uma boa oportunidade para falarmos de Jesus aos que estão visitando a igreja e que ainda não tiveram sua própria experiência com o Senhor Jesus. 

Ceia do Senhor 

Participando ativamente da igreja estaremos, ainda, participando do momento mais sublime que Jesus nos ordenou, que é a santa ceia, onde nos lembramos da morte, da ressurreição, da comunhão do corpo de Cristo e da promessa de que Jesus irá voltar para os seus. 

"23 Porque eu recebi do Senhor o que também vos entreguei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; 24 e, tendo dado graças, o partiu e disse: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. 25 Por semelhante modo, depois de haver ceado, tomou também o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que o beberdes, em memória de mim. 26 Porque, todas as vezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anunciais a morte do Senhor, até que ele venha." (1 Coríntios 11:23-26)

Batismo 

Na igreja todos os novos convertidos são instruídos para a grande decisão do batismo nas águas. Assim, nenhum novo nascido pode perder os ensinamentos que serão ministrados para prepara-los para essa importante decisão. 

"41 Então, os que lhe aceitaram a palavra foram batizados, havendo um acréscimo naquele dia de quase três mil pessoas. " (Atos 2:41) 

Participar da assistência fraternal 

O envolvimento com a igreja, também, certamente levará o cristão a desenvolver uma mentalidade diferente daquela que ele possuía quando vivia somente para si mesmo e para os seus interesses. Na igreja, percebemos que a vida em comum traz-nos a responsabilidade de assistirmos os necessitados, seja em suas necessidades espirituais, seja em suas necessidades materiais. Nenhum cristão verdadeiro pode fugir a essa responsabilidade, sob pena de negar um dos mandamentos mais importantes de Deus: amar o próximo como a si mesmo. 

"1 Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus concedida às igrejas da Macedônia; 2 porque, no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade. 3 Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários, 4 pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos. 5 E não somente fizeram como nós esperávamos, mas também deram-se a si mesmos primeiro ao Senhor, depois a nós, pela vontade de Deus;" (2 Coríntios 8:1-5)

"1 Ora, quanto à assistência a favor dos santos, é desnecessário escrever-vos, 2 porque bem reconheço a vossa presteza, da qual me glorio junto aos macedônios, (...) 5 Portanto, julguei conveniente recomendar aos irmãos que me precedessem entre vós e preparassem de antemão a vossa dádiva já anunciada, para que esteja pronta como expressão de generosidade e não de avareza. " (2 Coríntios 9:1-2; 5) 

"12 Porque o serviço desta assistência não só supre a necessidade dos santos, mas também redunda em muitas graças a Deus," (2 Coríntios 9:12)

Comunhão 

A integração na igreja permite-nos o aperfeiçoamento do exercício do amor mútuo e gera cada vez mais comunhão com Deus e com o próximo, em sua correta expressão. Quando vivemos a necessidade do outro e passamos a orar por ele e a nos envolver com a sua causa, estamos nos desligando do nosso egoísmo natural para aprender o altruísmo neotestamentário, tornando a liga que nos une cada vez mais forte. 

"42 E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações." (Atos 2:42) 

"27 Vivei, acima de tudo, por modo digno do evangelho de Cristo, para que, ou indo ver-vos ou estando ausente, ouça, no tocante a vós outros, que estais firmes em um só espírito, como uma só alma, lutando juntos pela fé evangélica;" (Filipenses 1:27) 

Somente quando lutamos juntos pela fé evangélica, em amor por Deus e pelo próximo conseguimos chorar com os que choram e nos alegrarmos com os que se alegram. 

"15 Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram. 16 Tende o mesmo sentimento uns para com os outros; em lugar de serdes orgulhosos, condescendei com o que é humilde; não sejais sábios aos vossos próprios olhos. [egoístas]" (Romanos 12:15-16) 

CONCLUSÃO 

Por fim, é importante admitir que nos tempos atuais há muitas pessoas desencorajadas a participarem da igreja, provavelmente trazendo suas decepções como justificativa para tanto. De fato, é preciso reconhecer que o modelo de igrejas hoje existente está bastante viciado e que necessita de grandes ajustes. 
Entretanto, não podemos deixar que “o errado” prevaleça sobre “o certo”. Nosso parâmetro não pode ser o que está sendo feito em vários lugares, mas o que a palavra de Deus nos mostra ser o certo. 
Assim, fixando-nos no apelo de Deus, deixemos a advertência escrita aos Hebreus nos impactar para não desistirmos do propósito de Jesus de estarmos congregados como igreja. 

"25 Não deixemos de congregar-nos, como é costume de alguns; antes, façamos admoestações e tanto mais quanto vedes que o Dia se aproxima. " (Hebreus 10:25)

Em 14 de outubro de 2015 
 Por: Pastor Sólon Pereira
 
Idolatria Evangélica

Imagem Ilustrativa

QUEM É O SEU SENHOR?

Quando o assunto é idolatria, talvez a primeira coisa que venha à nossa mente seja a adoração (ou veneração) de imagens de escultura.  Mas, será que as definições que habitam nossa mente estão completas? 
Haveria algo mais que pudéssemos considerar idolatria? 
Há conceitos sobre idolatria que extrapolam a objetividade bíblica? 
Um evangélico, que não adora imagens de escultura, pode ser idólatra? 
Essas são as questões que pretendemos responder neste estudo.

Idolatria em seu sentido mais conhecido 

A noção mais conhecida sobre idolatria diz respeito às imagens de escultura que reproduzem figuras do céu, da terra e do mar (Ex 20:4). 

Quando Deus estabeleceu seus mandamentos exigiu que o homem o tivesse por único Deus, abolindo qualquer prática dos outros povos, como os egípcios, que adoravam deuses diversos, inclusive possuindo suas imagens de escultura. 

Idolatria em sentido construído por textos indiretos 

Há quem amplie o conceito de idolatria de modo a incluir tudo aquilo que toma o lugar de Deus na vida do homem, sejam coisas, pessoas ou instituições. Nesse sentido, qualquer pessoa pode ser idólatra, inclusive os evangélicos. 

Nessa concepção, o que caracteriza a idolatria é disposição do coração em relação àquilo que está ocupando o lugar que deveria estar reservado a Deus. Para dar suporte a essa interpretação, utiliza-se o texto em que Jesus afirmou que aquele que ama o pai, a mãe ou os filhos mais do que a Ele não era digno Dele (Mt 10:37). Soma-se a essa passagem as afirmações bíblicas sobre nosso dever de amar a Deus de todo o nosso coração. 

Entretanto, é bom que se observe no texto indicado que Jesus não fez referência à idolatria. Jesus não disse que ao darmos mais atenção a outras coisas do que a Ele seríamos idólatras. Apenas afirmou que a dedicação às outras causas não deveriam se sobrepor à dedicação a Ele, uma vez que Ele nos colocou acima de sua própria vida. E ao valorizarmos mais outras coisas do que a Ele, estaríamos desvalorizando seu ato de entregar a sua vida por nós. 

De fato, Deus e Jesus devem ocupar o lugar central em nossas vidas (Dt 6:5 e Mt 22:37), mas devemos ser cautelosos ao estendermos o conceito de idolatria a algumas situações sem que tenhamos uma fundamentação bíblica objetiva. 

Idolatria em sentido deturpado 

Há quem diga que desobediência é idolatria. Creio que essa afirmação não se sustenta em fundamentos lógicos. O texto utilizado para tal afirmação é o de 1 Samuel 15:23: 

“Porque a rebelião é como o pecado de feitiçaria, e a obstinação é como a idolatria e culto a ídolos do lar. Visto que rejeitaste a palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei.” (1 Samuel 15:23 RA) 

Note-se que o texto faz apenas comparações de coisas semelhantes em suas origens ou consequências, mas não afirma igualdade em sua essência. Ora, rebelião não é feitiçaria, mas “é como”, ou seja, é apenas semelhante. Semelhante não é igual. Por exemplo: João se parece com José, mas João não é José. Ainda que João e José sejam gêmeos idênticos, um não é o outro. 

Então, em que a rebelião se assemelha à feitiçaria? Em suas origens: tanto a rebelião como a feitiçaria procedem do Diabo. 

De igual modo, obstinação (teimosia no erro) não é idolatria. Um “é como” o outro. Em que são semelhantes? Em suas consequências: ambos afastam o homem de Deus. 

É de se notar que quando a bíblia afirma uma igualdade, faz isso com clareza. E quando o assunto é idolatria, por exemplo, a palavra de Deus nos diz objetivamente o que é idolatria, pois Deus não é Deus de confusão (1Co 14:33). Idolatria em sentido ampliado por texto bíblico objetivoDiferentemente do que ocorre com a ampliação de sentido forjada por construção de entendimentos indiretos, há uma ampliação de sentido que a própria bíblia admite de modo objetivo, senão vejamos: 

“Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria;” (Colossenses 3:5 RA) 

Como podemos notar, a interpretação do texto é simples: avareza é idolatria. Não se afirma que avareza “é como” idolatria (semelhante). Também, não se afirma que a avareza leva à idolatria (conseqüência). A conclusão lógica: o avarento é um idólatra

A idolatria evangélica 

Se a questão da idolatria estivesse ligada exclusivamente ao ter (“não terás” – Ex. 20:3), ao fazer (“não farás” – Ex. 20:4) e ao adorar (“não adorarás” – Ex. 20:5) imagens de escultura, então poderíamos afirmar, sem sobra de dúvida, que os evangélicos não são idólatras, uma vez que eles não têm essa prática. 

Já no sentido ampliado que inclui tudo aquilo que toma o lugar de Deus na vida do homem, sejam coisas, pessoas ou instituições, qualquer pessoa pode ser idólatra, inclusive os evangélicos. 

Tomando em consideração o sentido deturpado da idolatria (desobediência), qualquer membro de igreja pode ser considerado idólatra, até mesmo por questionar uma doutrina local. Promover tal entendimento só interessa a quem deseja praticar o terrorismo cristão. 

Mas, deixando de lado tudo aquilo que não seja verdadeiro e claramente demonstrado pela palavra de Deus, vamos explorar apenas a amplitude admitida objetivamente pela bíblia – a avareza é idolatria. 

Para que possamos saber se é possível que um evangélico seja idólatra, basta considerarmos a possibilidade de haver evangélicos avarentos e gananciosos. 

Quando eu decidi fazer essa investigação, observei que no meio evangélico há muitas pessoas gananciosas, enriquecendo às custas do evangelho. Não tenho nada contra ser rico, mas acho inconveniente que essa riqueza decorra da arrecadação da igreja, muitas vezes composta de pessoas pobres. Não estou recriminando os pastores que vivem do evangelho, já que isso é bíblico. Mas, fico incomodado ao ver a desproporcionalidade entre o salário do pastor e o salário médio dos membros da igreja. 

Por outro lado, notei que algumas igrejas são avarentas, explorando seus fiéis, ensinando que mais bem aventurado é dar do que receber (At 20:35), enquanto elas mesmas são incapazes de dar alguma coisa aos seus membros, mesmo quando necessitam de socorro material. Se há alguém passando necessidades em seu meio, ela estimula os membros a exercitarem o amor e a fazer uma “vaquinha” para ajudar o irmão necessitado, enquanto ela mesma, sentada no cofre, não entra nem com um tostão, a título de exemplo. Afirmam que sua parcela de contribuição está na Fundação que mantêm, de modo que isso leva a consciência das pessoas para um lugar distante. Mas, na prática, as pessoas não conseguem ver o resultado dessa ação social no local em que estão, uma vez que quando há alguém necessitando de auxílio material é o próprio grupo de irmãos que tem de socorrer. 

Vejamos, pois, o que a bíblia nos fala sobre a avareza: 

1)O líder temente a Deus não pode ser avarento: 

Procura dentre o povo homens capazes, tementes a Deus, homens de verdade, que aborreçam a avareza; põe-nos sobre eles por chefes de mil, chefes de cem, chefes de cinqüenta e chefes de dez;” (Êxodo 18:21 RA) 

“Porém seus filhos [de Samuel] não andaram pelos caminhos dele; antes, se inclinaram à avareza, e aceitaram subornos, e perverteram o direito.” (1 Samuel 8:3 RA) 

“O príncipe falto de inteligência multiplica as opressões, mas o [príncipe] que aborrece a avareza viverá muitos anos.” (Provérbios 28:16 RA) 

 2)Líderes falsos conduzem seus liderados à avareza: 

“1 Assim como, no meio do povo, surgiram falsos profetas, assim também haverá entre vós falsos mestres, os quais introduzirão, dissimuladamente, heresias destruidoras, até ao ponto de renegarem o Soberano Senhor que os resgatou, trazendo sobre si mesmos repentina destruição. 2  E muitos seguirão as suas práticas libertinas, e, por causa deles, será infamado o caminho da verdade; 3 também, movidos por avareza, farão comércio de vós, com palavras fictícias; para eles o juízo lavrado há longo tempo não tarda, e a sua destruição não dorme.” (2 Pedro 2:1-3 RA) 

3)A igreja idólatra (Babilônia) é avarenta: 

“12 Arvorai estandarte contra os muros de Babilônia, reforçai a guarda, colocai sentinelas, preparai emboscadas; porque o SENHOR intentou e fez o que tinha dito acerca dos moradores da Babilônia. 13 Ó tu que habitas sobre muitas águas, rica de tesouros! Chegou o teu fim, a medida da tua avareza.” (Jeremias 51:12-13 RA) 

4)A avareza é própria do homem maligno e carnal, gerando idêntica condenação: 

cheios de toda injustiça, malícia, avareza e maldade; possuídos de inveja, homicídio, contenda, dolo e malignidade; sendo difamadores,” (Romanos 1:29 RA) 

“5 Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; 6  por estas coisas é que vem a ira de Deus sobre os filhos da desobediência.” (Colossenses 3:5-6 RA) 

“tendo os olhos cheios de adultério e insaciáveis no pecado, engodando almas inconstantes, tendo coração exercitado na avareza, filhos malditos;” (2 Pedro 2:14 RA) 

5)A disposição do coração de um cristão deve ser contrária a toda e qualquer avareza e ganância. 

“Então, lhes recomendou [Jesus]: Tende cuidado e guardai-vos de toda e qualquer avareza; porque a vida de um homem não consiste na abundância dos bens que ele possui.” (Lucas 12:15 RA) 

“Seja a vossa vida sem avareza. Contentai-vos com as coisas que tendes; porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei.” (Hebreus 13:5 RA) 

6)O “Corpo de Cristo” deve ser generoso e não avarento. 

“Portanto, julguei conveniente recomendar aos irmãos que me precedessem entre vós e preparassem de antemão a vossa dádiva já anunciada, para que esteja pronta como expressão de generosidade e não de avareza.” (2 Coríntios 9:5 RA) 

Assim, se entendemos a real amplitude da idolatria, ao identificarmos em nossas vidas, em nossas lideranças ou em nossas igrejas sinais de avareza, devemos tomar para nós as mesmas advertências que costumamos fazer àqueles que adoram imagens de escultura. 

“Portanto, meus amados, fugi da idolatria.” (1 Coríntios 10:14 RA) 

Em 24 de novembro de 2009

Pastor Sólon Pereira 

 
Trindade

Imagem Ilustrativa

INTRODUÇÃO 

Embora estejamos bastante familiarizados com o termo “Trindade” e conhecermos a sua significação desde nossos passos cristãos iniciais, é bom saber que essa palavra não aparece na Bíblia. 
Na verdade, o conceito sobre a Trindade formou-se de uma conjugação de textos e passagens bíblicas, como veremos a seguir. Mas, não podemos negar que a própria compreensão da Trindade é algo difícil de assimilar, pois foge à nossa lógica uma “unicidade dividida”, uma vez que, obviamente, o significado de uma palavra exclui a outra. 
Entretanto, pretendo nestas poucas linhas apenas destacar o que a palavra de Deus nos relata sem a pretensão de criar algo novo ou explicar o que Deus não quis detalhar.

Um Deus plural 

Logo no primeiro verso bíblico já temos um indicativo de que Deus é plural. Na expressão "No princípio criou Deus os céus e a terra." (Gen 1:1 ), a palavra "Deus", em hebraico, é ELOHIM, que é o plural de ELOHÁ.
Curioso é o fato dessa primeira frase bíblica ter sido construída com o sujeito no plural (Deuses) e o verbo  no singular (criou = bará). Assim, se admitirmos que não se trata de um erro de concordância gramatical, teremos que admitir que mais de um Deus agiu como se fosse um só. 
Mas, as demais evidências bíblicas nos fazem afastar a ideia de erro gramatical. Juntando as peças podemos perceber que esse versículo expressa o que realmente Deus é: plural agindo em unidade. 
Pouco mais adiante, em outra passagem bíblica, temos o sujeito “Deus” compondo frase em que o verbo está no plural: 
“Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; tenha ele domínio sobre os peixes do mar, sobre as aves dos céus, sobre os animais domésticos, sobre toda a terra e sobre todos os répteis que rastejam pela terra.” (Gênesis 1:26 RA)
 A indicação de que o autor não tinha problemas com sua gramática é demonstrado no verso seguinte, onde tanto o sujeito “Deus” como o verbo estão no singular. Nesse caso, o autor deixa claro que a imagem do homem (e da mulher) é semelhante à imagem de um Deus único, senão vejamos: 
Criou Deus, pois, o homem à sua imagem, à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.” (Gênesis 1:27 RA) 
Embora tais variações de concordância entre sujeito e verbo continuem aparecendo no Gênesis, podemos notar que o profeta Isaías também indica claramente a pluralidade de Deus no verso a seguir: 
“8 Depois disto, ouvi a voz do Senhor, que dizia: A quem enviarei, e quem há de ir por nós? Disse eu: eis-me aqui, envia-me a mim. 9 Então, disse ele: Vai e dize a este povo: Ouvi, ouvi e não entendais; vede, vede, mas não percebais.” (Isaías 6:8-9 RA) 
No Novo Testamento, o texto utilizado como ordem para o batismo nas águas também nos mostra uma co-participação dos três personagens que representam o único Deus, senão vejamos: 
“19  Ide, portanto, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; 20  ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado. E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século.” (Mateus 28:19-20 RA) 

Três Deuses e um só Deus 

A Bíblia ensina que o Pai é Deus, que Jesus é Deus e que o Espírito Santo é Deus. Entretanto, essa mesma Bíblia também ensina que há um só Deus. A seguir, vamos buscar os fundamentos bíblicos para essas informações e verificar se é possível afastar essa aparente incoerência. 

O Pai é Deus 

Não temos dúvidas de que Deus é Pai. O Novo Testamento não dá essa informação, tanto em Jesus como nos textos doutrinários, conforme veremos nas transcrições que seguem:
O Pai, que me enviou, esse mesmo é que tem dado testemunho de mim. Jamais tendes ouvido a sua voz, nem visto a sua forma.” (João 5:37 RA)
“Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo.” (João 6:27 RA) 
“6 todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele.” (1 Coríntios 8:6 RA)

O Filho é Deus 

A própria profecia acerca do Messias já indicava que Deus estava por vir à terra, o que é confirmado no Novo Testamento: Jesus, nascido de mulher, filho de Deus, sendo o próprio Deus conosco: 
“Porque um menino nos nasceu, um filho se nos deu; o governo está sobre os seus ombros; e o seu nome será: Maravilhoso Conselheiro, Deus Forte, Pai da Eternidade, Príncipe da Paz;” (Isaías 9:6 RA) 
“vindo, porém, a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei,” (Gálatas 4:4 RA)
“Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho, e ele será chamado pelo nome de Emanuel (que quer dizer: Deus conosco).” (Mateus 1:23 RA) 
No evangelho segundo João, Jesus é identificado como “o verbo”, filho de Deus (unigênito do Pai) e, ao mesmo tempo, como sendo Deus, senão vejamos: 
“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. (...) E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai.” (João 1:1 e 14 RA)
Mais adiante, João reafirma que Jesus é “Filho de Deus” ao mesmo tempo que é o próprio Deus, como podemos ver a seguir: 
“Também sabemos que o Filho de Deus é vindo e nos tem dado entendimento para reconhecermos o verdadeiro; e estamos no verdadeiro, em seu Filho, Jesus Cristo. Este é o verdadeiro Deus e a vida eterna.” (1 João 5:20 RA)
Assim, notamos que as escrituras sagradas afirmam que Jesus é “Deus Filho”. 

O Espírito Santo é Deus 

Apenas para afastar a impressão de que o Espírito Santo seja uma força e não uma pessoa, podemos destacar que o Novo Testamento nos dá várias indicações de que o Espírito age como uma pessoa distinta, ensinando (João 14:26); coabitando com os fiéis e habitando neles juntamente com o Pai (João 14:17,23), intercedendo como Cristo também o faz (Romanos 8:26,34) e, especialmente, demonstrando que tem sentimento como uma pessoa tem, conforme vemos a seguir: 
“E não entristeçais o Espírito de Deus, no qual fostes selados para o dia da redenção.” (Efésios 4:30 RA)
Mas, a demonstração de que o Espírito Santo é Deus pode ser retirada da passagem de Atos, cap. 5, que conta a história de Ananias e Safira. Nos versos 3 e 4, lê-se: 
“Disse então Pedro: Ananias, por que encheu Satanás o teu coração para que mentisses ao Espírito Santo e retivesses parte do preço da verdade? Não mentiste aos homens, mas a Deus.” 

Há um só Deus 

Já sabemos que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são Deuses. Mas, como compatibilizar esse conhecimento com a informação, também bíblica, de que há um só Deus? Ora, tanto o Velho Testamento como o Novo, explicitamente, nos informam que há um só Deus, conforme veremos a seguir: 
“A ti te foi mostrado para que soubesses que o SENHOR é Deus; nenhum outro há, senão ele.” (Deuteronômio 4:35 RA)
“Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR.” (Deuteronômio 6:4 RA)
“Eu sou o SENHOR, e não há outro; além de mim não há Deus; eu te cingirei, ainda que não me conheces.” (Isaías 45:5 RA)
“4 No tocante à comida sacrificada a ídolos, sabemos que o ídolo, de si mesmo, nada é no mundo e que não há senão um só Deus. 5  Porque, ainda que há também alguns que se chamem deuses, quer no céu ou sobre a terra, como há muitos deuses e muitos senhores, 6  todavia, para nós há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos; e um só Senhor, Jesus Cristo, pelo qual são todas as coisas, e nós também, por ele.” (1 Coríntios 8:4-6 RA) 
“Porquanto há um só Deus e um só Mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem,” (1 Timóteo 2:5 RA) 
Como cremos na perfeição de Deus e que seus caminhos são mais elevados que os nossos, não podemos imaginar que Deus tenha sido contraditório em sua palavra. E, de fato, não foi. Daí, surge a Trindade: Um Deus único, uma só divindade, do modo como o referenciamos, mas composto por um Pai, um Filho e um Espírito Santo, conforme veremos no tópico seguinte.

A unidade de três – a Trindade 

Primeiramente, é preciso afirmar que a bíblia, tanto no Velho como no Novo Testamento, nos aponta para uma possibilidade real, mas incompreensível segundo a lógica humana. Refiro-me à referência da unidade do casamento, onde “dois podem ser apenas um”, como veremos adiante:
“Por isso, deixa o homem pai e mãe e se une à sua mulher, tornando-se os dois uma só carne.” (Gênesis 2:24 RA) 
“7 Por isso, deixará o homem a seu pai e mãe e unir-se-á a sua mulher, 8  e, com sua mulher, serão os dois uma só carne. De modo que já não são dois, mas uma só carne.” (Marcos 10:7-8 RA) 
“Eis por que deixará o homem a seu pai e a sua mãe e se unirá à sua mulher, e se tornarão os dois uma só carne.” (Efésios 5:31 RA)
Avançando, notamos que essa mesma construção é repetida quando Jesus afirma ser “um com Deus”, bem como quando afirma estar no Pai, senão vejamos: 
“Eu e o Pai somos um.” (João 10:30 RA) 
“Crede-me que estou no Pai, e o Pai, em mim; crede ao menos por causa das mesmas obras.” (João 14:11 RA) 
Somente admitindo essa possibilidade entendemos que, para Deus, o plural pode ser unitário, ainda que isso não expresse um fato da nossa lógica. 
O texto bíblico que expressa a trindade, a meu ver, é tanto claro como dependente de uma compreensão de uma simbologia bíblica. A partir do momento em que conhecemos o verbo (a palavra) que se fez carne e habitou entre nós, como sendo o próprio Deus (João 1:1 e 14), podemos interpretar de modo adequadamente o versículo bíblico que nos diz expressamente que os três (Pai, Filho e Espírito Santo) são um, senão vejamos: 
“Pois há três que dão testemunho no céu: o Pai, a Palavra [o verbo] e o Espírito Santo; e estes três são um.” (1 João 5:7 RA) 

Conclusão 

Sem a pretensão de fazer um estudo teológico, entendo, de modo simplista, que os textos bíblicos apresentados são, no mínimo, capazes de apontar para a integração de três divindades (Pai, Filho e Espírito Santo), formando-se uma unidade (um só Deus), ainda que isso seja incompreensível à lógica humana. 
Afora esses indícios bíblicos, deixo as coisas não esclarecidas por Deus para que Ele próprio possa nos revelar, quando e se quiser: 
As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei.” (Deuteronômio 29:29 RA) 
Enfim, para ilustrar, lembro do ovo. Referenciado sempre no singular, como se fosse uma unidade, é, entretanto, composto por três partes: casca, clara e gema. 
Em, 30 de setembro de 2013.
Por Pr. Sólon Pereira
 
Pastora: sim ou não?

Imagem Ilustrativa

ESCLARECIMENTO INICIAL

Após alguns anos vivendo no meio neopentecostal, naturalmente convivi com pastores que defendiam a possibilidade de ordenamento de Pastoras ao ministério eclesiástico. E o que antes para mim não necessitava de discussão, ante a clara omissão e intenção bíblica a esse respeito, passou a ser uma questão de desafios. Constantemente me deparava com defesas acaloradas do ministério pastoral feminino. Nem assim me preocupei em fundamentar e registrar a minha posição, pois não pesava sobre mim a responsabilidade de definir essa questão. 

Entretanto, hoje, na condição de Presidente da Igreja Cristã Celeiros (ICC), no propósito de não comungar com heresias, cumpre-me apresentar aos membros as razões bíblicas para nossas convicções e escolhas espirituais. Evidentemente que compreendemos as opiniões contrárias, mas, para não criarmos expectativas nas mulheres que almejam o episcopado, é necessário esclarecermos que não encontramos na bíblia qualquer fundamento que nos levasse a ordenar mulheres ao ministério pastoral.

Para fornecer aos leitores um contraponto ao nosso entendimento, utilizei o trabalho acadêmico de Walkiria Ozório Corrêa, cuja tese apresentada em 2012, na Faculdade Evangélica de Brasília, defende a ordenação pastoral feminina no congregacionalismo brasileiro. 

Qualquer outro trabalho literário poderia ter sido escolhido, mas utilizamos este porque ele nos chegou por e-mail e observamos tratar-se de um texto elaborado com preocupação científica para defender sua tese. 

É bom esclarecer que não pretendemos desmerecer a qualidade do trabalho da autora. Também, não é nosso propósito criticá-la por seu posicionamento diferente do nosso. Ao contrário, admiramos sua coragem em expor tese sobre questão tão sensível em nosso tempo, embora tenhamos que rejeitá-lo pelas razões que passaremos a expor.

Introdução 

Com o propósito de apresentar as razões para o fato de rejeitarmos a ordenação de mulheres ao ministério pastoral, escolhemos um trabalho acadêmico que nos chegou por e-mail e que defende essa possibilidade. Assim, partiremos dos argumentos contrários para demostrar biblicamente que todo esforço para defender a ordenação pastoral feminina só ganha força com base em argumentos humanistas, e não bíblicos.  

A partir dos diligentes estudos realizados por Walkiria Ozório Corrêa, em tese acadêmica apresentada em 2012, na Faculdade Evangélica de Brasília, demonstraremos que a tese por ele defendida não se sustenta diante da Palavra de Deus, uma vez que as escrituras sagradas não admitem o ministério pastoral feminino como doutrina ou prática para a Igreja de Cristo. 

Desse modo, pretendemos apresentar o caminho mais seguro para não nos rendermos ao humanismo secular em detrimento da doutrina cristã. Nossa opção, portanto, é aceitar o que está posto nas escrituras sagradas, sem receio da crítica feminista e sem tentar abrandar a palavra de Deus para torná-la mais aceitável aos padrões modernos. 

Acreditamos que é melhor estarmos alinhados com a vontade soberana do Senhor, obedecendo à sua permanente e estável palavra do que promovermos contínuos ajustes para adequarmos a bíblia às exigências culturais do momento. 

Todo caminho do homem é reto aos seus olhos; mas o Senhor pesa os corações. (Pv 21:2)

Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras jamais passarão. (Lc 21:33)

Ordenação Pastoral Feminina 

A primeira questão apresentada por Walkiria diz respeito ao fato de Jesus ter separado apenas homens como discípulos. Afirma, então, que:


Admita-se, hipoteticamente, utilizando princípio da literalidade que Jesus tenha conclamado apenas homens para serem seus discípulos, valendo-se do argumento de que o texto bíblico não faz qualquer referência à convocação de mulheres para o ministério de Jesus. Utilizando o mesmo método de análise será que a conclusão “somente homens podem ser pastores” não deveria exigir que esses, na atualidade, fossem pescadores, judeus de língua aramaica, homens barbudos e grosseiros, ao passo que homens de elevada cultura e bem situados deveriam estar de fora?

Falta razoabilidade no trecho citado pela autora e esse não é um método aceitável quando desejamos interpretar a Palavra de Deus. Por esse raciocínio, desconsiderando-se a subsequente doutrina posta nas epístolas, poderíamos, então, defender que Jesus não se importaria se ordenássemos um homossexual ao ministério pastoral. Afinal, quando o mestre escolheu seus discípulos nada indicou sobre as amplas possibilidades de nossas escolhas futuras. Ora, mesmo que Jesus não tenha falado diretamente sobre as práticas homossexuais, Paulo, mais adiante, deixa claro que essa não é uma opção aceitável por Deus (Rm 1:26-27; 1Co 6:9-11). De semelhante modo, o apóstolo escreve a Timóteo sobre as características dos homens que deveriam ser separados para o ministério pastoral, de maneira que a opção de Jesus se confirma pelo mesmo Espírito nas epístolas paulinas. 

É necessário, pois, que o bispo seja irrepreensível, marido de uma só mulher, temperante, sóbrio, ordeiro, hospitaleiro, apto para ensinar. (1Tm 3:2) 

Na sequência, Walkiria trata das “raízes do androcentrismo”. Sua argumentação prende-se aos elementos do que considera “machismo” dos tempos antigos, a partir da influência negativa de Eva sobre Adão. Traz considerações sobre o que pensavam alguns dos pais da igreja sobre essa questão, mas não apresentou fundamentos bíblicos para que pudéssemos analisa-los

De outro modo, Walkiria, seguindo a linha humanista, ao tratar da questão da suposta revolta contra Eva, supõe que alguns homens modernos (religiosos contrários à sua tese) camuflam sentimentos machistas, senão vejamos: 

Cabe transcrever o que diz o autor sobre o pensamento cristão a respeito desse assunto. Não causaria estranheza se fosse o pensamento dos homens na atualidade, ainda que de forma camuflada

A mulher induz o homem ao pecado, logo a mulher é perigosa para a salvação do homem, ela é o meio que o demônio utiliza para se introduzir no coração do homem e levar a alma dele à perdição. Por isso que até a forma de a mulher se vestir, de se pentear e de se comportar em público devem estar subordinadas a critérios que decorrem do medo dos homens de perder a sua alma em presença de uma mulher. Essa seria uma razão teológica para restringir a liberdade do comportamento feminino. Pobres homens cristãos, sempre expostos ao pecado, por pensamentos, palavras ou atos, à vista de uma mulher! (grifo nosso) (GAMBIRASIO, 2005, p. 169-170). (Grifamos) 

Como podemos notar, o estudo de Walkiria sobre este tópico nada fala sobre a vontade de Deus, mas sobre as considerações humanas no decorrer dos séculos.

O Congregacionalismo brasileiro 

Neste tópico, Walkiria faz um breve histórico sobre a origem do congregacionalismo brasileiro e registra que seu fundador, Robert Kalley, mostrava-se aberto à participação das mulheres na igreja e mesmo não tendo admitido nenhuma mulher como pastora, permitia que praticassem alguns atos pastorais. Acrescenta que Charles Finney lecionou a Antoinette Brown, que foi a primeira mulher ordenada na América. 

Enfim, neste tópico também não há qualquer exame bíblico a ser realizado. Do relato de Walkiria nada se pode afirmar sobre a vontade de Deus, mas apenas sobre acontecimentos que, por si sós, não nos permitem afirmar que a doutrina bíblica apoie o ministério pastoral feminino. O fato do fundador do congregacionalismo brasileiro ser aberto à participação feminina em alguns atos pastorais não muda o que as escrituras sagradas dizem sobre o assunto. Afinal, não é o que os homens fazem que infirma a vontade de Deus, mas o que está registrado na bíblia.

Análise bíblica e teológica para a admissão da mulher ao ministério pastoral 

Antes de iniciar sua análise, Walkiria, mais uma vez, demonstra seu sentimento e insatisfação contra quem não compartilha de seu pensamento, senão vejamos: 

O que se tem visto são interpretações equivocadas baseadas em textos isolados, as quais têm gerado uma teologia depreciativa que relega a mulher a condição de segundo plano, mantendo-a numa situação de exclusão do ministério pastoral

Saindo em defesa de sua tese, e sabendo da clareza de Paulo ao escrever sua primeira carta aos coríntios (14:34), Walkiria faz o que todos fazem quando lhes convém eliminar uma passagem da bíblia, por contrariar suas teses humanistas: apelam para a questão cultural, dando a entender que algumas coisas escritas na Bíblia (não inspiradas?) não se aplicam em nossos tempos modernos. Veja-se o que afirmou: 

Na prática, o que se pode vislumbrar é que tem sido perpetuada em púlpito por “homens de Deus” uma teologia que preleciona que o lugar das mulheres pode ser qualquer lugar, menos o púlpito. Dizem eles fundamentados em Paulo: "Conservem-se as mulheres caladas nas igrejas, porque não lhes é permitido falar” (I Coríntios 14:34). 

Zuck apregoa que é imprescindível conhecer o significado da Bíblia para que se descubra e se aplique sua mensagem para os dias atuais. Contudo, essa tarefa é um grande desafio pelo fato de a Bíblia ser um livro muito antigo. Assim sendo, faz-se necessário transpor vários abismos que se apresentam como, por exemplo, o abismo do tempo, dos costumes e do idioma, dentre outros (1994, p. 10, 19). Por tudo isso, a missão do intérprete é demasiadamente importante, pois ele é o elo entre esses dois mundos que se apresentam aos leitores das Escrituras. Se a interpretação dos textos antigos for incorreta haverá consequências no mundo atual, como se tem visto na questão da ordenação feminina. (Grifamos) 

Como se vê, as bases do humanismo foram lançadas. A partir daí, pode-se perfeitamente mudar o que está escrito para adaptar a palavra de Deus aos tempos modernos. 

É bom lembrar que os homossexuais têm feito a mesma coisa com alguns versos bíblicos para adapta-los à modernidade. Curiosamente, até mesmo as pastoras do nosso tempo repudiam as modificações bíblicas feitas pelos homossexuais. Neste caso, em sua maioria, elas não concordam com a adequação às exigências culturais modernas. 

Portanto, se fizermos interpretações bíblicas que admitam alteração do que está claramente definido para amoldar a palavra de Deus àquilo que consideramos aceitável diante da cultura moderna, nos tornaremos hipócritas ao rejeitar outras alterações de textos igualmente claros propostas por aqueles que pretendem amoldar a bíblia ao pensamento secular inclusivo.

Antigo testamento 

Buscando fundamentar sua tese, embora Walkiria afirme que “bem cedo na história de Israel, várias mulheres assumiram papeis de liderança”, traz a exame apenas duas personagens do Velho Testamento, Débora (Jz 4:5) e Hulda (2Rs 22:14-20). 

Sobre Débora, assevera que: 

Cabe salientar que, sendo Israel considerado o povo de Deus, não havia distinção entre liderança política e religiosa. Nesse sentido, Débora evocava para si esse duplo encargo, assim como os demais líderes (GRENZ, 1998, p. 73-74): 

 A posição de Débora combinou o trabalho de profeta e juiz (Jz 4.4). Membro da comunidade profética, ela atuava como porta voz para a palavra de Deus (4.6-7). Débora anunciou a ordem de Deus a Baraque, mandando que reunisse o exército israelita contra os cananeus...Os filhos de Israel subiam a ela a juízo (Jz 4.5) (GRENZ, 1998, p. 75).

 Esse exemplo de Débora demonstra que seu agir não se passava apenas na esfera privada, como defendem aqueles que dizem que a atuação da mulher deveria se restringir ao ambiente familiar. Pelo contrário, “Débora desempenhava um cargo público num ambiente público” (GRENZ, 1998, p. 76). E mais, articula o autor: 

O exemplo de Débora confirma que nem Deus nem os hebreus da antiguidade consideravam a liderança feminina intrinsecamente odiosa. Pelo contrário, uma mulher podia exercer autoridade sobre a comunidade, inclusive sobre os homens (GRENZ, 1998, p. 76). 

Vale salientar que “não se deve supor que as poucas mulheres especificamente nomeadas constituem o total de mulheres atuando em posições de autoridade, pois se encontra indicações claras de que homens e mulheres não nomeados serviram como autoridades” (GRENZ, 1998, p. 73). Da mesma forma, não se pode afirmar que a grande quantidade de juízes do sexo masculino reduz a importância da escolha de Débora por Deus e de seu serviço louvável e obediência a esse chamado. Igualmente, não se pode afirmar, como alguns o fazem, que Débora apenas atuou como juíza e profeta por não haver naquele momento homens disponíveis (GRENZ, 1998, p. 76).

Inegável o fato de Deus ter usado Débora em um determinado momento da história de Israel. Entretanto, é bom lembrar que, além deste ser um fato isolado, uma exceção registrada ao longo dos aproximados 450 anos da história dos Juízes, a condição da liderança de Débora é apenas parcial e diferenciada da exercida pelos líderes homens. Veja-se que Débora não tinha a missão de liderança militar como os demais juízes e reis. Ela recebeu uma palavra do Senhor ordenando que Baraque liderasse o povo na batalha contra Sísera. 

 Ao contrário do que faz crer Walkiria, não há indícios no texto de que Débora exercesse uma profissão de governo público e geral. Segundo se vê em Juízes 4:5, a sua função profética parece restrita ao atendimento individualizado, uma vez que “Ela atendia debaixo da palmeira de Débora, entre Ramá e Betel, na região montanhosa de Efraim; e os filhos de Israel subiam a ela a Juízo”. Não é difícil notar que os “filhos de Israel” buscavam Débora para tratar de seus conflitos particulares e não para questões políticas do governo de Israel. 

Seja como for, a liderança de Débora, ao que nos indicam os textos bíblicos, não era plena, mas diferenciada, uma exceção à regra. Ela atuava em questões privadas e atendeu ao comando de Deus para transmitir uma ordem política a um homem. 

Sobre Hulda, Walkiria registrou o seguinte: 

Na mesma linha de pensamento, apresenta-se Hulda (2 Rs 22.14-20), que provavelmente é a profetiza mais conhecida da história israelita. Narram as Escrituras que a referida profetiza foi procurada por cinco oficiais importantes do rei Josias, que desejou ouvir a palavra profética assim que encontrou o livro da Lei no templo. Em resposta ao oráculo de Hulda, “o rei guiou o povo num ato de renovação da aliança” (GRENZ, 1998, p. 77). 

Da mesma forma como se asseverou no tocante a Débora, muitos estudiosos afirmam que o ministério desempenhado por Hulda se dava apenas na esfera privada, não servindo de embasamento para afirmar que as mulheres não exerciam papéis públicos e de destaque naquela sociedade. Pode-se perceber pelo contexto que o rei não foi em busca da orientação de nenhum dos principais profetas da época como, por exemplo, Sofonias (Sf 1.1) e Jeremias (Jr 1.2). Pelo contrário, vislumbra-se que o rei assentou sua fé numa mulher que cumpria sua missão em meio a tantos outros profetas do sexo masculino, não tendo agido diversamente de nenhum deles. 

Com respeito ao ministério da profetiza Hulda, Grenz afirma: 

A intenção do narrador dificilmente pode ser interpretada da maneira como os complementaristas algumas vezes leem a passagem, a saber, que Hulda exercia o seu ministério profético de modo que não obstruísse a liderança masculina. Em vez disso, Hulda se destacava entre homens e mulheres que proclamavam a verdadeira palavra de Deus ao povo daqueles dias (GRENZ, 1998, p. 77). (Os grifos não constam do original). 

Realmente, Hulda é uma das profetizas mais conhecidas da história de Israel, até porque se trata de mais uma exceção à regra. No caso de Hulda, especificamente, há um breve registro sobre uma única profecia dirigida ao Rei Josias. Nada mais se anotou em toda a bíblia a seu respeito e sua atuação não foi de liderança, mas de porta voz de Deus, pois o governo e a liderança eram do Rei Josias. 

O fato do Rei ter-se dirigido a Hulda e não a Sofonias ou a Jeremias em nada a coloca em condição superior ou privilegiada em relação a esses profetas. Note-se que estes dois foram escolhidos para uma missão que lhes renderam livros próprios nas escrituras sagradas, cujo conteúdo foi determinado para orientação geral do destino da nação e não apenas para um evento específico e pontual. 

Importante destacar que, a despeito da parcial e pontual liderança de Débora e do evento em que Hulda foi consultada na condição de profetiza, nenhum desses dois exemplos servem como comparação de um ministério pastoral. A liderança exercida no Velho Testamento não serve de parâmetro para o que Deus estabeleceu ao instituir a Igreja, que é um organismo novo, com doutrina própria e orientação moral diferenciada. É bom lembrar que os líderes patriarcas tinham mais de uma mulher, Salomão teve 700 mulheres e 300 concubinas e o grande líder e Rei Davi teve 6 mulheres (Mical, Abigail, Ainoã, Eglá, Maacá e Bate-Seba). Se isso era aceitável na liderança sobre Israel, deixou de ser admitido a partir de Jesus (Mt 19:4-5). A confirmação de que os requisitos de liderança mudaram após Jesus está claramente definido na carta em que Paulo estabelece as condições para que um homem seja bispo da igreja – deve ser marido de uma só mulher (1Tm 3:2). 

Logo, o exercício do ministério pastoral tem suas condições próprias e requisitos específicos, não podendo se satisfazer com o modo de liderança dos tempos do Velho Testamento. Deus usa quem quer para seus propósitos particulares, mas quando se trata de ministério pastoral, o soberano deixou registrado quem deve exercê-lo e quais requisitos deve possuir.

Novo testamento 

Para conseguir justificar sua tese no Novo Testamento, Walkiria lança mão do caso de Júnias e do texto de Gl 3:28 que expressa a unidade cristã e a igualdade entre homens e mulheres. 

Sobre Júnias, registrou: 

Há uma discordância quanto ao texto de Romanos 16.7 no que diz respeito a Júnias ser ou não uma mulher e apóstola. Lopes afirma que há divergências quanto à questão textual por existirem muitas variantes do referido nome nos manuscritos gregos alegando que “os resultados são inconclusivos por parecer evidente que Júnias era nome tanto de homem quanto de mulher no período neotestamentário” (1997, p. 12-13).

Há também a questão de ser ou não uma apóstola. O autor, com razão, define o termo em seu sentido primário significando mensageiros ou enviados. Todavia, afirma que “esses apóstolos não tinham autoridade de governo em igrejas locais; antes, eram enviados por elas para desempenhar diferentes funções como representantes e emissários” (1997, p. 15). Ou seja, em sua concepção, ainda que se admita que Júnias seja uma mulher, era uma apóstola itinerante, e por isso, não possuía qualquer liderança sobre a igreja

Data vênia, mas essa percepção de Lopes não procede, pois não há como ser um representante sem ter recebido sobre si a autoridade para o desempenho da função para a qual foi designada, isto é, toda apóstola que é enviada pela igreja a pregar o Evangelho está sendo enviada com toda a autoridade não apenas para representar a igreja que a envia, mas também com autoridade do próprio Deus para desempenhar a sua missão. 

Nesse aspecto, se há dúvida quanto a esse versículo, ele não pode ser utilizado nem para afirmar, nem para negar a ordenação feminina. (Os grifos não constam do original). 

Como se vê, a própria Walkiria admite que não se pode afirmar que Júnias fosse uma apóstola. Nem mesmo é possível afirmar que era uma mulher. A mesma dúvida não permanece em quem lê o texto com atenção e depois o contextualiza com as demais palavras de Jesus e do próprio Paulo. Vejamos primeiramente o texto que cita Júnias: 

Saudai a Andrônico e a Júnias, meus parentes e meus companheiros de prisão, os quais são bem conceituados entre os apóstolos, e que estavam em Cristo antes de mim. (Rm 16:7) 

Não é difícil notar que Paulo parece se referir a dois homens. Ademais, o texto não está dizendo que esses dois eram apóstolos. Diz apenas que eles eram conceituados entre os apóstolos, que eram os doze. Não é difícil compreender que um soldado pode ser bem conceituado entre os generais. Isso não significa que o soldado seja general, mas apenas que os generais o têm em bom conceito. Distinguir-se entre os apóstolos não significa, necessariamente, exercer o apostolado. Marcos e Lucas, por exemplo, não eram apóstolos e se destacaram entre eles. 

Afirmar que Júnias fosse mulher contraria inclusive o costume prisional da época, pois não era comum uma mulher ficar presa com homens: “Saudai a Andrônico e a Júnia, meus parentes e meus companheiros na prisão, os quais se distinguiram entre os apóstolos e que foram antes de mim em Cristo” (Rm 16.7). 

Esse esclarecimento já seria suficiente para acabar com a dúvida, mas é bom que consideremos que qualquer entendimento diverso entraria em franca contradição com o contexto do Novo Testamento e com orientações específicas de Paulo, tanto em relação às mulheres como em relação às características que um bispo deveria possuir. 

Do ponto de vista do evangelho de Jesus, não há espaço para incluirmos uma apóstola, pois o mestre não escolheu mulher alguma para essa função, embora as tenha valorizado e recebido assistência delas. 

“13 Depois, subiu ao monte e chamou os que ele mesmo quis, e vieram para junto dele. 14 Então, designou doze para estarem com ele e para os enviar a pregar 15  e a exercer a autoridade de expelir demônios.” (Mc 3:13-15) 

12 Naqueles dias retirou-se para o monte a fim de orar; e passou a noite toda em oração a Deus. 13 Depois do amanhecer, chamou seus discípulos, e escolheu doze dentre eles, aos quais deu também o nome de apóstolos: (Lc 6:12-13) 

Após Jesus, nem mesmo a história da igreja primitiva, contada no livro de Atos dos Apóstolos dá margem a insinuações sobre algum apostolado feminino. Veja-se que após a morte de Judas, os apóstolos buscaram sua substituição, mas nem mesmo cogitaram a possibilidade de escolha de uma das muitas mulheres valorosas que acompanharam todo o ministério do Mestre, senão vejamos: 

21 É necessário, pois, que dos varões que conviveram conosco todo o tempo em que o Senhor Jesus andou entre nós, 22 começando desde o batismo de João até o dia em que dentre nós foi levado para cima, um deles se torne testemunha conosco da sua ressurreição. 23 E apresentaram dois: José, chamado Barsabás, que tinha por sobrenome o Justo, e Matias. 24 E orando, disseram: Tu, Senhor, que conheces os corações de todos, mostra qual destes dois tens escolhido. 25 para tomar o lugar neste ministério e apostolado, do qual Judas se desviou para ir ao seu próprio lugar. (At 1:21-25) 

Ainda no Novo Testamento, observamos que, quando da escolha dos primeiros diáconos, potenciais pastores no futuro (1 Tm 3:13), os apóstolos foram determinantes: “Escolhei, pois, irmãos, dentre vós, sete varões” (At 6.3). Mais adiante, no primeiro concílio, em 52 d.C., os rumos da igreja foram traçados por homens (At 15). 

Logo, nem o texto específico nem o contexto neotestamentário permitem considerar que Júnias fosse uma mulher apóstola. É bom lembrar que a própria Walkiria repudia a interpretação de um texto desconsiderando-se seu contexto, senão vejamos: 

“No tocante à interpretação dos textos sagrados, sabe-se que a forma como se interpreta a Bíblia - considerada o manual de fé e prática de todo o cristão - será a forma como se crê, e a forma como se crê será a forma como se vive, como se adora ou não e, também, a forma como se ensina. O que se tem visto são interpretações equivocadas baseadas em textos isolados...” 

Quanto ao argumento da unidade cristã e igualdade entre gêneros, vejamos o texto utilizado por Walkiria: 

28 Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus. (Gl 3:28) 

Ora, não é necessário qualquer exercício interpretativo que vá além da leitura dos versos anteriores do próprio capítulo 3, onde temos uma mensagem de salvação e de justificação pela fé, sem se fazer acepção de pessoas, “Pois todos sois filhos de Deus pela fé em Cristo Jesus” (Gl 3:26). No quesito de salvação, a inclusão é geral, sem acepções. Mas, isso nada tem a ver com a escolha de bispos, cujos critérios são específicos e delimitados por Paulo em sua carta a Timóteo. 

Tentar dar sentido diferente ao verso citado, para afirmar uma igualdade de gêneros, é promover incoerência e desarmonia no contexto do Novo Testamento. Acolher a tese de Walkiria nesse sentido significaria afastar a soberania de Deus em suas escolhas, o que é temeroso. Embora a salvação seja universal, sem distinção de gênero, isso não significa que o Criador, no pleno uso de sua soberana vontade, esteja impedido de estabelecer, em vários outros pontos, ordem, preferências, prioridades e hierarquias. A leitura de alguns textos bíblicos podem afastar qualquer dúvida a esse respeito, a exemplo de Gn 1; Nm 2; At 15:6, 22; 1 Co 12:28,29; 15:23; 1 Ts 4:16,17; 5:23 etc. Importante notar o modo como Deus estabelece ordem utilizando os termos “primeiramente”; “em segundo lugar”; “em terceiro lugar”; “depois”; e assim por diante. 

Estranhamente, abandonando o que está literalmente escrito, Walkiria parte novamente para o humanismo e apresenta considerações sobre a suposta injustiça que Deus estaria promovendo ao utilizar sua soberania para escolher homens, e não mulheres, ao ministério pastoral. Vejamos as palavras da acadêmica: 

Outro argumento utilizado no que diz respeito a esse versículo é que o apóstolo Paulo está declarando uma igualdade em termos de posição soteriológica diante de Deus. Nesse sentido, todos os que creem são filhos e, por conseguinte, igualmente herdeiros da promessa da salvação. Alegam que o apóstolo não esteja defendendo uma igualdade social entre homens e mulheres diante de Deus. Mas surge a questão: se Deus se importa com o ser humano de forma holística (e se importa), há alguma esfera da vida do homem e da mulher que não esteja diante de Deus? (GRENZ, 1998, p. 109 -110). 

Para que se possa fazer uma interpretação correta dos textos bíblicos, torna-se mandatório refletir de antemão acerca de algumas questões. É correta a assertiva que enfatiza que a Palavra de Deus em determinados aspectos é aplicável somente àquela cultura, para àquela época e não mais ao contexto moderno, ou seja, é possível que alguns textos bíblicos sejam aplicáveis apenas aos primeiros cristãos? Como a práxis daquela época tão remota se torna atual para os cristãos do século XXI? A resposta é simples. O que deve motivar e orientar o estudioso das Escrituras é a busca dos princípios, haja vista que os princípios de Deus são totalmente imutáveis. É o que se buscará a seguir. (Os grifos não constam do original). 

Como podemos notar no trecho transcrito, Walkiria prepara-se para abandonar a literalidade da palavra de Deus para iniciar um exercício interpretativo para se esquivar do que está escrito e apresentar “princípios” que possam se adequar à nossa cultura moderna. Vejamos o texto bíblico a ser examinado: 

Pois não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio. (1Tm 2:12) 

Vejamos, agora o modo como a acadêmica procura justificar a alteração das palavras de Paulo para que se libere o caminho para a aceitação do ministério pastoral feminino: 

Paulo, na primeira Epístola a Timóteo (2.12), é enfático ao expressar que a mulher não ensine. Mas o que Paulo, de fato, desejava com essa instrução? O princípio intencionado por Paulo não era que a mulher não desenvolvesse o ministério de ensino à congregação, mas que, ao fazê-lo, tudo fosse feito “com decência e ordem”, ou seja, a mulher deveria tomar todo o cuidado para não trazer as práticas de outras religiões pagãs para o culto cristão. A preocupação do apóstolo era, tão somente, a de instruir Timóteo no combate às heresias que estavam se infiltrando na igreja de Éfeso. (Os grifos não constam do original) 

A intenção da acadêmica pode até ser boa, mas suas conclusões são presunçosas. Afirmar que Paulo quis dizer algo diferente do que disse é, no mínimo, estranho. O que Paulo queria dizer foi exatamente o que disse: não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio. Por mais que eu não goste ou não concorde, não tenho como mudar as palavras do apóstolo. 

É bom lembrar que logo no capítulo seguinte Paulo orienta Timóteo sobre quais características deveria ter um bispo. Se o Espírito Santo de Deus desejasse incluir a mulher no bispado, poderia ter feito isso sem a menor dificuldade, pois Paulo estava tratando exatamente do que Deus espera do homem e da mulher no contexto da organização da igreja. E no caso das mulheres, Paulo é bastante específico: 

9 Quero, do mesmo modo, que as mulheres se ataviem com traje decoroso, com modéstia e sobriedade, não com tranças, ou com ouro, ou pérolas, ou vestidos custosos, 10 mas (como convém a mulheres que fazem profissão de servir a Deus) com boas obras. 11 A mulher aprenda em silêncio com toda a submissão. 12 Pois não permito que a mulher ensine, nem tenha domínio sobre o homem, mas que esteja em silêncio. (1 Tm 2:9-12) 

Paulo foi muito direto e objetivo, sem medo, rodeios ou tentativas de minimizar o propósito de Deus. Na profissão em que foram chamadas, as mulheres devem aceitar o governo dos líderes homens. Enquanto aprendem, não devem buscar impor suas posições. É necessário aprender a ouvir primeiro. E esta orientação de Paulo a Timóteo está perfeitamente alinhada ao que ele orientou aos Coríntios, senão vejamos: 

26 Que fazer, pois, irmãos? Quando vos congregais, cada um de vós tem salmo, tem doutrina, tem revelação, tem língua, tem interpretação. Faça-se tudo para edificação. 27 Se alguém falar em língua, faça-se isso por dois, ou quando muito três, e cada um por sua vez, e haja um que interprete. 28 Mas, se não houver intérprete, esteja calado na igreja, e fale consigo mesmo, e com Deus. 29 E falem os profetas, dois ou três, e os outros julguem. 30 Mas se a outro, que estiver sentado, for revelada alguma coisa, cale-se o primeiro. 31 Porque todos podereis profetizar, cada um por sua vez; para que todos aprendam e todos sejam consolados; 32 pois os espíritos dos profetas estão sujeitos aos profetas; 33 porque Deus não é Deus de confusão, mas sim de paz. Como em todas as igrejas dos santos, 34 as mulheres estejam caladas nas igrejas; porque lhes não é permitido falar; mas estejam submissas como também ordena a lei. 35 E, se querem aprender alguma coisa, perguntem em casa a seus próprios maridos; porque é indecoroso para a mulher o falar na igreja. 36 Porventura foi de vós que partiu a palavra de Deus? Ou veio ela somente para vós? 37 Se alguém se considera profeta, ou espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor. 38 Mas, se alguém ignora isto, ele é ignorado. (1 Co 14:26-38) 

É inegável que Paulo está se referindo à ordem nas reuniões da igreja. Nessa exata passagem o apóstolo está tratando dos profetas que ensinam por meio da transmissão da Palavra de Deus. O contexto assegura que não foi dada à mulher autorização para se sobrepor àqueles que receberam a profecia. Se elas não concordassem com alguma coisa, deveriam tratar do caso com seus maridos, reservadamente, e não levantando suas questões em público. Gostemos ou não, é exatamente isso que foi ordenado pelo Espírito Santo de Deus por meio do apóstolo Paulo.

Como ser mais claro? Como ser mais enfático? Para que suas palavras sobre esse assunto fossem consideradas acima de qualquer outra interpretação, conselho, preferências pessoais ou achismos, o apóstolo faz uma afirmação de autoridade superior, inquestionável, para afastar qualquer dúvida: “se alguém se considera espiritual, reconheça que as coisas que vos escrevo são mandamentos do Senhor”. Se desprezar isso, será desprezado. Como afastar uma palavra como esta? Como desprezá-la? Como colocá-la em hierarquia inferior diante de outros textos nada específicos? Ora, se reduzirmos ou alterarmos esse mandamento, para fazê-lo perder o seu sentido, como pretender ser espiritual?

Logo, se uma mulher quer apresentar sua compreensão sobre questões espirituais da igreja devem primeiramente as submeterem a seus maridos ou líderes, no caso de não possuírem maridos. Evidentemente, isso não significa que as mulheres não possam ter opinião ou que não tenham condições cognitivas suficientes para compreender qualquer assunto. Também, não significa que elas não possam questionar algo que lhes pareça errado, mas o texto recomenda que isso seja feito com sabedoria, usando-se meios que não causem ofensa e sem a pretensão de se colocarem em posição de superioridade. Gostemos ou não, foi assim que Paulo ordenou à igreja e isso não se submete ao que a sociedade feminista pensa ser razoável para os padrões modernos quando uma mulher participa ativamente de reuniões, de encontros sociais, de trabalhos profissionais, de magistério nas escolas ou mesmo da política. 

Pessoalmente, acreditamos que a mulher pode até mesmo trazer ensinos na igreja, pela via da retransmissão daquilo que estão aprendendo de suas lideranças. Desse modo, não há interpelações públicas nem desrespeito à autoridade ministerial constituída por Deus. De outro modo, se é para desconstituir a autoridade que Deus elegeu, se é para criar questões sobre o que Deus pode ou não fazer, se é para desconstruir a ordem estabelecida nos relacionamentos entre marido e mulher, melhor ficar em silêncio como ordenou Paulo.

Fazendo apenas a leitura do que está expresso, sem aumentar nem diminuir, fica evidente que a mulher não poderia ter posição de liderança pastoral, o que está em perfeita sintonia com a orientação dada a Timóteo. 

Importante fazer uma ressalva. De fato, algumas questões que envolvem as mulheres já deram muita discussão ao longo da história da igreja contemporânea. E sempre quando parece difícil aceitar um determinado texto, por parecer exageradamente ridículo aos padrões modernos, a solução é validar a passagem bíblica apenas para determinada cultura ou época. Defendemos, entretanto, um esforço maior para receber o que está escrito, pois o próprio Espírito de Deus nos ajuda quando nosso empenho é por colocar em prática a sua vontade.

Por exemplo, quem defende a proibição do corte de cabelo para as mulheres ou o uso do véu, o faz por considerar que há uma ordem expressa de Deus nesse sentido e que não obedecer essa ordem é pecado. Em vez de recorrermos aos costumes relacionados ao tempo de Paulo e das questões das prostitutas que se convertiam, preferimos observar melhor o que o próprio texto e seu contexto nos revelam. Vejamos o texto:

2 Ora, eu vos louvo, porque em tudo vos lembrais de mim, e guardais os preceitos [as tradições NVI] assim como vo-los entreguei. 3 Quero porém, que saibais que Cristo é a cabeça de todo homem, o homem a cabeça da mulher, e Deus a cabeça de Cristo. 4 Todo homem que ora ou profetiza com a cabeça coberta desonra a sua cabeça. 5 Mas toda mulher que ora ou profetiza com a cabeça descoberta desonra a sua cabeça, porque é a mesma coisa como se estivesse rapada. 6 Portanto, se a mulher não se cobre com véu, tosquie-se também; se, porém, para a mulher é vergonhoso ser tosquiada ou rapada, cubra-se com véu. (...) 10 Portanto, a mulher deve trazer sobre a cabeça um sinal de submissão, por causa dos anjos. 11 Todavia, no Senhor, nem a mulher é independente do homem, nem o homem é independente da mulher. 12 pois, assim como a mulher veio do homem, assim também o homem nasce da mulher, mas tudo vem de Deus. 13 julgai entre vós mesmos: é conveniente que uma mulher com a cabeça descoberta ore a Deus? 14 Não vos ensina a própria natureza que se o homem tiver cabelo comprido, é para ele uma desonra; 15 mas se a mulher tiver o cabelo comprido, é para ela uma glória? Pois a cabeleira lhe foi dada em lugar de véu. 16 Mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem tampouco as igrejas de Deus. (1Co 11:2-6; 10-16)

Primeiramente, podemos observar que o texto citado não nos indica que o corte de cabelo é pecado para mulheres cristãs, tampouco exige o uso de véu. É importante notar que desonra própria não é pecado. Por essa razão, o texto apresenta sempre a condicional “SE”, deixando para a mulher decidir o quanto se sentirá desonrada com o cabelo tosquiado – “julgai entre vós mesmos”. Neste caso, SE isso for desonra para ela, o véu é uma alternativa. Mas, para que o próprio texto nos liberte de contendas, Paulo encerra dizendo que isso não merecia maiores discussões, “mas, se alguém quiser ser contencioso, nós não temos tal costume, nem tampouco as igrejas de Deus”. Portanto, por não se tratar de pecado e nem afetar terceiras pessoas, mas dizer respeito apenas à desonra própria, Paulo encerra o assunto afirmando que essa tradição não deveria ser motivo de contendas nas igrejas de Deus.

No caso do “ensino feminino” além de termos orientações similares em duas epístolas, é bom lembrar que essa questão não se refere ao âmbito pessoal (individual), pois implica autoridade sobre terceiras pessoas, de modo que podemos, sem medo, defender que não convém que a mulher assuma posição conferida ao homem pela doutrina neotestamentária

Avançando um pouco mais na tese de Walkiria, percebemos que ao se esgotarem seus argumentos bíblicos, a última parte de seu estudo fixa-se apenas em considerações humanistas, senão vejamos: 

No que diz respeito a essa ordem, ou seja, ter sido o homem criado primeiro que a mulher e quanto à questão do pecado e da queda, indaga Liefeld em sua obra Mulheres no Ministério Feminino (1996, p.157): 

Existe algo inerentemente diferente nos homens em relação às mulheres que faz com que aqueles sejam capazes para o ministério e estas não? De que forma a queda teria afetado a capacidade da mulher para o ministério? De que forma a redenção de Cristo afetou as consequências da queda? 

Resta saber qual é o principio que se abstrai dessa sequência da ordem de criação narrada no versículo 13 de 1 Timóteo. Certamente não é o grau de importância do homem sobre a mulher; mas, sim, que o primeiro a ser criado, o homem, serve de modelo a ser seguido pela segunda, ou seja, pela mulher. 

Apenas com o escopo de confirmar esse princípio e, negar o grau de importância de criação que coloca o homem como superior à mulher, se a ordem da narrativa da criação de Deus fosse para evidenciar escala de importância de um sobre o outro, certamente a natureza e os animais teriam supremacia sobre a humanidade, visto que aqueles vieram primeiro à existência, o que na prática não se vislumbra.

Considerando o que foi visto até aqui e no sentido de se aprofundar no cerne da questão pastoral feminina, Liefeld (1996, p. 155) indaga: “Deveria o ministério cristão, que segundo todos os testemunhos das Escrituras é um ministério de natureza espiritual, ser limitado pelo gênero do ministro, que pela sua natureza constitui uma distinção humana?” 

Castro afirma que “homem e mulher formam a humanidade e fazem parte da mesma humanidade”. Nesse sentido, em não havendo diferença antropológica entre homem e mulher, muitas atitudes são totalmente descabidas como, por exemplo, a existência de critérios diferenciados de seleção ou até mesmo sua inexistência, até porque os “dons são distribuídos livremente pelo Espírito em sua graça” (ano I, 2010, p.43).

Indo mais adiante, o referido autor afirma com muita propriedade: “se a distribuição fosse condicionada conforme a categoria da pessoa a Teologia da Graça de Paulo entraria em contradição, pois o Espírito ficaria limitado ao gênero da pessoa” (ano I, 2010, p. 43)

Ora, nós bem sabemos que as mulheres são tão capacitadas intelectualmente quanto os homens para qualquer tarefa. Também sabemos que Deus ama a todos igualmente e que Deus pode distribuir dons livremente, mas isso não muda o texto bíblico e não nos dá o direito de dizermos ao soberano quem ele deve separar para uma missão. Se Deus escolheu o homem, só temos de aceitar, por mais que eu pense que seria melhor ter uma mulher no comando da igreja. É exatamente pela submissão à vontade de Deus que o homem não pode abrir mão de seu chamado.

Enfim, quanto mais argumentos humanistas, menos bíblia. Se a palavra de Deus concordasse com os que querem abrir espaço para o ministério pastoral feminino, poucos parágrafos bastariam para fundamentar com segurança esse propósito.

Análise histórica como fundamento para admissão da mulher ao ministério pastoral 

Neste tópico, não há textos bíblicos a serem analisados. Entretanto, é preciso reconhecer a propriedade das palavras de Walkiria quando nos lembra do quanto as mulheres sempre foram importantes tanto no ministério de Jesus (Lc 8:1-3) como em todo o desenrolar da história da igreja. 

Mulheres podem anunciar Jesus, o salvador (Jo 4:28-30), orar pelas causas da igreja (At 1:14) e desempenhar todas as tarefas de um seguidor de Jesus (Mt 27:55) com grande eficiência e sem nenhuma distinção. Isso é inegável, mas não muda o fato de Deus em sua soberania ter separado homens para o ministério pastoral, de modo simples e objetivo, dando-lhes a incumbência de liderar a família e o ministério.

Relevante notar que Walkiria reconhece que os impeditivos para a ordenação de mulheres ao ministério pastoral são firmados nas escrituras sagradas, senão vejamos:

De fato, o Congregacionalismo brasileiro tem delegado a ocupação do ministério pastoral somente aos homens e, para justificar tal ato, os líderes têm se valido da Bíblia como fundamento.

Sim, a acadêmica está corretíssima ao afirmar que a bíblia é o firme fundamento de quem defende a vontade de Deus sobre todas as questões, vontades e preferências humanas. Essa, entretanto, não foi sua opção. Ao final de seu estudo, Walkiria deixa claro que, em sua avaliação a Palavra de Deus precisava de uma releitura (ajustes?) porque as mulheres têm sido alvo de discriminação, ao passo que são colocadas em segundo plano na igreja:

Para buscar a razão desse posicionamento, tentou-se demonstrar nesse artigo que as mulheres têm sido alvo de muita discriminação não só no seio da sociedade, como também na igreja. Elas vêm sendo relegadas à posição de importância inferior.

(...)

O cerne desse artigo se fixou em apontar princípios no sentido de tornar possível à mulher congregacional a sua presença e atuação nos púlpitos das igrejas da referida denominação. Para isso, esse trabalho se valeu de uma releitura bíblica tanto do Antigo quanto do Novo testamento, em descompasso com a ideologia dominante. (Grifamos).

Infelizmente, não podemos concordar com a acadêmica. É impróprio propor mudanças sobre a escolha de Deus simplesmente porque achamos que ela não cabe dentro dos nossos conceitos de justiça e razoabilidade. Por mais difícil que seja, precisamos ler o que está escrito e não propor releitura para chegar a conclusões adaptadas ao nosso querer. O criador nos deixou claro que sua escolha pode até parecer loucura para o homem natural, mas é a expressão de sua sabedoria e soberania:

“25 Porque a loucura de Deus é mais sábia do que os homens; e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. 26  Irmãos, reparai, pois, na vossa vocação; visto que não foram chamados muitos sábios segundo a carne, nem muitos poderosos, nem muitos de nobre nascimento; 27  pelo contrário, Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolheu as coisas fracas do mundo para envergonhar as fortes; 28  e Deus escolheu as coisas humildes do mundo, e as desprezadas, e aquelas que não são, para reduzir a nada as que são; 29  a fim de que ninguém se vanglorie na presença de Deus.” (1 Coríntios 1:25-29 RA)

Portanto, o humanista pode ter razão em suas considerações sobre a justiça e a igualdade segundo os conceitos dos homens, mas certamente não compreende a loucura de Deus, pois sua Palavra se discerne espiritualmente:

“Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.” (1 Coríntios 2:14 RA) 

Conclusão 

Após analisar todos os argumentos apresentados na tese de Walkiria, concluímos que defender a ordenação de mulheres ao ministério pastoral é admitir alteração da Palavra de Deus em favor da demanda social contemporânea.

Parece-nos que essa é apenas mais uma heresia entre tantas outras que se firmam no meio evangélico. Mas, quem está se importando com isso? Em um ambiente com tantas distorções bíblicas, uma a mais ou uma a menos não faz muita diferença. Depois que aceitamos uma heresia, as seguintes são mais fáceis de admitir, pois naturalmente “um abismo chama outro abismo...” (Salmos 42:7).

Na prática, assiste razão à Walkiria quando afirma que “não há como escapar do inevitável: a ordenação pastoral feminina tanto no âmbito congregacional quanto no de outras denominações é apenas uma questão de tempo”.

Isso é um fato. Tememos, entretanto, que outros abismos se aproximem e do mesmo modo que a igreja hoje admite alterações bíblicas para acomodar o clamor da modernidade em sua doutrina, avance cada vez mais na fragilização da relação conjugal, na desestabilização da família e na desconstrução dos princípios de Deus para a Igreja. Também, receamos que, ao fim, os teólogos humanistas façam com que a Igreja, para não cair em contradições, admita outras adaptações sob o argumento de afastar o radicalismo para com as pessoas que fizeram opção sexual diferente das previstas por Deus para os seus filhos.

Portanto, se isso é inevitável, só nos resta pedir a Deus que proteja as mulheres de si mesmas, que tenha misericórdia dos homens diante de suas omissões, que preserve a igreja de seus líderes e que livre as famílias de sua desconstrução.

“8 Mas, ainda que nós ou mesmo um anjo vindo do céu vos pregue evangelho que vá além do que vos temos pregado, seja anátema. 9 Assim, como já dissemos, e agora repito, se alguém vos prega evangelho que vá além daquele que recebestes, seja anátema.” (Gálatas 1:8-9)

Observação final

O presente estudo foi elaborado para firmar, no âmbito da Igreja Cristã Celeiros (ICC), nosso posicionamento acerca da consagração de mulheres ao ministério pastoral. Evidentemente, compreendemos as opiniões contrárias e respeitamos quem pense de modo diverso, mas é importante que os membros da igreja conheçam os fundamentos da doutrina que defendemos ao admitir somente homens para essa missão.Por fim, é importante esclarecer que, embora não tenhamos pastoras em nossa igreja, respeitamos quem assim se designe.

Em 24 de novembro de 2009

Pastor Sólon Pereira 

 

F­­AÇA PARTE DESTE PROJETO!

Se você se identifica conosco e gostaria de fazer parte deste projeto, contate-nos: 

 celeiros.df@gmail.com

ou pelo facebook nos seguintes endereços: 

 https://www.facebook.com/groups/celeiros/     -    https://www.facebook.com/groups/celeiros/.